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Entrevista

Boris Chimp 504: “Queremos sempre criar uma experiência audiovisual única e imersiva”

1 Março, 2021 - 16:42

Entrámos em contacto com um chimpanzé perdido no espaço. Chama-se Boris Chimp 504 e, apesar dos 10 anos de vida, só no mês passado assinou o EP de estreia.

Passaram por aqui em fevereiro com o curta-duração “Red Quasar” e ficámos curiosos com o seu trabalho. Boris Chimp 504 são Miguel Neto e Rodrigo Carvalho. No EP de estreia, trazem consigo uma componente audiovisual acentuada, além de experimentações “com compassos 5/2, 7/4, 11/8 e 13/16” e até um convite para visualizarmos “caminhos orbitais e coordenadas polares”.

Rodrigo e Miguel conheceram-se em Barcelona, num Mestrado em Artes Digitais. Entre propostas de trabalhos em conjunto com a turma, foi no final do curso que começaram a trabalhar juntos. Tinham algo bem assente em relação ao que pretendiam: um projeto audiovisual cuja base fundamental fosse a experiência ao vivo. Pesquisas pelo mundo do sci-fi aqui e narrativas falsas ali, eis que encontraram a história de ficção de Dwayne Allen Day. Boris era um chimpanzé russo e, de repente, fizeram dele um cosmonauta. Foi enviado para o espaço e, perdido o contacto via satélite, nunca mais ninguém soube dele. Um chimpanzé perdido no espaço: foi nesta premissa que o duo se inspirou, estabelecendo o ponto de partida para uma viagem rumo ao desconhecido no mundo da arte eletrónica futurista e avant-garde.

Miguel Neto é a cara por detrás do som. No DJing, é conhecido como Discossauro pelas suas misturas de música em vinil, desde tropical e world music até rare grooves. Para além disso, já organizou sessões de improvisação e colaborações com artistas algarvios, ele que está também à frente do Caribe Ibérico, uma plataforma de sessões musicais com artistas locais. Quanto a Rodrigo Carvalho, o homem dos visuais tecnológicos, cabe-lhe explorar panoramas óticos e dispositivos interativos para a criação de performances, instalações e espaços imersivos. Já teve o seu trabalho exposto em variados eventos nacionais e internacionais e, além de professor universitário na área das artes digitais, é também co-fundador e responsável pela direção de arte da Openfield Creativelab.

Juntos a bordo deste Boris Chimp 504, Neto e Carvalho já passaram por inúmeras casas e festivais pelo mundo fora, como Sónar, em Barcelona, Electroalternative, em Toulouse, Fotonica, em Roma, Echo, no Dubai, Criatech, em Aveiro, ou Festival Iminente, em Lisboa. Em 2016, por exemplo, foram convidados pela Solid Dogma, em colaboração com os Lindo Serviço, para criarem uma experiência audiovisual interativa na estreia da mais recente temporada de X-Files na Fox Portugal. Esta instalação era uma nave espacial que se despenhou na Estação do Oriente. Automaticamente, interferia no quotidiano de quem por ali passasse, tanto quanto a música do duo interfere no nosso dia-a-dia se fecharmos os olhos.

Lançado a 1 de fevereiro, “Red Quasar” está disponível no Bandcamp e YouTube.

Antes de saltarmos para o vosso trabalho, como se conheceram e o que vos levou a criar um projeto audiovisual como este?
Rodrigo (R): Conhecemo-nos em Barcelona, no Mestrado de Artes Digitais e foi aí que começamos a trabalhar neste mundo do audiovisual, programação e instalações interativas. No final do curso, iniciámos o trabalho juntos e tínhamos o objetivo de criar um projeto audiovisual, e tudo começou daí. Lembro-me que, na altura, vimos uma série de trabalhos de Alva Noto e Ryoji Ikeda. Foram essas as referências para nós, e também o são para muita gente do audiovisual.

Miguel (M): Na altura, eu já estava em Barcelona e o Rodrigo em Madrid. Ele trabalhava em Design Gráfico, queria ir mais além na questão do visual. Eu tinha tirado um curso tipo ETIC, Restart, em Barcelona, em termos de sound design. Eu vinha da área do som, ele vinha da arte dos visuais. Sempre tivemos muito claro que queríamos um projeto audiovisual desde o princípio, sempre foi pensado assim parte a parte. Já fizemos 10 anos em 2020 – estive uns tempos no Chile e ainda estivemos um ano parados. Mas em 2013 retomámos, cada um no seu sítio: eu em Faro e ele no Porto, já com um método de trabalho em rede.

De que forma é que a história de um chimpanzé enviado à lua vos motivou a dar nome a este projeto? Qual o objetivo nesta viagem pelo universo?
R: Nós tínhamos como referência as temáticas da ficção científica e espacial e, na altura, estávamos à procura de listas de aspetos e histórias referentes aos espaço; que não fossem sobre heróis bem sucedidos ou missões bem executadas, mas sim falhanços. Em paralelo, na altura, tínhamos visto uma exposição de um fotógrafo catalão, o Joan Fontcuberta. É um fotógrafo peculiar que cria narrativas que não existem. Nessa exposição, havia uma peça sobre um astronauta russo que tinha desaparecido no espaço; era uma série de fotos, mas estava tão bem realizado que a história chegou a aparecer em programas do oculto e da conspiração. Na própria exposição, havia uma televisão a correrem estes programas que narravam essa história como verdadeira. Na altura. gostámos desta questão das narrativas falsas e demos de caras com um texto semelhante que falava sobre o Boris Chimp 504.

M: É uma história que encontramos neste website, que basicamente falava dos russos que, em 1969, tinham uma série de chimpanzés possíveis e mandaram o 504 para a lua. E, no dia 7 de julho, tinha sido perdido o contacto com ele. Estas reticências pareceram um bom ponto de partida porque ficamos a pensar: “o que é que aconteceu depois?”.

R: É um nome que funciona bem em vários idiomas: tem um toque russo, mas também resulta no inglês e no português, por exemplo, e isso também é importante.

M: Nos primeiros dias, ficámos mesmo fascinados com a história, mas passado uns tempos começámos a aperceber-nos que era, na verdade, um texto satírico, de ficção, escrito pelo Dwayne Allen Day, um científico que escreve sobre o espaço. Adiantando, em 2020 falámos a primeira vez com ele. O Dwayne é um historiador espacial e consultor do Conselho de Engenharia Aeronáutica e Espacial, está envolvido em montes de coisas. Este texto satírico é um bocado a gozar com o pessoal das conspirações: quem estivesse dentro sabia que era uma história de ficção, mas quem fosse de fora acabava por acreditar. Contou-nos de um caso em que alguém fez uma apresentação na universidade, tendo tomado a história como algo verídico desde o princípio. A narrativa falsa esteve sempre lá.

R: Aliás, no ano passado, ao procurar no Google por “CHIMP Dwayne”, fui acabar num fórum do espaço, o Space Review, e deparei-me com um artigo a falar do Boris Chimp. Falava de como a história foi arrastada ao longo do tempo, e mencionou que tinha até encontrado o nosso trabalho. E com isso acabámos a trocar emails e fizemos uma videochamada. Ele escreve regularmente no fórum Space Review. Às vezes vamos trocando umas mensagens… Nós dizemos que encontrámos o nosso pai.

M: No Facebook, quando saiu o “Red Quasar”, ele fez um post sobre o lançamento que dizia algo do género: “Criei isto nos anos 90, mas eles levaram-no para outra realidade”. É um mega geek do espaço, mas não está muito dentro das tendências de música eletrónica. Nós fomos explicando o que fazíamos… É um aficionado por porta-aviões e cenas de aviação, já está nos seus 50 anos. E pronto, é um gajo super interessado em cenas espaciais e Star Wars.

R: Foi curioso para os dois lados.

Qual é a história por trás do novo EP “Red Quasar”?
M: Durante estes 10 anos, nós sempre estivemos concentrados no aspeto “ao vivo”, espetáculos audiovisuais e instalações. Também chegou a acontecer planearmos começar a trabalhar em som, em meses que tínhamos livres, e do nada aparecerem trabalhos, como por exemplo aconteceu com o X-Files. Eu nunca vi o Boris Chimp como um projeto de música electrónica, mas sim um projeto audiovisual. Sempre nos vimos como um projeto que só faz sentido se for visto ao vivo. E, no caso dos espetáculos, que duram entre dois e três anos, vão sofrendo sempre pequenas mutações ao longo do tempo em que os apresentamos. Na Bélgica, acontece de uma forma, depois, em Espanha, já é ligeiramente diferente. Há sempre espaço para improvisação.

O “Red Quasar” surgiu numa série de experiências. Tanto o Rodrigo como eu já tínhamos iniciado o “Vanishing Quasars”, em setembro de 2019. Em 2020, ainda tocámos em dois eventos em Portugal, por acaso, no Algarve. Em algum momento, comecei a estudar compassos complexos, usando o Ableton. Fui ler um bocado sobre coisas de jazz e acabei por escolher quatro compassos: o 5/2, algo mais lento, o 7/4, 11/8, e por último o 13/16. Eu andava por aqui a tentar explorar isto para outros projetos e, na altura, surgiu esta cena. Também tivemos um espetáculo online e aproveitámos para pegar nisto. E, depois, já tínhamos assim algum conteúdo, e o Rodrigo já estava a explorar coisas que estavam relacionadas com o “Vanishing Quasars”.

Assim, dizemos que o “Red Quasar” é um spin-off do “Vanishing Quasars”. E quando nós tivemos esta ideia de finalmente ter um EP, num registo para ouvires em casa, de não ser uma cena ao vivo, resolvemos reorganizar tudo em faixas, sempre com a tendência audiovisual, sendo esse o core de tudo. Ao mesmo tempo que fazemos isto, não temos, para já, qualquer pretensão de apresentar ao vivo. Precisamente por ser um spin-off, foi criado para estar no Youtube, para as pessoas fazerem download. Na teoria, vamos ter alguns espetáculos este ano, e vamos voltar ao “Vanishing Quasars”. Claro que há coisas que se tocam, mas o “Red Quasar”, na narrativa, é um sonho que o Boris teve para chegar ao “Vanishing Quasars”. O primeiro é sempre o que custa mais. Foi criado num curto espaço de tempo, mas serve também para, a partir daqui, estarmos mais à vontade para criarmos outro. Nós já tínhamos feito um EP, mas foi para um trabalho de comissão. Não éramos nós 100%, porque era um trabalho que nos pediram para fazer… Isto surgiu para desbloquear algo que ainda não tínhamos.

R: Até acho que nas primeiras vezes em que apresentamos algo novo, está sempre um bocado enferrujado. Ao longo dos gigs é que vamos acrescentando conteúdo.

M: Quando acharmos que estamos no final do “Vanishing Quasars” e quisermos passar para outro, provavelmente vamos gravar qualquer coisa, para ficarmos com o registo. Tenho uma unha encravada com o “Multiverse”, mas voltar atrás não faria sentido.

R: Sim e depois aparece sempre algo novo, um pedal ou um visual… Há coisas que vão saindo e outras entrando, há sempre algo a ser limado. Por isso, ao final de uns gigs, a cena está mais aperfeiçoada.

Que balanço fazem do seu resultado final, onde aprofundaram a noção dos odd rhythms?
M: O “Vanishing Quasars” é 4×4, há mudanças de BPMs, mas pode voltar a acontecer, experimentarmos compassos marados. É uma coisa que define muito o projeto, cada um está no seu meio, o Rodrigo vai mudando e experimentando programas diferentes, mesmo com programação; no meu caso, vou mudando de máquinas, tenho os pedais, mas, lá está, parte muito da exploração sonora e visual, e de que forma isso combina. A nossa ideia é sempre criar uma experiência audiovisual única, uma experiência imersiva.

R: Isso foi uma dúvida que durante muito tempo tivemos, se publicássemos algo onde iria ser, nunca quisermos separar o som da imagem. Acabamos por escolher o Bandcamp, por ter uma estrutura e uma comunidade interessante, se bem que sempre que fazem o download, há também a opção de comunicarem connosco para mandarmos os vídeos, só que não pediam os ficheiros de volta, são cerca de 1 giga de ficheiros…

M: E esses mesmos vídeos estão no Youtube. Mas temos o nosso site, Vimeo, Twitter, Instagram, Flickr, isto para dizer que ao longo destes 10 anos há registos. E daí, claro, as plataformas audiovisuais são a preferência.

R: O Bandcamp também dá para meter vídeos, mas não funciona muito bem… mesmo no telemóvel ainda não é impecável. Mas como foi um lançamento independente, achamos que não valia a pena investir num plano pro, uma vez que temos os vídeos noutras plataformas.

Há algum mundo no Audiovisual que vocês gostavam de explorar e de que ainda não fazem parte?
M: Estamos sempre interessados em novas áreas. Vão aparecendo coisas novas. Recentemente, soltámos uma série de cenas em plataformas de arte digital que usam bitcurrency.

R: São NFTs: non-fungible tokens. Lançámos um na KnownOrigin. Basicamente, o pessoal compra e vende trabalhos. São obras que ficam registadas na Blockchain. São únicas – sim, podes fazer um print screen -, mas o que valoriza é ter o registo daquilo, que é o certificado de autenticidade. Há um mercado que está a explodir há cerca de um ano, desde o início da quarentena. Começou com os crypto kittens e com as skins há cerca de três anos e, recentemente, começou a aparecer, em plataformas mais artísticas, pessoal do 3D. No ano passado, houve um boom devido à quarentena e o pessoal da multimédia encontrou aqui uma fonte de rendimento. É quase um mercado da bolsa com obras de arte. E esta é só uma das muitas plataformas.

M: Pode-se vender áudio, vídeo, imagem… No nosso caso, vende-se conteúdo audiovisual.

R: O rei disto foi o Beeple, dos 3D e motion graphics… É um submundo um bocado peculiar. Começámos a explorar isto há pouco tempo.

Já passaram por alguns países onde montaram as vossas máquinas, mas qual foi o evento que mais vos marcou?
R: Há um que é óbvio: o Sonar em 2017. É um festival que sigo há muitos anos, focado na exploração da tecnologia e do audiovisual. É uma das Mecas. O palco, o Sonar Hall, foi onde tivemos das maiores audiências, apesar de ter sido a primeira atuação do dia. Por norma, as portas abrem por volta do meio-dia; nós abrimos a sala por volta das 14h30. Era quinta-feira, pensávamos que não ia aparecer ninguém. Tinha algumas pessoas no início mas, quando acabou e as luzes acenderam, estava mesmo um mar de gente. Foi das maiores audiências que tivemos.

M: Para mim é mesmo um highlight. 2017 foi um ano que tocamos bastante. Nna altura, estávamos a apresentar um espetáculo, o “Multi Verse”, e, quando chegámos ao Sonar, estava no ponto. É uma performance mesmo flawless para nós. Apesar de ser uma responsabilidade, por ser no Sonar, aquilo correu muito bem, recebemos excelente feedback de quem lá estava. Depois disso, fomos curtir o resto do festival.

Há algum palco em específico que vocês gostavam de pisar por alguma razão em especial?
R: Neste mundo do audiovisual, acima do Sonar, há o Mutek, cujo original é em Montreal, no Canadá. Depois, há outras edições. Nós tocamos já no Mutek em Barcelona, em 2011 e 2013, e no Chile.

M: Os três principais são o de Montreal, Cidade do México e Barcelona. Nós tocámos na edição do Chile, mas não é uma cena anual e coincidiu quando eu estava lá. Barcelona é o mais importante da Europa, mas tocar num Mutek Montereal seria um sonho.

R: Sim, o Unsound também é uma referência para nós. Há o LEV também.

M: O LEV em Gijón, Asturias, que é muito do audiovisual. Não sendo Madrid nem Barcelona, conseguiram meter-se no mapa na questão das instalações como o Semibreve em Braga na questão de música vanguardista audiovisual.

Quais são os softwares e o hardware presentes na vossa criação artística?
M: Há muitos anos que trabalho com o Ableton e uso-o como Master. Uso o DrumBrute, da Arturia e o Minitaur, da Moog, que tenho há poucos anos. Antes, servia-me de sons que usava por aí. A minha forma de trabalhar é um bocado como o pessoal do dub: tens uma mesa de mistura com várias fontes de som e, por envios, mandas para vários efeitos, delays, reverbs, etc. A minha ideia é sempre esta de fazer uma mistura ao vivo com várias fontes de som que controlo com faders, misturando sons clean com sons wet. E uma coisa que tenho usado cada vez mais nos últimos anos é um mini iPad: ao longo do espetáculo, já tenho definido as apps que vou usar. Ou seja, no mesmo show, uso cerca de cinco aplicações para momentos diferentes, como se fossem instrumentos diferentes mas com esta ideia de mandar o som de um cabo para um delay, reverb ou o que for. E, depois, há um cabo que sai da mesa de mistura que entra no input do computador do Rodrigo.

R: Comigo é muito mais simples, é só software. No final do espetáculo, eu fecho o computador, vou beber uma cerveja e depois ainda volto para ajudá-lo a arrumar cabos [risos]. Eu uso dois softwares: um de programação, que se chama VUO, e uso outro software de performance ao vivo, o VDMX, pelo qual lanço as coisas ao vivo, e uso os dois em combinação. Digo os parâmetros que quero controlar no VUO e depois passo-os por dentro do VDMX, mas, em vez de vídeo, uso os pequenos patches que são controlados por slides. Tenho parâmetros associados à analise de som da mesa, que reagem ao som, e outras coisas reagem ao controlo MIDI, com knobs.. Basicamente programo os patches em casa, no VUO, e depois meto-os no VDMX, em que controlo os parâmetros através do controlador MIDI.

Qual foi o projeto que mais gostaram de fazer até hoje?
R: O que mais gostámos foi uma instalação que esteve no Festival Iminente, o “Scanning The Surface Of ValeTudo”. A parte audiovisual esteve muito bem. Era numa grande sala escura. Funcionou mesmo bem, o pessoal ia para lá mesmo numa de chill out e passava horas a contemplar aquilo. Eu visualizava isto a correr mundo. Ainda tentámos propôr este projeto em específico, mas preferem sempre outras mais antigas, às quais damos menos importância, ou mais interativas.

M: Claro. Até porque hoje, no mundo, normalmente, procura-se aquilo que é mais interativo…

Apesar de passarem despercebidos às massas, já colaboraram com a Fox Portugal para a estreia do X-Files em Portugal, em 2016. Como foi a experiência de trabalharem com uma multinacional num projeto que acaba por chegar à população em geral através da televisão?
R: O convite veio da Solid Dogma, uma agência criativa e alternativa nas coisas que faz. Foi fundada pelo Vhils e pelo Pedro Pires, que têm a Underdogs e a Solid Dogma.

M: Aquilo era uma cena sci-fi, eles aperceberam-se do nosso trabalho através do Samuel. Na altura, fomos a Lisboa para uma reunião no escritório deles, onde nos explicaram o que queriam fazer. Portanto, nós, na verdade, trabalhámos com a Solid Dogma e não com a Fox. Bem, tinhas os Lindo Serviço, que são builders, que constroem coisas, foram eles que fizeram a nave. Aquilo eram três ou quatro bocados, uma tonelada e meia, que foram soldados no dia anterior. Tinhas a Frontal, que alugava o material de som, e, depois, a nossa missão era tratar das luzes, do som, dos ambientes. Havia a parte interativa, quando te aproximavas da nave, as luzes incidiam nas pessoas.

Ainda que estivéssemos a seguir as orientações da Solid Dogma, eu não queria estar a chapar o áudio da banda-sonora original. Então, decidi ir ver a composição musical da faixa original e trabalhá-la com sintetizadores diferentes e reduzir a velocidade para metade. A ideia era eles bombardearem as pessoas através de publicidade e redes sociais com o aviso da queda de uma nave espacial entre o Vasco da Gama e a Gare do Oriente. E, na nossa ideia, sendo um espaço movimentado, não fazia sentido fazer algo frenético, queríamos que as pessoas parassem durante dois minutos para apreciar toda a atmosfera. Nós não temos muitos trabalhos de comissões, temos dois ou três, mas, de certa forma sempre correram bem porque nos chamaram pela qualidade do nosso trabalho, porque fazemos valer a forma como envolvemos o conceito e a proposta de trabalho. E sendo nós fãs de sci-fi e X-Files, é bom podermos fazer um visto na lista em algo que fez parte do nosso passado.

Trabalharam com mais alguma marca?
R: Sim, trabalhámos com uma marca de óculos, a VAVA. Eles também têm uma história futurista e minimalista por detrás dos óculos. Na altura, tínhamos seis faixas e cada uma contava os conceitos da marca: sociedades pós-futuristas, Bauhaus, entre outros.

M: Só que, enquanto até agora falámos em imagens geradas em tempo real, no caso dessa instalação eram vídeos fechados, em loops. Mas, através de uma interface, através do toque, poderias distorcer audiovisualmente, tornando aquilo numa experiencia mais única.

R; Isso, na realidade, foi a primeira experiência do Boris Chimp no Sonar. Embora tenha sido para uma marca, dizemos sempre que esta vez no Sonar não conta [risos]. Essa instalação rodou um bocado o mundo da moda, esteve nos showrooms da marca VAVA em Milão, Paris, Berlim, Porto, Barcelona…

M: O curioso é que isto foi em 2014, foi o primeiro trabalho em uma marca que partilhava os mesmos interesses que nós, em sci-fi, e era para apresentar no Sonar. Era aquela cena: o stand estava montado mesmo na porta onde, três anos a seguir, nós estávamos a tocar… E nós, ao mesmo tempo, estávamos ao lado do Sonar Hall. Estávamos no Sonar, mas não estávamos no Sonar: não estávamos no line-up, era uma cena comercial [risos].

Para concluir a entrevista: o que podemos esperar de vocês num futuro próximo?
R: Essa pergunta é uma incógnita. O nosso futuro próximo depende um bocado de como evoluírem as coisas nos próximos meses… Temos algumas possibilidades: uma instalação no Algarve, no verão, ou uma outra na Alemanha, que estava agendada para fevereiro mas passou para outubro. Apesar de tudo, vamos lá tocar ou, caso não seja possível devido às restrições, mandamos para lá a performance e alguém faz play… Para já são as coisas que estão em marcha.

M: Vamos ter uma edição que vai passar por revisitar coisas antigas. É uma ideia que já tínhamos previamente e, quando surgiu este contacto, achámos que era o que fazia sentido pois trata-se de conteúdo audiovisual que usamos em instalações. É ter release composto por material que normalmente está em contexto de instalação.

R: Cenas que estiveram em festival durante uma semana ou duas e que nunca mais foram vistas…

M: Então, esse release vai consistir em ir buscar coisas que tiveram esse curto momento, e ter isso mais ou menos como um EP. Mas estamos a falar de coisas dos últimos cinco, seis anos. Até ao final do ano, isso vai acontecer. E, claro, as cenas dos NFTs, este mundo paralelo no KnownOrigin. De certa forma, estamos aqui em várias frentes, não só no mundo físico mas também neste tipo de mercado que não implica a tua deslocação. Nós já estivemos em plataformas que pareciam que iam explodir e, depois, acabaram por não continuar. Andamos sempre atentos ao que acontece.

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