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A Cabine

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Crónica

Planeta Manas: My House Is Your House

25 Julho, 2025 - 12:32

A carta de amor (e de despedida) de Tiago J. Silva ao Planeta Manas.

Esta sexta-feira, o Planeta Manas abre as portas pela última vez para nos receber. A última vez que estaremos todos juntos em órbita e a dançar contra a gravidade.

Não sei quantas vezes fui ao Planeta. A certa altura deixei de as contar. Nestes últimos anos, o Planeta foi um lugar onde se passou quase tudo. Um lugar onde estive com pessoas que marcaram a minha vida – algumas por instantes na pista, outras para sempre. No Planeta, conheci e reencontrei amigos, reconciliei-me com outros, descobri coisas novas e desaprendi o que achava que sabia.

O Planeta era o lugar mais perigoso de Lisboa porque era o mais livre. Às vezes essa liberdade assustou quem invadiu o espaço para acabar com a festa da vida. Era um lugar onde a utopia se tornava realidade e onde a noite nos deixava vislumbrar o que o mundo podia ser. Um lugar onde o sonho ganhava corpo: os nossos, a marchar juntos até um destino novo.

Já fui feliz a dançar em muitas moradas. Nunca encontrei o espírito do Planeta em nenhuma. Porque o Planeta não era só um lugar onde íamos sair à noite.

No Planeta conversava-se, discutia-se política, experimentavam-se novas ideias, gestos e formas de existir em conjunto. Havia performances, filmes e instalações. Faziam-se amigos e amantes e companheiros para a luta. No meio do fumo e dos strobes ensaiávamos a resistência. Estive no Planeta com quase todos os meus amigos. Das noites que lá passámos, entre abraços, cigarros e palavras de amor, construímos uma língua nova. Surgiram músicas que continuamos a ouvir cá fora, piadas privadas, palavras que inventámos para descrever o que lá se passava e que passaram a fazer parte do nosso vocabulário.

No Planeta cabíamos todos. Dançávamos como queríamos e com quem queríamos. Aquele lugar era nosso. Pessoas de todas as idades, géneros, corpos e identidades partilharam aquele chão. O Planeta recebia toda a gente, mesmo aqueles que lá iam parar por engano – desde que mostrassem respeito por todas as pessoas.

No Planeta também cabia toda a música. Era um lugar onde podíamos ouvir tudo, até o que não ouvíamos em mais lado nenhum. Na mesma noite podia haver techno, trance, house, breakbeat, drum and bass, neoperreo, disco, garage, dubstep, electro, funk, reggaeton e trip hop.

As distinções entre estas coisas não nos interessavam nada. Dançávamos tudo, sem ligar a géneros, e a generosidade de quem lá trabalhava e punha música não tinha igual.

São incontáveis as memórias que levo do Planeta e não poderia escolher as minhas favoritas entre tudo o que lá vivi. Guardo-as todas.

Não vou esquecer os textos lidos pelo Cru Encarnação. A vez em que a Odete fechou a manhã com a Devia Ir. Os remixes impossíveis que o Phoebe passou. Sets de BLEID que me fizeram acreditar que tinha chegado o apocalipse. Todas as noites em que fechei os olhos durante transições da Violet e achei que o Planeta ficava noutra galáxia. Os sorrisos conhecedores de marum a subir os BPM. A paciência infinita da Nádia Ferreira para todos nós. E a festa em que a Maria Amor e o Shcuro me devolveram à infância a ouvir as compilações do meu pai do Alcântara-Mar. A mina com a SEAFOOD em que HAO e DJB reinventaram tudo atrás dos decks.

Dizíamos sempre que daquela vez íamos embora mais cedo e acabávamos sempre a fechar. As luzes acendiam-se e a Francisca aparecia com as chaves na mão – cada um tem o São Pedro que merece. E cada um de nós teve ali a sua pequena revelação. Quando acordávamos, falávamos de como a noite passada é que tinha sido a melhor de sempre. Isto repetia-se a cada regresso. A melhor noite no Planeta Manas foram todas.

Seria impossível nomear as dezenas de pessoas com quem partilhei a pista. A quem o fez e agora lê estas palavras desajeitadas, abraço-vos com força e espero ver-vos esta sexta-feira para a última dança.

Obrigado a quem manteve o Planeta a girar durante tanto tempo. Obrigado a quem cuidou de nós, a quem me passou leques para as mãos quando o calor que emprestávamos à pista era demasiado, a quem nos deu um lugar onde ser livre era possível.

O Planeta Manas fecha mas quem por lá passou vai continuar o legado do que ali se fez, até que um dia todos possamos voltar a dançar como bem nos apetecer.

Imagem também assinada por Tiago J. Silva

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