AUTOR

Nuno Vieira

CATEGORIA
Entrevista

Dream Ticket: um bilhete até à última estação

15 Setembro, 2021 - 19:05

O novo lançamento da Dream Ticket é o pretexto que precisávamos para vos dar a conhecer uma das editoras provenientes da Carpet & Snares.

A frequência com que se edita música de alta qualidade é, por vezes, de tal ordem que se torna difícil acompanhar. Para além disso, há uma certa tendência, na generalidade dos consumidores de música eletrónica, para se moverem em círculo: olhar além fronteiras, seguir etiquetas consagradas e ouvir artistas (re)conhecidos. E, como se sabe, quando andamos distraídos, acabamos por não conseguir ver o que está mesmo à nossa frente. Neste caso, ouvir.

Contudo, há quem prefira ir ao fundo, ao invés de ir ao longe. Quem não se importe de ir à volta, mesmo que demore mais tempo. Rui Ferreira é uma destas pessoas. E a sua editora, que batizou como Dream Ticket, nasce à sua imagem.

Conforme nos conta, o seu percurso tem sido uma viagem e tanto. No início, quando se juntou à equipa da Carpet & Snares, loja de discos e epicentro de vários projetos editoriais que resplandecem a partir da capital, “não sabia tocar nem produzir, a única forma que via a expressar-me artisticamente era a montar discos para uma editora”.

Agora, Rui é DJ (Roy), digger (ainda mais) impetuoso e responsável pela Dream Ticket, que apresenta como “orgulhosa sub-editora da Carpet & Snares Records”.

Para ele, tudo começou com longas sessões de música pelos terrenos menos frequentados do YouTube e SoundCloud, através dos quais desde cedo se apercebeu que existia muita música a ser feita e por editar. Mesmo sem saber, ia abrindo caminho para o que aí vinha: a devoção pela música inusitada.

No início, sentiu as dificuldades de quem pretende arrancar com os seus primeiros discos. Sem demos em caixa, confidencia-nos: “tive a sorte de encontrar o Ben (Binary Digit) e de poder inaugurar a editora com o primeiro disco dele” – isto em 2018. Três anos depois, são nove os discos no catálogo da label lisboeta, providos de artistas como Ryan James Ford, Pearl River Sound ou o prolífero Dave Patron, a assinar como The Wee DJs.

O último a chegar é da responsabilidade de Pyramid of Knowledge, diretamente da Coreia do Sul. De fonte invulgar, onde só vai quem tiver este “bilhete onírico”, chega um disco que consubstancia mais um passo na caminhada da Dream Ticket – e um passo em frente, diga-se. Entre golpes de electro, breakbeat, uma boa dose de acid e “alguns elementos de trance, um estilo que tem permeado vários discos novos de house e techno recentemente”, “Yuzu’s Dream” traz-nos quatro temas intensos, cortantes e espaciais.

Repleto de texturas sónicas, o trabalho “demorou algum tempo a ser fechado”, isto porque ambos preferiram esperar até terem em mãos “um disco que achassem especial”. Ao ouvir POK conhecemos, igualmente, Roy, que edita e expõe “o tipo de música que mais gosta de tocar e ouvir numa pista, mas não exclusivamente”, remata ainda.

Questionado sobre as maiores influências da editora, responde-nos com as suas, neste caso, Aphex Twin e o IDM britânico, que lhe levantaram a cortina do “universo que é a música eletrónica”. Entretanto, afirma que se vai movendo constantemente e “descobrindo novos estilos que formam agora o meu gosto pessoal”. Afinal, a editora “é um espelho do meu gosto pessoal e não focada num só género, por isso é que não tem tido uma linha de lançamentos particularmente coerente”.

Como sempre, o caminho é todo para diante e o plano é continuar a lançar discos. Quanto à seleção dos artistas, tantos os que precederam como os que aí vêm, conta-nos que a seleção nem sempre é metódica, embora tenha “um tipo de wishlist com dezenas de artistas que gostava de convidar a enviarem-me música”. Muitas vezes, “descubro um artista novo que me interessa e decido abordá-lo”, outras recebe demos que terminam em lançamentos, como já aconteceu em dois casos.

No futuro, e para além dos lançamentos, Rui quer “criar uma estrutura que continue a colaborar com os seus artistas, tanto a nível editorial como ao nível de eventos no pós-pandemia”. Como nos diz, “quer continuar a alimentar e a adicionar a este núcleo para no futuro dar mais ainda aos artistas”.

Antes de ir, ainda nos conta um segredo: o próximo disco vai ser um VA, o primeiro da editora. Ainda que prefira o “formato do artista a solo”, “tinha músicas soltas que possivelmente não seriam editadas de outra maneira”. Os artistas continuam um mistério, mas temos a certeza de que Rui é a pessoa indicada para os escolher.

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