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Um Vale Perdido que já encontrou o (caminho do) sucesso

31 Dezembro, 2024 - 14:35

Jomi recorda o último festival a que fomos este ano e nota a sua importância para o circuito. As fotografias são de Vera Marmelo.

Depois de uma estreia em que chegámos ao fim com enorme vontade de regressar e na esperança de ver o festival dar um passo em frente, a segunda edição do evento Lisboeta trazia novidades suficientes para nos aguçar a vontade de voltar a escutar, dançar e explorar os sons e lugares deste Vale Perdido.

Uma dessas novidades e, talvez, a mais importante, foi a escolha do Centro Ismaili de Lisboa para a noite inaugural do festival. Antecipado pela organização como um “momento essencial para a narrativa programática do Vale Perdido”, nem o revés que foi o cancelamento da performance de Maya Al Khaldi, Sarouna e Dina Mim fez arrefecer o entusiasmo por este momento.

Com o artista palestiniano Dirar Kalash e a argelina ãssia ghendir em sua substituição, a carga emocional e até política parecia assegurada em igual forma à parte musical. Antes, no entanto, tínhamos ainda a performance inaugural de Tristany Mundu como ponto de interesse.

Infelizmente, a actuação do artista do coletivo Unidigrazz não nos captou a atenção como já aconteceu com outras performances de Tristany no passado, embora o cenário visual e ambiência sonora de fundo, conjugados com a beleza arquitectónica da sala do Centro Ismaili, nos tenham ficado na memória.

De resto, a actuação de Dirar Kalash e ãssia ghendir era mesmo o momento mais aguardado da noite… e que mo(nu)mento que se revelou! O que começou por parecer quase um ritual sonoro que só ambos entendiam, rapidamente se tornou num diálogo entre a voz inesquecível de ãssia e a sonoridade distorcida e impactante do alaúde de Dirar, com uma carga emocional perceptível para todos os que compunham a sala esgotada do Centro Ismaili.

Entre momentos mais contemplativos e outros de verdadeira apoteose, ãssia foi deambulando pela sala enquanto projetava a sua voz aos quatro cantos do espaço com uma mestria e sonoridade a que não estamos habituados, sempre em sintonia perfeita com o seu parceiro nesta performance. No final do concerto, Dirar Kalash fez uma performance electrónica a solo emocionante, usando várias gravações de sons captados na guerra levado a cabo por Israel na Palestina, algumas do próprio dia, segundo o artista.

E talvez mais emocionante ainda tenham sido as suas palavras no final, com as quais Dirar tentou explicar um pouco do que o leva a partilhar connosco a sua música e emoções. “Não me considero um músico (…) Não estou aqui por isto ser um festival de música. Isto [a música] é a forma que eu tenho de existir (…) A Palestina está no som, e a Palestina está aqui para ficar”. Memorável, a todos os níveis, a primeira noite de Vale Perdido.

Depois das emoções fortes no Centro Ismaili, a segunda noite prometia dose-dupla de eventos, a começar no B.leza com a aclamada indie-folk de Jessica Pratt e a voz de Leonor Arnaut como bandeiras do momento de música mais “sereno” do festival.

Num B.leza talvez mais cheio do que alguma vez o vimos, foi possível comprovar o enorme sucesso das duas actuações pelas caras e reações do público que enchia a sala. Infelizmente, e talvez também por já estarmos com a cabeça no momento seguinte, acabámos por ser meros curiosos nestes concertos, antes de rumarmos à Sala LISA para a segunda vaga de performances da noite.

Chegados ao espaço na Rua das Gaivotas, já nos esperavam os Purelink no centro da sala, prontamente rodeados pelo público que, mais uma vez, enchia um dos eventos do festival. Cenário perfeito para a estreia do trio de Brooklyn em Portugal e correspondido com uma exímia performance dos mesmos.

Ao longo de cerca de 45 minutos, fomos conduzidos numa jornada sónica com muito fumo pelo meio e que começou por embalar, mas rapidamente deambulou por caminhos mais periclitantes e arriscados do ambient, tal como acontece no magnífico “Signs”, primeiro disco da “banda”. Do mais introspetivo ao mais abrasivo, o som que emanava do setup dos americanos foi ganhando novas dimensões a cada momento, terminando a actuação com uma faixa de dub techno que pôs um ponto final perfeito numa viagem imaculada.

Após um pequeno momento para reflexão ou simplesmente para recuperar fôlego, XCI assumiu os comandos da nave da LISA e confessamos que não estávamos preparados para o que aí vinha… literalmente, até porque contávamos apanhar o último metro para casa, bem antes da hora programada para o final do set.

Mas bem, quando um DJ tem a ousadia de abrir a pista a tocar Throbbing Gristle, é importante ficar para escutar até ao fim. E assim foi. Ao longo de quase 2 horas, o DJ lisboeta não deixou os seus créditos por mãos alheias, e conduziu-nos para um final de noite em que foi impossível parar de dançar. Depois de uma entrega exímia de pós-punk, industrial e EBM, o já clássico Bad Apples, de Objekt, ajudou a fazer a ponte para um momento de techno com muitas drums, de onde destacamos Parhasar, do inevitável TSVI e da sua Nervous Horizon, label que ajudou a popularizar o estilo nos últimos anos. Um dos sets do ano!

A penúltima noite de Vale Perdido levou-nos até ao Cosmos para uma noite onde a sala lisboeta, normalmente mais associada a concertos de ambient e outra electrónica experimental, recebeu o turbilhão de boa energia que foi a actuação da Banda Sousa. Os Cabo-Verdianos vinham tocar o Kotxi Pó, um estilo de funaná que significa, literalmente, “moer o pau”. Nome apropriado, já que a actuação da Banda Sousa fez colocou o chão do Cosmos a tremer durante grande parte do concerto!

Não nos atrevemos a dizer muito mais do que isto: só parámos de dançar para descansar, porque caso contrário era impossível. A boa energia da Banda Sousa não deixou ninguém indiferente e foi o mote certo para mais uma noite de sucesso.

Nuno Beats era o nome encarregue de encerrar a noite. Já um nome incontornável da batida com reconhecimento em Portugal e por esse mundo fora, o DJ começou por apostar em canções de bpms lentos, onde o tarraxo e o house ganharam destaque, não faltando a incrível Sai do Coração, do disco com o mesmo nome, editado este ano pela Príncipe. Com o passar da noite, os bpms foram aumentado, mas, infelizmente, o set terminou de forma algo abrupta quando parecia estar a chegar ao ponto mais alto. Ainda assim, a noite no Cosmos foi mais um sucesso, marcada pela boa disposição e ainda melhor música.

A última noite de Vale Perdido era, talvez, aquela que mais aguardávamos, por dois motivos: Gamma Intel e Elena Colombi. À sua maneira e cada um com o seu espaço, dois nomes fundamentais da música electrónica de dança nos últimos anos. A localização do evento, no Armazém do Grilo, foi mais uma novidade que se revelou uma aposta certeira, com a venue a permitir, tal como em 2023, um espaço de lazer, venda de refeições e desta vez com a particularidade de ter um incrível espaço ao ar livre nas traseiras.

Infelizmente, chegámos ao Armazém do Grilo já depois de terminado o set de Dj Caring – um regresso depois da actuação de 2023 – e com Gamma Intel já aos controlos da noite. As expectativas sobre o set do holandês eram muitas e o dj e co-fundador da Nerve Collect não desiludiu. Ao longo de mais de duas horas, tivemos direito a techno de kicks pujantes, o electro, imagem de marca da sua carreira como produtor e muito breakbeat, com tracks como Barrakuda, de DJ JM (mais uma aparição da Nervous Horizon no festival), ou My Way, do colega Identified Patient a serem algumas das nossas favoritas. Voice Crash, de Hodge, já perto do fim, serviu para encapsular o dinamismo e dimensão de todo o set, com a sua percussão inconfundível, graves potentes e rave stabs.

A Elena Colombi coube a difícil tarefa de dar seguimento ao incrível set que tínhamos acabado de escutar e manter a energia da sala em ponto de ebulição. Continuando com o ritmo aos 140 bpms, Colombi começou por enveredar por uma sonoridade mais techno, mas sem nunca se comprometer por completo. Tivemos direito inclusive a algum dubstep e novamente aos sempre bem-vindos breaks, antes de terminar o set já a um ritmo muito elevado, perfeito para a passagem de testemunho a Meibi.

Nome já incontornável do circuito lisboeta e a quem a cidade deve alguns dos sets de techno mais interessantes da vida pós-covid, Meibi agarrou a pista com uma sonoridade incendiária na velocidade e dimensão dos kicks de cada faixa. Ao seu estilo e numa abordagem sem barreiras, entregou uma carga de alta energia essencial para que os últimos resistentes conseguissem dançar as suas últimas forças até ao fim. Um encerramento apropriado para uma noite que, embora cedo para os standards da noite de Lisboa, já ia muito longa para quem estava no 4º dia de festival.

Em jeito de conclusão, temos de começar por dizer que o facto de esta reportagem ser escrita mais de um mês após o festival permitiu-nos um importante período de reflexão e fez com que, estes últimos parágrafos, sejam também informados por conversas com vários amigues sobre esta edição do Vale Perdido.

Esta nota é importante porque, embora fosse indiscutível que esta foi mais uma edição de sucesso, como o comprovam as enchentes em 4 dos 5 momentos do festival e as nossas palavras, com principal apreço à noite no Centro Ismaili e na Sala LISA, este tempo permitiu rever o festival com um olhar talvez mais justo do que o que teria acontecido na semana seguinte.

A verdade é que o Vale Perdido é um festival diferente, com uma proposta eclética e diferenciada para além das sonoridades e artistas que compõem o seu cartaz. Um evento que se atreve a ter Jessica Pratt e Purelink como cabeças-de-cartaz na mesma noite, ainda que em salas diferentes, dificilmente poderá ter um público que se interesse por todos os momentos do festival. E não há mal nenhum nisso – pelo contrário!

O Vale Perdido em 2024 foi mais uma oportunidade de ouvir nomes incontornáveis dentro dos seus próprios nichos musicais, alguns deles em estreia absoluta no nosso país. Foi também uma oportunidade de explorar lugares incomuns para a música ao vivo, como a incrível noite no Centro Ismaili, ou de encontrar a simbiose perfeita entre artistas e espaço, como aconteceu com a programação de Purelink na Sala Lisa.

E se o ano passado começámos por dizer que este vale não está assim tão perdido, então este ano ficou claro que já encontrou o caminho para o sucesso.

Reportagem de Jomi acompanhada por fotografias de Vera Marmelo

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