Entre feridas e cura, David Falcão apresenta em “Eme”, o primeiro álbum de Petraculto, o seu trabalho mais pessoal até à data.
Muitos conhecem-no por Cassulle, nome com que edita música techno há vários anos. Como Petraculto, David Falcão procura “focar-se unicamente na emoção que a música lhe consegue dar”, explicava o próprio aquando do lançamento do EP de estreia “Expressions of oneSelf”, que teria um sucessor que destacámos entre os nossos favoritos de 2023. Já mais recentemente, o DJ e produtor radicado na Bélgica fundou a sua própria editora, DOMU Records, cujo catálogo foi inaugurado com um EP de Tensal.
Pelo meio, este “Eme” esteve sempre presente. Marcado por breaks ou samples que vão desde bandas-sonoras de videojogos à música negra dos Estados Unidos da América, é um trabalho pessoal e com um lado emotivo bem vincado. Não é para menos, conforme podemos perceber com a história por trás do disco.
“O álbum está feito há já quatro anos. Esperei e esperei. Se eu sabia que ia sair agora? Não. Se contava demorar tanto tempo? Também não. Mas como é algo tão chegado a mim, senti que, se não o lançasse, também não perdia nada. Será sempre meu. Fiz isto para mim”, confessa à A Cabine.
Desde faixas que lhe transmitem viagens do Lux Frágil para casa (Ocean Drive) até outras que representam a “cidade deserta de almas” que viveu em Lisboa (Sands of Al-Ushbuna), Falcão nota que “as músicas são representações de fases e momentos de vida.” E vai mais além.
“Este trabalho nasce principalmente devido a uma casualidade. A vida. A imprevisibilidade da mesma e sem esquecer as adversidades que ela traz”, conta. “Muita das minhas feridas mais profundas foram abertas e emocionalmente sentia-me perdido, com raiva e, o pior para mim, sem qualquer confiança no que sou.”
David Falcão continua por explicar que não estava a encontrar prazer e agradece à “música e a quem o rodeava” por puxá-lo para cima: “A minha namorada bem me dizia para eu fazer algo, criar e deitar as coisas cá para fora. Ela dava-me muito espaço para isso. Quase como deixar-me no meu pequeno casulo. E é daí que nasce este álbum.”
À medida que isso acontecia, “quanto mais se afastava das batidas repetitivas do techno”, mais o DJ e produtor se “apegava ao alter-ego Petraculto”: “Mais emoção, menos atenção ao pormenor técnico, mais vontade de me arrepiar com o que faço. Se me fazia fechar os olhos e esboçar um sorriso ou um franzir de sobrancelhas, mais eu queria isso”, diz-nos.
Sobre o processo de “Eme”, David Falcão recorda: “A parte criativa deste álbum deve ter sido feita em duas semanas. Passei horas depois do trabalho, na minha volta de rotina em que passeava o meu cão, a ouvir o que fazia. E cada vez sabia melhor, principalmente quando parava um bocado no Miradouro do Monte Agudo para beber uma cerveja, ver o pôr do sol e mostrar a minha namorada o que andei a fazer no dia anterior. E ela própria me apoiava mais, sempre dizendo que preferia muito mais este meu alter ego ao Cassulle. Eu ria-me, mas entendo bem o que ela diz.”
O caminho deste trabalho chegou eventualmente ao fim, mas o luso-angolano “não sentiu necessidade de o mandar logo cá para fora” nem vontade “de o mostrar ao mundo.” Mostrou a pessoas em quem confiava, desde amigos chegados e família até produtores que admira. E agora que o disco está cá fora, não lhe restam quaisquer dúvidas: “É uma parte de mim”, conclui.
O álbum está disponível, pelo menos para já, no Bandcamp e SoundCloud. “Eme” conta com masterização assinada pela Kerf Mastering e artwork por Tiago Mena Abrantes.
Fotografia por Ruben Marrocos

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