A caminho da CIGA Festa, falámos com membros da CIGA239 para nos contarem a história deste coletivo e associação conimbricense.
Reunindo nomes de referência no panorama de música eletrónica, o festival decorre entre as 23h00 e as 4h00, esta sexta e sábado, tornando esta cidade o “epicentro da cultura de clubbing”. Este evento conta com o apoio de instituições locais e serve como um pilar para a apresentação dos projetos desenvolvidos durante o período entre a primeira CIGA Festa e a que estará para decorrer.
A descentralização da cultura é um dos pilares deste coletivo que, pela segunda vez, convida a malta a seguir para a festa. A curadoria conta com o brasileiro Holandês, bem como nomes de referência nacional na forma de Saya, Violet, Lake Haze e Dj Doraemon. A cultura e os DJs locais também se destacam neste cartaz sob selo CIGA239, visto que contamos com DJs desta associação cultural a abrir os decks na pista do Teatrão.
Chico, Ramires e Bicá são os três nomes por trás da criação de CIGA239. Foi durante a pandemia que, graças a uma página de Bandcamp, este projeto com selo conimbricense começou a afirmar o seu nome no mundo das editoras alternativas e independentes em Portugal. “Nós fomos os fundadores, no sentido que criámos o Bandcamp, e decidimos desde o início que ia ser um projeto, onde eu [Chico] e o Ramires produzimos e o Bicá fica encarregue dos designs”, revela Chico, um dos membros fundadores.
Ramires relembra que esta ideia marinou deste 2017, quando criaram um projeto protótipo que viria a ser mais tarde a CIGA239: “Houve uma proto-Ciga, que era a Alcatifa, mas nunca lançámos nada. Houve conversas entre mim e o Chico de fazermos uma editora depois de eu ter lançado o meu primeiro EP”, conta.
“Era uma ideia do que poderia ser uma editora, na altura estávamos nas sonoridades de world music e música eletrónica, que ainda descreve um bocado o que fazemos. Eu e o Ramires fazíamos música juntos e o Pedro [Bicá] fazia o design para as nossas produções e eventos. Na altura da pandemia, conversámos sobre criar uma editora, depois de eu ter produzido a Franklin. Eles gostaram e decidimos criar a CIGA239”, adianta Chico. Já com as mãos na massa, Pedro Bicá desenhou a capa e a gravadora deu os seus primeiros passos pelo Bandcamp em abril de 2020.
O nome Ciga originou da página de Instagram dedicada aos designs de Bicá, onde desdobrava livremente o seu lado criativo: “Eu tinha uma página para explorar os meus projetos de design, o meu lado criativo, e utilizei a palavra Ciga que transmite movimento, fazer coisas, no fundo era uma brincadeira linguística. Naturalmente, quando surgiu a ideia de produzir música e criar uma gravadora, essa palavra já estava na nossa mente, juntamos o 239 que é uma referência a Coimbra e, a partir daí, nasceu o nome”.
A Rádio Universidade de Coimbra funcionou como um suporte para os membros da editora coimbrinha descobrirem a produção musical. Foi graças a noites perdidas em rabbit holes na RUC que a paixão se materializou e, consequentemente, começaram as experiências de produção sonora de Ramires e Chico no Ableton.
“A RUC é um melting pot de influências que nos obriga a explorar coisas novas, visto que fazer um programa de rádio exige a demanda por coisas novas e claro que isto contribuiu para o nosso crescimento a nível musical, bem como estimulou a nossa criatividade. Dentro do grupo, eu comecei a produzir e incentivei o Ramires, depois também, de forma mais independente, o Nóbrega, o Silveira e o Marujo [membros atuais do coletivo CIGA239]. Não dá para descolar a rádio da CIGA, se eu não me envolvesse nesse meio talvez não teria começado a produzir no Ableton e não teria tantas ideias de como fazer música”, afirma Chico.
A segunda track publicada pela label estreou a colaboração de Ramires e Chico, sob o nome de Caucenus e She Co., respetivamente, na faixa Rebolim, poucos meses após o lançamento de Franklin. A ideia para esta produção remete a um chat de Messenger onde se discutia os samples que iriam ser utilizados, bem como constava como um meio partilhar feedback colaborativo, algo que ainda se afirma como a raiz do processo de produção das malhas do coletivo.
Ao longo dos anos, a CIGA239 continuou a crescer e a acolher produtores sediados em Coimbra, fortificando-se na paisagem sonora da cidade. Esta consolidação materializou-se quando a editora foi formalizada como uma associação cultural. Ramires admite que este marco foi alcançado graças ao apoio dos membros que acreditaram e permitiram tornar este projeto numa “coisa mais associativa”, abrindo a possibilidade para um novo caminho, o que, naturalmente, pressionou o grupo, composto por cerca de 10 a 15 membros, a perceber quem eram, o que queriam e quais eram os seus objetivos, relembra o produtor.
“Nós queríamos desde o início abrir a gravadora a pessoas de Coimbra, ensinar o que tínhamos aprendido através da experiência e permitir que dessem os primeiros passos no processo de produzir, misturar e masterizar”, explica Ramires. “Não queríamos estabelecer uma sonoridade específica em Coimbra, mas brincar sobre o que é que a música eletrónica da cidade pode ser, e é uma coisa que fizemos e fazemos todos juntos. Penso que ter uma editora a publicar música com pessoas relacionadas com a cidade é uma ação muito direta em querer colaborar com esse diálogo e construir algo que organize festas e projetos de produção”, adianta o membro fundador.
Entre os objetivos, a associação cultural adianta que continuar o trabalho de outros coletivos de Coimbra, capacitar produtores emergentes, criar espaço para talentos locais e para a cultura alternativa da cidade no espectro musical e crescer colaborativamente são os valores guiam a atitude da CIGA239.
É através destes pilares que se materializaram o lançamento de projetos com o selo CIGA239, como “Promessa”, por Tiago Calvinho Mendonça, “Volume”, por Silvveira, ou “Paisagens Glitchadas”, por Caucenus. Nomes que se encontram também pelos EPs “Nice! Primavera” e “Uau! Verão”, que se desenrolam por várias sonoridades e têm cunho dos vários DJse produtores que constroem esta associação cultural.
Chico descreve estas coletâneas como uma amálgama de “diversas coisas um pouco guiadas pela ideia inicial que é desenhada em comum, de modo a todos saberem qual é o ponto de partida”. Nada foge à prática desta gravadora: são mostradas as músicas e, colaborativamente, chega-se ao projeto final. Os designs não são exceção e detêm o referido cunho e autoria de Pedro Bicá.
O próximo fim-de-semana detém estampa de CIGA239, que dá música a Coimbra e convida a comunidade para seguir para a festa. Os bilhetes estão disponíveis e podem ser adquiridos aqui.
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