AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Entrevista

Pérola Negra: a casa que quer “promover o que é feito cá dentro”

19 Fevereiro, 2019 - 18:20

Fomos até ao Pérola Negra para saber mais acerca do novo espaço da noite portuense.

A 24 de novembro do ano passado, a nova faceta do Pérola Negra abriu portas com a Primeira Vaga, uma amostra daquilo que viria a acontecer durante o resto da temporada. O mesmo aconteceu na Nova Vaga #1, evento com que o clube festejou a passagem de ano.

À conversa com Jonathan Tavares e Nuno Vieira numa das mesas do Pérola Negra, no nº 284 da Rua de Gonçalo Cristóvão, Jonathan explicou que “as novas vagas são uma forma de trazer agentes que estão a trabalhar connosco, ilustrando o que a casa é nas várias vertentes”, algo que serve para “introduzir pessoas e conceitos novos” além de “fortalecer os laços que existem”.

Como referiu Nuno Vieira, a equipa do Pérola Negra quer “criar algo com que as pessoas se identifiquem” para “chegar a todos os públicos”, reconhecendo a inclusividade como um dos seus valores. Mais ainda, a programação mensal e musical do clube portuense vai do soul ao techno, passando por géneros como hip-hop – e com convidados de honra, claro.

Lê abaixo a nossa entrevista sobre o Pérola Negra, que ainda hoje mantém os elementos do antigo e mítico bar de striptease da cidade do Porto.

A Cabine: Como é que a vossa equipa se divide? Têm alguém responsável pela curadoria, por exemplo?
Jonathan Tavares: O projeto do Pérola Negra começou pelo início de 2018. O Hélder Leite, que é o proprietário do espaço, estava à procura de uma equipa que tomasse conta do clube na parte de comunicação, programação e todos os outros detalhes referentes a isso. Na altura, surgiu-me a possibilidade de fazer uma proposta, e, depois de discutirmos todos os trâmites, construí a equipa que trabalha atualmente, que é o Nuno na parte da comunidade no Facebook e Instagram, o João Santos e o Óscar Maia no design, André Forte na assessoria nacional, Pedro Rompante como dj residente, co-programador da residência BIS e produtor técnico. Depois numa esfera mais operacional tens a Sara, que trabalha na parte dos bares, Pedro Segurado, que faz consultoria nessa área também, e depois outras pessoas que acabaram por entrar na equipa como co-programadores e como membros integrantes do projeto. Eu acabo por fazer um bocado da gestão de projeto de todo o Pérola, e estou a assumir um bocado o papel da programação e da co-gestão dos programadores.

AC: Quando se juntaram, a que objetivos se propuseram?
JT: Quando começámos a pensar sobre o projeto, era óbvio que havia aqui uma carga ou conotação bastante vívida. O antigo proprietário usou o espaço como uma espécie de cabaret, um lado mais exótico de entretenimento, chamemos-lhe assim. E eu quis fazer algo que fosse diferenciador, até porque o meu background não tem nada a ver com isso, tem a ver com programação e produção cultural, tem a ver com criar algo que seja sustentável e que tenha um impacto na comunidade. Daí, ao reformularmos a nossa estratégia do Pérola, criámos dois eixos que são muito importantes: o primeiro é tornar o espaço num difusor cultural com programação válida para a comunidade, e que de alguma forma a conseguisse agregar e dar um espaço de recriação; e o segundo ponto é o aspeto da inclusividade, que era não tornar a casa num local exclusivo a pessoas ou membros, sem segregar género, credo, raça ou outros aspetos…

Nuno Vieira: Ou gostos musicais. Também é por isso que o projeto do Pérola Negra acaba por ser fresco para toda a equipa que está a trabalhar, quanto mais não seja por ouvirmos algo diferente todos os fim-de-semana, o que também é bom para nós.

AC: Tocaram num aspeto muito importante: esse papel que vocês podem ter na cultura do Porto, por exemplo, é uma preocupação que têm?
JT: Não é uma preocupação no sentido em que acredito que não deve haver essa preocupação ao programar ou a trabalhar. A preocupação está em trabalhar com projetos da comunidade do Porto e zona norte, apoiá-los, permitir que eles tenham uma estrutura em que possam mostrar o seu trabalho artístico e, de alguma forma, a casa age quase como um facilitador ou consultor para tornar o projeto mais sustentável, para que ele consiga viver além de portas, para que consigam sair de cá, profissionalizar-se, e, de alguma forma, internacionalizar-se caso seja possível. Isto porque eu acredito que uma casa não deve só importar talento, deve também exportar. Deve ser uma responsabilidade nossa garantir que, além de importar o que é feito lá fora, promovemos o que é feito cá dentro.

NV: Essa é uma parte muito importante. Não estamos só a mastigar, estamos também a ajudar as pessoas a crescer e a dar-lhes um espaço.

Até então, já passaram pelo espaço nomes como Jerry the Cat, Solar, The Field ou Varhat, e projetos como Tetris ou Kebraku

AC: Tenho vindo a reparar que grande parte das vossas noites contam com curadoria de editoras, por exemplo. É um dos vossos planos?
JT: Sim, sempre em co-produção connosco. Isso faz parte da estratégia da casa. Primeiro porque… Primeiro vou dar a minha opinião sincera sobre programação: geralmente, se não for de foro institucional e se for de foro privado, assenta sempre numa estratégia de lucro. Algo é feito ou programado para reverter numa receita. Temos um bar, por exemplo, e tem de funcionar. No entanto, simultaneamente, temos esta dicotomia de ter de haver relevância para aquilo que estamos a fazer para a comunidade, e ao mesmo tempo acharmos que estamos a ser diferenciadores do que se passa à volta. Então, essas variáveis todas fazem com que eu, ao comunicar com outros agentes, promotores, editoras e etc., enriqueça o conteúdo editorial da casa, e faça algo que seja válido em todas as vertentes – em vez de estar num ato quase de masturbação intelectual de querer fazer o que me apetece só porque sim, e depois tentar agregar pessoas cá dentro só para consumir no bar.

AC: Mas a preocupação não recai apenas sobre projetos portuenses, certo?
JT: Recai um bocado. Agora está a abrir mais o leque…

AC: Este fim-de-semana vem a Discos Extendes, não é?
JT: Sim. Mas aqui, por exemplo, apesar de ser uma editora que está mais concentrada em Lisboa, o Terzi (Gonçalo Neto), que é provavelmente a pessoa com quem estou mais em contacto, está a viver em Braga, e ele também tem festas, residências e noites cá no Porto. Não é que eu esteja a segregar, que não estou de qualquer forma, o que se faz em Lisboa, mas vou-me concentrar primordialmente em pessoas que estejam cá.

AC: Se não me engano, a Tetris fez por aqui um evento que, além de música, explorou o espaço através de performances, por exemplo. É uma preocupação vossa, aproveitar e explorar o espaço ao máximo?
JT: Mais do que preocupação, é uma interpretação nossa de querer aceitar, dentro do espaço, outro tipo de manifestações culturais sem ser música. Eu não estou a tentar programar outro tipo de manifestações além de música ou componente visual que a acompanhe – porque essencialmente este clube dedica-se à música – mas projetos que tenham uma componente artística ou multi-artística também são aceites e ouvidos. Não é uma preocupação no sentido de que não estou à procura, mas se houver esse convite sim.

AC: Tenho outra curiosidade. Os Dealema tocaram pela primeira vez com banda aqui, com a Pérola Negra Band.
JT: Sim, a nossa house band.

AC: Gostava de saber mais sobre ela.
JT: Isso é importante, são pessoas que depois acabam por ficar no anonimato mas têm de ter relevância. Uma das pessoas que está a trabalhar connosco mais de perto na equipa interna é o Sérgio Alves, que é o teclista da Marta Ren, já tocou nos We Trust, toca com a Capicua também. É um músico super talentoso, tem formação em música e em produção de música eletrónica, e é uma pessoa próxima de mim. É uma pessoa muito talentosa no sentido em que, além de ouvir muitos géneros, trabalha com muitos artistas diferentes e consegue ter uma “multi-interpretação”. Então lancei-lhe o desafio, que é, como esta casa tem muita influência dos anos 70 em Nova Iorque, onde haviam house bands que geralmente tocavam nos inícios de noite, nós querermos replicar um bocado esse conceito, e fizemos o teste com Dealema.

A banda fez um desafio aos Dealema, o Sérgio fez um estudo e criou vários tipos de arranjos e composições diferentes para as que tinham selecionado, e eles acabaram por escolher as mais arrojadas ou com arranjos mais difíceis, um bocadinho mais a cair no jazz e menos numa estrutura fechada do hip-hop. Agora, futuramente, vamos fazer concertos da house band de forma bimestral, sempre com convidados, e que vamos estrear esta sexta-feira com Jerry the Cat, que era percussionista dos Parlament, e foi cantor e percussionista dos Loosers e dos Gala Drop.

AC: E sabes como é que funciona o processo?
JT: Basicamente, em conjunto com o Sérgio… Bem, primeiro eu gostava de fazer alguma coisa com o Jerry. O Jerry tem 70 e tal anos, é uma pessoa que já abandonou a parte performativa, é um vulto que viveu a era dos anos 70, 80, 90 em Detroit – viveu-a mesmo como músico – é uma pessoa com uma riqueza pessoal, musical e artística muito vasta, mas, no entanto, é um desconhecido, nunca foi uma pessoa muito celebrizada, digamos assim. Exatamente por isso, e por achar que este clube deve pegar em pessoas que de facto têm talento e que, apesar de não serem muito conhecidas ou de não terem um Instagram com muitos likes, têm um conteúdo válido para mostrar. E tendo em conta a idade dele e o seu manifesto pessoal, decidimos escolher a obra de Gil Scott-Heron para prestar uma homenagem. Então escolhemos um reportório de Gil Scott-Heron – de dois ou três discos – e o Sérgio fez a composição e os arranjos para todas essas músicas, para um formato de quatro membros, com baixo, saxofone e flauta transversal pela mão do Sérgio, e ainda bateria, teclados, e o Jerry na percussão e a cantar. Estes acontecimentos, que vão acontecer de forma bimestral, à partida terão sempre o apoio da The Feeting Room, que está como parceira destas sessões.

AC: Além do Sérgio, a banda tem membros efetivos?
JT: Os membros da banda vão mudando, o Sérgio é que fica encarregue de selecionar as pessoas.

AC: Têm feito o vosso trabalho passo a passo, mas já há planos para o futuro? Alguma coisa que ainda não tenham feito?
JT: A casa neste momento pretende ter um posicionamento internacional. Obviamente que vamos trabalhar com a comunidade local e viver muito para o Porto, mas, no fundo, o Pérola Negra também quer assumir um posicionamento internacional, ser um roteiro para bandas e djs internacionais, e trabalhar muito nessa plataforma, transcendendo-se enquanto casa. Acho que é o caminho que estamos a fazer, trazer artistas que tenham créditos firmados, que sejam uma valorização para o espaço, e que tenham um bom contributo cultural consoante aquilo que estamos a fazer.


Fotografias por Maria Mendes (cortesia do Pérola Negra)

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