AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

Neopop 2026: Venham mais 20

21 Agosto, 2026 - 15:29

A segunda e última parte das recordações que trouxemos de Viana do Castelo. Difícil não querer mais 20 anos disto.

Muitos estiveram lá desde o início, outros chegaram mais tarde, uma nova geração conheceu-o agora. Nascido como Antipop em 2006, já na altura à volta do indissociável Monumento a Viana do Castelo, o Neopop foi e é uma referência dentro da música techno em Portugal. Deste lado, a aventura só começou na edição de 2016, cumpria o festival 10 anos, apesar de ser conversa recorrente desde os primeiros passos nas pistas a norte.

Para um então miúdo, pisar aquele recinto pela primeira vez mostrar-se-ia inesquecível. Na verdade, o impacto foi tal que ainda me lembro de Ben Sims e James Ruskin a tocarem o remix de Steve Rachmad à Work, de Ruskin. Essa faixa ficou comigo até hoje – e outras, diga-se – bem como todo o espírito de união. Betos, grunhos, graúdos, putos como eu a estrearem-se em experiências daquela dimensão.

Depois de um ou dois anos de interregno, voltei a Viana no ano passado apenas por uma noite. Felicidade a minha quando notei que esse mesmo espírito ainda estava lá. Se até voltar a minha cabeça teimava em pensar nas coisas que gostaria de ver feitas de forma diferente – e ainda quero, mas deixamos para depois – rapidamente me esqueci disso quando cheguei à pista. O espírito daquelas gentes nunca se perdeu e mantém-se bem vivo.

Este ano, na celebração do 20º aniversário, finalmente voltei a viver o Neopop por completo. Ou quase, já que houve música no Teatro Sá de Miranda no dia anterior, com concertos de James Holden & Wacław Zimpel e Mathew Jonson e DJ set de Peter Mør e Sepypes, e sets também surpresa de FJAAK e Héctor Oaks no Neocamping, onde a Alínea A assina curadoria nacional há anos e onde levou os coletivos Liquid Skin, Dark Sessions e Analytical Convenience nesta edição. Teatro esse, recordo também, onde ouvi nomes como Aïsha Devi & Emile Barret e Surto (Switchdance e Carlos Maria Trindade) na edição de 2019.

Ouvir: 20 faixas ouvidas no Neopop 2026

Chegados ao Forte de Santiago da Barra na quinta-feira, deparámo-nos rapidamente com a nova disposição, que permite ter espaço para um novo e terceiro palco. O Anti Stage mantém-se no mesmo sítio, enquanto o Neo Stage é agora encostado ao forte, onde chegou a ser no passado, cremos, o que acaba por fazer desse castelo histórico algo mais presente (ou visível, dada a visão tantas vezes distraída) na experiência.

Os Space Riders estavam a tocar no Neo Stage, contudo não podíamos perder Alex FX a inaugurar o Back Stage em modo híbrido. Pista convidativa, luzes baixas, com capacidade para umas 300 pessoas – talvez, mas com espaço circundante para mais – e uma casa-de-banho por perto. O veterano portuense estava em modo breaks, com electro, drum’n’bass e até dubstep à mistura através de faixas como o remix de Dusky a Are We Here?, dos Orbital, Lotus, de Kessler, ou Photek em The Seven Samurai. Boss como sempre.

Fotografia por Miguel de Sousa

Saídos do Back Stage, assustámo-nos com DJ Gigola. Como é que o relógio está a bater a meia-noite e já se está a tocar tão rápido? Tiro ao lado das nossas sugestões, apesar de respeitarmos o trabalho dela e de ter dado para ouvir a sua Gratitude Practice. Melhor estavam Goldie e Dust Devices (live) no Anti Stage e Back Stage, respetivamente, embora obrigasse a ficar sempre por orientações de breaks. Com o habitual FOMO, acabámos por apanhar um bocado dos dois – o primeiro a tocar temas como Malice, de Phase, lançado pela sua Metalheadz; o segundo numa das suas atuações live tão complexas quanto deliciosas e a passar por interpretações do recente “SBX Sector A”, editado pela Rapture.

Nesse impasse de indecisão entre palcos, acabámos por ficar no Anti Stage a ouvir um incrível live de Mathew Jonson, bem envolvente, de fechar olhos e deixar o corpo ir, de tal modo que, admitimos, só nos lembramos mesmo da Marionette na parte final. Essa certa distração aconteceu também com Supermayer. Faz parte. Pelo caminho tínhamos perdido e iríamos perder nomes como Nina Kraviz, que apanhámos a tocar Doiicie A, de Minilogue, o elogiado duo francês Marta ou, no Back Stage, Ana Pacheco b2b Mingote.

Foi bom ver RHR no programa do Back Stage, mas, olhando para trás, talvez não tenha estado na melhor slot ou dia, visto que tocou entre Rita Maomenos e os discos rápidos de Nuno Forte b2b Tilinhos, duo que seria depois sucedido por DJ Lynce. Talvez fosse bom o convidado internacional ter sido alguém na intersecção destes, como uma upsammy ou Kia. Ou então é mera opinião.

Nesse sentido, foi também estranho ver Indira Paganotto a suceder Ben Klock b2b Rødhåd no Neo Stage. Não era preciso stressar, no entanto, já que havia atos como Enrica Falqui b2b Ivan Smagghe e Adiel b2b Quest no Anti Stage. O b2b dos alemães foi o que se espera de parte da oferta no Neo Stage: techno direto, sem rodeios, e malhões como Descartado, de DJ Dextro & Cardao. Numa noite que teria ainda BIIA ao lado de Patrick Mason e Héctor Oaks com Partiboi69, saímos mais cedo por obrigações profissionais na sexta-feira.

Segunda ronda, descansámos o máximo possível para aguentar até ao fim. Chegámos pouco depois das 22h, estavam os Roundhouse Kick a ocupar o Anti Stage com linhas acid, para ouvir Octave One. Admitimos que não nos encheu tanto as medidas quanto esperávamos, embora ouvir a Blackwater ao lado de uma multidão seja sempre especial. Nesse Neo Stage, seguir-se-ia Dubfire e um techno sério que não antecipávamos, como é caso de U Used to Laugh at My Jokes, de Temudo, tema que também Richie Hawtin tocaria mais à frente. Power.

Daí seguimos para o Anti Stage, onde apanhámos o final de DJ Nobu b2b DJ Yazi e o imperdível set de Alarico b2b Yanamaste, marcado por temas como Two Letters, de Sciahri, Iso, de Phil Berg, e um de dubstep como curveball pelo meio, claro, não fosse o italiano um fã dessas sonoridades. É disto que a gente gosta.

Aí, no Anti Stage, haveria ainda Ellen Allien b2b Salome e Helena Hauff b2b IMOGEN, quatro patroas, mas fomos apanhar atos do Neo Stage. Um desses foi Richie Hawtin, com o espetáculo “DEX EFX X0X”, que passou por Sad Girl, de BLANKA, Gaiser ou uma unreleased do luso-angolano Cassulle. O canadiense mora em Lisboa e voltou a mostrar respeito pela nossa cena, tal qual em 2025, quando fechou com uma de A.k.Adrix. Aqui, importa mencionar que, nessa tarde, Hawtin havia tocado em plena Praça da República, no centro de Viana do Castelo, num pop up que provou o quão importante é o Neopop ter atividades como esta, por todos os motivos e mais alguns. Salva de palmas, de facto.

Richie Hawtin na Praça da República

Ainda no Neo Stage, Ben Sims b2b Chris Liebing e Joseph Capriati b2b Luke Slater assinariam outras lições. Os primeiros passaram faixas como Flare Gun, de KR!Z, M-Tallic, de Mark Broom, e Tough to Say, de Temudo – como é que o torreense ainda não tocou no Neopop, já agora? – e os segundos levaram um incrível e abrangente set que, para se ter ideia, tocou em coordenadas disco-soul na parte final – ou somos nós enganados? – e terminou com a clássica La Rock 01, de Vitalic. Que reis.

Daria Kolosova foi a responsável por fechar o Neo Stage nesse dia, mas queríamos ouvir Gusta-vo b2b Zadig no Anti Stage. Que controlo, que tensão, que seriedade mental e hipnótica. Com o português acompanhado por um prato e ao lado de um nome habitual no festival, esse set fechou com chave de ouro a nossa sexta-feira, com faixas tão portentosas quanto Black Pearl, de Elisa Batti, e Ratio, de Deetron. Outros reis.

Apesar de nos termos deixado levar pelo techno do Neo e Anti Stage, ainda fomos espreitando o Back Stage, que teve um dos pontos mais positivos desta edição. Com NOIA convidada para fazer a curadoria desse palco nesse dia, houve um line-up repleto de mulheres, nomeadamente a portuense ao lado de Maki, Mix’Elle, Violet e da pioneira DJ Storm. Que importante e que bom foi ver o Neopop a abrir portas para isto. Sendo referência, o festival tem uma certa obrigação moral em dar este espaço, apesar de, no fim de contas, ser livre de fazer o que bem quiser. Impossível não parabenizar, ainda que dois dias de breaks no Back Stage possam ser demasiado para um público que quer tanto 4/4. Voltando ao que referimos atrás, talvez fosse bom um dos três dias ficar a cargo de DJs que estejam na intersecção entre breaks e techno.

Nessas aventuras de andar de trás para a frente, impossível não parar para ver a exposição dos 20 cartazes de Antipop e Neopop entre Neo Stage e Back Stage, com uma homenagem a Carlos Vilela, José Quintas e Magazino. Por entre referências a Fidel Castro, memórias do “nosso” Trikk a tocar às 8h30 da manhã no Neo Stage ou bookings algo recentes de concertos de Kraftwerk, Moderat, Underworld e St. Germain, ficava a sensação de que o Neopop pode dar mais nos próximos 20 anos, concretamente atuações desse calibre e mais slots em horário nobre para nomes nacionais. Mas os últimos 20 têm de ser vistos como um todo e o festival deu-nos muito.

Se no dia anterior queríamos descansar o máximo possível, no sábado ainda mais, uma vez que a festa iria até ao meio-dia – na verdade, foi até às 13h. Apesar disso, tínhamos de apanhar Frank Maurel b2b Josh Wink e foi o que fizemos. Entrámos à 1h, tinha a dupla entrado à meia-noite, e ouvimo-la a tocar acids, ondas mais tribal, Don’t Laugh de Wink (se a memória não nos engana) e a brincar até com Music Sounds Better With You. Mas os verdadeiros destaques estavam no Anti Stage, onde estivemos fechados das 2 às 6h30, e por isso perdemos The Martinez Brothers, Paco Osuna e só ouvimos 30 minutos do live de FJAAK e KiNK. Mais ainda, nem sequer pisamos o Back Stage nesse dia, pelo que não apanhámos, por exemplo, a casa cheia que esteve a ouvir Freshkitos.

Que noite absurda e inesquecível no Anti Stage. Primeiro, três patrões em b2b: Orbe e a dupla Ruuar. Um daqueles sets de total foco tanto dos DJs como da pista, no qual ouvimos Solarite, de Divide, ou Dub Rola, de Talismann, e ficámos completamente enfeitiçados.

Mais especial ainda foi o b2b entre as referências Jiggy e The Advent. Meu Deus. Que aura. Não sabemos o que dizer senão imensa gratidão por termos presenciado tamanha atuação lendária, repleta de construção e release, que tanto foi ao presente (como Nørbak a remisturar In Mein Glas, de Schwefelgelb, a collab de Cisco Ferreira com Lewis Fautzi Graviton Field ou Phil Berg em Nyx) como ao passado (Dave Clarke em Way of Life, algo de Mark Broom e até uma brincadeira séria com o clássico Get Get Down, de Paul Johnson). Repetimos: Meu Deus. Provavelmente o grande set deste Neopop.

Fotografia por Miguel de Sousa

Perto do fim desse b2b, saímos para o lado para comer um caldo verde enquanto ouvíamos o restante. Sem sair do Anti Stage, fomos ouvir o live de Lewis Fautzi, mas admitimos: sabemos que gostámos mas não nos lembrámos de nada. Tínhamos sido completamente absorvidos por Jiggy e The Advent e foi só seguir viagem naquela pista séria. Aproveite-se para dizer que, por muito grande que o Neopop seja, veem-se poucos telemóveis. Assim é que é.

Perto das 6h30, fomos ouvir o fim de FJAAK e KiNK, contudo, mais uma vez, já íamos embalados, pelo que não temos muito a dizer. Daí ouvimos um pouco de Jeff Mills, que abriu a controlar com calma e fechou com temas como Dark Shape, de Decoder, e fomos para Chlär já que não faltam oportunidades para ouvir o mestre de Detroit. O suíço, bem, foi tão bom quanto seria de esperar, à imagem de atos como Alarico b2b Yanamaste, e tocou faixas de nomes como Marcal. Lá está: já íamos embalados e era só bater pé, tirar notas que se lixe.

Nessa onda, confessamos que nem queríamos ir para Laurent Garnier e o nosso corpo estava a dizer-nos para ficar em Dax J, que passou malhas como The Rattle, de James Cherry. Ainda assim, a obrigação era ouvir o maestro, por todos os motivos e mais alguns, entre os quais o facto de o francês ter intenção de não voltar a grandes palcos nos próximos tempos.

Tal como em 2019, o le grand finale assinado por Laurent Garnier fica para a história do festival. Um set que, mesmo passando por músicas que já não nos apetece ouvir, como Solitary Daze, de Maceo Plex & Gabriel Ananda, não peca pois sabemos que se há atuação que se pode apelidar de viagem é esta. House, techno, UK Garage ou clássicos como Knights of the Jaguar, de DJ Rolando, e até Pink Floyd em Shine On You Crazy Diamond. No fim, consecutivamente, A New Error, de Moderat, e Reviens la Nuit, do próprio. Difícil criticar. Nas palavras de muitos, difícil esquecer.

É claro que nem tudo é um mar de rosas. Houve queixas sobre a demora para entrar na sexta-feira, os WCs no Back Stage formavam grandes filas por vezes, continua a faltar uma zona chill mais confortável, por vezes (embora raramente) há gente atrás do DJ e, mais urgente, faltam sombras para um dia como domingo – no mínimo, faltam bombeiros com mangueiras. De certo modo mais importante, faltam nomes portugueses a tocar de manhã ou em peak time no Neo Stage. O festival tem de voltar a não ter medo de arriscar – tomando 2019 como exemplo, nesse ano ouvimos lá um desconhecido para a maioria, 400PPM, às 3 da manhã, houve Underworld e Hardfloor no Neo Stage e Vil tocou em horário nobre no Anti. Se o festival convoca público pelos nomes grandes, então não há problema em fazer uma aposta pelo meio – assim que um tuga apertar play, ninguém vai arredar pé, e há uns quantos exemplos de DJs que têm de ser chamados para tocar no Neopop.

Qualquer festival e evento tem pontos a melhorar. No caso do Neopop, uma coisa é certa: dentro do que faz, tem uma fluidez que poucos apresentam e é difícil ver falhas em matéria organizacional. Continua a ser um festival de referência – não há de deixar de ser – e um belo ponto de encontro para uma comunidade portuguesa (e espanhola). No fim, com a nova disposição, sentados ao fundo do recinto com vista desafogada, contemplamos o palco à esquerda, as gentes, a estátua, o farol, os céus. À saída, os jardins de Viana de Castelo repletos de ravers e a certeza de que queremos estar lá daqui a 20 anos. Quem sabe, para a nossa geração, com filhos a dançar ao nosso lado. Que lindo é o Neopop.

Fotografia por João Pedro Krug

Fotografia de capa por Miguel de Sousa

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