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Reportagem

Vinculum 2026: Um festival que não perde identidade

31 Julho, 2026 - 11:57

Mafalda Mendes traz o testemunho da quinta edição do festival que decorre em Mondim de Basto, João “Bão” Fortuna as fotografias.

As árvores sussurram, as escadas e pontes de pedra remetem-nos aos tempos romanos, e é neste cenário idílico que encontramos um micro festival de techno com os melhores nomes nacionais e internacionais. E (quase) não podia ser melhor.

Ir a Mondim de Basto, que exigia uma longa viagem desde Lisboa depois de um dia de trabalho, valeu cada quilómetro feito. Parece um cliché, mas é difícil pôr em palavras todas as camadas deste festival. Ainda assim, pareceu natural desmontar peça a peça tudo o que aqui se viveu.

Já estava a pista bem acesa quando (finalmente) entrámos no festival. Na impossibilidade de chegar mais cedo, não foi possível assistir às atuações de Aäg, Ferro.C90, Ruuar, o b2b de Johan e Francisca Urbano e o live de Dold, três acts de peso do primeiro dia. Há algo especial nos primeiros sets de um festival. São eles que ditam o tom de tudo o que vai acontecer depois: o momento em que nos reunimos ali pela primeira vez, quase como um ritual que dá início ao culto musical.

Backbone já entoava as primeiras faixas assim que pousei no dancefloor, e que mestria de um dos organizadores e cabeça deste projecto. Durante o seu set ouvimos Ha Jam, de Planetary Assault Systems, Manifest Content, de Hyden, e ainda Over You, de Temudo, todas editadas no ano passado e prova de que muito boa música foi editada em 2025.

Em conversa com Afonso Esperança, aliás Backbone, um dos cérebros desta organização, questionei sobre como um festival de pequena dimensão, mas que de “pequeno” não tem nada, se mantém forte e estruturado, já na sua 5ª edição. Segundo as palavras do próprio, este ano aproximou-se das mil pessoas, a dimensão exata que procuravam, mantendo a identidade do projeto intacta. “É um caminho feito de tentativas, erros e aprendizagens, com muitos desafios invisíveis pelo meio, mas o resultado fala por si”, partilha.

Quanto ao futuro, a visão é clara: já há ideias em desenvolvimento, mas este é também um momento de pausa consciente, para deixar “a poeira assentar” antes de partilharem os próximos passos. No fundo, mais do que crescer, o que move o projeto é criar um espaço onde as pessoas se sintam bem e seguras, num ambiente leve, quase suspenso no tempo, onde se recupera algo essencial: a ligação humana, simples e verdadeira.

Ainda na sexta-feira, Dasha Rush fez jus ao slot atribuído e deu continuidade ao que Backbone havia construído. Multidisciplinar, com uma carreira que já soma pelo menos três décadas, o set da artista não decepciona – sem falhas, poderoso, com faixas hipnóticas pelo meio, foi aqui que senti que o sistema de som não estava a corresponder à expectativa, aspecto a melhorar. Dasha Rush continua a provar que a música electrónica não tem, para ela, barreiras: Divide-se por múltiplos projectos, que tem levado aos mais conceituados clubes do mundo, desde o seu live de ambient, a uma atuação de techno acompanhado com banda ao lado do artista AnD. Presença assídua nos festivais portugueses, trouxe para estas bandas o seu techno clássico, com breaks e momentos de tensão no sítio certo – mais uma vez a mostrar que é uma escolha que não erra.

E para terminar este dia com chave de ouro, é MARRØN quem esteve encarregue pelo encerramento. Este foi talvez o act que mais me surpreendeu no festival inteiro. Há muitos anos que acompanho o trabalho do artista, ainda antes da sua ascensão. É um dos fundadores do colectivo holandês Eerste Communie, e todas as atuações que tive a oportunidade de ver até à data foram sempre muito orientadas para a cena clubbing 4/4 de duas horas. Nesta manhã, MARRØN revelou um lado artístico totalmente diferente. Mostrou que sabe também ele ser um storyteller – libertou-se de rótulos e expectativas, navegou pelo dub techno sem nunca perder a energia, vestiu as suas origens surinamesas e sentiu-se o bassline sul-americano por entre as faixas que passou. Um set conceptual, consistente, onde o neerlandês trouxe a vulnerabilidade daquilo que é enquanto artista e da sua história por detrás de um nome. Demos por assim terminado o primeiro dia de festival com nota dez.

Chegar a uma hora tardia no dia anterior não fez jus à beleza daquele sítio. O norte tem uma magia, um encanto qualquer que dificilmente se encontra noutro local e foi possível comprovar isso no segundo dia, onde pudemos apreciar o pôr do sol desde o parque de merendas. As cores quentes, que se misturavam no horizonte, fundiam-se com o set incrível que acabara de começar. Era Garçon. O co-fundador da editora suíça Amenthia Recordings, visivelmente divertido e a jogar “em casa” pois já tinha sido parte do alinhamento do ano passado. O artista viajou durante as três horas que tocou por faixas ambient, dubby, e foi gradualmente subindo os bpms até deixar a pista inteira eufórica a dançar sem que ninguém se apercebesse. Mais uma vez, o live de Rita Silva e a atuação de James Grouper tiveram que ficar para uma próxima oportunidade, que certamente não faltará.

Aurora Halal tocou um set absolutamente irreverente e bombástico, acho que são as palavras certas a utilizar. Foi o toque perfeito a seguir a Garçon, a locomoção que aquela pista precisava. Sendo a própria ativista e pioneira nestas andanças, criou em 2014 em conjunto com Zara Wladawsky um festival – Sustain Release – nos arredores de Nova Iorque, longe dos highlights da cidade – pequeno, com espírito de comunidade e para os verdadeiros amantes de techno. Dito isto, a artista soube exatamente como se posicionar num festival como o Vinculum, e assim o fez.

O incrível trabalho de João Dinis, do collective:zero, encarregue pelo desenho de luzes do festival, não passou despercebido. Durante os três dias soube movimentar-se e acompanhar cada act de forma irrepreensível. Quando incendiou a pista de verde a um certo momento, fez dela um cenário de ficção de uma verdadeira floresta encantada.

A noite seguia, e o set de Pariah começou por não me encher as medidas, embora tenha sido muito elogiado. Por essa razão, decidi explorar outras artes do festival. A caminhada pelo recinto levou-me até um cinema ao ar livre, onde curtas metragens experimentais iam passando numa tela gigante. Havia várias pessoas sentadas ou deitadas no chão em tapetes que preenchiam todo o espaço. Este projecto, a cargo do colectivo de Mondim de Basto Filmes aos Montes, trouxe “Curtas aos Montes”, que fez a intersecção da música com o cinema, e só podemos agradecer por este cantinho.

Um pouco mais abaixo, houve uma instalação artística que me despertou especial atenção. Este foi um projecto do Lyft Creative Studio, em parceria com o Vinculum e a XCEED, onde criaram um corpo de água suspenso, movido pelos dados de afluência do festival, fornecidos pela XCEED. “Através do movimento e da refração, a luz revela o ritmo, a densidade e a energia invisíveis da presença coletiva, transformando dados num fenómeno físico em constante evolução”, explicou-nos Tiago Costa, aliás James Grouper, um dos organizadores do festival e também um dos responsáveis pelo Lyft Creative Studio. Pelos recantos que se vão descobrindo ao longo do recinto, percebe-se que aqui tudo é pensado ao pormenor. E de volta à pista, faltou apenas mais iluminação para desenhar o caminho.

1morning já tocava os primeiros discos quando regressamos ao dancefloor, este que é uma das novas promessas do techno e um dos acts que tinha mais curiosidade em ouvir. O artista, que recentemente editou “I Told You So” pela Ilian Tape, tem como influências o techno dos anos 90 e o hardgroove dos 2000s. Misturou clássicos como Get On Up, de DJ Rush, num remix de Chris Liebing, e trouxe uma seleção que revelou gosto e memória. Ainda assim, senti alguma inconsistência ao longo do set, com uma ou outra faixa que podia ter sido melhor trabalhada na mistura. E se queríamos terminar este segundo dia em delírio coletivo, Freddy K entregou o momento perfeito que estava ainda por viver.

O veterano do techno e responsável por inúmeros lançamentos de peso através da sua KEY Vinyl, veio comprovar uma vez mais que misturar discos é uma arte que requer tempo, paciência, e muita vontade. A forma como os detalhes de cada faixa entram uns a seguir a outros como se construísse camada sobre camada e trouxesse um fio condutor que liga na perfeição toda aquela melodia é a imagem de marca do artista. Com mais uma hora e meia de música do que era previsto e 3 encores, a pista efusiva não o deixava terminar. Das últimas faixas que tocou, pudemos ouvir Revamp, uma faixa de techno cru de BAUGRUPPE90, editada em 2026 pela label Molekul; Phantom, de Habgud, num EP partilhado com Kabay pela Human Dynamics; e ainda Furious Loop, de Seigg, num remix de Mark Broom. Demos por terminado o segundo dia de festival, a decifrar como é que iríamos processar tudo aquilo que estamos a viver.

O cansaço começava a sentir-se, mas ainda tínhamos um terceiro e último dia pela frente. E este foi talvez o mais introspectivo, o que mais me fez observar a música no seu todo. A começar com Imberbe, que trouxe o lado ambient drone introspectivo dele. E é tão importante haver este tipo de actuações num festival, especialmente quando já quase todos carregamos duas noites em cima. Entrar no festival e sermos abraçados por estes sons, com aquela envolvência utópica da natureza, não tem preço.

Eram seis da tarde quando Kia virou (literalmente) a pista do avesso. A artista australiana tem sido dos nomes que mais tenho observado nos últimos tempos, e é absolutamente monumental a graciosidade e mestria com que se move dentro dos géneros que entrega à pista. Desde faixas de breaks – tocou Meadow, de Plebeian – até dub e dub techno – tocou a incrível faixa de Skudge, Parallel, passando por techno mais assertivo – e aqui ouvimos In Zone, de Beste Hira – ou ainda Deadman, de Shackleton, para termos mesmo a certeza que o nosso esqueleto (ainda) está de boa saúde.

Konduku, a penúltima atuação do festival, abriu com o tema Misterioso, de Que Sakamoto & NT e Paulo Santos, pela label Planet Mushroom, editada este ano. Foi uma escolha certeira e um momento bonito para dar início a uma nova viagem, e foi exatamente isso que o seu set trouxe a Mondim. A sua seleção musical é profunda e orgânica, e é uma lufada de ar fresco ouvir este tipo de artistas, que trazem uma atmosfera etérea a um festival de techno.

O grand finale do Vinculum 2026 ficou a cargo do italiano Marco Shuttle, e tanto haveria para escrever acerca deste artista. A sua sonoridade eclética é única, e levou-nos naquilo que podemos chamar de uma verdadeira expedição cinematográfica. Terminou com discos de bass music e uma ovação de uma pista certamente agradecida pela forma magistral com que encerra este capítulo.

É impossível terminar esta história sem um agradecimento a toda a equipa incansável deste Vinculum. Um projecto que nasce da amizade e paixão pela música de três grandes amigos e que se vem desenvolvendo e evoluindo ao longo dos anos com trabalho, muita vontade e muita criatividade, mas sem perder a sua essência. De uma forma pura e altamente profissional, colocam de pé um dos melhores festivais que temos por cá. Ficou guardada a curiosidade de saber o que nos espera em 2027.

Fotografias por João Maria Fortuna (Bão)

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