AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

Mucho Flow: Um terceiro lugar que parece casa

14 Novembro, 2025 - 15:20

Três dias em que Guimarães se torna um terceiro lugar, aberto à comunidade e à descoberta musical.

Terceiro lugar. Aquele que vem depois de casa e do trabalho. Termo cunhado pelo sociólogo Ray Oldenburg para descrever a importância de espaços que unem comunidades. Tema da segunda conversa do festival, em formato aquário, pensado para incentivar a participação de todas as pessoas presentes. O vimaranense Oub’Lá, o portuense Café au Lait e os lisboetas Estrela e Planeta Manas foram alguns dos espaços referidos como exemplos de terceiros lugares. Todos eles extintos. Felizmente, embora seja um festival, ainda há Mucho Flow.

Pela primeira vez desde a nossa estreia neste evento itinerante, ficámos alojados em Guimarães, bem perto do centro histórico. Andar por ali, com tascas à mão, bem como a arquitetura e os becos a darem outro contexto àqueles dias, dá logo outra vida à experiência. Restless, lia-se na merch deste ano. E assim foi ao viver os três dias sem sair daquele lugar.

O programa arrancou no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura (CAAA), com acesso gratuito e, no início, duas conversas – a atrás referida e uma outra que, disclaimer, moderámos. Depois, Pedro Melo Alves para abrir apetite para o jantar. Tanto a dizer. Alquimista a manipular a matéria de costas viradas para o público, o baterista Melo Alves trouxe uma experiência aliada a vídeo e luz em tempo real, estes apoiados por nomes como Ângela Bismarck, Diogo Mendes ou Filipe Baptista. O resultado? Imagens que remetiam para glitches ou o mundo do ciberespaço, luzes desvairadas que refletiam a gesticulação incansável. E não era só a bateria típica: havia pads com que o músico aplicava o lado glitch, tocando até com os dedos sem recurso a baquetas, chops de vozes e uma elasticidade textural de hipnotizar. Uma progressão que se tornou mais dançável no sprint final, isto tudo por entre momentos ora mais efusivos, ora mais calmos, com os quais tínhamos de ir gerindo o fôlego. Experimentação inesquecível desta edição. Assim logo a abrir.

Após a janta, num dos auditórios do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), outro ato nacional que nos encheu as medidas e que no final nos deixaria malucos pelo facto de duas atuações tugas desta dimensão marcarem o pontapé-de-saída de forma tão certeira. Com Carlos A. Correia, Ricardo Martins e Jonathan Uliel Saldanha em palco, o Colectivo Raso, em estreia absoluta, apresentou uma performance teatral e política de alta intensidade. Correia, voz de dimensão dramatúrgica, excomungava coisas como “Assiste, assiste, assiste / há um racista aqui / assiste, assiste, assiste / há um misógino aqui”. A bateria e polirritmia de Martins cruzavam-se com a psicodelia de Saldanha, que a certa altura parece soltar field recordings de um parque de diversões (ou assim a imaginação quis inventar). O coletivo conta com outros nomes, como o mesmo Diogo Mendes de há pouco na luz, com um papel essencial – um trabalho doido e quase esquizofrénico, com luzes brancas de trás para a frente e de frente para trás na sala escura, por exemplo, dando uma profundidade que fazia parecer que Correia, em constante movimento, flutuava. Pelo menos nós estávamos a flutuar, é certo. Uma fórmula experimental centrada na palavra que estamos ansiosos por ouvir na estreia em disco chamada “Transeunte”, a sair este mês pela Revolve.

Agora na sala principal do CCVF, cujo palco é transformado em pista-palco no Mucho Flow, ouvimos a belíssima música e voz de feeo, acompanhada por Caius Williams na guitarra, e temas do álbum de estreia “Goodness”, como a emotiva Win!, ambos marcados por ambient de sensibilidade poética de encher o coração. No fim, uma guitarra doom em contraste com um cantar luminoso dá lugar a Sassy 009, a quem infelizmente não prestamos muita atenção. A noite terminaria com Maki – embora estivéssemos excitados por ouvi-la, infelizmente sentimos ter sido injustiçada por um espaço não muito convidativo do Café Concerto do CCVF e não ficámos muito tempo – não sem antes ouvirmos um trio vindo diretamente de Detroit.

Pela segunda vez no país, a primeira a norte, os HiTech, de King Milo, Milf Melly e 47Chops, foram e deram tudo o que se poderia esperar, apesar da sensação de que o som por vezes não fez jus à festa. Nada que aquele ghettotech não escondesse. Por entre DJing e microfone, vindas para a pista, gargalos de garrafas de whisky por aquelas bocas fora, faixas de pioneiros do footwork (DJ Spinn em Man I Do It e DJ Rashad em Work 07), remixes (um de Paper Planes, de M.I.A., e outro de DJ Swisha a remisturar Far Away, de Kelela) e muitas originais (como NU MUNNI e o fecho com os cerca de 170 bpm de MONEY PHONE), não há muito a dizer senão festa e dança rija. À séria.

O segundo e terceiro dia começam no Teatro Jordão – primeiro no auditório, depois nas galerias. Na sexta, fomos irresponsáveis ao ponto de chegar nos dois minutos finais do live AV de Colombian Drone Mafia + Gibrana Cervantes. Sem stress, que havia muito para ouvir, como Mohammad Adam, algures entre um ambient na primeira parte, beats de hip-hop na segunda, repleto de samples, como o som de espadas a surgirem pontualmente ao longo dos cerca de 30 minutos, e inspirações que viajavam entre Reino Unido e Sul da Ásia. No mesmo teatro, fomos para o piso de baixo e de Leicester para Londres, com Lauren Duffus, mais tímida, e com Tracey, mais expansiva, tanto na música como na atitude.

Nas galerias, o destaque tem mesmo de ir para o último concerto. Infinity Knives & Brian Ennals. A dupla de Baltimore trouxe um hip-hop assente em beats experimentais cuja energia e letras captam até mais não. Fuck entidades como IDF e CIA, alerta explícito para o genocídio na Palestina, Netanyahu é o novo Hitler, Musk mandado para o caralho, Obama e Biden idem, Trump chamado de violador, um minuto de silêncio pedido por Charlie Kirk apenas para, de imediato, ser rasgado por um grito e uma sirene. Tocaram temas como The Iron Wall e Everyone I Love is Depressed, falaram de suicídio para dizer para não cedermos e até pediram ao público para escolher, por gritos, qual a droga que preferia entre cocaína e cetamina. Que loucura. Definitivamente um dos concertos em que ficamos mais vidrados em tempos recentes.

De volta ao CCVF, este palco receberia uma atuação live AV de Nick León, pela qual aguardávamos e na qual ouviríamos originais como Bikini (uma pessoa confessar-nos-ia que deitou uma lágrima ao ouvir esta faixa), mas a verdade é que acabou por ser apagada pela dupla que a antecedeu, Los Thuthanaka, de Chuquimamani-Condori e Joshua Chuquimia Crampton. Música espiritual, profundamente ancorada na ancestralidade Aymara de ambes, num momento elogiado por inúmeros presentes. Lá fora, uma pessoa negra que não conhecia o duo dir-nos-ia que pensou em temas como racismo ao ouvir esta atuação. Não admira: aqui, a contemplação é veículo político e emocional. Ao vivo, tudo parece ainda mais íntimo e contemplativo. Sem palavras, falam de temas como género – a primeira música do disco, aliás, Q’iwanakax-Q’iwsanakax Utjxiwa, significa The Queer People–Medicines Are Here. E, palavras de Los Thuthanaka, esta música é reciprocidade dedicada a Chuqi Chinchay, queer guardian para quem caminha entre mundos e géneros. Belo e intenso transe. Bela a vida de liberdade fora dos cânones.

2h da manhã, rumo ao Património Club, escolhido pela impossibilidade de ocupar o habitual São Mamede CAE, provavelmente por este ter uma festa de Halloween. A polícia decidiu fiscalizar o espaço e atrasar tudo, o que resultou numa grande fila à chuva. Não sabemos bem a que horas conseguimos entrar. Lá dentro, estranhamos um pouco o espaço e ouvimos vimaranenses a dizer que não estavam habituados a ouvir música séria neste clube. Passado uns minutos, o conforto instalou-se, embora o som permitisse ouvir muita gente a falar. Nos decks, a portuense NOIA e os bpms altos de faixas como SPEED (ENDURANCE), de SHERELLE. Estava o mote dado.

De seguida, Chinese Daughter mostrou por que razão tem chamado a atenção a atenção pelos sets em discos de vinil. Orientação jungle, malhas inspiradoras dos anos 90 (como Return to Paradise, de Dj Infinity e Back 2 Basics, e Burning Passion ’95, de Urban Shakedown) e ganda vibe. Das 4h30 às 6h, a dupla japonesa Minna-no-kimochi não puxou tanto por nós, dado o lado trance, mas a qualidade de contar uma história e agarrar a pista foi inegável.

Chegados a sábado, já tínhamos ouvido tanta coisa. Muito Reino Unido, talvez, mas muita coisa. É que, repare-se, o cardápio havia trazido a bateria de Pedro Melo Alves, o experimentalismo poético do Colectivo Raso, o ambient emotivo e cantado de feeo, a dança frenética de HiTech, o hip-hop político de Infinity Knives e Brian Ennals, o transe de Los Thuthanaka, os breaks de NOIA e Chinese Daughter ou o trance de Minna-no-kimochi, para dar alguns exemplos. Estas diferentes abordagens, que parecem fluir tão bem ao longo do itinerário, são precisamente um dos aspetos mais marcantes do Mucho Flow.

Nesse último dia, LUXE teve de cancelar a passagem por motivos de saúde e, após a conversa inicial, a muito elogiada plus44Kaligula foi responsável pelo primeiro concerto. Claro que a noite de sexta (manhã de sábado, até) nos fez perder a atuação, não é? Ainda assim, diga-se que ambos estes nomes são também da cena britânica, o que, em retrospetiva, causa alguma estranheza, visto ouvirmos tantos atos vindos dessa ilha no festival.

Nas galerias do Teatro Jordão, onde estava localizada a habitual zona de comes e bebes, o início da noite foi de puro rock. Primeiro, a incrível banda de Elisabete Guerra e companhia, bbb hairdryer, que ainda há poucas semanas tínhamos ouvido no OUT.FEST 2025 – grande gig, satanic trans guitar shit para sempre. Nota positiva também para o nova-iorquino Body Meat, que, embora longe do nosso gosto, nos deu a conhecer a sua fórmula algo pop experimental, com rasgos de emo, trap e eletrónica de dança. Aí, o que deu muito gosto conhecer foi YHWH Nailgun, também de Nova Iorque, que parecem ser uma lufada de ar fresco na música recente. Nem sabemos bem explicar, na verdade. Quarteto que nos remete para mundos de math rock, com a voz de Zack Borzone, com uma certa apatia na cara em contradição com o groove do corpo, a dar algo de único. Mas vá, que se lixem as palavras, ouçam o disco “45 Pounds” para terem uma ideia.

O começo da noite de sábado no CCVF foi ideal para o romantismo e para estar de braços à volta de companheires, com o dream pop-drone da irlandesa Maria Somerville e o art rock dos ingleses These New Puritans. Apesar de ambos os concertos terem sido refúgios seguros e momentos ideais para abrandar, a nossa cabeça estava viradas para o clubbing.

De regresso ao São Mamede CAE, habitual espaço para as noites longas do Mucho Flow, o aguardado b2b entre Simo Cell e Verraco. Verdade seja dita: ainda que sejamos fãs de ambos e o set tenha sido giro – uma vez que passou por inúmeros géneros, de juke polaco (Scare Em To Death, de Surly) a funk brasileiro (FICA D4, de Lucas Kid e Rxfx), passando por electro (Mindless, de DJ Stingray) – não nos puxou assim tanto. Fica também a dúvida sobre se vale assim tanto a pena apostar num b2b deste tamanho e se não valia mais bookar apenas um dos dois.

Para fechar, DJ Lynce, residente habitual, desta feita apenas em formato live, sinónimo de muitos breaks e linhas de acid. Por baixo das luzes de João Dinis, outro habitué do festival nas noites, Lynce fez-nos respirar com pelo menos dois abrandamentos pelo meio, aproveitando para mostrar discursos que levou até Guimarães – um deles sobre o imperialismo estadunidense, se não estamos em erro. À frente, a bandeira da Palestina. No fim, pé no travão, um beat mais hip-hop e uma ambiência por trás para o adeus. Mais uma vez, se não estamos enganados. Àquela hora, já pouco distinguíamos, mas os movimentos do corpo, é certo, estão sempre presentes.

O Mucho Flow é um lugar seguro. Apesar da muita presença de atos britânicos, tem um cartaz diverso em aspetos como género, etnia ou música. Tem clubbing sério até às tantas, algo nem sempre visto em festivais itinerantes como este. É ponto de encontro para intimidade, ficando sempre a certeza de que este é, a cada ano, um território para conhecer música nova e novos pares também.

No fim, regressa-se a casa. Ao primeiro lugar, que por três dias confundimos com este terceiro.

Fotografias por João Octávio Peixoto / Mucho Flow

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