Marco Rodrigues (aka Photonz) disseca “Inferno” e mostra como o novo disco dos Boards of Canada transforma ocultismo, religião, tecnologia ou infância numa leitura do presente.
A campanha de promoção do disco fez lembrar outras anteriores da Warp: artefactos misteriosos em formato físico surgem aqui e ali; este ou aquele nome sonante soa o alarme depois de ouvir a música em primeira mão; surgem as notícias de confirmação. Irritou-me. Com as guardas em cima ignorei todos os excertos, incluindo os vídeos de artistas que tinham recebido as tapes, os posts inflamados sobre como valia a pena ouvir, etc. Dizia-me uma amiga poucos dias antes da minha primeira audição “já não aguento mais ouvir falar dos Boards Of Canada”. Concordei, até igualei com “ainda nem ouvi o álbum porque me irritam estas cenas” – até, claro, ter ouvido, no finzinho de Maio, como a Warp desejou e planeou.
O título “Inferno” prometia viragem sombria e o introito corrobora essa intenção: arpejo sintético pastoral 70s de programa de TV sobre a natureza é subitamente engolido por um drone grave e demónico – “É bluff”, penso. Começa a rodar a Prophecy At 1420 MHz e durante uns momentos a tonalidade é cavernosa, gótica e lança a sugestão de que talvez Mike Sandison e Marcus Eoin tivessem algo mais imediato a tirar do peito com bateria e guitarra pouco manipulados. Durou segundos: a sua mão pesada no processamento de sons, sampling, electrónica, orquestralidade, editing e camadas de significados entra em peso. A primeira impressão? Enquanto a sua discografia anterior vive de fantasmas e memórias de infância, muitas delas idílicas, “Inferno” mergulha sem hesitar em rituais esotéricos, grimórios satânicos e cultos “new age” do tipo que escapam poucos no fim para falar no documentário.
Hauntologia, synths anos 70, melodias evocativas, pesada influência hip hop, etc. Esta review não é feita no ChatGPT; não temos que percorrer essas capelinhas óbvias todas. Os próprios assumiram-no recentemente: a música dos Boards Of Canada é sobre não querer crescer. É sobre a nossa criança interior e isso bate certo com o que nos prende intuitivamente à sua música. Quanto do apelo de álbuns como “Music Has The Right To Children” ou “The Campfire Headphase” é a forma como se liga a (e mobiliza) memórias despreocupadas dos tempos em que ainda não escolhíamos a nossa própria roupa ou, nos seus momentos mais difusos, sonoriza o nevoeiro mental próprio de tentar aceder a memórias de infância. Mesmo nos recantos mais escuros – estou a pensar “Geogaddi” – Mike e Marcus invocam, no meio de toda aquela neblina fantasmagórica da pequena juventude, o frio na espinha do primeiro embate com a perda de inocência.
Em “Inferno”, no entanto, o sujeito principal da discografia dos Boards Of Canada – a criança – encontra-se claramente em apuros: títulos como Blood In The Labrynth, Naraka (palavra em sânscrito para Inferno) ou Acts Of Magic colocam o infante no centro do círculo mágico, rodeado de velas, com tolinhos de vestes brancas a entoar cânticos a toda a volta. Medo. Para agravar a atmosfera amaldiçoada do disco, o ponto de vista a partir do qual se conta a narrativa do álbum não parece ser a da vítima; não há raiva, medo, fuga ou resistência. A música é plena de encanto, melodias sedutoras, mistério e maravilha, polvilhada aqui e ali com momentos spoken word que confessam sensibilidades ritualísticas, “new age” e até ocultistas. Algumas das faixas, como Deep Time ou You Retreat In Time In Space, poderiam ter sido resgatadas de uma qualquer cassete de um culto espiritualista dos anos 70/80 de São Francisco, como as que ouvimos frequentemente no canal Sounds of the Dawn – fica a dica, é um recanto incrível da internet.
Os tolinhos das profecias apocalípticas e messiânicas acham sempre que estão a antecipar o melhor para a humanidade – isto enquanto submetem o próximo a experiências de violência e perversão indescritíveis. Aconteceu com os cultos “new age” californianos, antes disso com o revivalismo ocultista de Aleister Crowley (que surge aqui referenciado mas já lá vamos), acontece hoje com os cultos cristãos sionistas que apoiam o genocídio na Palestina pela mais cínica das razões (a sua própria e exclusiva salvação escatológica) e acontece com os arautos da inteligência artificial, que tão bem dormem à noite sabendo das possíveis consequências da sua criação. A criança, está, repito, em apuros. É essa a mensagem de “Inferno”. E quem somos nós nisto? Qual é o nosso POV? Somos a criança? Os doidos entusiastas de robes brancos ou os mestres da cerimónia? Serão os Boards Of Canada assim tão perversos ou será que a mensagem do disco, no fim de tudo, nos pode salvar a alma se tivermos um pouco de auto-crítica e espírito de reflexão que permita ver além do incrível momento musical do duo? Vamos só curtir estas melodias ou pensar um pouco?
Definir qual o nosso POV – e o da banda – neste ritual é importantíssimo para aquilo que tiramos deste registo musical: aceitamos o disco como um exercício estético e distanciado sobre o substrato ubíquo de sofrimento humano que atravessamos atualmente? Ou como um ponto de partida para reflexões e escolhas que nos posicionam melhor no mundo de hoje, permitindo-nos efetivar mudanças e, com sorte, dormir um pouco melhor à noite? Num primeiro momento, apreciar a beleza de “Inferno” a partir do conforto das nossas salas de estar parece lançar-nos como cúmplices numa celebração meio burguesa das inquietudes e depressões do mundo – de novo: sem raiva, sem reação, sem um plano. Não há explosão punk nem a encenação extremada e malévola do mal, como no metal. Também não olhamos para o lado nem para um futuro de esperanças que hoje nos podem ainda parecer utópicas. Vemos um pesadelo a desenrolar-se, achamos vagamente trágico – mas bonito – e vamos preparar uma quinoa e checar quantos passos a pé demos no iPhone nesse dia – e enquanto isso “A Criança” definha. “Mike e Marcus não seriam assim tão perversos” – digo a mim mesmo. Siga desmontar isto.
A última faixa do disco menciona Platão e talvez seja necessário resgatá-lo para compreender algumas das referências aqui lançadas. De todas as tradições que tratam de uma trindade divina, a platónica talvez seja a mais abstracta e despida de folclore culturalmente específico (ou talvez assim nos pareça enquanto filhos de uma corrente judaico-cristã que tanto se apoiou nas escolas gregas). Segundo Platão, à cabeça, a divindade divide-se em três “hipóstases” – palavra cara para designar várias faces que se distinguem entre si qualitativamente, em atributos e na forma como se relacionam com a criação, mas que ainda assim fazem parte de um mesmo todo, de um mesmo “Deus”. Estas hipóstases são o “Pai”, a “Mãe” e o “Filho” (ou A Criança). Este tipo de trindades estão em várias tradições religiosas mas o porquê dessa ubiquidade é outra questão que não caberia aqui. Numa das tradições egípcias religiosas antigas mais populares temos a trindade Isis, Osiris e Horus – sendo Horus o equivalente à hipóstase “Filho” ou “A Criança”. No Hinduísmo a trindade principal é a Trimurti: Brahma, Shiva e Vishnu, sendo este último o “Filho” ou enviado, que tem em Krishna uma de suas múltiplas encarnações. No Cristianismo, esta hipóstase é representada por Jesus Cristo.
Na faixa All Reason Departs, flutuando por cima de melodias sonhadoras, uma voz debita esperanças sobre uma nova era – um novo “aeon” – de uma “all conquering child”. Em tudo coincide com as profecias do controverso mago ocultista inglês Aleister Crowley sobre a chegada da idade de Horus – a idade d’A Criança. O seu discípulo Jack Parsons, figura crucial para o desenvolvimento da tecnologia de propulsão a jato que levaria o homem à Lua, no seu conjunto de ensaios libertários (e até quasi-feministas) “Freedom: A Double Edged Sword and Other Essays”, fala extensivamente sobre a vinda da Idade da Criança e sobre como isso depositaria poderes nunca antes vistos nas mãos de homens imberbes, de forma irreversível e transformadora. Impossível não ver nisso os tempos atuais com Trump a roçar aqueles dedinhos laranja nos botões das bombas nucleares americanas. A Idade da Criança está aí e não sendo tudo mau (uma nova consciência surge) não é tudo bom também (um mundo velho teima em ameaçar o futuro). Nas palavras proféticas do comunista italiano António Gramsci: “O mundo antigo está a morrer, e o novo mundo definha ao nascer; este é o tempo dos monstros”.
E eis que o inimaginável acontece pouco tempo depois do lançamento do disco: a Casa Branca utiliza uma das faixas de “Inferno” num breve vídeo de slop de inteligência artificial a glorificar os feitos militares de Trump, usando o mesmo tipo de estética visual VHS hauntológica escura que nos acostumamos a associar ao duo. Os Boards Of Canada, naturalmente, recusam ter autorizado o uso da mesma, distanciando-se de qualquer envolvimento com os objetivos propagandistas americanos – mas a piada cósmica está feita. Está ali tudo: inteligência artificial usada para glorificar campanhas militares em que a mesma está a ser usada para matar inocentes; Trump e seu “complexo de Deus”; uma guerra tirada da manga de forma desajeitada e que, para todos os efeitos, calou a inquietação global sobre os Epstein Files e uma elite global organizada em torno do que pareciam ser rituais de abuso, assassínio e canibalismo envolvendo crianças. Chegados a 2026, damos por nós, demasiadas vezes, a dizer que a realidade parece seguir um guião ou que tudo parece uma simulação – a mais recente controversa teoria da realidade que afirma que talvez sejamos apenas produto de um ambiente virtual programado. Coincidências como esta não ajudam.
Quem somos nós então neste sacrifício perverso? Para esta review ouvi o álbum repetidamente no Spotify, uma plataforma conhecida pelos seus investimentos em empreitadas sionistas e de produção de armamento. Dou por mim a cantarolar o cântico “Hare Krishna” em Naraka (Inferno), que no melhor espírito de pastiche “new age” conjuga espiritualidade hinduísta com “beats” modernos electrónicos, numa obra total que espelha perfeitamente a contradição da nossa condição – e dá-lhe o nome certo. Em Prophecy At 1420 MHz, a voz diz-nos ser um Deus, o único Deus da modernidade, numa voz electrónica e fantasmagórica que parece feita em IA. O criador de uma das firmas mais relevantes do advento IA, Peter Thiel, da Palantir, vive obcecado com o Anticristo e passa a vida a dar palestras sobre o tema, aparentemente confundido sobre como a maioria das aplicações da sua empresa parecem precisamente representar a chegada de um mal maior – aplicações militares nefastas e de vigia ou controlo populacional. Muitos dos entusiastas da IA estão tolinhos com a ideia da chegada de “deuses” IA, outros com a chegada de “demónios”, como se uma nova religião se nos acercasse. “Something wicked this way comes”.
Fechando: as texturas electrónicas e frias do disco não enganam, algo está diferente – e por algum motivo o Apocalipse soa um pouco a Com Truise com acapellas “creepy”, mas a pergunta persiste: quem somos nós neste ritual hiper-tecnológico? Segundo a lógica da psicanálise, somos sempre, simultaneamente, todas as personagens em cada um dos nossos sonhos – neste caso um lindo pesadelo. Seremos então a criança em apuros, com tudo aquilo que perdemos neste processo civilizacional perverso que estamos a testemunhar; somos também os tolinhos de robes brancos a cantarolar entusiasticamente parvoíces, enquanto participamos nisto a cada vez que treinamos a inteligência artificial e alimentamos a hydra de subscrições que financiam o fim do mundo de que somos testemunhas todos os dias nos nossos ecrãs; somos os mestres de cerimónias – ou pelos menos alguns de nós são – quando cedemos à tentação da vaidade de querer sobressair neste mundo doente que recompensa o sadismo, a sociopatia e a alienação. Este disco não é um exercício perverso – o Mike e o Marcus são tipos porreiros – mas sim um aviso. Não é tarde demais.
Peter Iain Campbell / Warp Records

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