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Entrevista

:PAPERCUTZ: “O meu objetivo sempre foi fazer algo com valor”

7 Setembro, 2020 - 15:46

A propósito do lançamento da versão deluxe de “King Ruiner”, :PAPERCUTZ falou acerca dos seus inocentes primeiros passos pela música, das influências geográficas que moldaram o disco e do trabalho colaborativo com outros artistas.

Estabelecido no panorama internacional desde o lançamento de “Lylac” em 2008, o projeto formado por Bruno Miguel traçou com o passar dos anos um percurso musical cada vez mais amplo. Agora, com o lançamento de uma edição especial do seu novo álbum, “King Ruiner”, o portuense aliou-se a artistas como Octa Push, Scúru Fitchádu, Ondness ou Throes+The Shine, entre outros, para reimaginar a sua obra mais maturada.

À conversa com A Cabine está o próprio Bruno Miguel, mas também a cantora neo-zelandesa Maree Lawn, que participou neste último projeto, para nos ajudar a ilustrar este percurso multifacetado.

No final deste mês, no dia 26, :PAPERCUTZ apresenta “King Ruiner” no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Pouco tempo depois, a 3 de outubro, o músico passa pelo auditório do CCOP, no Porto. Os bilhetes para o evento na capital podem ser adquiridos aqui e para a cidade Invicta aqui.

Bruno, sabemos que “Lylac” foi um ponto de viragem para :PAPERCUTZ em vários sentidos. Mas já estavas envolvido com o mundo da música antes disso? Como é que tudo começou, e o que é que mudou desde “Lylac” até “King Ruiner”?
Ao contrário da forma determinada como estou hoje em dia neste meio, comecei com passos bem inocentes. Fiz parte de uma banda, que, na falta de melhor termo, seria de base ‘industrial’, na minha adolescência e que chegou a editar alguns registos, com concertos ao vivo, mas sentia a necessidade de uma exploração pessoal da música eletrónica. A vantagem foi que desde cedo persegui a ideia de, através do computador, da gravação à produção, ser de facto responsável por um trabalho final. A noção inicial de um novo projeto era simplesmente explorar temas que misturavam a pop e a eletrónica, com timbres mais refinados dos que os praticava na altura e pelos quais comecei a sentir alguma curiosidade. Como tive uma boa receptividade neste caminho numa maquete que lancei, decidi continuar e dedicar-me musicalmente apenas ao meu projeto de nome :PAPERCUTZ. Este incluía a minha colaboração com outros músicos mas com a minha total direcção, o que se veio a tornar num projeto com uma edição internacional e uma formação ao vivo. Essa tem sido de certa forma uma das evoluções mais significativas. “Lylac” era ainda um álbum intimista e feito num quarto que acabou por se reformular ao vivo, enquanto que “King Ruiner” é assumidamente um projeto que incluía gravações entre o Porto e Nova Iorque, com apresentações um pouco por todo o mundo. Como é perceptível, foi um salto muito grande mas nunca algo que não tenha sido devidamente planeado. Um dos meus defeitos, talvez, é que cada novo passo tem sempre uma intenção por detrás, mas também algo de intuitivo. É neste equilíbrio que imagino sempre o futuro do projeto.

Sentes que o facto de “King Ruiner” ter sido gravado entre pelo menos quatro cidades influenciou o resultado final de alguma forma? Como foi a experiência de gravar com duas novas vocalistas de backgrounds distintos?
Como bem dizes, claro que influenciou. A minha ideia inicial era conseguir que o álbum tivesse uma estética alargada a várias geografias, um trabalho de características globais. Eu sentia esse interesse com as diversas viagens em concertos que estava a fazer – digo “fazer” por causa desta paragem – e cedo comecei a perceber como produtor que isso poderia passar por convidar vocalistas com sensibilidades diferentes. A portuguesa Catarina já era uma presença no projeto, mas a Lia conheci em digressão na Alemanha e a Ferri foi recomendada pela nossa editora japonesa. O processo criativo é viverem a personagem das letras e conceber a sua voz para este trabalho porque muitas cantoras, tal como elas, podem-se apresentar em diversos registos e tem que se escolher um. Do meu lado como produtor, o meu papel é fazer com que elas se sintam parte de um grande todo, do álbum, e antever o resultado final. Acresce que isso será daqui em diante um facto para o projeto, trabalhar com pessoas fora da minha realidade, como por exemplo a Maree, neozelandesa que faz parte da edição alargada de “King Ruiner”.

Consegues estabelecer um ponto de comparação entre a liberdade e reconhecimento para levares este projeto avante no panorama nacional com o internacional? Achas que :PAPERCUTZ é um caso à parte ou sentes que existe uma “regra geral” para projetos musicais em enquadramentos semelhantes?
Entendo o que dizes no sentido de que há alguns anos não existiam muito grupos nacionais que apostavam numa carreira dividida entre Portugal e o exterior, tanto em concertos como edições. No caso deste projeto isso sempre foi uma realidade, logo no primeiro álbum este foi lançado por uma editora do Canadá e um dos nossos primeiros concertos de apresentação acontece em Inglaterra. Mas tudo desenvolve-se de uma forma orgânica, existia na altura um maior interesse no meu trabalho fora e talvez tenha implicado um reconhecimento que demorou mais tempo cá, mas não é algo que me importa. Sempre preferi fazer algo nos meus moldes, e eventualmente o entenderem, do que algum tipo de compromisso. Dito isto, já não somos caso à parte, felizmente porque ficamos todos a ganhar com uma exposição alargada da música que surge de Portugal.

Lembro-me da desconfiança de promotores em nos contratarem e hoje em dia isso não acontece porque tenho vários colegas com o mesmo percurso que servem de exemplo alargado. O que eu digo sempre, dado que acompanhei vários projetos que desapareceram, é que devemos fazer um trabalho segundo os nossos termos e se este eventualmente for reconhecido ainda melhor, mas isso não deve ser de todo o propósito. E sim, isso deve passar pelo território nacional, que é pequeno, e o exterior. O meu objetivo sempre foi algo com valor e equiparável à música feita em qualquer parte do mundo. Aliás eu vivi fora, em Nova Iorque, e percebi que uma das poucas diferenças era precisamente essa crença no próprio. Isso não é tudo mas é importante.

Trabalhaste com imensos artistas ao elaborar a versão Deluxe. Como foi o processo criativo e o que é que conseguiste tirar da experiência?
Apesar do seu lado nocivo, esta pandemia serviu para uma maior aproximação aos meus colegas portugueses, artistas que, apesar de nos termos cruzado em alguns palcos, muitas vezes estão à distância. De momento estamos todos a passar uma situação em comum, porque a música, sobretudo ao vivo, continua ainda uma grande incógnita. Mas em vez de desistir de futuros planos, fiz o contrário, e este modo de sobrevivência tem muito a ver com a minha forma de ser, coloquei em mim o esforço de não ficar parado e, felizmente, estas brilhantes pessoas seguiram o meu repto. Foi um resultado verdadeiramente natural e que me permitiu acompanhar o processo de criação dos envolvidos – e isso sim foi uma verdadeira aprendizagem!

Por fim, uma pergunta para a Maree: como foi trabalhar na faixa Second Days?
Primeiramente, trabalhar com o Bruno tem sido um privilégio e caramba, sinto-me bastante especial por constar nesta edição de “King Ruiner”. Fiz um pedaço decente de música ao longo dos anos, e ultimamente o meu papel tem sido mais ou menos ajudar outros maravilhosos humanos a trazer as suas ideias musicais/visões ao mundo (que sorte para mim!). Trabalhar nesta música com ele foi bastante fácil. O Bruno sabe exatamente o que quer e é super claro. Mandou-me a faixa, eu mandei-lha de volta com uma improvisação minha por cima, ele pegou em bocados de que gostou e escreveu/criou a Second Days e mandou-me a demo dos vocais, que eu mais tarde gravei à minha própria maneira. Ele deu feedback, eu gravei outra vez à minha maneira, mas com a visão e o feedback dele. Depois, o Bruno “montou” tudo e… criámos um bebé musical!

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