Com a “necessidade de abrandar”, À Escuta surgiu para oferecer momentos de calma e respeito pela música na capital.
Não falta festa em Lisboa, é certo. Ainda assim, no meio da agitação constante da cidade, há espaços que convidam o público a desacelerar. O caso mais recente é o das sessões À Escuta, que têm acontecido mensalmente e aos domingos no Passevite, bar e galeria de arte localizado no número 54A da Rua Maria da Fonte.
Foi dessa “necessidade de abrandar” que nasceu o À Escuta. O projeto é organizado por Jorge Salgado (Salti) e Giuseppe Rizzi (Delikwe), que cuidam da curadoria e produção, com Rodrigo Alves (Trol2000) a assumir o design gráfico.
“Vivemos tempos atípicos em que tudo acontece cada vez mais rápido”, acredita Jorge Salgado, relembrando inspirações como o Kasheme, em Zurique, o palco Cochilo, no festival Waking Life, ou os mais óbvios listening bars japoneses. No entanto, apesar dessas referências, o DJ também conhecido por Salti crê que as À Escuta são diferentes e seguem o seu próprio caminho.
“Procuramos proporcionar uma experiência intimista e responsável num ambiente confortável, onde prevalece a escuta consciente de música”, explica. Também por isso, “se existir um critério específico” para a curadoria, “este será, obviamente, o bom gosto pela música, ou que os artistas tenham a consciência e a sensibilidade do que se trata o À Escuta.”
Nesse caso, “o desafio é, em cada alinhamento, encontrar o fio condutor que una os artistas, sem pretensões de estilos ou géneros, mas com coerência.” As sessões têm uma duração de 10 horas e não são “só sobre ambient ou só jazz” – são “sobre música” e sobre “apreciar e priorizar a escuta: alguma mais dreamy e feliz, outra de caráter mais introspectivo e contemplativo, mas sempre sem fronteiras.”
Voltando ao lado frenético da cidade, Jorge Salgado nota que a oferta, “apesar de vasta”, é mais sobre festa. Embora frise que a equipa “também gosta” disso, relembra que “cada vez mais as pistas-de-dança transformam-se em pista-de-conversa, com pouco respeito pela música e por quem a toca.”
“Precisamos de balanço, tanto da festa, como do excesso de conversa na pista. Acreditamos que este contexto de evento contribui para esse balanço, mas o mais importante será mesmo o facto de nos fazer abrandar, refletir e ser/estar socialmente mais moderados”, afirma.
“Apesar de haver sempre alguém que não percebe muito bem o que se faz ali”, o público tem reagido bem. “É interessante observar o comportamento das pessoas: não falam (no máximo sussurram), mas observam-se umas às outras e ao que as rodeia. Algumas até adormecem. Mas, acima de tudo, escutam.”
A próxima sessão é este domingo, 16 de março, com Nick Mazrekaj e Romeu, nomes ligados ao referido espaço suíço Kasheme, Trol2000 e com Delikwe a apresentar o seu live “Echoes of Transformation”.
Sem pressa, sem barulho desnecessário, sem distrações. No À Escuta, a música fala mais alto e as pessoas mais baixo.
Fotografias por Kruella D’Enfer e Jorge Salgado, respetivamente

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