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Entrevista

Djeff e o caminho para alcançar “uma série de sonhos”

22 Dezembro, 2020 - 11:37

O novo álbum de Djeff tem por base um caminho iluminado. À conversa com o artista, quisemos saber qual é a luz que o guia e o que podemos esperar das próximas caminhadas.

Passaram-se três anos entre palcos e mundos até regressar com um novo álbum. Em novembro, Djeff abriu alas para “Enlightened Path”, a sua mais recente paisagem sónica que se estende até ao futuro, por entre colaborações e diversas correntes musicais. O álbum é de agora, mas a essência data de há muito tempo. Desde bombar cassetes Top Star em casa a ganhar um workshop na discoteca Scala, Tiago Barros tem vindo a colecionar anos de pista. Em pequeno, era apaixonado pela música, toda a música – e notava-se. Agora, é patrão da Kazukuta Records, e acompanhou as mutações do panorama da música eletrónica em Angola, numa altura em que os DJs tocavam “um pouco de tudo” para poderem ganhar a noite.

A Cabine esteve à conversa com Djeff, e tivemos um vislumbre da poção mágica que dá vida à sua produção. Genuinidade, verdade e gratidão são apenas alguns dos ingredientes.

O vídeoclipe do single Enlightened Path começa com uma ida tua à SIC. Como é que um menino de 10 anos chega à televisão com um amor enorme por techno? O que despertou esse fascínio?
[risos] Desde muito novo que sou muito apaixonado por música, por todas as festas, desde dançar a cantar. E a minhã irmã também ouvia música eletrónica. Na altura, haviam umas cassetes chamadas “Top Star” que se compravam por volta do Natal e tudo mais. Então, sempre que ela estava a arrumar a casa, como estávamos os dois sozinhos, punha a música alta. E foi aí que essa curiosidade e a paixão pela música eletrónica começaram a despertar.

Como é que o Tiago pequenino se tornou no Djeff? De onde vem esse nome?
Por essa mesma paixão em relação à música, a minha irmã inscreveu-me no programa da SIC que abre o vídeo, um concurso chamado “Mini-Chuva de Estrelas”. E eu fui lá imitar o Michael Bolton, que por acaso não tem nada a ver com a música eletrónica. Mas é engraçado, eu queria ir imitar o Michael Jackson pois ele era um dos heróis da altura. Mas o meu pai disse-me logo: “Não, tu tens de fazer as coisas de uma forma completamente diferente do habitual”, por assim dizer. Então, desde pequeno, fui habituado a ouvir diferentes estilos musicais e comecei a fazer coleção de música muito cedo. O meu pai era marinheiro e, sempre que viajava pelo mundo, acumulava e trazia para casa muita música, de todo o lado.

Entretanto, crescia o interesse em tentar misturar uma música com outra. A dada altura, numa brincadeira com família, houve um evento em que o DJ acabou por não aparecer. As pessoas, percebendo a paixão e a curiosidade que eu tinha por música, desafiaram-me a fazer a festa, por assim dizer. [risos] Desafiaram-me a pôr música para o pessoal dançar. Daí, o DJ não foi e depois deixou de ir, não é? [risos] O pessoal dizia: “ah, tu até tens jeito para isso”. E a partir daí quis sempre ficar a saber mais, comecei a investigar mais a área da música. Encontrei o DJ Erick Morillo, que é minha referência até hoje enquanto DJ. Comecei a ouvir sets, a seguir a vida dele basicamente a 100% e tudo o que era relacionado com a música, lançamentos, entre outros. Até que surgiu a oportunidade de fazer um workshop em 2001 ou 2002, mais ou menos. Foi aí que começou a viagem: num workshop com o DJ Miguel Mateus na discoteca Scala, em São Pedro do Estoril. Nesse workshop, houve um concurso e eu ganhei. E então fiquei a trabalhar nessa discoteca. Na altura, ainda era DJ Tiago, só que eu precisava de arranjar um nome como é óbvio [risos]. Nas aulas, um amigo meu dizia-me sempre: “Essas misturas que tu fazes, pareces o Jeff Mills, tipo a forma como tu trocas os faders para cima e para baixo, assim bué rápido”. Pronto, com a brincadeira, Jeff Mills, Jeff Mills, Jeff Mills, que por acaso também era um DJ de techno, tirei o Mills, pus um D antes e nasceu o Djeff. Foi assim que eu pus.

Que passos foram precisos dar até chegar a “Malembe Malembe”?
“Malembe, Malembe” nasceu depois de eu finalizar o meu curso aqui em Portugal, de Artes Gráficas e Design. Queria começar a produzir, e essa foi uma das razões pelas quais queria ir viver para Angola, porque lá seria mais fácil encontrar músicos com quem trabalhar e também tinha lá muita família. Eu já ia com a ideia que ia misturar música eletrónica com elementos africanos. Então, foi juntar o útil ao agradável. Daí, conheci o DJ Silyvi, um produtor angolano. Começámos a trocar algumas ideias e encontrámos um ponto em que as nossas ideias eram, de certa forma, parecidas. Começámos a fazer música, numa tarde fizemos o nosso primeiro single, Canjika, que saiu pela portuguesa Pandora Records. Depois, olhámos um para o outro e pensámos “epá, porque não fazer um álbum?”. “Malembe, Malembe” significa devagar e bem, e foi isso que marcou o início da carreira do Djeff, em termos de organização e forma de trabalhar. Eu não tenho de ser famoso ou algo do género, tenho simplesmente que fazer as coisas bem feitas e esperar que um dia, então, o reconhecimento apareça e exista, sempre fazendo as coisas com qualidade. E foi assim que nasceu o meu primeiro álbum.

Com o teu primeiro álbum, nasceu também a Kazukuta Records. Porque é que era tão urgente a necessidade de criar uma editora discográfica dedicada a música eletrónica em Angola?
Na altura, quando cheguei a Angola, depois de fazer esse primeiro álbum, comecei a sentir… Não vou dizer dificuldade em termos de arranjar colaborações e coisas do género a nível de música eletrónica, mas era tudo muito novo, por assim dizer. Na África do Sul, todos os artistas, Black Coffee, Black Motion e muitos outros já faziam música, já lançavam música por editoras e tudo mais, só que em Angola não existia nada para esse efeito. Então, eu já estava em contacto com o Louie Vega da Vega Records, com a NuLu, ou o Zepherin Saint com a Tribe. Todos esses artistas eu fui conhecendo por causa do lançamento das minhas músicas. Então, se eles tinham uma editora, porque não eu criar a minha própria e poder ajudar outros DJs e produtores angolanos a lançarem música também? Auxiliar a divulgação das músicas deles e colocá-las em plataformas, no Traxsource, no Beatport, no iTunes. Então, foi uma espécie de veículo que eu tentei arranjar, de certa forma para mim, mas ao mesmo tempo para poder também apoiar outros artistas angolanos a por os seus trabalhos cá fora, inicialmente, porque agora já não é só Angola.

Agora, nove anos mais tarde, notas muitas diferenças no panorama musical angolano?
Sem dúvida alguma! Tipo, aquilo mudou por completo. Eu posso dizer que fomos nós que iniciámos quase esse movimento, ao qual hoje se chama afro-house. Hoje em dia já nem é tão ligado a esse estilo, mas no início, sem dúvida que eu e o Silyvi fomos dois dos impulsionadores, com o primeiro álbum desse registo em Angola e que veio mudar o panorama musical por completo. Tipo, hoje em dia sais à rua e as pessoas nos carros e nessas rotinas do género, já houvem house music. Já temos programas de house music em Angola, diários! Portanto, tudo isso é algo que foi crescendo, já temos muitos produtores e DJs que só tocam esse registo. Por exemplo, é engraçado que eu quando cheguei a Angola, muitos dos outros DJs me chamavam maluco quando eu dizia: “Olha, sou DJ de música eletrónica e só toco isso”. Lá era costume o DJ tocar todos os estilos de música, desde hip-hop, funk, música brasileira, house, etc. No fundo, tocavam bocadinhos de cada estilo para conseguirem fazer a noite toda. E eu, quando cheguei e disse que era DJ só de música eletrónica, o pessoal disse-me “tipo, ya, vais passar fome”, “não te vais safar aqui porque vais ter de tocar todos os estilos”. E eu disse “não, eu acredito naquilo que faço, acho que tem qualidade e vou apostar”. E o que é certo é que hoje em dia já tens DJs de estilos completamente separados, tipo, tens DJs só de hip-hop, só de música africana, só de house. Então, acho que dentro do circuito a nível de música angolana, já conseguimos de certa forma fazer carreira disso.

Como é desenvolver um álbum com várias colaborações em tempo de pandemia e confinamento? Qual foi a maior dificuldade?
A maior dificuldade… É a frustração de querer sair à rua e não poder. [risos] Confesso que, no início desta fase, foi muito difícil conseguir gerir a obrigação de ficar em casa. Eu ia para o computador, tentava produzir e as ideias simplesmente… A minha cabeça estava bloqueada, por assim dizer. Mas, com o tempo, tive de arranjar a minha própria forma de estar comigo. Porque foi um choque muito grande. Foi um choque passar de estar toda a hora a viajar, sempre em aeroportos e em países completamente diferentes numa questão de horas, para de repente ficar enfiado em casa. Tudo bem que te sentes bem em casa, mas és obrigado a ficar lá. E eu acho que é o facto de ser obrigado que mexeu e mexe com a cabeça de muitas pessoas. Então, a nível de ideias estava um bocado estagnado, até que consegui desbloquear a minha forma criativa. As colaborações nasceram de forma natural, creio eu que possa dizer assim. Comecei a fazer beats, a ver novamente imensos tutoriais, coisa que eu fazia no início da minha carreira e que, com o passar do tempo, deixei de fazer, infelizmente. Voltar a esse hábito foi-me abrindo a mente de novo, para novas ideias e sonoridades, que máquinas usar, plug-ins e mil e uma coisas. No processo criativo, normalmente vêm-me ideias à cabeça e eu costumo gravá-las no telemóvel, sobre linhas melódicas, linhas de baixo, vocais e coisas do género. Daí, pergunto-me: “Ok, quem é que eu vou por a cantar? Quem é que ficava bem dentro deste tema?”. Fiz os convites, as pessoas aceitaram, foi algo muito fácil. Todos gostaram do conceito do projeto. E fizemos as músicas!

Então, mesmo com os obstáculos, consegues retirar aprendizagens e experiências positivas do processo de criação do álbum?
Sim, sem dúvida alguma! Olhando para a forma como este álbum ficou, feito durante uma pandemia, que é algo muito negativo para muitas pessoas, acho que para mim, Djeff, foi positivo enquanto produtor e DJ. Penso que este período de concentração era algo que eu estava a precisar e que acabou por ser positivo. Passei imenso tempo no computador a produzir, consegui desenvolver a minha capacidade de produção ainda mais, aprendi imensas coisas a nível de produção em muito pouco tempo. Consegui dedicar-me muito mais.

Tens saudades das pistas? Como é que o público recebeu o álbum?
Eu, a bem ou a mal, ainda tive a oportunidade de fazer dois gigs na Suíça e no Luxemburgo, na altura de agosto e setembro. Supostamente, as coisas estavam a começar a melhorar e tive a oportunidade de testar algumas das músicas. Nunca era a mesma sensação porque eram públicos muito limitados, festas de 200 a 400 pessoas, algo sempre muito pequeno. Mas consegui ter uma noção mais ou menos de qual seria o caminho que eu deveria continuar a seguir ou não para fazer esse álbum. Torna-se complicado, temos um feedback pela internet que nunca é o mesmo, como é óbvio. Mas eu acho que o principal de tudo é eu estar satisfeito e feliz com o resultado. Acho que nós, enquanto artistas, temos que estar focados naquilo que estamos a fazer, logicamente, mas ao mesmo tempo temos de fazer algo que realmente gostamos e não estar excessivamente preocupados se as pessoas vão gostar ou não gostar. Eu fiz desta forma porque eu sinto desta forma. Acho que é essa a postura que, como artistas, para conseguirmos ser genuínos, temos de trabalhar.

Conta-nos uma história que te tenha marcado em tantos anos de pista.
A primeira vez que toquei. Ou melhor, a primeira vez que toquei para público num club. Foi na discoteca Scala, em 2002, no final do concurso. Em termos de feeling, para mim, foi dos melhores gigs da minha vida. Porque foi a primeira vez que tive a oportunidade de tocar numa discoteca e de ver as pessoas a vibrar e a dançar viradas para mim. Esse sentimento é algo que eu guardo com muito carinho e que vou guardar para o resto da vida.

Este “caminho iluminado” de que falas tem muitas paragens pela frente? Que ambições guardas para o futuro?
Em todos os meus álbuns, eu tento refletir de certa forma ou pelo menos transportar em termos musicais aquilo que eu estou a sentir no momento de criação. O meu primeiro álbum foi o “Malembe, Malembe”, que significa devagar e bem. O segundo chama-se “A Ascensão do Soldado”, porque eu considero-me um soldado da vida pelo facto de ter saído da Europa com tudo organizado para ir viver para Angola. Vivi lá durante 11 anos e de certa forma tive de começar a minha carreira do zero, porque ninguém me conhecia. Entretanto, comecei a trabalhar, ganhei prémios e tudo mais. Depois, o terceiro álbum foi o “Gratitude”: gratidão não só pelo meu filho ter nascido, mas ao mesmo tempo por tudo o que tinha acontecido na minha carreira até àquele ponto, onde as coisas simplesmente… Comecei as viagens, assinei em labels grandes, fiz colaborações com vários artistas, conheci muitos dos meus heróis, toquei com o Erick Morillo… Uma série de sonhos que eu tinha consegui alcançar. Então, agora, vem este “caminho iluminado”, porque eu sinto que o meu caminho é assim que está – sinto que as coisas vão correr ainda melhor do que eram. Portanto, a única coisa que eu tenho a esperar sou eu continuar a ser eu, basicamente [risos]. E esperar que a pandemia realmente vá embora, que as saudades dos dancefloors são muitas. Quero partilhar o álbum e não só, tenho outras músicas que já estão terminadas para o futuro. Quero também continuar a fazer as pessoas felizes enquanto ouvem a minha música. Isso é o mais importante.


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