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Clubbing: Quando a agenda cultural se torna inimiga da autonomia

11 Agosto, 2025 - 19:09

João P. Mendes fala sobre “um ataque sem tréguas e sem misericórdia dos tubarões da indústria e respetivas marionetas à autonomia económica e artística dos que ainda não se corromperam”.

Nos últimos meses, pelo menos dois DJs da cena clubbing do Porto bateram, como se diz na gíria, com a porta, deixando a “comunidade” em sentido e abrindo perspetivas de debate – carreiras de longevidade diferente, timings diferentes, mas motivos, no geral, semelhantes.

Um dos casos aconteceu pouco tempo depois da conferência (co-financiada pela União Europeia) “Immersions: Clubbing Revival & Generational Change”, realizada no auditório do Passos Manuel a 7 de Março, onde um painel de promotores, artistas e jornalistas procurou esboçar um ponto de situação do clubbing na cidade e no país. Este dado é importante porque, entre os alvos da revolta e cansaço com o estado de coisas, sem especificar nomes, estavam – pelo menos – alguns dos oradores da conferência.

Meses depois, também através das redes sociais (entretanto, em ambos os casos, os posts já não estão disponíveis), outro DJ e produtor com colaborações em espaços e projetos independentes no Porto anunciou o seu murro na mesa: entende que o contexto atual deixou de permitir a emergência orgânica de talento na música eletrónica.

De formas diferentes, explicaram que uma das maiores razões, senão a maior, pela qual perderam as forças para continuar a partir as pistas se deve ao que descreveram como um meio de “hipocrisia” e “facadas” dentro da própria “comunidade” – deixam, logo à partida, implícito que o próprio conceito de “comunidade” não tem, na verdade, uma subjetivação prática. Ao invés, segundo os próprios, assiste-se a um clima de troca de favores (“droga, dinheiro e sexo”, para citar) que mantém um pequeno conjunto de entidades, clubes e promotoras numa posição de domínio na distribuição de eventos e respetivos dinheiros e influências. Para quem conhece a vida da música eletrónica, não é difícil adivinhar quais foram as casas especificamente nomeadas nos posts dentre os espaços que, parafraseando, privilegiam os amigos e os amigos de amigos, num cenário onde “o que interessa não é a qualidade da música”.

Aqui chegados, importa transpor este frágil guarda-chuva da “hipocrisia”, enquadrando e amplificando o conceito. Entre as reações mais comuns às publicações, poderíamos resumi-las a duas tendências: a) declaração de apoio moral e b) declaração de “rei vai nu”.

A primeira resume-se a uma mostra de apreço pelo trabalho do respetivo DJ/produtor, incentivando-o a não desistir da sua paixão, apesar do contexto adverso. Mais intrigante é a segunda abordagem, que, de resto, se tem generalizado no mundo das artes e da cultura. Algo que poderia ser traduzido pela seguinte proposição: “Todos sabemos que o rei vai nu, mas o espetáculo tem de continuar porque dele dependemos.” Uma espécie de, digamos, malabarismo retórico sonso, onde o lugar da ética fica sempre ali num regime de “um pé dentro, outro fora”, pronto a cair a qualquer momento em prol de uma pretensa “carreira”. Esta posição é particularmente predominante no universo artístico como em nenhum outro setor profissional, porque, por algum motivo, o Zeitgeist contemporâneo consensualizou a tese de que o artista é uma figura “de bem”, que contribui positivamente para a sociedade.

Este quadro coloca o debate sob uma bifurcação sem aparente solução à vista. Para tal, é necessário convocar dois ângulos de análise: o sociológico-político e, em paralelo, o macro-económico. Comecemos pelo sociológico-político. Não é por acaso que a palavra “hipocrisia” triunfou na comunicação política contemporânea, onde o populismo é o primeiro bloco constituinte ao longo de todo o espectro ideológico. Assenta na premissa inatacável de que o nosso adversário contém, sempre e invariavelmente, uma dissonância entre o seu discurso e a sua ação pública, passível de exploração mediática a fim de o diminuir e, se possível, humilhar. Aplicando a este caso particular, fica subentendido, parece-me, que essa acusação de “hipocrisia” é claramente dirigida a alguns promotores e/ou espaços que se constituem como principais responsáveis por um acesso desigual de artistas e DJs à cena clubbing – ao mesmo tempo que dominam os lugares de fala onde se discutem e se projetam soluções para essas mesmas desigualdades. Em abono da verdade, se chavões como “comunidade”, “financiamento público para a cultura” ou “falta de adesão do público” se tornaram tão aparentemente consensuais no discurso, provavelmente quer dizer que eles deixaram de significar coisa alguma. Uma vez que a sociedade de mercado inverteu as lógicas de verdade para uma primazia pelo mediático sem contraditório, temos que basta marketizar o bem para que ele ganhe um valor de verdade e, nalguns casos, um valor de ação. É esta a razão pela qual a relativa consensualidade das conclusões retiradas da “Immersions” não oferece qualquer perspetiva de mudança estrutural. Sabemos que é necessário promover comunidades consistentes e participativas de ouvintes e clubbers; sabemos que a ‘festivalização’ de promotoras e labels aumenta o fosso entre artistas internacionais e nacionais; sabemos que os pagamentos e os ajustes de contas se pautam por vezes pela informalidade e pela dubiedade. No entanto, a narrativa dominante é a de que não há outra coisa a fazer que não aceitar ou desistir. Falar de recusa, boicote, sanção ou destruição das instituições de cultura dominante continua a ser, ao cabo de tantos anos, um tabu crescente – afinal, se são artistas, devem ser boas pessoas, não é?

A resposta a esta pergunta não oferece qualquer dificuldade noutros setores de atividade cujo Código das Atividades Económicas (vulgo CAE) não é artístico/cultural. As “boas pessoas” e as “más pessoas” – seja lá o que isso significar – não se segmentam por áreas profissionais; se calhar nem sequer por áreas morais. Qual é, portanto, a explicação para não conseguirmos sair da “pescadinha de rabo na boca” das análises moralistas em contraponto às soluções cínicas? Para fundamentar, é necessário um enquadramento macro-económico, que notoriamente falhou no alinhamento da “Immersions”. Não basta denunciar que o negócio da noite contém um sub-negócio obscuro, onde a lavagem de dinheiro, o tráfico, a prostituição – e a insegurança a eles associada – são um cardápio recorrente, sabido por muitos e suspeitado por outros tantos. É preciso questionar por que motivo estas atividades para lá da lei são cruciais para que a noite e, por extensão, o próprio clubbing sobreviva. Numa economia onde as figuras do criador de conteúdo, do RP, do entertainer e do influencer se sobrepõem de forma avassaladora aos – desde sempre, diga-se – reduzidos nichos onde ainda prevalece o talento e o trabalho artístico sério, qual é o lugar económico – e social – dos coletivos de artistas, dos pequenos clubes/bares, das promotoras que não ambicionam a grandeza/fama – em suma, dos projetos que apenas querem existir pela simples paixão de existir? Na conferência, o tema da gentrificação surgiu muito ao de leve, como mais um chavão que fica muito bem usar como álibi moral. A relação direta entre as duas realidades é observável: os pequenos projetos estão capturados dentro da armadilha da influência. Isto é, ou rapidamente (em dois/três anos) criam economia de escala através da popularidade, do tráfico de influências e da cata de fundos municipais/estatais/comunitários, ou estão condenados à injusta ponderação entre crime e morte – porque a gentrificação, financeirização, turistificação (tudo nomes que significam o mesmo) estilhaçou por completo uma desigual, mas, ainda assim, tolerável hierarquia de poder e respetiva distribuição gradual ao longo da cadeia.

Perante este quadro (que não é, naturalmente, específico do Porto), não é certo que o crime (aqui numa aceção meramente legal) compense, mas é certo que o modelo de negócio que permitia a estas pequenas iniciativas manterem-se pelo menos à tona sem prejuízos, sem dependências significativas e sobrevivendo da geração de receitas próprias, está tendencialmente extinto. Só um regime de centralização cultural e mental tem impedido ver o que aconteceu à diversão noturna fora do binómio onde se inscrevem as áreas circundantes a Porto e Lisboa.

E isso já pouco tem que ver com música, arte e cultura: falamos de um ataque sem tréguas e sem misericórdia dos tubarões da indústria e respetivas marionetas (que vão desde os vereadores da “cultura” aos assessores de imprensa, passando pelos relações públicas) à autonomia económica e artística dos que ainda não se corromperam a esta ditadura disfarçada de agenda cultural e dos que não têm intenções de fazê-lo.

Fotografia por Aleksandr Popov / Unsplash

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