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Os 20 lançamentos internacionais de que mais gostámos em 2020

8 Janeiro, 2021 - 16:45

Por entre álbuns e EPs, houve 20 lançamentos de artistas internacionais que nos agarraram em 2020.

Na segunda parte da nossa série de artigos dedicados ao ano passado, debruçamo-nos sobre lançamentos internacionais depois de falarmos sobre as compilações de que mais gostámos em 2020. Álbuns ou EPs, o critério foi só um: definir aqueles que mais apreciámos, aqueles que não conseguimos parar de ouvir.

Possam ou não ser considerados os “melhores”, o intuito destas listas é dar a conhecer (ou ajudar a recordar) trabalhos que passaram pela nossa redação e que achamos merecedores de lugares de destaque. Drum’n’bass ou techno, downtempo ou electro, o género pouco interessa – o que importa é que sejam discos que tenham proporcionado momentos inesquecíveis durante a escuta.

Nesta seleção de 20 lançamentos, em ordem alfabética, vais encontrar trabalhos com mão portuguesa – as editoras Lovers & Lollypops e Holuzam surgem por aqui, assim como o disco que Jonathan Saldanha lançou ao lado dos The Kampala Unit – e muito mais, como o techno-pop de Kelly Lee Owens, o rough kuduro do angolano Nazar ou até o sempre irrepreensível Surgeon.

Actress – Karma & Desire [Ninja Tune]

Num ano em que lançou também “88”, entre outros trabalhos, o ex-futebolista do West Brom apresentou “Karma & Desire”, um álbum que mostra por que razão Darren J. Cunningham é considerado por muitos como um monstro da produção musical. Com participações de nomes como Aura T-09 e Sampha, a estrada faz-se pelos mundos do ambient, IDM ou techno, tudo unido numa fórmula pela qual nos apaixonámos em 2020. Se Actress é capaz de falhar? Nós achamos que não.

Arca – KiCk i [XL Recordings]

A desconstrução desenhada por Alejandra Ghersi pode estar a par de outros nomes que procuram a mesma receita, mas o trabalho de Arca é bem único. Neste novo álbum, a artista sucede o disco homónimo com uma nova roupagem – uma roupagem mais alegre, mas nem por isso menos sentida – para nos levar por um caminho viciante que até no reggaeton pousa um pé. Björk, Rosalía, Shygirl e SOPHIE ajudam à festa, mas o mais provável é que até sem essas participações “KiCk I” integraria esta lista.

Cabaret Voltaire – Shadow of Fear [Mute]

“Shadow of Fear”, o primeiro lançamento de originais em 26 anos, marca o incontornável renascimento de Cabaret Voltaire, agora representados apenas por Richard H. Kirk. Sem material velho, porque “o passado é um lugar perigoso onde deambular”, o álbum consegue reviver este lendário nome do industrial com novas ideias, sem se prender demasiado ao revivalismo nostálgico.

Earl Grey – French Exit [Inperspective Records]

Drumfunk ou não, isso pouco importa. A criatividade dos ritmos programados é exatamente aquilo a que chamaríamos de “mimo” se estivéssemos a ouvir isto num clube. Das atmosferas aos drums, este lançamento é merecedor de um lugar destaque – embora tenha uma estética limpa e moderna, o produtor de Manchester conseguiu preservar a essência e naturalidade do drum’n’bass clássico e do breakbeat com classe, maturidade e peculiaridade.

Ece Canli – Vox Flora Vox Fauna [Lovers & Lollypops]

A estreia da artista e investigadora turca Ece Canlı a solo, lançada pela portuense Lovers&Lollypops, trabalha a poesia extralinguística e o instrumento da voz num envelope de paisagismo sonoro. É, acima de tudo, um álbum que consegue equilibrar trabalho meticuloso com uma estética selvagem, e por isso merece destaque nos lançamentos de um ano que precisou do equilíbrio que o álbum traz consigo.

HHY & The Kampala Unit – Lithium Blast [Nyege Nyege Tapes]

Jonathan Saldanha (HHY) em confinamento no Uganda? Só podiam sair coisas boas. Ao lado dos The Kampala Unit, de nomes como Omutaba (percussão) ou a ativista Florence Lugemwa (trompete), o português lançou um dos álbuns mais interessantes do ano. Difícil de catalogar, “Lithium Blast” vai do afrobeat ao jazz, do dub ao techno, do passado orgânico ao futuro sónico, das percussões tribais ao afro-futurismo, do simples ao complexo. Em poucas palavras, é um disco de chorar por mais.

Il Quadro di Troisi – Il Quadro di Troisi [raster]

“Il Quadro di Troisi” é o primeiro fruto da colaboração entre os italianos Eva Geist (letras e voz) e Donato Dozzy (eletrónica). Esta brilhante e emotiva obra presta homenagem ao falecido ator e realizador italiano Massimo Troisi, envolvendo o ouvinte no âmago da alma italiana, aquecida por máquinas e vozes que respiram muito mais do que synthpop ou italo disco – respiram um canto terno e etéreo. Num ano extremamente desafiante para todos, este álbum tem de fazer parte da banda-sonora oficial.

Kelly Lee Owens – Inner Song [Smalltown Supersound]

Foi enfermeira e toca uns discos como DJ, mas foi o trabalho lançado este ano que trouxe a certeza: Kelly Lee Owens veio para ficar. No sucessor do álbum homónimo, a galesa fez aquilo que se espera de um longa-duração, recorrendo ao coração (e a eletrónica com toques pop, vá) para contar uma história íntima e exemplar. Com uma colaboração com John Cale pelo meio, este é um disco imprescindível que serve para nos acompanhar nos melhores e nos piores momentos.

Kyam – Path of Compulsion [Unbidden Audio]

2020 foi um ano diferente e este lançamento também o é. Tecnológico, obscuro, indefinido, industrial e pesado são as palavras-chave para descrever este EP com tendências avant-garde suportadas pelos pilares do género super-sónico, vulgo drum’n’bass. Kyam é um nome a seguir que, embora ainda seja desconhecido, tenta trazer algo novo. “Path Of Compulsion” não foi o seu único lançamento, mas serve de convite para a música deste produtor. Bom proveito.

LUZ1E – Ridin’ [Shall Not Fade]

O arrepio não engana. Ouvindo pela milionésima vez, a fusão de footwork, juke, leftfield, soulful house, breakbeat, pitched down drum&bass – e tantas outras categorizações que poderíamos referir – continua a seduzir-nos insanamente. Não prevemos o futuro, mas é provável que conste também nos favoritos desta década – ou pelo menos estará lá perto.

Molero – Ficciones del Trópico [Holuzam]

“Ficciones Del Trópico” foi lançado pela portuguesa Holuzam e é um disco tão imperdível quanto imaculável. Com um Yamaha CS-60 debaixo dos braços e influências de escritores do ocidente sobre a Amazónia surge, assim, o primeiro álbum de Molero. Entre paisagens cintilantes e devaneios sintetizados, o venezuelano dá-nos as boas vindas a um local mágico e pacífico, levando-nos desde Barcelona, onde vive, até mundos outrora desconhecidos.

Nazar – Guerrilla [Hyperdub]

A Hyperdub é, desde sempre, uma porta aberta aos campos alternativos de ritmo, baixas frequências e estéticas sonoras experimentais. E, neste caso, Nazar é puro exemplo disso. O género cunhado pelo próprio, rough kuduro, as raízes ancestrais angolanas, o caos tecnológico e sonoro são algumas das tendências que se fundem neste longa-duração do produtor residente em Manchester. “Guerrilla” é impróprio para cardíacos, mas vale a pena o risco.

Ricinn – Nereid [Blood Music]

Com a fervorosa comunhão entre Laura Le Prunenec, uma das vozes mais multifacetadas da atualidade musical, a percussão de Sylvain de Bouvier, o violoncelo de Raphael Verguin e a guitarra de Laurent Lenoir, “Nereïd” é uma oração barroca em 12 partes cuja componente transcendental se cola de imediato ao ouvido de quem a escuta. É um álbum de peças orquestrais com forte componente coral, e a aura monumental e obscura que carrega consigo caracteriza bem o ano em que foi lançado.

Sabaturin – Kenemglev [Holuzam]

Charles-Émile Beullac (Galerie Stratique) e Simon Crab, dos Bourbonese Qualk, juntos, num álbum que significa “consenso” em bretão. O canadiense e o britânico nunca partilharam o mesmo espaço, mas “Kenemglev” faz parecer que o processo foi feito em total intimidade, tal é o consenso e coesão que se escuta. Na realidade, Beullac e Crab compuseram o disco num processo de partilha em jeito de mail art, chegando a um resultado que é muito mais do que simples rótulos IDM, glitch ou dub. É mestria.

Samii – Figuring it Out [2000BLACK]

Precisam de um boost de energia e autoestima? Então fiquem a saber que 9 em cada 10 médicos receitam este EP. Não é verdade, mas devia, tais são as boas vibrações que emanam do vozeirão de Samii. Soul, R&B e broken beat a não perder para pistas distintas.

Surgeon – The Golden Sea [Ilian Tape]

Numa fase em que as residências estão fechadas, um lançamento destes só nos faz sentir com ainda mais vontade de voltar aos “velhos tempos”. “The Golden Sea” são três faixas dedicadíssimas às pistas de dança, com o habitual techno analógico sempre aliado à distorção incomparável deste cirurgião sonoro. Afinal, senão excelência, o que mais se poderia esperar de um lançamento de Surgeon na Ilian Tape?

Tim Reaper – Cityscapes [Lobster Theremin]

Entre jungle atmosférico e UK hardcore surge uma nostalgia que nos remete para os anos 90. É assim mesmo este certeiro lançamento do produtor londrino – uma aventura entre breaks programados e até rasgos de techno. Tim Reaper é um dos nomes que mais tem chamado a atenção, com uma sonoridade algo clássica e sempre matura, e “Cityscapes” explica porquê. Não temos dúvidas: o futuro deste nome será cada vez mais brilhante.

Tricky – Fall to Pieces [False Idols]

Tricky, com a sua atmosfera melancólica bastante própria, voltou em 2020 com um álbum no qual a vocalista Marta Zlakowska é uma das peças-chave – e que peça. Num trabalho de audição fácil e prazerosa, composto por 11 brilhantes temas, a fusão de downtempo e outras características mantém-se fiel ao artista, ainda que com ligeiras e bem-vindas diferenças. Pode até nem ser o melhor disco de Tricky, mas é uma luxuosa adição à herança que 2020 nos deixou.

Volruptus – First Contact [bbbbbb recors]

“First Contact” é electro alienígena que dificilmente passa despercebido e que, mesmo sendo futurista, respeita as raízes. Com artwork a condizer com o abrupto assalto que entra pelos nossos ouvidos, este é um trabalho em que o islandês Volruptus não tem medo de pousar a nave para recolher amostras de outros universos sónicos, mas sempre com coesão e seriedade – embora encontremos títulos como Top 10 BIZZARE Discoveies Science STILL Can’t Explain por lá.

Zero T & Beta 2 – Exiles [Metalheadz]

Em fevereiro avisámos que, embora 2020 ainda estivesse a começar, este seria um sério candidato a álbum do ano no que a drum’n’bass diz respeito. Foi uma afirmação ousada, mas pondo o ano em perspetiva, talvez tivéssemos tido razão. E fica o aviso: este dá vontade de sair de casa.

Textos por Daniel Duque, David Rodrigues, João Freitas e Rui Castro

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