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O que pode acontecer quando as pessoas certas decidem falar?

2 Março, 2026 - 12:44

Inês Costa Monteiro conta-nos como o movimento #metoo chegou à música eletrónica. Trigger warning: assédio sexual, violação e manipulação.

Na semana passada, Brad, um ex-funcionário de uma agência de management — a Steer — denunciou, através de uma conta de Instagram, que DJs internacionalmente reconhecidos estariam envolvidos em casos de assédio sexual. Shlømo, Basswell, Fantasm, Hades ou Carv estão, alegadamente, na lista de predadores sexuais da indústria de hard techno.

Em poucos dias, Brad recebeu centenas de mensagens, com capturas de ecrã e testemunhos detalhados que mostravam um padrão de comportamento predatório, o que cimentou a sua história. Segundo Brad, depois de deixar a agência Steer, o seu ex-sócio, Nicolas e o então agenciado Shlømo começaram uma campanha de difamação, dizendo a terceiros que Brad teria sido despedido por “comportamento assustador”, o que o levou a libertar os “Steer Files”, uma analogia aos Epstein Files, recentemente divulgados ao público pelo Departamento de Justiça estadunidense.

O método? O mesmo do costume. O uso de poder: envio de DMs a fãs, com convites e fotos íntimas, garantir acesso a quem tentava entrar na indústria ou simplesmente aliciar para um proveito próprio mais tarde. Há, inclusive, um caso de violação efetivada na Colômbia a ser debatido.

E as informações caíram a bem mais do que 250bpm no público.

O que se desencadeou foi uma verdadeira queda em dominó, ainda antes dos casos serem apresentado à justiça: a Steer cortou contacto com os nomes envolvidos que agenciava e perdeu outros dos seus agenciados, como Airod. Várias marcas internacionais retiraram-nos dos seus line-ups, como Verknipt, World Club Dome, Teletech ou Awakenings, não porque tenham já existido processos judiciais mas porque “jogar pelo seguro”, nestes casos, significa, tirar o acesso que um alegado predador precisa para chegar às vítimas. A página @metoodjs ganhou força e começou a oferecer apoio legal a quem quiser avançar com queixas e, por último mas não menos importante, vários DJs começam a pronunciar-se, incluindo Amelie Lens, BIIA, Sara Laundry, Novah e muitas mais. Carv chegou mesmo a dizer que a sua carreira estaria terminada.

Amelie Lens e a ironia da História Patriarcal

Como mulher na indústria, jovem e bem sucedida, Amelie Lens, seguida por mais de 2 milhões de pessoas, torna-se o exemplo perfeito daquilo que as mulheres sofrem todos os dias, seja na indústria de eletrónica, seja em qualquer lado: fez statement no seu instagram onde conta que, embora não esteja preparada para partilhar toda a sua história, foi ameaçada, perseguida e, mesmo depois de ter tentado apresentar queixa às autoridades, com provas, nada aconteceu. Falamos de uma mulher munida de provas e de uma equipa jurídica forte, com todas as possibilidades financeiras de avançar com um caso bem construído para tribunais – e nem assim viu justiça a ser feita.

O que nos leva a perguntar… o que é que acontece quando as vítimas são estudantes, jovens ou pessoas que não têm (ainda) uma fama internacional e não recebem por noite 35 mil dólares – como Shlømo, alegadamente, recebeu de um gig conseguido através de Brad?

A resposta é fácil. Nada. Fica o silêncio, o medo e o trauma. E é aqui que encontramos o drop destes Steer Files: a fama usada como meio para aliciar, usar e ter aproveitamento próprio.

Em 2020, a jornalista Annabel Ross liderou uma investigação sobre vários alegados casos de assédio sexual protagonizados pelo DJ de house Erick Morillo, já falecido. Um ano depois, o nome do pioneiro de techno, Derrrick May, veio também ao de cima. Segundo palavras da jornalista, seria apenas “a ponta do icebergue”.

Uma das pessoas mais vocais há mais tempo sobre o tema é DJ Rebekah. Numa entrevista ao “The Guardian”, contou como foi “convidada” para fazer sexo oral, aos 17 anos, se quisesse entrar na indústria; como foi agredida sexualmente por um promotor de eventos aos 21 anos, enquanto estava inconsciente e como, anos mais tarde, a mesma pessoa a tentou obrigar a outro ato sexual e, ao recusar, deixou de ser contratada para gigs sob a alçada desse promotor.

Mas a história não fica por aqui. Rebekah conta ainda que o seu antigo agente disse-lhe não só que “não era uma DJ a sério mas sim que tinha sido criada por ele e que nunca iria ser ninguém” mas também que, se quisesse fazer uma colaboração com um DJ internacionalmente conhecido, teria de estar nua no estúdio.

Os casos somam-se: Danielle Tudahl confessou que foi violada por um DJ há alguns anos. Lilly Palmer admitiu num short do podcast “Bigger Than Techno” o quão custa “manter a boca calada no início se se quiser ter sucesso na indústria”.

Ao contrário do que se possa pensar isto não é (só) um problema da indústria musical, nem da glorificação de DJs – que muito se debate nos últimos dias. É um sintoma de todas as indústrias dominadas por homens e pelo mindset que (ainda) domina a sociedade.

É a ideia de que “nada pode acontecer” ou “nunca ninguém vai saber” porque, caso isso aconteça, é demasiado fácil alegar que não passa de campanha de difamação, inveja ou raiva, começando por pôr em causa a origem informações de denúncia – os argumentos principais do statement de Shlømo.

Os abusadores não deixam os sobreviventes manter a sua história: transformam-se em vítimas das suas próprias ações, espalham ao mundo a sua versão dos factos e, mesmo, às vezes, admitindo um grau de abuso, fazem-no sempre para que possam rapidamente criar a sua nova persona, reformada do que eram no passado, mas nunca admitindo 100% de culpa ou fazendo um pedido de desculpas. O bê-á-bá da manipulação da opinião pública.

O motivo deste modos operandi? Proteção da reputação, impedimento de continuação de partilha da história dos sobreviventes de assédio sexual e alívio da consciência.

A mulher bem sucedida e a mentalidade portuguesa

Não é preciso atravessar muitas fronteiras para perceber que assédio sexual, abuso de poder e manipulação estão bem presentes no meio de nós, em Lisboa e por Portugal.

Mulheres a serem bem sucedidas no DJing? “Só estão onde estão porque ch*param muito”.

Mulheres a internacionalizar-se? “Não sabemos o que é que elas fizeram para chegar lá”.

Mulheres nas organizações ou em cargos de responsabilidade? “Devem ser amigas de alguém”.

Mulheres independentes e bem sucedidas na área criativa? “Só porque eu te ajudei”, procede a afirmar um homem.

Não são exageros. São as ideias preconcebidas que existem em frases muitas vezes ditas entre grupos masculinos, que não concebem que uma mulher não precisa de fazer favores s*xuais para ser bem sucedida.

E, por muito que se acredite que a cena da música eletrónica deve ser de inclusão e respeito por todos, a verdade é que, quando falamos de poder, seja de um artista que representa a ideia de “Deus”, seja de um promotor com contactos ou de um videógrafo com uma câmara na mão, existe claramente uma hierarquia, onde abusos acontecem e são encobertos pelas equipas porque afinal “ele nem é assim tão má pessoa”, “eu nunca vi nada” ou “mostra-me as provas que tens para acreditar”.

Que provas podem ser apresentadas quando o assédio acontece num backstage, com música alta ou entre salas de produção, à vista de todos muito ocupados com o seu próprio trabalho? Quando o assédio é feito em forma de convite, de frases sugestivas ou até de piada?

Os argumentos para desculpar são sempre os mesmos e a verdade é que todos conhecemos alguém que já foi assediado ou abusado mas nunca ninguém conhece um abusador. É, mais ou menos, 1+1 = não faço ideia, assobio para o lado.

O que nos leva a questionar, uma vez mais, há quanto tempo é que isto acontece e por que é que só está a ser falado agora? A cultura dos bros explica. O comportamento misógino, machista e altamente cimentado numa hierarquia de poder entre homens não permite que os segredos saiam cá para fora. O macho alfa lidera e manipula a sua matilha para normalizar que “o que pode ter acontecido fica entre nós”. É assim na música eletrónica, é assim nas empresas, é assim na sociedade. O encobrimento de abuso de poder é a razão primária para que as vítimas acabem por ser afastadas, silenciadas e ridicularizadas. Qualquer mulher sabe disso.

Mas e agora?

Vivemos tempos onde o assunto nunca foi tão falado mas será que estamos preparados para ter a conversa que importa?

Os homens sabem concretamente o que é que significa assédio e quais são os limites que não podem ser passados? Estarão os mesmo dispostos a enfrentar os seus “bros” e contribuir para a mudança de paradigma?

O respeito social pela mulher cresceu nos últimos 100 anos. Mas ainda não foi atingida a igualdade. A ideia de que a mulher é um ser sexual, inerentemente inferior e deve servir o homem está bem presente no nosso dia-a-dia, quer se queira admitir ou não. A prova disso são os estereótipos ainda associados à forma como as mulheres se vestem, como comunicam ou ao sucesso que têm.

E por muito que várias organizações tragam o tema a debate e se crie awareness, como se de um regulamento sanitário obrigatório se tratasse, a verdade é que a mudança tem de começar por dentro, no grupo com mais poder para o fazer: os homens.

CEOs de empresas de organização de eventos, diretores de agências, agentes de booking têm a responsabilidade e dever de agir em conformidade com a mudança: não podem permitir que as mulheres continuem desprotegidas e a serem silenciadas, com crimes a acontecer debaixo da sua alçada. A palavra da vítima não pode continuar a ser posta em causa, quando esta é a menos interessada em passar por uma situação de abuso. E os amigos não podem continuar a proteger predadores com base nos mesmos argumentos ocos e desprovidos de responsabilização.

Se há alguma conclusão a tirar com os “Steer Files” é que a verdade acaba sempre por vir ao de cima, que tudo o que está na Internet fica para sempre e ganha proporções muito rápido, o que neste tipo de casos é bom porque, embora sempre tenham existido predadores, nunca foi tão fácil dizer ao mundo quem eles são.

A cultura da música eletrónica nasceu como um espaço de segurança, de liberdade e de celebração de e para as pessoas. Transformou-se numa indústria de milhões e lucrar com ela sem respeito não é um smart business move. É a receita para o desastre.

Se sofreste de algum tipo de abuso:
APAV: 116006
Linha de Emergência Social: 116
Linha Internet Segura (Abuso online): 800219090

Foto de Roberto Rendon na Unsplash

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