CATEGORIA
Podcast

N’A CABINE #032: VHS

19 Fevereiro, 2021 - 16:55

No primeiro podcast do ano, ouvimos uma cassete que nos fala sobre presente e futuro do techno português: VHS.

Vitor Hugo Silva, 30 anos, é o nome por detrás das máquinas que emanam ritmos assertivos e linhas de synths espaciais na música que nos chega com assinatura de VHS. O produtor bracarense chamou a atenção de grande parte da comunidade techno após o lançamento de “Textura”, em outubro passado, pela portuguesa Hayes, e cujas faixas intergalácticas, rápidas e hipnóticas nos levaram a considerá-lo como um dos nossos favoritos de 2020.

Para este ano, VHS tem já preparado o seu segundo EP pelo coletivo Hayes, ele que lançou o seu primeiro trabalho, “BLUE/GREY”, de forma independente. Com data de lançamento marcada para dia 26 de fevereiro, “Utopia” é uma peça envolvida em texturas enigmáticas, com um toque de jazz e uma composição extensiva.

Antes disso, VHS pegou na sua maquinaria para abrir o nosso podcast em 2021, com um episódio de 50 minutos recheado de groove, percussões e synth lines cintilantes e tecnológicas, mas sempre com o foco principal no universo techno. Enquanto não houver pistas, dançamos em casa.

Quem é o VHS e como surgiu este pseudónimo?
Em primeiro lugar, agradeço imenso o convite. O VHS é um pseudónimo que nasce da minha insatisfação e frustração perante vida em geral. Vejo a sociedade cada vez mais plástica, cíclica, fundamentalista e altruísta, o que de certa forma se assemelha cada vez mais ao conceito de máquina e de linha de produção. Todas estas frustrações são depois convertidas em música no meu estúdio de forma terapêutica quase. É dessa necessidade terapêutica que nasce VHS, Vitor Hugo Silva (o meu nome).

Quando e de que forma é que a música eletrónica entrou na tua vida?
A música electrónica entra na minha vida por volta dos 16 anos de uma forma muito ingénua através da minha irmã que ouvia bandas como Massive Attack, Portishead, Chemical Brothers, etc… Comecei a ouvir estas bandas com ela no carro e daí nasce a vontade de me debruçar mais sobre o assunto e também eu fazer as minhas pesquisas. Mais tarde, por volta dos 19 anos, ouvi também com ela Richie Hawtin no Indústria, em Vila Nova de Cerveira, e nesse momento decidi dar os primeiros passos na produção de música electrónica mais orientada para o techno.

Quais foram e são as tuas grandes influências? Algum artista que viste ao vivo te marcou em particular?
As minhas influências advêm de vários estilos musicais. Sempre ouvi bastante música, hábito que fui cultivando desde tenra idade. Dentro do techno as minhas maiores influências são James Ruskin e Surgeon. Dentro da música electrónica num sentido mais abrangente ouço muito Jon Hopkins e Floating Points, por exemplo. Depois ouço bastante jazz, tendo como referência Miles Davis, mas também ouço nomes como The Rosenberg Trio e toda esta nova vaga de jazz oriundo do Reino Unido como Yussef Kamal, Alfa Mist, etc… Ouço muito hiphop, Nas, A tribe Called Quest, Goodie Mob, J Dilla… e ouço também rock e metal, Tool, Mastodon, Meshuggah, Led Zepplin, Queen, etc…

Estes são apenas alguns exemplos de bandas que ouço com alguma regularidade e que de certa forma fazem parte do meu imaginário e inspiração musical. Quanto a artistas que me marcaram ao vivo na cena techno, para não divagar demasiado, diria que DVS1 e Planetary Assault System.

Sabemos que és multi-instrumentista. Que instrumentos dominas? Achas que teres esse lado é uma mais-valia para a composição de eletrónica?
Sim, toco alguns instrumentos como guitarra, baixo, bateria e arranho nas teclas também, mas não vejo isso como uma mais valia na composição de música electrónica. O facto de ter algumas bases teóricas de música e desafiar os meus ouvidos a ouvir coisas menos convencionais é que de certa forma cultiva o meu lado criativo. Dou por mim hoje em dia a fazer uma espécie de desconstrução dos temas que ouço de forma a perceber como estes foram concebidos e isso é o que mais me ajuda a criar alguns conceitos para a concepção da minha música. Isso e outras artes como cinema, fotografia, pintura, artes plásticas, design, etc..

Também sabemos que és um bocadinho geek a nível de hardware. Quais são as tuas armas favoritas? E que equipamento usaste para este podcast?
Sim, gosto bastante de hardware. Acho a ligação emocional mais interessante por ter ao meu dispor algo físico e palpável que posso manipular através do toque. Não quer dizer que apenas use hardware. Tento que haja um equilíbrio entre o hardware e software fazendo-me valer destes para diferentes coisas. Hoje em dia é possível fazer muito boa música apenas com software.

Quanto a armas favoritas, uso bastante um Clavia Nord Lead I, uma Elektron Analog Heat, um Roland MC-303, Roland Sh-101, Jomox Mbase 11 e um Korg MS200. Essencialmente uso quase tudo que tenho ao meu dispor no momento. Acho que o mais importante é conhecer bem as máquinas com que trabalhamos para poder tirar o máximo de partido delas, algo que no meu caso demorou anos. Para o podcast, usei um Akai APC40 MKII para controlar o Ableton (a ferramenta mais poderosa que uso), o Clavia Nord Lead I, a Analog Heat e um Boss CS-3.

Qual o balanço que fazes dos dois EPs que lançaste até à data?
Estou bastante contente com eles. Primeiro porque houve a possibilidade de eles existirem, o que revela o interessa das pessoas que os editaram, algo que me deixa tremendamente feliz e orgulhoso, e depois porque fizeram e fazem parte de um processo de aprendizagem numa área que me fascina imenso. Mais que o resultado final, às vezes é o processo aquilo que me desperta e me faz querer mais e fazer mais. Claro que o feedback, principalmente com o “Textura”, editado pela Hayes Collective (a minha casa), foi muito positivo e de repente vi a minha música a chegar a sítios que eu nunca pensei ser possível, isso também me dá vontade de querer fazer mais e melhor e, claro, deixa-me super orgulhoso.

Apesar desta fase que atravessamos, o que podemos esperar de ti nos próximos tempos?
A minha ideia é continuar a fazer música de forma ingénua e desprendida. Não crio grandes expectativas em relação ao futuro mas obviamente tenho algumas metas e sonhos que gostava de alcançar. Esta fase estranha que todos estamos a atravessar de certa forma deu-me mais tempo e mais vontade de matar esse tempo com a criação musical. Tenho-me dedicado imenso à produção e espero ver os meus projectos ganharem asas nos próximos tempos. O próximo será já no dia 26 de Fevereiro, “Utopia”, pela Hayes Collective mais uma vez.

Fotografia por Gonçalo Delgado

relacionados

Podcast

Deixa um comentário






t

o

p