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Entrevista

Caroline Lethô: “A experiência [da RBMA] é algo… inexplicável”

17 Dezembro, 2018

Caroline Lethô recebeu-nos no seu estúdio, em Marvila, onde falou sobre passado, presente e futuro.

Carolina Mimoso, ou Caroline Lethô atrás da cabine, é uma jovem dj e produtora residente em Lisboa, que muito tem dado que falar nos últimos tempos. Para além de atuações em clubes e festivais um pouco pelo país fora, participou, em setembro deste ano, na prestigiada Red Bull Music Academy, que aconteceu em Berlim. Já lançou música em importantes editoras portuguesas (AVNL, Labareda, Extended Records, …), tem um programa mensal na Rádio Quântica, o String Theory, e essencialmente um prazer imenso em fazer e partilhar música.

Encontrámo-nos no estúdio de Caroline Lethô para conversar sobre o seu percurso, projetos e aspirações.

Carolina, começamos com a pergunta clássica. Como é que tudo começou? Sabemos que vens de Faro, no Algarve. Não é o primeiro sítio que se associa à música eletrónica em Portugal…
Pois… de facto não é! Mas, na altura em que eu estava a crescer, aquilo até era bastante engraçado. Havia um bar super pequeno, chamado “Nordik”, que eu frequentava quando comecei a sair à noite, aí com os meus 15/16 anos. Na altura não conhecia música eletrónica, nem sabia o que era um DJ… Mas, anyway, comecei a ouvir música, comecei a criar um gosto grande, e com 18 anos estava a organizar umas festas de drum com uns amigos, lá em Faro. E foi assim que comecei como dj, numa dessas festas, uma vez que tive de substituir alguém que não pôde vir tocar. Aconteceu de forma muito intuitiva – eu tinha só o conhecimento básico, sabia que os BPMs tinham de estar mais ou menos certos, que era a primeira batida com a primeira batida…

Tinhas tido alguma formação musical até então?
Entrei no conservatório com 7 anos, e tive formação musical durante quatro. E ia sempre aos ensaios do meu pai, que tocava saxofone. Eventualmente, ele perguntou-me se eu queria aprender a tocar algum instrumento, e eu escolhi a bateria. Durante uns meses tive umas aulas, que acabaram por durar pouco tempo porque o meu professor era um bocado baldas, e o meu pai tirou-me de lá (risos). Depois, com cerca de 12 anos, o meu pai estava a ter aulas na Filarmónica de Faro – que é assim um bocado atípica, porque é bastante virada para o jazz… E eu comecei a ter aulas de baixo, que continuei até aos 16/17 anos. E foi por volta dessa altura que comecei a sair, a conhecer a música de dança, que comecei a tocar… e acabei por deixar as aulas de baixo, apesar de ainda continuar a tocar.

Para além disto, o meu grupo de amigos também sempre foi muito ligado às artes. Um dos meus amigos fazia música, e foi ele que me incentivou a experimentar – e foi aí que comecei a “brincar” muito com a música, até aos meus 21/ 22 anos… Vim para Lisboa estudar no IADE, Marketing e Publicidade, mas rapidamente percebi que não era isso que queria fazer, de todo. Então no meu segundo ano fui para a ETIC estudar música eletrónica, e foi aí que percebi que ir para a escola podia ser bom e divertido (risos). Foi um ano muito bom, em que aprendi imenso… Já perto do final do curso, em 2015, recebi a proposta do Diogo, da AVNL, para fazer um EP para a editora. Em agosto desse ano fui para Oslo, e enquanto lá estava, a Inês [Coutinho] surgiu com a ideia da Quântica. Depois apareceu o convite da Sonja para ter uma malha na compilação só de mulheres portuguesas que ia sair pela Labareda. E foi aí que houve a festa no Lux, onde aconteceu a minha estreia como DJ… no Lux (risos). Foi assustador, mas claro, muito bom ao mesmo tempo… E depois as coisas foram acontecendo, comecei a tocar mais e mais, até um ponto que tive de “abrandar”, porque estava a tocar quartas, quintas, sextas e sábados, eram fins-de-semana muito cansativos, e depois o que recebia não era, de todo, compensador.

Entretanto surgiu também a Intera, um projeto em conjunto com a Telma…
A Intera começou há coisa de um ano… vamos lançar agora uma compilação para celebrar o primeiro aniversário! Fizemos uma seleção de vários artistas portugueses ou a viver em Portugal, de quem nós gostamos e que nos interessam bastante, que vão contribuir com uma faixa para a compilação. O projeto em si… surgiu um pouco desta necessidade de mostrar cenas diferentes. Um dia acordei com esta ideia na cabeça, estava farta das coisas que andavam a acontecer em Lisboa… sempre as mesmas pessoas, sempre os mesmos círculos… falei com a Telma e com a BLEID (que entretanto teve de sair do projeto porque foi viver para Berlim), e tentámos criar uma cena que quebrasse precisamente com estes círculos. Daí a frase “break the asshole cycle”, que está no nosso manifesto.

E basicamente é isto, um grupo de amigas que tenta criar espaço para coisas que gostamos, e dar voz a artistas que, por uma razão ou por outra, não conseguem oportunidades. A mente das pessoas ainda é tão… pouco exploratória! Às vezes parece que gostam de sair à noite e saber as músicas que vão ouvir. Eu adoro sair e ouvir um set em que não conheça uma única música, onde é tudo descoberta e coisas novas. Na Intera, queremos muito focar-nos em colaborações entre pessoas, porque achamos que a música tem um poder de… “unificação” – será que se pode dizer isto? E quando fazes música com alguém, ou quando tocas com alguém, parece que crias ali uma conexão, e é muito bonito. A música é das poucas coisas que ainda consegue fazer com que as pessoas se esqueçam de onde vêm, naquilo em que acreditam, e que se divirtam juntas e sejam felizes (risos).

Permite-me voltar um pouco atrás e perguntar-te acerca da Inês [Violet] e da Sónia [Sonja]. São duas mulheres incontornáveis no panorama da música eletrónica em Portugal, que têm desenvolvido projetos verdadeiramente disruptores e desafiantes do status quo. Que influência é que elas tiveram no teu percurso?
Elas são as minhas “madrinhas” (risos). A relação com a Inês surgiu de um mix só com música de dança portuguesa, no contexto de um projeto que tinha a altura. Era uma série de mixes que se chamava “O que é Nacional é Bom” – ainda deve estar por aí disponível, talvez no Mixcloud… [A Cabine procurou, mas não encontrou]. Comecei a falar com a Inês, ela sabia que eu fazia música, e convidou-me para a Quântica. A Sónia, foi um bocado o mesmo… com o convite para a tal compilação. As duas já me ajudaram imenso, como amigas e como, de certa forma… como mentoras. São pessoas bastante presentes.

Mais recentemente, surgiu uma oportunidade incrível para passares duas semanas em Berlim, na Red Bull Music Academy. Que balanço fazes da tua participação? Foi importante ter outro português [Francisco Marujo – Carga Aérea] a participar no programa?
Eu e o Francisco não tivemos lá ao mesmo tempo! Eles separam os participantes em dois grupos… Ele ficou no grupo da primeira semana, e teve lectures com o Objekt, ou com a Nina Kraviz, e eu fiquei no segundo grupo, e tive lectures com o Dixon, por exemplo. A Red Bull começou a ser um sonho enquanto eu estava na ETIC, quando um dos meus professores, o Rui Miguel Abreu, nos mostrou este vídeo sobre a Academia, que se chamava “What difference does it make?”. Eu fiquei tão apaixonada que disse “Epa, tenho de ir, tenho de conseguir”. E desde 2015 que tentava. Aquilo é um formulário com 50 perguntas, em que pedem para te desenhares no teu universo da música: perguntam o teu Top 10 de álbuns, qual foi a última vez que choraste, se os teus sogros fossem jantar a tua casa, o que é que cozinhavas e que música é que punhas… (risos). É assim este tipo de perguntas, tens mesmo de perder tempo com aquilo. E o ano passado, (o deadline era até Setembro), eu decidi que era a última vez que tentava. Tive várias vezes para desistir! Mas à terceira, parece que foi de vez…

A experiência é algo… inexplicável. Tive aulas com pessoas de todo o mundo – México, Japão, Coreia do Sul, Irão, África do Sul, States, vários países da Europa… Estávamos todos juntos no mesmo edifício, tínhamos shuttles que todos os dias nos levavam para o Funkhaus, que é tipo este edifício de gravação e transmissão de rádio da altura da União Soviética… um espaço fantástico, enorme, super bonito, que estava todo equipado com as melhores coisas. Todos os dias, tínhamos um mega buffet de pequeno almoço (risos). Havia duas lectures por dia, uns workshops, e depois tempo livre para fazer música. Eram dez estúdios, e todos acabávamos por fazer música juntos, trocar ideias… era um ambiente super aberto, e acontecia mesmo magia ali. Crias esta família de 40 pessoas espalhadas pelo mundo que têm aquela cena em comum… No final, houve uma listening session em que se mostrou todas as faixas que foram feitas durante as duas semanas. Saíram de lá umas coisas engraçadas…

Destacas algum artista em particular?
Hmmm… Há duas raparigas que já estão a dar bastante que falar, mais na cena de dança, que são a Solid Blake e a VTSS. A Solid Blake é da Escócia e está a viver em Copenhaga, e a VTSS é da Polónia e vai-se mudar agora para Berlim. O rapaz do Irão, Artsaves, também é muito bom… Depois tinha na equipa de estúdio pessoas como a Steffi, que é mega produtora e mega DJ, o Marco Passarani, o Mathew Johnson, e o Mike Banks, que é um dos fundadores do Underground Resistance, todos os dias lá connosco, a dar-nos lições, a contar-nos histórias… no fundo, a fazer com que acreditássemos mais em nós próprios.

Carolina, e agora… próximos passos?
Próximos passos… Como já disse, vamos ter o Various Artists, da Intera, na celebração do primeiro aniversário. Vai ter uma faixa minha, bem diferente daquilo que costumo fazer. Foi feita há dois anos, quando estava em Londres, por isso vai ser uma coisa assim bem “UK influenced”. Vai ter também uma faixa do Tsuri, da Vanessa [Valody], de um artista húngaro baseado em Lisboa, por exemplo… Em princípio, a compilação sai em janeiro. Que mais… Estou a trabalhar num EP que espero que saia em 2019. Ainda não sei por onde, mas vamos tentar algo assim mais internacional, com mais alcance… E estou também a concorrer a várias residências fora de Portugal, fora da Europa, para poder sair e ir para um sítio onde o meu foco seja só fazer música, criar música. Porque aqui em Lisboa, está sempre alguma coisa a acontecer, há imensas distrações… É difícil criar aquela “bolha”… Eu quando faço música fico muito “in the zone”, esqueço-me de tudo, esqueço-me de comer, de falar, de ir à casa de banho (risos). Então preciso mesmo daquele sítio e espaço onde consiga que isso aconteça. Por isso estou a tentar sair por uns tempos, conhecer outros sítios e pessoas, arranjar contactos…

Então e Lisboa, que está a tornar-se numa cidade super dinâmica e cosmopolita, com pessoas de todo o mundo a vir viver para cá?
Lisboa está a evoluir, sim, mas não necessariamente no melhor sentido… está a desenvolver-se mais para quem vem de fora, e não para quem já está aqui. Espaços míticos a fechar… Mas, claro, temos muito talento e coisas boas a surgir – a Quântica, a mina, a Hayes, o Desterro – um espaço fantástico que aposta e que dá espaço a pessoas novas; tens o Terzi e a Joana com a Segmenta, no Porto, que também é uma festa brutal. E o Pérola Negra, que vai reabrir em breve. No Algarve também já tens um clube de techno, o Token… Portanto sim, acho que as coisas estão a avançar e a acontecer, mas também é preciso o Governo perceber que estamos aqui, que isto está a acontecer, mas que sem apoios ou investimento tudo se torna muito difícil. E também é preciso que as pessoas deixem de estar sempre a competir, quem é que tem a melhor festa, quem é que é o melhor DJ, quem é que tem a melhor loja de discos…

Essa competição existe muito?
Isso ainda existe muito, mesmo, e as pessoas não percebem que há espaço para tudo, dá para todos crescerem e a aprenderem uns com os outros. E quanto mais esse tipo de prática de união e entreajuda acontecer, mais longe conseguimos chegar… lá fora e cá dentro também!


Fotografias de Eriver Hijano e Dan Wilton

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