AUTOR

Rui Castro

CATEGORIA
Podcast

N’A CABINE #036: Blast

9 Novembro, 2021 - 19:00

Este podcast “mostra quem eu sou, do que gosto e o que faço.” Palavras e ações do polvo do drum’n’bass nacional, Blast, no novo episódio de N’A CABINE.

Chamam-lhe o polvo nos decks e basta assistirmos a um set para nos apercebermos que estamos perante um feiticeiro da mistura. Mas nem só de DJing vive este mago. Tiago Braga também se aventura no mundo da produção e, quer como Blast ou sob o pseudónimo mais experimental Blueshift, conta já com um currículo considerável na bagagem. Ainda assim, o contributo no panorama nacional de drum’n’bass vai para além do djiing e produção musical. Organiza eventos, distribui música através da sua editora, a Surveillance, e é uma figura ativa na proliferação do género por cá.

Foi no meio de respostas bem assentes e apelos (“espero no geral que a comunidade DnB em Portugal se apoie um bocadinho mais mutuamente”) que ficamos a conhecer o percurso artístico na eletrónica (no grafitti e street art também desbunda – e bem – sob o nome de Fedor) de uma das personalidades mais porreiras, e influentes, da cena drum’n’bass nacional.

Comecemos pelo início. De onde surgiu o amor pela música electrónica e, mais concretamente, pelo drum and bass?
O drum and bass foi-me apresentado por um colega de escola, em meados de 2000 e pouco. Na altura já andava a explorar o universo da música eletrónica, mais concretamente o do techno e do house, e esse meu colega deu-me três nomes para pesquisar: Dillinja, Ram Trilogy e Twisted Individual.

Na altura, os meios de pesquisa eram muito mais escassos, não existia o Youtube nem nenhuma plataforma semelhante, e então trocávamos malhas entre amigos.O drum and bass conquistou-me de imediato por partilhar características com outros estilos de música que me acompanharam durante a adolescência, como era o caso do punk rock. Era um estilo de música eletrónica super rápido e energético que juntava muitas influências que me agradavam.

Então e quando é que decidiste dar o salto para o mundo do DJiing?
Entretanto, depois de um ano ou dois, comecei a conhecer mais pessoas que também gostavam de drum and bass, e fui ao meu primeiro evento. Esse evento foi Dillinja e Ray Keith no antigo Hard Club, a cargo da promotora Positiva (se não estou em erro).

Percebi logo que existia ali um sentimento de comunidade muito forte, e essa foi mais uma característica que me atraiu para aquele meio. Comecei a frequentar eventos de DnB de forma assídua, e fiz muitos amigos na pista – alguns dos quais ainda são dos meus melhores amigos hoje em dia.

Não sei especificar quando é que decidi aventurar-me no mundo do DJing, mas aconteceu de uma forma progressiva. Fui ganhando interesse em perceber como é que a coisa funcionava, instalei um software de DJing no computador e basicamente juntávamo-nos todos a seguir às festas, ou durante a semana, e passávamos horas a misturar.

Entretanto, fui juntando dinheiro e comprando o material aos poucos, até ter o kit completo. A transição para os pratos foi difícil, mas eu sempre gostei de desafios e passei imensas horas a treinar. Estava viciado naquilo!

És considerado por muitos como o melhor dj técnico de drum and bass, e conhecido pela destreza nos decks, sobretudo nos sets em que usas 4 em simultaneamente. Como é que atingiste tamanha perícia, e porque é que com ela aumentaram também a quantidade de decks?
Acho que quando te inicias em qualquer atividade deste género, numa fase inicial, tens mesmo que perder muitas horas, se queres evoluir rápido. É importante explorares e cometeres certos erros até estares minimamente habituado, até aquilo fazer parte de ti. E depois há sempre espaço para amadurecer.

Havia dias em que não fazia absolutamente mais nada senão misturar e pesquisar música. Trabalhava para pagar a renda e comprar discos. A realidade é que nos primeiros anos, eu vivia para aquilo. Algum tempo mais tarde, já depois das primeiras datas ao vivo, comecei a sentir-me mais confiante e achei que precisava de tornar o desafio mais exigente. Lembro-me de um DVD que tinha na altura, que documentava o evento I Love Techno 2003, onde havia umas filmagens do Cristian Varela a tocar com 3 pratos, e aquela performance sempre me ficou na cabeça.

Decidi juntar um terceiro prato ao setup, mas demorei um bocado a conseguir fazer a coisa como deve ser. Na altura, no DnB, não havia muita gente a fazer isso. O quarto deck já veio numa fase de transição para os CDJs, que surgiu de forma progressiva também. Fui utilizando os CDJs do T-Rex, patrão da Yellow-Stripe, principalmente porque começou a chegar a era dos releases digitais que não eram prensados em vinil.

Eu queria tocar aquelas malhas, por isso não tive outra hipótese senão atualizar-me, e na altura estava com setup composto por dois pratos e dois CDJs. Tenho muitas saudades de tocar em vinil, mas tens mesmo que acompanhar a evolução da tecnologia, senão ficas para trás. Tudo é mais prático hoje em dia, consigo estar muito mais organizado e não tenho que carregar quilos e quilos de discos atrás de mim. As minhas costas agradecem.

Dado ao teu gosto eclético e camaleônico, não é fácil classificar a tua sonoridade como DJ. Mas se a tivesses de a explicar a um leigo da electrónica, como o dirias?
O podcast para A Cabine explicaria melhor que palavras, mostra quem eu sou, do que gosto e o que faço. Procurei organizar várias vertentes que me agradam numa narrativa em crescendo, que também mostra alguma da versatilidade do DnB e como os diferentes estilos podem coabitar em harmonia. Contém principalmente material novo, mas vai buscar algumas influências ao passado.

Mas não te resumes ao djiing. Na produção também dás cartas, embora tenha sido uma vertente explorada num período mais recente. Como foi dar esse salto, e como surgiu essa necessidade?
Acho que surgiu naturalmente, mais uma vez, depois de sentir a necessidade de dar mais um step up na carreira. A produção é um bicho diferente, e exige muita dedicação. Houve alguns aspetos da minha vida profissional e pessoal que tiveram que ficar um bocado de lado até sentir que fazia algo minimamente decente. Mas não me arrependo nada, adorei o percurso (apesar das noites sem dormir) e estou orgulhoso de tudo o que aprendi até agora.

Sou um bocado perfeccionista demais, por isso dificilmente gosto mesmo do que faço. Mas acho que vou conseguir chegar onde quero, com mais algum esforço. Tenho alguns releases quase prontos, por isso irão ouvir novidades minhas em breve.

O teu outro alias, Blueshift, está parado ou morto?
Está… adormecido. Esse alias surgiu no início da minha fase de produtor, onde queria explorar universos mais minimais e experimentais. Lancei o primeiro EP na label portuense Counterpoint, mais duas ou três malhas noutras labels, e entretanto comecei a investir mais nas sonoridades mais pesadas. O technoid é um subgénero que está morto (apesar de estarem algumas coisas a acontecer novamente), mas eu quero deixar o meu contributo de qualquer forma. Quando sentir que essa missão está a ser cumprida, de certeza que vou ter mais tempo para explorar outras coisas e organizar o material que já tenho, de uma forma que faça sentido para mim.

Embora tenhas participado numa das mais influentes editoras e promotoras para o panorama nacional do género, a Yellow Stripe, fazes agora parte de um projeto mais recente, a Surveillance. Qual é o teu papel nesta editora?
Fundei a editora com o João Fragoso (aka Jon Tho fka Fragz), em 2019. Já andamos nisto juntos há alguns anos e temos gostos muito semelhantes, para além de nos darmos bem a nível pessoal. Era uma ideia que já tínhamos na cabeça há algum tempo, de forma individual. Quando percebemos isso, achamos que o mais sensato seria unirmos forças. Completamo-nos bem, o Fragoso tem bons skills de networking e uma boa reputação na scene em geral. É ele e o Mike Vowel (que se juntou a nós pouco depois) que tratam da parte da música e distribuição/promoção.

Relativamente à música, ajudo a selecionar artistas e a tratar do calendário. Mas a burocracia está principalmente com eles. As decisões deles são sempre boas, e estou muito contente com a direção que a label está a tomar. Eu gosto de andar em cima da parte visual, pensar em iniciativas artísticas que podemos incluir na editora, associar artistas locais (em breve), merchandise e organização dos eventos.

E por falar em Surveillance, vocês já regressaram à normalidade com a celebração de uma festa no Hard Club no passado dia 1 de outubro. Como foi esse regresso às pistas, depois de um hiato inédito?
Foi muito bom! Nem me conseguia acreditar. Esperava uma casa a abarrotar e uma atitude um bocado descontrolada por parte do público, mas a verdade é que se portaram muito bem e esteve grande ambiente. Acho que as pessoas ainda estavam um bocadinho de pé atrás naquele primeiro fim de semana, queriam ver o que acontecia. Na realidade esteve uma boa casa, vi muita gente de quem tinha saudades.

Como é que prevês o ressurgimento do drum and bass ao vivo por terras lusas?
Acho que vai haver muita coisa a acontecer, os responsáveis pelos eventos parecem muito motivados. Espero no geral que a comunidade DnB em Portugal se apoie um bocadinho mais mutuamente. Estivemos demasiado tempo isolados. Que sirva de apelo também aos artistas para que colaborem mais uns com os outros.

Da nossa parte, vamos dar continuidade às nossas label nights, bem como dar início a outras séries de eventos ligados à Surveillance. Anunciamos recentemente também a nossa nova residência bimestral, às quintas feiras, no Gare. A primeira é já no dia 11 de novembro. Tenho muitas saudades destas noites mais intimistas, em que tocamos a noite toda sem uma ordem definida. Um bocadinho do género do que já tivemos no Armazém do Chá, às quartas-feiras. Tenho sempre oportunidade de tocar coisas diferentes nessas noites.

Quais são as tuas maiores influências?
A nível de DJing tenho que afirmar que o Dieselboy foi dos que mais me marcou nos meus primeiros anos. A primeira vez que ele cá veio, numas das noites da Garagem no Swing, no Porto, foi uma das melhores noites de Drum and Bass da minha vida. Identifico-me muito com o estilo dele, e foi sem dúvida uma grande influência para mim.

O Temper D foi outro que me marcou muito. É bem capaz de ter sido o meu primeiro contacto com o Techno-DnB. Também veio pela Garagem, ao mesmo clube, lá para 2007 (se não me engano). No entanto, grande respeito pelo Andy C e pelo A.M.C, merecem ser os melhores. As minhas escolhas são com base em experiências pessoais. O fator emocional tem sempre o seu papel nestas escolhas. Gajo x ou y pode ter-te batido mais porque ouviste na altura certa da tua vida, entendes?

Sabemos que é uma questão inimaginável, mas se fosses forçado a ouvir uma música em loop até ao resto da tua vida, qual seria?
Não era Drum and Bass, senão provavelmente enlouquecia. Adoro Drum and Bass, mas acho que a maior parte das malhas se tornam um bocadinho repetitivas quando ouvidas do início ao fim. Era capaz de meter um funk qualquer. Qualquer coisa calma e com groove, tipo uma Pusherman do Curtis Mayfield. Ouço muito funk oldschool a trabalhar. É uplifting, dá-me um ritmo fixe.

O que é que o futuro te reserva?
Espero que muitas atuações cá dentro e lá fora, quero investir no meu canal de Youtube e dar um boost à minha carreira de DJ gravando mais vídeos temáticos. Acho que o DJing se está a tornar uma arte esquecida, e para te destacares convém que sejas um bocadinho criativo no que toca a iniciativas. Também temos alguns projetos dentro da Surveillance para acontecer no próximo ano, que me estão a deixar muito entusiasmado.

Quanto a produções minhas, tenho uma música a sair na Future Sickness (no LP dos 15 anos) e um remix para uma banda Portuguesa, ambas para sair ainda este ano. Estou a preparar material para ter alguns EPs para o próximo. Na altura do verão nunca tenho muito tempo para a produção, estou mais ocupado com o meu projeto de street art, que é o meu trabalho principal.

O desafio é gerir o tempo entre as duas atividades, mas acho que de certa forma se completam muito bem. Por norma pinto mais no verão e produzo mais no inverno. Espero também ver a Surveillance crescer como editora e promotora de eventos. Temos muitas ideias para materializar!

Para finalizar, um grande obrigado à equipa d´A Cabine pelo convite. Parabéns pelo trabalho que têm desenvolvido, e pelo valioso contributo para a divulgação da música eletrónica em Portugal. Um grande obrigado a quem estiver a ler o artigo, e a todos os que apoiam o meu trabalho de uma forma genuína.

Vemo-nos na pista brevemente.

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