AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Entrevista

Maria Amor: “Quis desistir várias vezes, mas voltei sempre à música”

12 Novembro, 2024 - 9:30

Está por trás da Paraíso, lançou a aventura editorial a solo ETERNA este ano e o trabalho não se fica por aí.

Há histórias que florescem por nada mais senão amor à música. Esta é uma dessas. Maria Amor já tinha feito parte de bandas na adolescência, mas recorda com especial carinho um feriado há 18 anos em que, ao lado da prima Inês “Violet”, começou a dupla que viria a ser conhecida por A.M.O.R. Volvidos todos estes anos, esse amor ainda ecoa em tudo o que faz.

É o caso da reconhecida editora Paraíso – “a Paraíso do Shcuro”, muitos dirão nesta sociedade patriarcal – ou da mais recente ETERNA. Esta última é a sua primeira label a solo e já pôs cá fora dois trabalhos – “Aerosol”, de BLEID, e “Primitive Soundscapes”, de Bakongo. Surgiu pela vontade de “lançar música fora da esfera da Paraíso” e por uma outra paixão – a do “amor à bass music e aos polirritmos, arte emocional, às vezes um pouco invulgar”, como nos conta nesta entrevista.

Além do design gráfico, tem-nos presenteado com música em formato de produções, colaborações em que dá a voz ou DJ sets – ouça-se, por exemplo, a recente passagem pelo Outra Cena, em Lisboa. O primeiro EP a solo, “Her Roses Dance Louder Than Tears”, saiu em 2020 e, desde então, já fez chegar frutos como “Having Everything”, disco com assinatura de Community Theater, dupla composta por Chrissy e Maria Amor, ou faixas como Inner Child, lançada num VA da portuense XXII. Para os próximos tempos, tem um EP com Shcuro a caminho.

“Enquanto houver música minha, ela terá a minha voz”, diz-nos, numa conversa que vai desde o início do seu percurso até à visão sobre a cena clubbing que idealiza, passando por Paraíso, ETERNA e não só.

Olá, Maria, e obrigado por este momento. O nascimento da tua nova editora ETERNA suscitou a vontade de ter esta conversa contigo, mas talvez volte atrás antes de irmos a esse projeto. Sei que começaste a tua aventura ali por volta de 2006, ou pelo menos assim se lê nos textos que há pela net. Consegues recordar um bocadinho esse início?
É verdade, já lá vão 18 anos. Começou no feriado de 5 de outubro de 2006, eu e a minha prima Inês aka Violet estávamos juntas e sem nada para fazer. Tínhamos connosco o álbum “Loop:Agents – Beat Generation”, da já defunta Loop:Recordings, do Rui Miguel Abreu e do D-Mars, e, enquanto amantes de rap, pensámos “bora tentar?”. Escrevemos, gravámos no mic do computador dela, e uploadamos para o MySpace umas barras escritas em cima de beats desse tão formativo CD. Recebemos muito feedback, apoio, motivação, e o resto… é história mesmo. Começámos as A.M.O.R. nesse dia, mas já tinha feito parte de bandas quando era adolescente, ou seja – não sei bem quando começou mesmo este amor.

Olhando para os teus DJ sets ou outras atividades que acredites que façam sentido referir, de que forma esse caminho se traduz no que fazes hoje?
Tenho a certeza que fui ter aos breaks e ao universo a que me dedico mais hoje porque comecei no hip-hop. Sem dúvida. A escola que ganhei enquanto rapper fez-me entender como navegar beats quebrados e amar cadências de vozes, pausas, samples. A leveza com que via artistas a lançar música com ou sem editora, a pele que se arrepiava numa barra perfeita, as poucas horas dormidas para conseguir ver todos os concertos possíveis fizeram, no fundo, espaço para a música que hoje faço e lanço existir.

Houve algum momento decisivo na tua dedicação à arte?
Adorava dizer que sim, mas não. Pelo contrário, quis várias vezes desistir, e talvez o tenha feito mesmo. Mas de alguma forma voltei sempre à música. Eventualmente habituei-me a aceitar que este meu amor nunca me ia partir o coração, e mesmo que não tenha o que é “uma carreira de sucesso”, sei que fiz tudo o que podia para editar, criar e rodear-me de música. Morro feliz.

Apesar de o teu EP de estreia ter saído em 2020, já tinhas outras músicas soltas. Como chegaste à decisão de o lançar nessa altura? Vem de uma espécie de evolução artística?
Estávamos todos fechados em casa durante a pandemia, quando fiz o meu primeiro EP a solo. Claro que por isso houve tempo. Mas, na verdade, ele foi motivado por uma alma que o Céu guarda, a da Carina, que partiu sem aviso. Agarrei-me à tristeza que tinha e fiz o que sabia que ela queria que eu fizesse: a minha própria música. Ela sempre dançou profissionalmente, a vida toda, e nunca a vi tão feliz como no palco. Senti esse impulso, como que vindo dela, para fazer música que a fizesse dançar.

Não te cinges ao DJing ou à produção, tanto que és designer e até vocalista. A paixão por cantar surge antes ou depois do interesse pela música de dança?
É difícil dizer mas, dado que comecei enquanto cantora em miúda e rapper um pouco mais velha, diria que a voz veio primeiro. Depois DJing, e depois produção. No entanto, havia razões que eu desconhecia para gostar tanto da música que tocava nas discotecas onde ia quando era adolescente, como o icónico Paradise Garage. Eu é que não sabia.

Gostaria de relembrar o “Having Everything”, no qual deste voz às produções de Chrissy no projeto Community Theater. Como é que isso surgiu e como foi essa experiência?
O Chrissy veio tocar a uma “Summer of Love” nossa, nas DAMAS, há uns quantos anos, e já admirava o trabalho dele há muitos mais. Ele precisava de uma cantora (acho que foi a Inês que me sugeriu) e o resto fluiu. Ele escreveu e produziu a música, eu interpretei e experienciei o que é dar voz a uma cabeça que não a minha pela primeira vez. Encaixamos desde o início, e continuar foi um no-brainer.

Podemos esperar por mais trabalhos com a tua voz nos próximos tempos?
Sempre. Nem sei se tenho música em que participe que não tenha voz, nem que seja modulada a servir de bass, por exemplo. Penso sempre primeiro com a voz, e muitas vezes gravo-a, manipulo-a, e só assim consigo o elemento que queria. Enquanto houver música minha, ela terá a minha voz.

Já agora, caso possas dizer, em que andas a trabalhar neste momento?
Estou a acabar o primeiro EP conjunto com o Shcuro, depois de mil colaborações, que envolve duas originais e dois remixes, e que vai sair na nossa Paraíso. Tenho várias músicas quase feitas para um outro EP e um álbum.

Antes de olharmos para a ETERNA, gostaria de falar sobre a Paraíso e aqui é claro o impacto da cena rave dos anos 90 em Portugal em ti. Podes falar sobre como é estar por trás de uma editora tão importante como esta – do seu início aos dias de hoje?
Que bonito elogio! Obrigada do coração. A Paraíso é a nossa paixão. A missão é juntar o new school com o old school, respeitando sempre o que podemos aprender uns com os outros. Há muitos momentos que me emocionam, como a confiança que DJs que sempre admirei nos deram, ao entrar no nosso programa de rádio na Rádio Quântica, tocar nas nossas festas, e agora entrar num documentário que estamos a finalizar. É um abraço quente saber que a comunidade que nos abriu caminho, também nos recebe e apoia, o que me inspira a levar sempre essa missão e carinho para o futuro. É igualmente incrível ver que pessoas tão novas nos dão o mesmo amor, e sentem o que nós sentimos em relação a esta scene, que sozinha se ergueu contra todas as vontades do paradigma cultural português. Juntos somos um símbolo de luta pela cultura.

Já agora, como foi esse impacto da cena rave e música de dança portuguesa em ti?
Cresci com a So Get Up!, e o icónico mix-cd do Alcântara-Mar do Luís Leite, e hoje em dia sinto-me eternamente grata pelo companheirismo e inspiração que todos esses DJs que marcaram o caminho me dão, sem nunca me verem como diferente. Somos uma comunidade de amantes de música, o que me enche de honra, e ao final do dia só posso agradecer.

Olhando agora para a ETERNA, podes falar sobre como decidiste avançar com esta ideia? O que a distingue do que fizeste até hoje?
A Eterna surgiu de querer lançar música fora da esfera da Paraíso, música mais relacionada com a que me fez querer fazer música também. É a minha primeira editora a solo e, apesar de não ter um fio condutor nada estrito, há sempre uma “vibe” que acredito que se sente. Eu sinto. É amor à bass music e aos polirritmos, arte emocional, às vezes um pouco invulgar.

Começaste com EPs de BLEID e Bakongo, ambos com diferentes pessoas convidadas para os remixes. Como fizeste e fazes a curadoria para a ETERNA?
Penso o mais “alto” possível e depois vejo se é possível. BLEID foi a pessoa que eu sabia desde o início que queria que marcasse a abertura da Eterna, o seu trabalho é incrível em formas que não sei descrever por palavras. Há uma exploração sonora quase Sci-Fi que me fascina. Os remixes do EP de BLEID de Bored Lord e Nídia criam, a meu ver, o pacote perfeito. Há uma variedade que se completa. O Bakongo é alguém que também admiro há muito, e cuja música se encaixa na perfeição na editora. O remix de MOTU veio adicionar novos olhos ao EP. Almejo criar variedade em todos os lançamentos da editora, mantendo uma identidade coerente, curiosa e extravagante.

O que podemos esperar deste selo nos próximos tempos?
Ainda não posso revelar detalhes sobre o próximo EP, mas, enquanto pessoa completamente biased, posso dizer que é incrível. No meu mundo ideal, a Eterna lança todo o espectro de polirritmos, focada especialmente no dancefloor, mas também no imaginário e na massagem rítmica mental e corporal que um baixo bem gordo nos pode dar. Não estou muito presa a nenhuma identidade, gosto de mudar de ideias, mas sei que tudo o que editar tem que se alinhar com os meus princípios, e será sempre equilibrado e representativo da cena diversa de música incrível que é feita hoje, ontem e amanhã.

Como olhas para a cena eletrónica na capital hoje em dia? O que é feito de bom? O que está em falta?
A meu ver o que está em falta é mesmo tirar o foco da capital. Quando olho à minha volta vejo pessoas de todos os backgrounds a investirem num país completamente desinvestido na cultura e na importância que ela tem para uma vida completa e feliz, a dar tudo o que têm para manter abertos espaços seguros onde a música floresce. O problema não é falta de boa música e bons artistas, é falta de fundos de um estado que não está interessado em criar ambientes de crescimento em que o capital não seja o interesse principal. A cultura DIY está em grande força a mostrar a resistência que temos e o que abdicamos para levar avante a missão que nos incumbe de alimentar as pessoas com música.

Infelizmente, onde está o capital estão também line-ups maioritamente heteronormativos, machos cis e brancos. É preciso dar lugar e oportunidades a quem não as tem, e historicamente nunca teve, senão ficamos neste loop eterno: as mesmas pessoas, os mesmos sítios, os mesmos sons. Quero sentir-me segura numa noite inclusiva e quero criá-la também. Um eterno shout-out ao pessoal que continua a insistir nas suas scenes.

O que consideras como essencial para uma cena saudável?
Espaços seguros e inclusivos criados com o verdadeiro intuito de partilhar música com todes. É bastante simples, really. Fazê-lo com amor e carinho por quem trabalha na noite e quem dança e vive nela também. É ver o nosso vizinho na rave como um familiar de que queremos e vamos cuidar. É deixar machismos tóxicos na rua e criar ambientes em que nos sentimos bem uns com os outros. É juntar a comunidade. É amar a música e quem a ama a ela também.

Fotografia de capa por Simão Carvalho de Matos

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