O relato de uma primeira experiência no Barreiro e no OUT.FEST. As fotografias são de Vera Marmelo.
Chega o outono e muda-se o ritmo. Dias mais curtos, noites a reclamar lugar. O casaquinho passa a dar jeito. O ar está mais húmido. A estação pede por mais abrigo e recolha. Mais introspeção, talvez. E é a altura em que as festividades de verão de música de dança são sucedidas por festivais como OUT.FEST, Semibreve e Mucho Flow.
Há melhor cidade do que o Barreiro para começar esta nova jornada no calendário? Diria que não. Visitei-o pela primeira vez nesta edição de OUT.FEST e é certo que quero lá voltar tantas vezes quanto possível. Outrora o maior complexo industrial do país. Alfredo da Silva, fundador da Companhia União Fabril (CUF), o responsável. Deu muito aos trabalhadores e à cidade, alguns dizem e escrevem por aí. Nestas ruas, encontra-se um monumento de homenagem ao industrial no Parque Catarina Eufémia e um grande mausoléu, onde viria a decorrer o ato final do festival. Mas a verdade é que Alfredo da Silva foi um amigo do Estado Novo que, por exemplo, se opôs à luta pelas oito horas de trabalho.
O verdadeiro Barreiro é símbolo de resistência e consciência coletiva. Uma história que passa por panfletos banidos e movimentos sindicais. Ainda hoje se vive e lê isso nas ruas. Energia que vem desse passado. Cidade operária, repleta de tags e outras inscrições – “Romper com o mimetismo social!” e “Free Gaza!” leem-se lado a lado numa parede. O rio, as linhas de comboio, as fábricas e edifícios parecem falar connosco. Cartazes do Chega vandalizados. Nesta margem, sentimo-nos em casa. Aqui não se finge.
Tal qual os festivais atrás citados, também o OUT.FEST é itinerante. Em 2025, começou com uma conversa com Erik Dæhlin na Cooperativa Mula, a única atividade do dia de arranque. Na quinta-feira, conversa com Matilde Meireles e Raquel Castro, no Auditório da Casa da Cidadania Cabós Gonçalves, seguida por Carme López e rashad becker, na histórica Sociedade de Instrução e Recreio Barreirense (SIRB) “Os Penicheiros”. Num fim-de-semana marcado por protestos pró-Palestina, nessa quinta teve lugar uma manifestação em apoio aos cidadãos da Flotilha Global Sumud sequestrados por Israel. Por isso, deste lado, a aventura só começaria à noite. Fiquei com especial pena de perder rashad becker, que concedeu uma entrevista a Lexi Narovatkin para a RUC.
O edifício da ADAO parece resumir parte da cidade. Um espaço que vive do coletivo e para o coletivo. Foi aí que se abriu a noite com Leila Bordreuil, num noise que partia de violoncelo e todo pequeno movimento, e que se fechou com billy woods, nome dos Armand Hammer apoiado em beats interessantes que não puxou tanto por mim, talvez por ter sido depois de Wolf Eyes e DJ Nigga Fox. Isso sim. Fruto de uma residência de uma semana, o duo noise de Detroit tecia a ambiência com máquinas, sopros e vozes punk, enquanto DJ Nigga Fox criava a sua fórmula de batida, que foi desde cadências mais lentas até uma inspiração de techno mais rápido e duro. Uma viagem que começou algo dub e psicótica, com eventuais ecos de metal, nascida de uma união improvável e, como se comprovou ali, perfeita. Possivelmente um dos atos mais especiais que ouvi este ano.
Sexta-feira, dia de trabalho, ida para o Barreiro à hora de ponta. A travessia do Tejo a essa hora conta-nos muito. Não pude ouvir as conversas com Carme López e João Polido nem tampouco o live A/V de ϙue x equii, dupla ucraniana baseada em Lisboa.
Chegado pela primeira vez à sala escura d’Os Penicheiros, outro símbolo de resistência com 155 anos de história, ainda apanhei o live de Beatrice Dillon, mestre de polirritmias acompanhadas por minuciosos detalhes e texturas, ali a mostrar isso mesmo enquanto – espero não estar em erro – tocava na íntegra o trabalho mais recente, “Basho”. Belo início de dia.
Pausa para jantar até ao próximo ato. Até lá, tempo para convívio. Diferentes gentes, com gostos e valores idênticos, reúnem-se na praça em frente à SIRB. O OUT.FEST também é isto. Daí, e ao longo dos dias, muitos dos presentes falavam em jantar cachupa. Eu e as pessoas com quem estava já tínhamos comido, portanto fomos a pé para um café ao lado da ADAO – são 20m, a distância mais longa entre os espaços principais do roteiro, mas que se pode encurtar optando pela linha de comboio por baixo da ponte. Super Bock 33cl a 1.20€, bandeira de Cabo Verde ostentada, funaná a rasgar nas colunas. Sai um homem, entra no carro, o afrohouse mais enérgico. Está-se bem aqui.
MASMA DREAM WORLD abriu a noite com um ritual, entre espiritismo e drones obscuros, em que terminou no meio do público e a gritar-lhe na cara. Perfeito foi David Maranha e Rodrigo Amado, num outro palco do espaço, este 360º. Dois nomes inconfundíveis da música portuguesa, que colaboraram no disco “Wrecks” no ano passado. Maranha criava a base e a calma a partir de órgão elétrico e pequenos efeitos, Amado tirava-nos o fôlego com o saxofone. Um diálogo que pôs o público hipnotizado – algumas pessoas mais contemplativas, à imagem dos momentos de contenção, outras mais levadas pelos momentos de explosão. Qual transe.
Seguiu-se o doom de Divide and Dissolve, com o seu mote de destruir a supremacia branca, a loucura experimental de “victory hardcore” dos japoneses BBBBBBB e a banda que bebe muito do dub Devon Rexi. Olhemos para upsammy, neerlandesa que tem assinado produções de excelência – ouça-se o álbum de 2024 “Germ In A Population Of Buildings” – e que como DJ é igualmente reconhecida por pares e ouvintes. Com os bpms bem altos, upsammy foi tão boa como sempre, algures entre o jungle e o drum’n’bass, passando por faixas como o remix de Amor Satyr a Accidents are unexpected, de R-010, ou a remistura de Tim Reaper a Bells of Arptazia, de Liquid Silk.
Sábado. Cansaço. Por muito que me tenha esforçado, perdi funcionário – que acaba de lançar o brilhante “Horizonte” no regresso à Holuzam – e Rai Tateishi – nome dos goat(JP), aqui acompanhado por Koshiro Hino a processar o som dos instrumentos de sopro em tempo real – na SIRB, onde a também japonesa Miki Yui, pela primeira vez no país, assinaria um live de modular de ambient introspetivo envolto em sons que remetiam para a água.
O grande destaque n’Os Penicheiros foi Joana Guerra & Yaw Tembe, que este ano lançaram “Orogénese” pela Facada Records. O disco foi apresentado a um público atento – parte sentado, parte deitado. Subtileza em estado puro e em que todo o detalhe conta. O trompete de Yaw Tembe a respirar com o violoncelo de Joana Guerra, as eletrónicas, as vozes que surgiam como mais um instrumento ou o synth aconchegante na parte final a envolver tudo. Uma bandeira da Palestina no palco lembrava-nos o mundo lá fora. Música contemplativa, refúgio ideal para os dias que correm. Ouçam o disco.
Num sábado que teve também os elogiados Martina Berther e Tashi Dorji na Sala 6, parti para uma outra associação, bem reveladora do espírito punk que se vive no Barreiro e no OUT.FEST, sem marcas envolvidas e com preços acessíveis – neste espaço, a cerveja custava 1.50€. Falo do Gasoline, que promove skate e surf e que se quer afirmar “enquanto agente sociocultural de referência” na cidade, pode ler-se no Facebook.
Tinha sido aí que o muito procurado Lord Spikeheart havia tocado e onde iria ouvir bbb hairdryer, facilmente uma das bandas mais interessantes do momento, com o seu queercore gritante que toca no cerne, em parte graças às letras de Elisabete Guerra. Numa sala suada, com as habituais costas viradas para o público, a banda começou com calma, a mostrar o seu amor pelo feedback, antes de partir tudo com temas que incluíram até Territorial Pissings, dos Nirvana, e de fechar com P.O.V. I’m Lying To You – “I Don’t Wanna Be Phoebe Bridgers Anymore”. Pelo meio, palavras de ordem como Queers to the front, girls to the front, shorties to the front. É isso mesmo.
Ainda tentámos jantar fora, mas os restaurantes que procurámos estavam cheios. Pizzas na ADAO, portanto. Boa escolha. Ao lado, uma banca de salgados e doces. Comi enquanto tocava Amuleto Apotropaico, banda-sonora ideal para quem está a jantar ao lado da linha de comboio. Logo depois, no outro palco, GHOST DUBS marcava o passo lento, perfeito para dançar e respirar fundo. Muito elogiado, mas só consegui uns minutos – o calor era demasiado. Ainda para mais, as portas são mesmo próximas e isso convida a ir lá para fora. Gente a conversar, copos na mão. Comunhão.
Nesse palco, o tal que o público circundava, tocaria ainda Jonathan Uliel Saldanha ao lado da trompetista Florence Nandawula, aliás HHY & The Kampala Unit, dupla incrível que, infelizmente, mais uma vez, só ouvi alguns minutos por causa do calor – em retrospetiva, fica o arrependimento. No outro palco, o hardcore dos Cuntroaches e os aclamados Moin, que se fizeram acompanhar por Sophia Al-Maria. Para fechar, TAYHANA, uma DJ e produtora fixe da Argentina. Esta é capaz de ir a diferentes cantos da dança, tanto que foi ao funk, ao ghetto house e até a toques trance, contudo, naquele contexto de OUT.FEST, não me chamou nada a atenção.
Soubesse antes, teria apanhado o barco das 3h30, feito especialmente para o público do OUT.FEST nestes dias. Não tem mal. Faz parte. Vale o convívio e o espaço convidativo da ADAO. Espera-se um bocado pelo das 5h15. Eu, os próximos e outras pessoas vindas do festival. A maioria? Pessoas a ir trabalhar para Lisboa. Muitas delas mulheres negras. Dão vida à capital. Nem 6h de domingo são. Barco atraca. Sons das ferragens – ou sei lá quais – remetem-me para a música experimental e o mundo industrial do Barreiro. É ali que se cria e resiste. É esta a vida à margem?
No último dia, três momentos. Os dois primeiros no PADA Studios, perto do local onde decorreria o encerramento. A começar, Henrique Varanda (do coletivo Tundra), Billy Moisseron, Daina Šteinerte, Nischal Khadka, Paola Avilés e Radoslaw Hada-Jasikowski apresentaram os frutos do projeto tekhnē, cujo objetivo passava por produzir uma peça de cinco minutos destacando um ou mais aspetos da sua estadia durante o festival para apresentar neste domingo, tendo ainda por base o arquivo Cidade Som, desenvolvido pela OUT.RA desde 2011. Depois, Matilde Meireles a mostrar “Tangled and in Perpetual Motion”, que partiu também do referido arquivo e que contou com a participação de Diogo Pinheiro, este a andar pelos diferentes cantos da sala de megafone na mão.
Orientado por Erik Dæhlin, o último ato foi um dos mais belos encerramentos de festival que já presenciei. Com o Grupo de Percussão da Orquestra de Câmara Portuguesa, o Coral TAB e a Banda Municipal do Barreiro, este começou numa bancada recuperada do antigo campo de futebol de Santa Bárbara, onde pontos de som espalhados faziam ouvir versos como “eu, que não existo, digo estas linhas”, gravações, poemas de Cesário Verde – “tornam-se mausoléus as armações fulgentes” – e de Alberto Pimenta – “a oferta de trabalhadores / torna o trabalho barato / permite progresso e / crescimento”. À frente, a vista de um Barreiro que foi e que é. Tudo é política. Atos como este também. Vem a banda por trás, pouco depois o coro, que entoa o hino do Clube de Campismo do Barreiro. Ocupa-se todo aquele lugar. Caminhamos para o Mausoléu de Alfredo da Silva. Maior do que os de figuras da história mundial, conta-nos uma pessoa. A noite cai. Vibrafones suspendem-nos no tempo, a orquestra circunda o espaço, o coro acompanha. Fecho comovente, este.
No fim, percebo que é de tudo isto que o Barreiro e o OUT.FEST se tratam. Do que muda, do que resiste. Um cartaz que une diferentes cantos e linguagens, que celebra a experimentação feita cá e lá fora. Não fosse a música suficiente, ficam também gravadas as pessoas, o tempo partilhado, as ruas e a história da cidade. Que boa é vida à margem – e na margem também.
Fotografias por Vera Marmelo / OUT.FEST

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