AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

Semibreve: Esta fé move montanhas

7 Novembro, 2025 - 12:05

À 15ª edição, o festival bracarense continua a mostrar que é pouso anual obrigatório.

Quinta-feira, 23 de outubro. A noite já caiu em Braga. Não chove, como as previsões apontavam. Na Avenida Central, do lado do chafariz, a silhueta barroca da Basílica dos Congregados surge acima das árvores que ameaçam despir-se. É ali que mais um Semibreve tem início – e é ali que tudo se começa a revelar.

Braga é uma das cidades cristãs mais antigas do mundo, com uma história com mais de dois mil anos. Bracara Augusta, chamavam-lhe ainda antes de Cristo. Não fosse história ou não a conhecêssemos, ela própria nos vai contando quem é por meio de igrejas, salões medievais, santas ou inscrições romanas. Na maioria, precisamente nas mesmas ruas e espaços que marcam o itinerário do Semibreve.

O festival insere-se nesse contexto, ainda que não fuja da contemporaneidade de outros lugares. Isso foi mais notório no arranque de 2025. É certo que os concertos de abertura em edições anteriores decorriam na Basílica do Bom Jesus do Monte, mas Heinali & Andriana-Yaroslava Saienko apresentaram um trabalho que inclui dois temas baseados em composições de Hildegarda de Bingen, uma monja beneditina do século XII que só em 2012 viria a ser canonizada.

Apesar de Kalia Vandever ter trazido ligações espirituais do Hawai’i em 2024, não nos recordamos de ouvir uma ligação à tradição cristã como esta numa abertura, neste caso aliada até à história medieval e às técnicas de canto do folk ucraniano. À nossa volta, na Basílica dos Congregados, a arte sacra. Por cima, uma altura de apequenar. Heinali, de fato e sapato, assume o sintetizador modular. Pouco depois, Andriana-Yaroslava Saienko, descalça e de vestido, chega para dar voz a “Гільдеґарда (Hildegard)”. A modulação drone é mínima, quase impercetível – tensão. A voz é poderosa – expansão. Ouvindo-a aqui, diríamos até divina. Arte que abraça o que há de mais transcendente e que, ao mesmo tempo, abraça Kyiv e rejeita imperialismos. Afinal, talvez não sejamos assim tão pequenos.

Antes disso, já era possível ver as obras selecionadas para o Edigma Semibreve Scholar 2025 no gnration – “(A)TENSION”, de Bruno Mesquita, “Micro Mining Ecologies”, de Isidora Correa & Guy Fleisher, “TR (Table-React)”, de Martim Novais, e “Sonic Iterations For Intangible Existences: Dark Matter”, de Rafael Maia – enquanto a zet gallery exibia “Wildtracks” e “A Forbidden Distance”, dois documentários de Andrzej Załęski que mostravam o processo de duas das obras presentes na edição passada.

O Semibreve também é isso. Um festival de música eletrónica e de artes digitais, costuma-se resumir assim. Sinopse certeira, pelo menos no sentido lato. E a partir de sexta, ainda mais atividades. Nesse dia, além de a peça “8.33, Perception of the Invisible”, de Jésus Baptista, poder ser vista no Theatro Circo, havia filme no gnration – “Moving Ice”, de Susan Schuppli, depois sucedido por uma conversa da realizadora com Fernando José Pereira. Para nós era dia de trabalho e só começaríamos a aventura à noite.

O primeiro concerto no imponente Theatro Circo foi de Rafael Toral, de regresso a esta casa do festival, desta vez para apresentar o novo “Traveling Light”. Na continuidade do “reencontro emocional” com a guitarra que ouvimos em “Spectral Evolution”, há aqui talvez ainda mais jazz, ou não estivesse acompanhado pelo clarinetista Bruno Parrinha, pelo saxofonista Pedro Alves Sousa (a substituir Rodrigo Amado), pelo fliscornista Yaw Tembe e pela flautista Clara Saleiro, que entraram e tocaram por esta ordem – isto para além de um momento em que se juntam todos em palco. A delicadeza e o sentimento de Toral estão tanto no que se ouve como no que se vê: o amor pela guitarra e pelo som está nas expressões, nos gestos, até no silêncio. No início, como nota bem Rui Miguel Abreu no Rimas e Batidas, o músico entra em cena com um dos instrumentos que desenvolveu para o Space Program – “uma espécie de ‘isto é de onde vim’”. E nunca mais lá volta, porque quem é, aqui e agora, é a guitarra. E nós agradecemos, embalados por essa luz.

Antes de mudar de local, ainda tivemos Marta de Pascalis a apresentar o novo disco, “Tell Me The Sun”, acompanhada pelo artista visual (e ali quase coreógrafo) Marco Ciceri. Um bom momento, marcado por ambient sonhador, composto a partir de, pelo menos, um Yamaha CS-60. Talvez mais contemplativo do que estonteante, serviu como transição fluida entre Toral e o que se seguiria.

O Semibreve é um festival que vai apresentando diferentes abordagens à eletrónica. Foi o caso de NAH e Zancudo Berraco, que ocuparam a blackbox do gnration na noite em que João Galante estava na sala multiusos – sobre isso falaremos mais à frente. É hora de uma orientação mais clubbing. NAH, a desbravar na bateria diante ouvidos atentos, fazia-se acompanhar por, pelo menos, Roland SP-404 e um pedal de efeitos. A intensidade e excitação eram tais que não conseguíamos desviar o olhar – os braços em convulsão e os nossos corpos a querer acompanhar. Já Zancudo Berraco, também no centro da sala com o público a circundá-lo, entrou para rematar a noite e foi professor de um laboratório de dança singular. Com uma Akai (APC40?) ligada ao Ableton, sintetizador modular, um Moog e até uma CDJ com que fazia loops e scratches, Henrique Apolinário partiu tudo e foi nosso dono. Entre linearidade ou contrastes, entre energia uplifting ou delirante, esta última lembrando nomes como Karenn, era impossível ficar indiferente ou parado. É por isto que os live acts de Apolinário são tão elogiados, pensámos. Que duas belas atuações.

Pelo meio, um outro exemplo do que o Semibreve pode ser durante as noites no gnration. Pode haver tendência para dança, sim, mas geralmente há muito lado experimental. Ou concertos de abordagens que envolvem tudo isto, como foi prova aya a apresentar “hexed!”. Se o disco já é louco, ao vivo ainda mais. Também dona daquele palco e pista, a britânica andava de um lado para o outro, no estrado ou em cima da mesa, com ironia e confiança. Ria-se, mandava bocas, desafiava até o público ao falar de cocaína ou ao dizer para não se meterem na sua vida. Passou por todas (ou quase todas) as faixas do álbum, entre caos controlado e pontual breakcore, sempre com a voz e as letras como fatores-chave da loucura. No fim, um diss a Charli XCX, dizendo até, entre dentes, algo como “pelo menos eu não andei na escola privada”. Sorriso na cara. hexed! autumn, este.

Há muito para aproveitar durante estes dias em Braga. No sábado, houve masterclass dada por Ava Rasti no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian, um workshop de Lyra Pramuk na Casa Rolão e uma palestra de Nuno Fonseca no Museu Nogueira da Silva. Fiéis à tradição, deixámos que a noite se prolongasse pelas calçadas bracarenses e acabámos por perder esses momentos.

Por isso, o nosso sábado começou na Capela Imaculada do Seminário Menor, com o relógio a bater as 17h30. Diante nós, naquela capela centenária remodelada em 2015, Ava Rasti (na fotografia de capa) a apresentar “The River” ao lado dos violinos de Filipa Abreu e Vânia Oliveira e dos violoncelos de Catarina Coelho e Tiago Mendes. O álbum da iraniana parte da ideia de como os lugares – um rio, no caso – podem guardar memórias. Quais átomos. Um concerto breve mas belíssimo, no qual tudo e todos pareciam suspensos à medida que éramos remetidos para outros momentos e sentimentos vividos nesta mesma capela. Ambient. Música clássica. As cordas por nós adentro. As paredes a dissipar. A abóbada também. Não nos sintamos presos. E sentindo, deixemos que este rio nos leve daqui.

Horas depois, no Theatro Circo, Lucy Railton acompanhada pelas imagens de Rebecca Salvadori e pela instalação de metal e luz de Charlie Hope. Railton, entre o feedback do microfone, as cordas ou a sua simples presença em diferentes pontos do palco, emanava uma energia algo inexplicável. As peças de metal rodopiavam suavemente com o ar e devolviam a luz. Imagens de Salvadori, em planos próximos ou que documentavam o processo, traziam a intimidade. Uma frase no ecrã a certa altura dizia-nos “I was thinking about the light spinning on its axis, locked in its own cycle. Everything can move in relation to that.” Pelo meio, um violino que se confundia com uma guitarra de doom metal, grave e distorcido. No final, um drone calmo e reconfortante devolvia a paz. “Not A Word From Me” era o nome. E no entanto, sem nada dizer, disse-nos tanto.

De seguida, o duo de Bristol emptyset, que pouco conhecíamos mas que era aguardado por muitos dos presentes, acompanhado pelo design de luzes de Marcel Weber/MFO. A expectativa era grande e fomos logo engolidos por toda a intensidade. Algo industrial, muito elétrico na medida de sermos parte da carga. Tudo a pulsar, nós possuídos. Distorção total. Som que se sente em cada pedaço do corpo. E as luzes, a circundar o teatro, atingiam-nos constantemente. Quando as víamos a chegar, preparávamo-nos logo para fechar os olhos. Nem sabíamos já se era mais a luz ou o som a cegar-nos. Provavelmente ambos. No fim, êxtase total, com uma pessoa ao nosso lado a dizer que era do melhor que tinha ouvido (e sentido, acrescentaríamos). Não é para menos.

Madrugada é sinónimo de gnration. Na blackbox, Nazar estava a apresentar “Demilitarize”. Ainda assim, quando lá chegámos, tocava temas como Warning Shots, de “Enclave”, e UN Sanctions, de “Guerilla”, energia que, aliada à sala cheia, acabou por nos levar até Violet b2b Mix’Elle, que também queríamos ouvir. Na sala multiusos, faixas incríveis como touring, da própria Michelle Borja, mas foi aí que chegámos à conclusão que, infelizmente, esta pista não parece resultar, tendo em conta a experiência na sexta e em edições anteriores. O booking tem sido bom e de valor na maioria dos casos, como são exemplo estas duas bosses, contudo a sala não é convidativa para ouvir DJ sets. Ao comentar isso com outras pessoas, ouvimos sugestões como fazer ali uma feira de discos e materiais de eletrónica ou até ter uma zona chill com instalações. Talvez seja algo a considerar.

Já na blackbox é difícil não ficar rendido a todo o contexto. Nessa noite, a lenda do IDM µ-Ziq a mostrar “Grush” e loucuras como Iggy’s Song, Hyper Daddy e Magic Pony Ride, algures entre o emotivo e o frenético, com apontamentos de acid e breakcore ou footwork, enquanto uns visuais loucos de ID:Mora, que pareciam saídos de um videojogo nuns casos e de aventuras psicadélicas repletas de cores noutros, acompanhavam tudo de forma exemplar. Nota 10, de facto.

Infelizmente, esse não foi o caso de Lyra Pramuk b2b Krzysztof Bagiński. DJ set raro de Lyra Pramuk, sim, mas longe de nos agarrar – quem nos dera ter ouvido antes concerto do mais recente “Hymnal”. Embora tenhamos ouvido faixas fixes, parecia tudo um pouco descontextualizado, como quando tocam Knights of the Jaguar, de DJ Rolando, por entre coisas longe de Detroit. Nunca um tema tão mítico nos soube tão mal. Nada contra, mas aqui somos remetidos também para o booking de João Galante na noite anterior. Não seria mais valioso alguém que faz do DJing o seu trabalho principal, especialmente aqueles à margem? Ao lembrar que houve Rrose e Ziúr em 2024, por exemplo, fica alguma desilusão neste sentido em 2025.

Se há pouco falávamos sobre o Semibreve oferecer diferentes práticas, Yara Asmar levou uma outra ao Salão Medieval da Universidade do Minho no início da missa dominical. Com “Stuttering Music”, a libanesa encheu o espaço de minúcia e delicadeza por meio de acordeão, metalofone, um arco a roçar os metais, loops, tudo com a paciência de quem traduz cada gesto e intenção em cada movimento e de quem quer fazer escutar. Esta é parte do poder do festival: levar-nos além do que ouvimos, ainda para mais em contextos como este de estar num salão medieval.

Seguiu-se “Concrète Waves”, no Theatro Circo, um encontro de gerações distintas e um dos momentos mais esperados do festival. A veterana e inigualável Suzanne Ciani, com um grande sintetizador modular Buchla – cuja história conhece de perto, como amiga pessoal do próprio Don Buchla – trouxe consigo a sua habitual quadrifonia, que ocupava o Theatro Circo por completo à medida que moldava o ar, o espaço e os nossos corpos. Sentado de frente, Actress, mergulhado no portátil e na textura, com aquela estética lo-fi que lhe é tão própria, a marcar o ritmo, em certo ponto algo techno. Nem uma falha técnica de som apagou o encanto. Belíssimo e enriquecedor. No fim, Ciani, extrovertida e sempre a raiar felicidade, a puxar pelo mais introvertido Actress, num gesto de cumplicidade que dizia tudo. A comunhão também é isto.

Não tivéssemos já ouvido abordagens à eletrónica suficientes, Grand River traria uma outra para o remate desta edição. Ali, a italiana afinou o vento diante nós ao apresentar “Tuning the Wind”. No palco, uma só luz, de tons quentes entre o amarelo e o vermelho, que pouco se alterava, mas que foi desde revelar o semblante de Aimée Portioli até se tornar invisível. Há dias em que talvez possamos chamar música ao vento, mas, aqui sim, as gravações ganhavam outro espírito ao serem moldadas numa fórmula de ambient e drone maioritariamente aconchegante. Refúgio de 45 minutos num festival que é já de si um abrigo sonoro no outono.

Todos os anos, esta procissão a Braga move centenas de fiéis. Houve noites em que sentimos menos pessoas do que em edições anteriores, mas a verdade é que os passes gerais esgotaram, como sempre, bem antes do festival. É a prova de uma devoção que faz regressar quem já veio e desperta curiosidade em quem chega pela primeira vez. Mesmo que haja um ou outro momento que preferíssemos ver de outra forma, nunca saímos desiludidos. Saímos antes enriquecidos.

Esta fé move montanhas. Uma fé que, como diz o texto bíblico, de nada vale se não houver amor. Felizmente, aqui há.

Fotografias por Adriano Ferreira Borges / Semibreve

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