AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Entrevista

Fidju Kitxora ou como retribuir a Cabo Verde a partir da diáspora

16 Janeiro, 2026 - 11:54

Entre memórias das ilhas, um dos membros de Fidju Kitxora fala-nos sobre “Racodja” e da música como forma de agradecer o amor que recebeu na sua primeira viagem a Cabo Verde.

Fidju Kitxora não se apresenta com biografias óbvias nem com rostos evidentes. É um coletivo misterioso que se move entre Lisboa e Cabo Verde, feito de vozes, memórias e ilhas.

O projeto nasceu de uma viagem a Cabo Verde, de caminhadas longas por povoações onde só se chega a pé, de encontros familiares e de uma hospitalidade que despoleta a vontade de retribuir. “Racodja”, disco de estreia, afirma-se então como um gesto de retribuição: à família, às pessoas que acolheram, a um país que existe dentro e fora das ilhas.

A partir dessa experiência, o álbum foi construído por meio de recolhas sonoras, sampling e camadas musicais que atravessam funaná, techno, experimentação e tanto mais. “Racodja” foi lançado em 2024 e antecedeu um 2025 repleto de concertos um pouco por todo lado.

Conduzida em março do ano passado e recuperada agora, esta entrevista é publicada no dia em que Fidju Kitxora tocam no Eurosonic, em Groningen, Países Baixos. Nesta conversa, um dos membros do coletivo fala sobre o nascimento do projeto, diáspora, pertença e retribuição ou, entre outros tópicos, sobre a responsabilidade de documentar sem romantizar.

Uma pergunta inicial, que acredito já terem respondido outras vezes, mas para que os nossos leitores possam conhecer melhor: como surgiu o coletivo?
Este projeto surge de uma primeira vez que vou a Cabo Verde para conhecer a terra da família, da parte da minha mãe, para conhecer os familiares que estão lá espalhados em diferentes ilhas. Passei lá muito tempo ainda, uns bons meses, e quando voltei quis dar um sentido a tudo aquilo que fui capturando lá. As memórias da família que existem, as invisíveis e as visíveis. Visíveis no sentido de que ainda são as pessoas que estão vivas que têm histórias para contar.

Nisto, quando voltei, tentei dar um sentido a isso tudo porque foi um choque emocional muito forte na altura. Depois, inevitavelmente, comecei a materializar isto em música porque é a minha área de atuação e, inevitavelmente, comecei também a conectar-me com muitas pessoas da diáspora, que era uma realidade de Cabo Verde com que não tinha muito contacto. Tinha um contacto muito constrangido à família e pouco mais. De repente, descobri que Cabo Verde não era só aquelas ilhas, Cabo Verde está espalhado.

Ao ter esta resposta emocional através da música, comecei a entender também, acima de tudo, que não poderia considerar isto como um projeto apenas meu. Tendo em conta que trabalho muito com sampling, com as relações humanas… Comecei a considerar realmente que isto era um projeto coletivo. Era um projeto feito por muitas pessoas, muitas vozes. Daí, tentei incluir ao máximo e tornar este um projeto que acolhe muita gente, tal como eu sou acolhido por muita gente.

Olhando para a viagem, há algum momento ou história que tenha sido mesmo… Quer dizer, acredito que todos os momentos tenham sido marcantes, não é? Mas será que há algum com especial impacto?
Acho que é quando eu vou à ilha do meu avô, que é São Nicolau. Eu já tinha estado nas outras ilhas e tinha metido na cabeça que queria fazer as ilhas todas a pé. As pessoas achavam que eu era maluco, mas havia populações que não havia maneira de chegar a não ser a pé.

Numa dessas caminhadas, logo quando cheguei à ilha do meu avô, fui à Praia Branca, que é uma povoação onde nasceu o Paulinho Vieira, porque sabia que tinha lá uma sobrinha do meu avô, que já é uma senhora de idade, 80 anos. E bati à porta… Ela abriu, viu um gajo branquelas, com uma mochila às costas e ficou a pensar se eu queria água pois poderia ser um turista perdido. E eu disse-lhe, “olha, eu sou neto do teu tio…”, e ela ficou totalmente desconcertada, abraçou-me como se eu fosse um filho perdido. Isso foi muito forte para mim.

Depois, percebi que nestes imaginários de quem é que é, os filhos de quem, os sobrinhos de quem, pessoas que nunca foram conhecer, como é o caso da minha mãe, que não conhece ninguém, a não ser os familiares que viveram na sua ilha, que era São Vicente. As outras pessoas ela já não conhece, não é? Mas há um imaginário de todas estas pessoas sobre quem é quem. Há pessoas que conversam à distância continuamente – os avós com os netos, por exemplo, mas que nunca tiveram presentes.

Outra coisa que percebi… Ela disse-me algo como “tu já estavas cá em Cabo Verde”. Porquê? Porque o meu avô, há 30 anos, tinha enviado uma fotografia de família para diferentes sobrinhos. Então estava lá eu, com 8 anos, era uma fotografia muito velhinha. Uma pessoa que tinha aquela foto durante 30 anos, ela própria não conheceu o meu avô pessoalmente nem nenhuma daquelas pessoas que estavam naquela fotografia. Mas o meu avô manteve contato com os seus sobrinhos e correspondência. Manteve este laço que, de repente, quando eu cheguei lá, ela teve um comportamento comigo como se fosse um filho que voltou passado 30 anos.

Isto foi-me acontecendo ao longo da viagem, fosse com familiares, fosse com pessoas que eu não conhecia de lado nenhum e que simplesmente me acolheram. Acolheram porque eu estava a caminhar durante oito horas, precisava de comer e ali dinheiro não vale rigorosamente nada. Pessoas que me acolheram como se eu fosse sempre da família deles, como se eles tivessem um compromisso tão grande perante a minha vida. Havia povoações que as pessoas iam buscar coisas para eu comer quando que elas não tinham. Dormiam no chão para eu dormir na cama, mesmo que eu insistisse que não. Esse sentido de compromisso, que eu acho que não é uma coisa tão romantizada. Há um lado muito pragmático, estamos a falar de lugares difíceis, lugares muito pobres, e as pessoas têm que se apoiar umas às outras. Nesses meses, eu não fiquei em nenhum lugar a não ser em casa de pessoas, fossem familiares ou pessoas que eu tinha acabado de conhecer. Eu chegava à aldeia e elas sentiam-se comprometidas em me dar guarida.

Quando eu voltei para Portugal, eu não tinha nada mais do que um sentido de compromisso em querer retribuir para estas pessoas e retribuir da minha forma. Quando eu vou a Cabo Verde, eu retribuo à minha maneira – revisitar porque depois criei laços de amizade muito fortes com familiares e com amigos que eu criei. Mas naquilo que é a minha mobilidade aqui nesta sociedade, eu faço o que eu posso. No sentido musical, eu produzo tudo sempre com essa força gravitacional para Cabo Verde, apesar de não ser necessariamente música cabo-verdiana. Neste momento, tenho um sentimento de muito compromisso por ter muito amor por aquelas pessoas e por aquele lugar.

E até pegando aí na música, lá está, aqui há muita coisa. Funaná, talvez, mas também outras coisas de música negra, como techno.
São lugares de pesquisa que inevitavelmente se tornam depois numa espécie de sedimentação. Vão sendo camadas sedimentadas umas em cima das outras. Inevitavelmente, há projetos, como este, em que se calhar há mais abertura para que todas estas camadas estejam misturadas de uma forma um bocadinho mais homogénea e não tão segregada.

Acho que ainda não disse, mas grande disco. Parabéns, mesmo. Um dos propósitos será o de abordar a diáspora.
É inevitável, é inevitável. Mas, ao mesmo tempo que eu tenho muita dificuldade em descrever os limites do Cabo Verde, os limites da diáspora, porque no fundo é um país construído pela diáspora, na realidade, se nós formos a ver aquilo que é a história da produção musical de Cabo Verde, ela foi produzida toda fora de Cabo Verde. E as pessoas que estão fora, elas incentivam ao nível financeiro. As pessoas dão muito dinheiro para as suas famílias que estão em Cabo Verde, muitas remessas. Muitas encomendas vão para Cabo Verde em bidões de água, as pessoas enchem esses bidões com roupa, com objetos e mandam para os seus familiares.

Eu considero que sim, que é uma música que é um movimento da diáspora, que é sempre de hibridação, de crioulização, mas que o próprio país também é um país que sempre teve essa capacidade de crioulização, de incluir, de regurgitar, de estar sempre nesse movimento de incluir e expandir. Desde a escravatura até os tempos de hoje, sempre foi esse movimento.

Como é olhas para a importância de documentar estas tradições?
Eu acho que é importante apesar de achar que é importante não cristalizar as tradições. Na antropologia, é importante fazer sempre essa contínua reflexão de quando fazemos estas observações etnográficas, estas documentações, a gente tem que ter cuidado em não cair em climas de romantismo, no síndrome do Indiana Jones, não é assim? Que depois podemos estar a cristalizar culturas que necessariamente necessitam de se transformar.

Aquilo que é hoje em dia a tradição, antes foi o novo, antes foi o subversivo. Por exemplo, o funaná que a gente escuta hoje, era um funaná que se calhar nos anos 60 e 70 era visto pelas pessoas mais tradicionais como uma coisa criminosa, não é? Pôr guitarras e bateria, isto aqui é ferro e gaita. Ao mesmo tempo que, na altura do colonialismo, certas expressões culturais dos povos escravizados eram vistas como coisas subversivas, mas depois elas transformaram-se em tradição.

Então acho que é importante agarrar e documentar estas tradições, mas é importante que a gente, por uma via académica, não as cristalize, porque elas necessitam de ter sempre uma sensação de que elas estão em progressão para um novo, para depois virar o velho, ao mesmo tempo também temos de ter cuidado naquilo que é a cultura do mercado, ou seja, aquilo que é a nossa relação enquanto artistas com o mercado, também não cristalizarmos culturas que na realidade… Essa cristalização é mais com propósito financeiro, de vender, de vender uma cultura como sendo Cabo Verde. O Cabo Verde é morabeza, mas o Cabo Verde também é kasubody, funaná, kotxi pó.

Também existem movimentos, por exemplo, desta malta nova. Há drill a acontecer, está o rap crioulo ou artistas como o Cachupa Psicadélica ou Acácia Maior, que estão a testar, a fazer um teste dos limites daquilo que é a nossa consideração ou da nossa visão do que é cultura cabo-verdiana ou do que é tradição. E claro que isso cria subjetividades, isso cria provocações, cria críticas, mas são críticas que se calhar daqui a 20, 30 anos vão ser esquecidas, e essas pessoas que provocaram essa expansão da dimensão da cultura é que vão ser lembradas.

Tocaste aí em Cachupa Psicadélica e Acácia Maior. Tendo em conta também esta espécie de documentação, há alguns trabalhos recentes e interessantes que aches fixe referir?
Eu neste momento estou muito mergulhado nesse universo de escuta desta malta, que para mim são uma referência. O Prétu, o Scúru Fitchádu, o Lula’s (Cachupa Psicadélica), o Henrique Silva, são pessoas que eu tenho muita consideração. Para mim, são pessoas que estão um bocado na vanguarda daquilo que é um movimento de resgate, mas ao mesmo tempo de respeitarem as suas camadas identitárias. Estamos a falar de pessoas que nasceram em Portugal, tirando o Lula’s, e que fazem uma reflexão identitária muito interessante, em que depois tem uma correspondência não só artística, mas também política, etc., de alguns deles, e para mim, eles são a referência.

Especialmente nos dias de hoje, em que a gente tem que começar a ter, por aquilo que está a acontecer ao nível global, e se calhar nessa dimensão mais nossa, mais doida deste país, temos também que ter uma capacidade de nos movermos ao nível político, não tem que ser necessariamente à superfície, pode ser num plano mais invisível, mas sentimos que estamos a ter um comportamento crítico em cada movimento que a gente faz, artístico, humano. Acho que agora o momento é esse. Há quem tenha a capacidade verbal para falar sobre política, como é caso do Nuno (Prétu/Xullaji), e há outras pessoas que não têm isso, mas que têm uma sensibilidade de criar trabalhos bonitos, são pessoas bonitas, pessoas que conseguem fazer o melhor à sua volta.

Acho que o momento agora é esse. Dentro daquilo que é esta relação com Cabo Verde, essas para mim são as pessoas que me interessam porque não são pessoas que estão somente viradas para si próprias, como há malta do mainstream que é assim e que, no fundo, depois a gente observa e são só entertainers, não estão a fazer nada, não estão a falar sobre racismo, não estão a falar sobre nada, a não ser entreter na televisão. Depois tens esta malta que toca com o dedo na ferida, que são prejudicados por causa disso porque se calhar tocam tópicos difíceis nesta sociedade e têm dificuldade em trabalhar certas coisas. Mas é a vida.

Fotografia por @fliponraw

Essa malta que está a falar mais entertainer, ou parte dela, vai então, se calhar, conseguir dominar mais os números, os palcos. Como é que olhas para esta indústria? Sentes essa espécie de hierarquia, no sentido de mais depressa se dar palco a esses entertainers do que a quem põe o dedo na ferida?
Eu estava a falar com o Ariyouok – olha, o Ari é outro, estava a esquecer-me dele, ele é um gajo incrível que gostaria que mencionasses – e dizer que a culpa é do sistema, mas ele disse que não, que o sistema está bem montado pois vai privilegiar certas pessoas. Claro que nós temos uma visão que ele cria desigualdades, etc., mas ele está montado de uma forma estratégica para trazer privilégios para certas pessoas. Os artistas nesse sistema, por exemplo, falando daqueles que promovem cultura africana ou afro-portuguesa, ou afro-diaspórica, eles integram-se, tens muitos que se integram super bem, e estão super bem e estão a bombar. O sistema consegue incluir. Aqui a questão é, como é que tu, enquanto artista, te posicionas num plano político, por exemplo, para estares num plano visível.

E aí é que é a questão. Se tu és um artista negro, que falas num certo layer do mercado, se estás posicionado num certo layer do mercado, tens que conter um certo tipo de visões que tu tens perante a sociedade porque se não és abafado. E tipo, isso é a realidade. Então está tudo bem ao mesmo tempo, que é assim, olha, quando esses estão lá em cima – o Lula’s disse isso – quando pessoas estão num certo plano de visibilidade, toda a gente ganha. Os artistas negros também ganham com isso. Isso também é verdade ao mesmo tempo que existem constrangimentos naquilo que pode ser a nossa capacidade de diálogo perante questões sensíveis da sociedade, neste caso em relação às desigualdades socioeconómicas, ao racismo, ao próprio machismo. Nós falamos de todas estas coisas, mas o nosso discurso tem que estar muito estabilizado, tem que estar estável esse discurso. Não pode ser muito forte. Não pode ser muito disruptivo. Ele tem que estar num lugar estável. Então é necessário que haja pessoas que falem sobre racismo. Até o Ventura fala sobre racismo. Isso tem que ser falado, ou seja, essa tensão tem que ser libertada. A gente não pode velar uma coisa que está a acontecer. E quem está nesse contexto tem um comportamento político estabilizado. É o que é: eu não quero criticar tanto isso, mas porque eu também acho que, inevitavelmente, não dá como.

Agora nós estamos a entrar numa fase da humanidade que eu não sei como é que vai ser a nossa geração, mas nós estamos a ver como é que isto está encaminhado, o que é que isto nos está a obrigar, seja num plano mais micro, dos micro climas da nossa vida, ou num plano mais macro, a forma como a gente tem que começar a atuar, porque já não nos podemos estar a agarrar a certas coisas. Temos que começar a andar para a frente, não é? Realmente isto está muito desafiante. Ser uma pessoa, ser um artista em Portugal, ser um humano neste planeta, por questões de desigualdade económica, por questões ambientais, enfim.

Então estas pessoas, ou estes artistas, ou nós próprios, que temos comportamentos que a gente sente que estamos a ser entertainers, que estamos a ser teatralizados, mais cedo ou mais tarde vamos ter de corresponder à nossa natureza, que é de, se calhar, nos rebelearmos, que é de nos afirmarmos. Não acho que seja de nos revoltarmos, não é isso, mas é de termos um comportamento de rebeldia, um comportamento de sermos mais ativos, perante uma realidade que a gente quer da vida, e não ficarmos tão iludidos. Agora, voltando à tua pergunta, eu acho que estes artistas, eles no fundo sentem o quão enganados estão a ser em certos aspetos. Eu não acredito que muita malta que está no mainstream acredite naquilo que está a fazer, eles acreditam porque os outros acreditam.

Vamos virar-nos um bocadinho para o álbum, também para não nos estendermos muito. Como é que foi todo o processo de composição? Há muitas gravações, há samples. Tens ali uma conversa numa música muito fixe, Karlon Barela. Consegues resumir como é que foi todo esse trabalho de composição?
Foi espontâneo no sentido de que, quando voltei de Cabo Verde, a primeira vez que eu fui, eu comecei a sistematizar todos os áudios que eu tinha. Quando faço viagens, não só para Cade Verde, mas para diferentes países, eu gravo muito, muito áudio, e vou sempre anotando aqueles áudios que eu sinto que podem ter uma potencialidade ao nível musical ou se calhar mais ao nível conceitual, enfim, não necessariamente para a música.

Depois, na altura, comecei a construir o disco a partir de coisas que, se calhar, eram-me interessantes. Ao mesmo tempo que eu conectei, por exemplo, com o [amigo holandês] Jasper, que me foi passando algumas músicas que foram muito fortes para mim, que eu gostei imenso. E outras coisas que são simplesmente as minhas infinitas divagações no mundo da internet. Eu tenho uma playlist no YouTube que, meu Deus, aquilo… Eu não mexo no Spotify, tenho um bocado de medo daquilo que é o alcance do Spotify, não o uso, não conheço nada, mas o YouTube é uma fonte muito rica de muita coisa. Então eu vou sempre colecionando. Depois, a partir daí, começou, inevitavelmente, a haver uma certa unidade em certas músicas.

A dada altura, eu também tinha visto o documentário dos outros bairros em que o Karlon participa, o Karlon dos Nigga Poison, e ao longo da minha pesquisa, seja na internet ou em Cabo Verde – desde então eu vou muito a Cabo Verde – fui sempre incluindo coisas que depois começaram a criar ressonância em mim ou entre músicas. Daí comecei a perceber, ok, há aqui um caminho, há uma unidade. A dada altura, na construção do álbum, eu percebi que seria importante, se calhar, eu conseguir ter a possibilidade de fazer um álbum que fosse mais plural naquilo que é a minha movimentação a nível estético, não fosse somente um estilo, etc, mas uma coisa que abarcasse diferentes gostos que eu tenho a nível de criação.

Se calhar houve uma música mais virada para o funaná, outra mais uma coisa meio techno, outra mais hip-hop, outra mais experimental, outra mais downtempo, trip-hop, assim. Tipo aquela do Karlon Barela, que está entre o downtempo, não sei, não sei bem o que é aquilo. Eu percebi que o álbum podia refletir diferentes possibilidades criativas que o projeto poderia vir a ter. Então é isso, foi um álbum em que eu tentei abraçar essas diferentes camadas estéticas que eu tenho.

E o que é que significa o título, Racodja?
Racodja é recolha em crioulo de Sotavento, de Badiu. E na realidade é uma homenagem a Orlando Pantera, eu acho, porque era um livro do Rui Cida, que é um antropólogo, é um livro muito interessante sobre o funaná, que é na realidade a dissertação de tese dele de doutoramento. Ele refere-se a isso com o Orlando, quando ele ia fazer histórias no meio rural de Santiago, isto numa altura em que havia muito esse questionamento pelos artistas, pela classe artística sobre a identidade cabo-verdiana, porque ainda estava muito presa, ainda está, muito presa àquilo que é a presença colonial, à presença portuguesa. E também faz parte, claro, mas de haver uma certa distanciamento e adormecimento daquilo que é uma relação com as pessoas.

Então, certos artistas, como é o caso do Orlando, foram muito aos meios rurais resgatar histórias onde realmente a identidade cabo-verdiana se calhar está lá de uma forma um bocadinho mais pura, menos embrulhada nesta crise identitária de quem se acha mais europeu ou de quem se acha mais africano. Em Cabo Verde isso é uma questão ainda. Racodja era o título que ele dava às suas recolhas, enquanto antropólogo, porque no fundo ele tinha um movimento como antropólogo. Ele ia às populações, recolhia as histórias e depois transformava-se em música. Ele foi um dos maiores. Ele já morreu, morreu muito novo, com 38 anos, ele foi um dos maiores compositores de Cabo Verde, inclusive a Mayra Andrade é conhecida porque ela cantou músicas dele, todas as músicas do primeiro álbum da Mayra são músicas do Orlando Pantera.

Mais duas para não te chatear muito: Tu disseste ao Observador alguma coisa como “se obrigarmos as pessoas a imaginar, elas também estão a participar na construção”. Então queria perguntar se também vês os concertos como momentos participativos.
Eu acho que sim. Por exemplo, a gente faz um desenho de luz em que nós ficamos em que nós ficamos em contraluz, então ficamos só em sombra, as pessoas não nos veem nitidamente. No palco está sempre muito fumo. As pessoas não conseguem bem perceber quem é quem que está ali. Claro que conseguem ver as nossas caras se fizerem muito esforço, mas há um comportamento ao nível visual em que a gente quer realmente tirar um bocado essa noção da forma. E isso faz com que as pessoas compensem – porque somos seres humanos, estamos sempre a dar significado a tudo – essas falhas que ao nível visual acontecem, de certa maneira. Acho que isso é um movimento bonito porque obriga as pessoas a imaginar outras coisas.

Há ali uma sinestesia porque há sempre um recurso que vem de fora, um sampling que te lembra uma conversa de uma pessoa que está a falar, depois estás a ver um palco em que estás a ver pessoas que não consegues vê-las nitidamente, de repente tens do teu lado um bailarino que tu não estás a perceber se ele é ou não é do grupo. Então as pessoas começam a entrar num lugar de imaginar coisas e de criar o seu próprio raciocínio perante aquele lugar e eu acho que isso cria uma experiência subjetiva. Cada um sai dali com a sua sensação – há pessoas que se calhar ficaram confundidas e dizem, outras que dizem que isto lembrou-lhes ou que fizeram uma viagem para um qualquer lugar.

Que mensagem têm para quem quer explorar e trabalhar as suas raízes?
Todos somos seres criativos. Somos todos poetas. Eu acho que é fazermos poesia por diferentes razões. A poesia assusta também aqueles que acham que nos controlam. Eu acho que aqueles que nos controlam, no momento em que a gente começa a fazer poesia, eles começam-se a assustar. No momento em que a gente não faz poesia, em que ficamos só a reclamar no café, em que ficamos só a reclamar no Facebook, eles não se assustam.

No momento em que a gente começa a fazer poesia, eles começam a perceber que somos autónomos, temos um sentido de rebelião, mas que também somos inteligentes. Não é rebelião de partir vidros – é de desenhar, de voar, de expandir, de conectar com outras pessoas, de criar outras pátrias dentro destas pátrias.

Algumas das perguntas e respostas desta entrevista foram cortadas por questões de extensão da peça

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