AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Entrevista

Conferência Inferno e a “Ata Saturna” inspirada na cidade Invicta

5 Fevereiro, 2021 - 15:45

Sentámo-nos com os Conferência Inferno para falar sobre “Ata Saturna”, álbum de estreia que assinala também o primeiro registo como trio.

A primeira conferência no inferno remonta a 2019, quando a então dupla deu a conhecer, sob forma de EP, os segredos escondidos no “Bazar Esotérico”. Pouco depois, Francisco Lima (aka Jacketx) e Raul Mendiratta viajaram até à Antiga Roma para uma aventura psicodisléptica no festival Saturnália. E, desta vez, fizeram-no na companhia José Miguel Silva (aka Twisted Freak), que agora integra também esta reunião de cavalheiros saudosistas que nunca deixam de ter olhos postos no presente e futuro.

As experiências dessa viagem alucinante são contadas no souvenir que trouxeram de Roma, o primeiro álbum dos Conferência Inferno. Lançado esta sexta-feira pela Lovers & Lollypops, “Ata Saturna” é post-punk cantado em português, do mais brilhante que foi feito por cá nos últimos anos. Sério mas descomprometido, soturno mas jubiloso, reconfortante mas abrasivo, este é um trabalho que zarpa até Reino Unido ou Alemanha, mas que nunca larga Portugal definitivamente.

Embora passe essa ideia em certos momentos e seja muito composto por experiências do trio, este “não é um disco conceptual”. “É quase uma coletânea de músicas que foram feitas ao longo de um ano” e que foram escritas em ocasiões diferentes – “depois é que fomos gravar”, conta-nos Raul Mendiratta em entrevista.

Disponível em cassete, vinil e versão digital, “Ata Saturna” é um exercício livre em que, “se calhar, a única preocupação é que o fim tenha alguma relação com o formato de uma canção”, explica José Miguel Silva. E que canções:


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Não há dois sem três

Apesar de os Conferência Inferno apresentarem agora o primeiro registo como trio, esta nova formação não é fruto do acaso. Na realidade, também não é a primeira vez que assinam um trabalho como uma trindade do ocultismo – basta olhar para “s/t”, que editaram como Ilusão Gótica no ano passado. “O ‘Zé’ já costumava tratar do som em alguns concertos e, para me sentir também um bocado mais livre, em vez de estar a tocar e a cantar, achámos que era boa ideia”, diz Francisco Lima sobre esta adição.

Antes de entrar nesta viagem em setembro de 2019, José Miguel Silva, ou Twisted Freak, já conhecia e gostava da música do projeto. “Comecei a estar dentro daquilo que eles faziam já na altura em que estavam a gravar o EP porque eu também estou envolvido no estúdio onde gravámos o EP e o álbum, o Quarto Escuro”, explica, acrescentando que ficou “surpreendido” logo desde início – “na altura, mesmo antes de o EP sair, até lhes pedi músicas para passar em DJ sets”.

Numa aventura sinérgica em que “musicalmente todos contribuem de forma consistente nas ideias”, os primeiros ensaios correram bem. Nas palavras de Twisted Freak, este conseguiu “preparar-se e aprender as músicas rápido” – e até já houve concertos desde então, como é caso do que aconteceu no Lux Frágil, em Lisboa, em outubro passado.

Afinal, em estúdio há liberdade e poucas limitações, como explica Raul Mendiratta: “nós não temos nenhuma regra, depende mesmo de música para música. É um processo caótico. Para uma música fizemos de uma maneira, para outra foi doutra. A única coisa que há é o ‘Kiko’ a escrever as letras e a tentar encaixar na música, mas ele próprio também está a compor a música”.

“Por exemplo, no primeiro EP, as malhas eram todas jams”, conta Francisco Lima, ou “Kiko”. “Tínhamos o sequenciador do sintetizador, que ia tocando, e eu ia dizendo umas coisas. Depois, a estrutura era feita posteriormente para fazer uma música”. Mas em “Ata Saturna”, “por acaso”, “Kiko” pensa que “foi mais o oposto”.

Sobre as suas letras – melhor dizendo, sobre a sua poesia – “Kiko” diz tratar-se de “algo pessoal”, mas acredita que os outros dois membros “também se identificam com muitas das coisas” que escreve – “eles e outras pessoas que ouçam a música”. E tem razão. Além de “influenciarem a estrutura da música”, segundo Raul, são palavras que “inspiram”, que têm “um papel dramático muito importante, muito bem colocado naquilo que a canção quer transmitir”, acredita José.

“Kiko” tem “vários cadernos com várias coisas escritas”, que “normalmente sofrem um bocadinho por causa da métrica”. Mas o sentimento dessas letras, que anda de mãos dadas com a comoção transmitida pelos instrumentos, mantém-se inalterado e chega-nos com tal ímpeto que a relação semiótica entre homem e máquina vai criando um imaginário na nossa mente. Um imaginário que nos leva, por exemplo, até às ruas da cidade do Porto.

Uma “Independança” inspirada no Porto

Nenhum dos três membros é natural do Porto. Francisco Lima é de Vila Real, José Miguel Silva de Lamego e Raul Mendiratta de Aveiro, mas a cidade Invicta, onde vivem Jacketx e Twisted Freak, é uma das maiores fontes de inspiração deste álbum. “Acho que a maior influência que temos nem sequer é musical, são as vivências, é experienciar a vida no Porto”, confessa Raul.

“Mas que Porto é este? É o Porto da movida noturna?”, perguntei. “Acho que vai além, mas essencialmente também é da movida noturna”, respondeu “Kiko”, que relata muitas experiências da cidade nas suas letras. É o Porto de “ir beber um copo ao Taskinha e depois ir dançar ao Passos Manuel”, o Porto com a “comunidade artística rica, que também te leva a estar noutros sítios durante o dia e não só à noite”. É o Porto em que “o pessoal se liga de forma típica”, nas palavras de José Miguel Silva, que chegou a viver em Lisboa antes de se mudar para a metrópole do norte.

Inevitavelmente, o circuito musical portuense é uma inspiração. Entre outras referências, o trio mencionou projetos como Coletivo Vandalismo, Gam, Favela Discos, as festas da Ácida ou até DJ Lynce, que, para Raul, “foi uma grande influência” na música eletrónica. Curiosamente, outra referência é a própria Lovers & Lollypops, pela qual lançam este álbum de estreia, pois “têm um trabalho muito bom”, diz José.

Mas não é apenas no Porto de hoje que se inspiram. Na verdade, não viajam apenas até ao passado em Roma, fazem-no também para chegar ao Porto dos anos 80, como aquele que se ouve em bandas como Ban e GNR. A música de Conferência Inferno “pode ir desde o no wave de Nova Iorque” até ao krautrock da Alemanha, passando pelo post-punk do Reino Unido pelo caminho. Ainda assim, o primeiro álbum dos GNR, “Independança” (1982), “foi muito importante” para o trio, adianta Raul Mendiratta.

“Acho que sim”, confirma Francisco Lima, “esse foi dos álbuns mais importantes para a nossa formação e composição de algumas músicas”. Como explica Raul, isto parte da influência dos GNR em “viver a cidade do Porto”: “esse álbum é muito Porto, muito boémio, muito vida no Porto. É um bocado a mesma influência que temos”.

Repleto de experiências, “Ata Saturna” passa também por outras histórias além do Porto, como “beber copos depois de um concerto”, conta Raul. Nesses concertos ao vivo, estejam a tocar para uma ou 100 pessoas, os Conferência Inferno têm uma atitude punk “em qualquer situação”, uma atitude “que se foda”. E isso poderá ser comprovado via streaming nos próximos dias 19, 20 e 21 deste mês, naquela que será a apresentação oficial do disco.

Amanhã não é promessa, canta “Kiko” em Amanhã. Mas, hoje, com este “Ata Saturna”, temos uma certeza: os Conferência Inferno são mais do que uma promessa na música portuguesa.

Fotografia por Sandra Garcez

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