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Reportagem

Danza Futura floresce com foco na identidade e visão sobre o futuro

27 Junho, 2025 - 14:36

Com a poeira da segunda edição de Danza Futura agora assente, o relato trazido pela caneta de Mafalda Mendes e a câmara de João Martinho.

Escondido entre as árvores altas e o chão de terra batida da Quinta da Brejuinha, o Danza Futura não é só um festival – é um refúgio para quem vive o techno de forma crua e autêntica. Aqui, a atenção está na música, no som que vibra com a floresta e na entrega de quem vem para dançar até o corpo ceder.

Viana do Castelo é cidade de romarias e antigas tradições, e o techno instalou-se como se de lá sempre tivesse pertencido. Pela cidade já passaram centenas de artistas que, durante anos, trouxeram a música e legiões de seguidores que lhe deram o título não-oficial de capital do techno. O festival Danza Futura é a nova aposta do género e, segundo a nossa opinião, tem todo o aval para se estabelecer por aquelas terras sagradas.

Sexta-feira foi dia de rumar a norte, curiosos com o que lá se ia passar. O line-up enchia as medidas dos que sabem que o techno não é moda, e a localização envolta em natureza prometia ser o sítio perfeito para duas longas noites muito bem passadas. E assim foi.

Por volta das 19h, quando entrámos no recinto, conseguimos ainda ouvir o set de Amulador. Sem contar as palavras para o descrever, é talvez o melhor leitor de pista que conheço. Sabe exatamente como se posicionar nas diversas horas em que toca, é um digger de raiz e oferece sempre um workshop muito bem cuidado onde se move nas margens do techno, entre texturas cruas e atmosferas densas. Ao ouvir o set do portuense, deparo-me com a realidade do dualismo que o dub techno oferece. Um subgénero que, ouvido em casa, quase nos faz entrar em estado meditativo, mas que se torna tão poderoso e dançante num sistema de som a sério.

E foi esse mesmo detalhe que procurámos assim que entrámos no recinto – queríamos perceber o que tinha a segunda edição do Danza Futura a oferecer quanto à qualidade sonora. Foi a equipa da Conektion Audio a responsável por trazer até à floresta o arsenal VOID Arclite – composto por 8 tops e 8 subs VOID Arcline 218, que combinam presença estética com força e clareza do som.

A envolvente do espaço é imperdível para quem gosta de uma vertente de natureza misturada com o que de melhor o techno atual tem a oferecer, num ambiente intimista o suficiente para que, no final do festival, toda a pista se conheça. O palco cumpriu o seu propósito e ajudou a que a falta de um backstage eliminasse qualquer zona exclusiva no festival.

Depois de explorarmos um pouco o espaço, ficámos satisfeitos com o que encontrámos – mesas de refeição espalhadas ao longo do recinto, zona de restauração, com menção honrosa para a food truck de açaí, salada de frutas, sopas e comidas digeríveis e saudáveis apropriadas para um festival, uma tenda chill-out com cadeiras recostadas e mesas, e dois bares prontos a servir bebidas frescas noite dentro. Faltou apenas mais depósitos de lixo distribuídos pelo festival.

Com o pano do dia a começar a cair, as luzes sobem e a dupla Blasha & Allatt, que foi um acréscimo de peso ao line-up em substituição de Amoral, entra em cena para comandar a pista. Com uma seleção e identidade única que as caracterizam, iniciam o set com o tema In The Moment, de Geistfrei. Durante o set, ganharam a pista ao tocarem Void, de K-Wun, e terminaram com a faixa unreleased Keep Pushing, de Command Control, alvo de curiosidade de todos que estará cá fora ainda no fim deste ano.

A festa estava montada, a pista quente, e era a vez de André Dias tomar conta dos decks. Bastaram 20 minutos para perceber, clara e evidentemente, quem orquestra o bom gosto e o cuidado deste line-up. Mais tarde, em conversa com este DJ e produtor, que é uma das cabeças por detrás desta produção, Dias revelou-nos que toda esta ideia nasceu, obviamente, da sua paixão pela música. Foi desenvolvendo eventos mais pequenos em Portugal e Espanha, e o seu caminho acabou por se cruzar com Pedro Silva, outro dos organizadores do festival, com quem decidiu transformar um parque de piqueniques na floresta no sítio perfeito para fazer acontecer o festival que imaginaram durante anos.

A romaria segue e desde cedo que este momento estava marcado no radar – o live set de Temudo. Foi o primeiro live que ouvi, no festival LISB-ON em 2023, que me desarmou completamente na minha batalha contra esta forma de atuação. João Rodrigues é absolutamente exímio nesta arte e tem um domínio sobre as máquinas como poucos.

À conversa com o próprio, Temudo revelou algumas particularidades, umas delas sendo o facto de que apenas grava previamente os drums. Vai sequenciando os synths e basslines ao sabor do momento com os controladores e, quando as ideias lhe soam bem, mistura para o público. Baseia-se em três instrumentos principais, que vivem de uma randomização controlada que constrói no Ableton. O flow deste live é uma extensão da sua alma e é como se estivéssemos a assistir, ao vivo e a cores, ao mais profundo da sua essência enquanto produtor. Nunca vamos ouvir um live de Temudo igual, por isso vale mesmo a pena assistir a todos.

Aquela hora passou a voar e seguíamos para o primeiro b2b do festival, Nørbak e Quelza, dupla que, apesar de alguns problemas técnicos, conseguiu unir esforços e mostrar que se conhece bem musicalmente. Logo de seguida, Ben Sims trouxe um set fresco, groovy e ritmado, fiel ao que tem vindo a fazer nos últimos 25 anos da sua vasta carreira musical. Terminou o set com poderoso statement – We Ain’t Like Them, um remix de DJ Bone para FURTHER.

As horas foram passando sem nos apercebermos e o dia começava a romper. Os espectros de luz filtravam-se por entre as árvores altas da floresta, atravessando a névoa baixa da manhã. E foi sobre essa densa vista panorâmica que Alarico iniciou o seu live. O DJ e produtor, que tem música lançada em editoras como a sua Primal Instinct, Klockworks, Vault Records e mais recentemente na KEY Vinyl, de Freddy K, não esteve para introduções demoradas – sem concessões e cheio de energia, encarnou na perfeição a sua assinatura sonora.

O primeiro dia de festival terminou com a dupla Force Reaction, composta por Kaiser e Kwartz. Centrado num estilo cru, contundente e algo punk-hipnótico, tocaram o tema Spirit Moves, de Altinbas, e terminaram o set sem vontade de abandonar a cabine – enérgico e com uma pista ainda cheia, já passava das 10 da manhã.

Era hora de recarregar energias e não podíamos deixar de fazer uma visita ao Manuel Natário – tínhamos que reconfirmar (pela centésima vez) que estas são mesmo as melhores Bolas de Berlim do mundo.

Preparados para o segundo dia de festival, com as baterias recarregadas, seguia-se um final de tarde e noite promissores. Ainda antes da hora de jantar, fomos ouvir o live act de Jeroen Search, talvez um dos artistas que mais respeito na cena techno, acima de tudo pela consistência que sempre entregou nas inúmeras vezes que já tive oportunidade de o ouvir. E desta vez não foi diferente – a sua interpretação contemporânea do techno é honesta e o live que apresentou não deixou dúvidas de que é um artista que entrega tudo o que promete com o seu cru analógico. Passando por diferentes momentos durante aquela hora, pôs o crowd já bem composto a dançar e terminou de forma emotiva, deixando uma larga dose de entusiasmo e inspiração para as longas horas que se avizinhavam.

Fizemos uma pausa para jantar e voltámos para o set de Marcal. A jovem promessa brasileira merece o lugar neste cartaz e destaca-se sem qualquer dúvida no estilo em que se insere. Com um mixing perfeito, momentos de tensão no sítio certo, teve como ponto alto do seu set o tema RAID, de Planetary Assault Systems, remixado por Rene Wise.

Kr!z trouxe exatamente a vibração que aquela pista pedia — aumentou os BPMs com confiança, mantendo uma mistura irrepreensível do início ao fim. Com um domínio técnico firme e uma leitura certeira do momento, lançou faixas trippy, sempre sustentadas por um bassline encorpado. Tocou ainda faixas unreleased de Nørbak, Border One e Phara, que vão ser editadas futuramente na sua Token Records.

Foi a vez de Ø [Phase] assumir o controlo e o britânico apresentou-se com a elegância e firmeza de quem domina as pistas há décadas. O seu estilo intemporal fez-se ouvir em cada faixa – escolhas que refletiam tanto maturidade como um olhar sempre atento ao presente. Ao longo do set, mostrou que há espaço para reinvenção sem comprometer a sua identidade: sons densos e mecânicos conduziam a pista num transe subtil, mas poderoso. Uma atuação que prova porque é que o artista continua a ser uma referência discreta, e ainda assim inabalável, no techno contemporâneo.

O live de Yanamaste foi a receita perfeita para curar a noite gélida que se fazia sentir. Despido de egos, o seu groove elogiado por muitos como “tectónico” e “sísmico” combinou transições labirínticas com uma tensão crescente que manteve a pista completamente hipnotizada.

O céu começa a clarear lentamente e é o amanhecer a relevar que estamos perto do fim. Neste momento, houve uma mudança na dinâmica sentida até então. A pista está coesa, as interações que observo entre o público são de felicidade, êxtase e união, e assim tenho a certeza que ninguém está preparado para arredar pé deste sítio idílico.

Ansiosos para o último b2b do festival, Setaoc Mass e Phara, apesar dos seus estilos aparentemente distintos, encontram-se numa sinergia perfeita desde a primeira faixa tocada. Um à volta dos discos, o outro a tocar CDJs, e com tantas diferenças que os poderiam separar, encontraram-se durante o set numa das experiências mais intensas e envolventes da cena techno recente – marcado por groove percussivo, precisão, e uma autêntica conexão de palco entre os dois artistas, a pelo menos 138 BPMs. E se outrora sabíamos que já estávamos em contra-relógio para o final, estas duas horas só nos fizeram ficar saudosos do que ainda não havia terminado.

D.Dan encerrou o festival com um set que parecia nascer da própria floresta e não podia ter sido melhor aposta para terminar esta segunda edição com chave de ouro. DJ e produtor do colectivo Mala Junta, D.Dan trouxe a vibe da floresta que todos esperávamos desde o início e deixou a pista totalmente imersa com as faixas que ia tocando – uma mistura de graves, texturas e grooves hipnóticos que se fundiram na perfeição. Ainda houve tempo para um encore, pedido em uníssono por um público que claramente não queria que acabasse ali. D.Dan respondeu com um gesto inesperado e certeiro: encerrou com Banquet, dos Bloc Party, num momento que nos apanhou de surpresa e nos arrancou um sorriso cúmplice. Por instantes, voltámos a ser adolescentes – a cantar em coro, a dançar sem filtro. E talvez seja exatamente isso que procuramos quando atravessamos a entrada de um festival: deixar, ainda que por algumas horas, a vida adulta do lado de fora das grades.

Assim terminou a segunda edição do Danza Futura, onde deixámos a promessa de voltar e um apelo a que, numa próxima edição, mais público português adira ao festival. Ainda nem parece real. E como ouvi alguém dizer na pista: “Alguém vai ter que escrever sobre isto porque contado ninguém acredita”.

Palavras por Mafalda Mendes, fotografias por João Martinho

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