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Crónica

O toque delicado do compromisso — a noite, a cultura e a greve de fome

1 Dezembro, 2020 - 10:34

Opinião de Miguel Duarte, também conhecido por Holldën.

O(a) peralta come, o(a) boémio(a) bebe, o(a) janota dança. Restaurantes, bares, discotecas. Um tríptico circular que se complementa e torna-se indistinguível no roteiro malandro da noite. A junção destes sectores num grito único de revolta era, de certa forma, inevitável. O salto entre a contenção responsável de Março e o macilento desespero de Novembro, montado às portas do Parlamento, faz-se num estrondo também ele unívoco.

Porventura, se em vez de dez fossem mil corpos, e se em vez de fome passassem pedradas, os canais de televisão empenhar-se-iam em directos ininterruptos, os comentadores desfazer-se-iam em apoplexias opinativas, os jornais banhariam de tinta os contornos horários de cada pormenor, punho ou berro. Assim, como as coisas estão, a desolação vai decorrendo — e o abandono decorre com ela.

Perversamente, este silêncio indiferente é onde se eleva agora o semblante frio da impiedosa tirania dos números. São imponentes as imagens daquelas tendas improvisadas, bailando ao vento, de tão frágil aspecto em frente à pedraria majestática da Assembleia da República. Ali, onde escasseia a fanfarra de mega-manifestações sindicais, triunfa a austeridade do gesto simples, desfralda-se o simbolismo potente do homem espezinhado.

Não me cabe a mim fazer julgamentos de valor sobre o carácter ou motivações dos indivíduos ali acampados. O que não pode ser ignorado é o sentimento comum que une este último lamento a céu aberto com o calvário de artistas, staff, técnicos, promotores, proprietários, — toda a nomenclatura cultural — nos últimos 9 meses. Hoje, ali, aquelas almas abnegadas são efectivamente os representantes informais de uma multidão esquecida por decreto, despachada a toque de “drinks”, paternalismos vãos e silêncios sobranceiros. São a última trincheira entre a dignidade e a abjecção, o tudo e o nada.

Não há qualquer dúvida sobre a gravidade da pandemia. Não há qualquer dúvida sobre a sua dimensão, ou a singularidade do momento. O que se exige não é que se regresse já, abruptamente, à normalidade pré-Covid, ignorando uma crise evidente. O que se exige é, tão só, um pulo de flexibilidade para a geração de alternativas. Que haja mais do que o plano sovinado cortar a direito, resignação paródica das pobres almas governativas. Exige-se que se olhe para o arsenal de ferramentas médicas e financeiras que hoje temos e que se inaugure um horizonte de esperança a breve prazo — por via de uma reabertura razoável, ou por via da mitigação efectiva de danos. E que haja mais do que a promessa de uma vacina, para que o óbito da noite não seja condição para a inoculação total da vida.

Não contestamos a evidência de que a abertura da noite teria contribuído para o aumento do número de casos. Mas, se mo permitem, diremos com igual certeza que o fecho cego de discotecas, ou a asfixia burocrática de bares e salas de concerto, cuja clientela, no fundo, escapa ao supremo risco etário, não contribuiu em nada — rigorosamente nada — para evitar esta segunda vaga que agora nos assola. Esta chegou, como teria sempre de chegar. Dessa perspectiva, impõe-se a pergunta: foi legítimo o exílio selectivo da “movida” no período de bonança que antecedeu Novembro? Hoje sabemo-lo: não foi. Politicamente, teve o seu quê de expiatório, de demonização. Por isso, à medida que esta segunda vaga se for dissipando, impõe-se que o próximo período de calmaria seja pintado com outras cores antagónicas à monocromia que o governo nos tem dedicado. Impõe-se que à noite e à cultura lhes seja permitido sobreviverem com as mesmas armas de que dispõem outros sectores igualmente dependentes do movimento de pessoas.

O momento é duro para todos. O que pedimos, contudo, não é a força da ignorância, mas sim o toque delicado do compromisso.

Fotografia cedida por Diogo Lima

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