AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Entrevista

Vil: “Birds of Prey é o trabalho que mostra o que sou”

26 Novembro, 2024 - 15:49

Conversámos com Vil sobre o primeiro LP, o trabalho na HAYES e todo percurso que marcou a sua carreira.

Começou por tocar em bailes de finalistas, ainda no terceiro ciclo. No secundário, rendeu-se ao dubstep e eventualmente aventurou-se mais a sério com as festas Warface. Anos mais tarde, em 2015, lançou o EP de estreia pela Extended Records. Quase uma década depois, chega o primeiro LP, “Birds of Prey”, editado pela Dolly, de Steffi.

É difícil não olhar para Vil como um dos representantes máximos do techno português. O trabalho que tem desenvolvido a solo ou com o reconhecido coletivo HAYES são prova disso. O primeiro longa-duração chegou recentemente, sim, mas há muito que tem captado ouvidos em pistas de todos os cantos – basta olhar para a discografia, que há cinco anos já incluía trabalhos por selos como Planet Rhythm e Hardgroove, ou para as datas que tem tido noutros países.

“O ‘Birds of Prey’ é quase uma maneira de juntar públicos [de house e techno] com um LP”, diz Nuno Costa, afirmando ainda que este “é o primeiro trabalho em que quis abordar os dois mundos”. Nesta conversa, Vil guia-nos por esse disco e por tópicos como as influências que o moldaram e os planos para o futuro.

Se calhar começava já pelo “Birds of Prey”. Está ali o teu groove, tens ali camadas house. Como defines este disco em matéria de sonoridade?
É uma expressão minha. Uma expressão do meu trabalho porque até tenho ouvido mais house do que techno. Notas sobretudo na Vial, que é o tema mais house. Quando fui agora ouvir o Temudo ao Berghain, o Fadi Mohem tocou-a no Berghain e a Steffi tocou-a no Panorama Bar. Ou seja, dá para tocar nos dois sítios, o que é fixe.

O que eu quero é quase uma maneira de juntar dois públicos com um LP. Eu sempre fiz isso, sempre fiz house. Mas como Vil, acho que é mesmo o trabalho que mostra o que sou. Futuramente, house ou techno, o que quer que eu faça é Vil. Acho que o “Birds of Prey” é o primeiro trabalho em que quis mesmo abordar os dois mundos.

O que te motivou? Qual a razão para o teu primeiro LP só chegar agora?
Queria que fosse na altura e sítio certo. Podia ter feito na HAYES, tranquilo, é a minha casa, a spaceship, mas… Para já estamos cheios de releases a caminho, depois a HAYES está com outra visão de música. É uma cena muito forward thinking, futurista e intemporal ao mesmo tempo. Eu estou numa cena mais old school – intemporal, mas old school.

Podia ter esperado para abrir a minha própria editora – como fez o Artur [Nørbak] e vou fazer agora – mas houve uma proposta da Steffi para fazer um EP. Primeiro, ela abordou-me para fazer um remix…

Para o Luke Hess, não foi?
Sim! Correu muito bem. Vendeu bem, está a ser muito tocado ainda. Alto feedback.

A cena do álbum foi: a Steffi dizia para fazer um EP, eu enviei-lhe seis malhas e ela quis ficar com as seis. Daí disse-me algo como “se são seis, com mais duas… tens algum álbum lançado?”. Eu disse que não tinha e ela sugeriu fazer um e tentar ter uns oito meses livres. Disse também que já estava na altura e que eu tinha maturidade suficiente.

Eu queria que fosse uma cena mesmo especial e acho que tentei expressar-me ao máximo. Para ficar tudo certinho, algumas malhas custaram, claro. Não foi do dia para a noite. Acho que elas combinam todas bem. E conta ali uma historiazinha, que era o que queria fazer. Detesto cenas monótonas e lineares, acho que isso é boring, muito boring. Tanto que o LP começa mais pesado, vai mais baixo e depois acaba pesado outra vez. É o que eu gosto de fazer.

Estás a falar do processo de produção. Como é que foi isso? Focaste-te no disco ou pegaste em coisas que já tinhas do passado, por exemplo.
Eu tinha dois temas que a Steffi curtia bué e já andava a tocar. Quando enviei as tais seis faixas, ela disse para me inspirar em duas delas pois tinham pernas para andar – a Ritmo Duro e a Lowblow – e para pôr as outras quatro a soar tão bem como aquelas. Daí sugeriu fazer mais quatro ou cinco para ver o que conseguíamos sacar. Na verdade, fiz só duas ou três e fechámos aquilo num instante. Acho que, quando chegas a um patamar de música altamente, não ter nada nem ter ponto de partida é mais difícil.

No caso dela, ela ajudou-me bué, bué mesmo, disse-me o caminho. Intemporal, Detroit, dubby, house, techno, tech house se lhe quiseres chamar. E muitas guidelines, como é óbvio. Ela também já é uma pessoa que tem um knowledge acima do normal, não é? E dizia-me “olha, não te importas que eu dê aqui umas dicas”. E claro que não me importava, eu queria era que isto soasse o melhor possível. Temos uma química bué boa entre os dois e ela é uma grande amiga. Posso considerá-la mesmo como uma grande amiga.

Pois, queria perguntar isso. Como surge a tua ligação com a Steffi?
Ela vive cá há uns sete ou oito anos, uma cena assim. Nós já começámos a falar pós-pandemia, quase quatro anos. Ela sempre gostou de se envolver aqui com a malta do meio. Há muita gente que vem para cá por tax reasons e não quer saber. Ela não. Ela interessou-se. Até me levou a mim e ao Shcuro ao Berghain – e isso é uma cena linda. O João [Shcuro] já a conhecia há mais tempo e basicamente fomos criando laços. Foi uma cena automática. Tivemos um link fixe e hoje em dia é mesmo uma pessoa muito presente na minha vida, é uma amiga a sério. Big sister.

Além disto, tens ali duas indicatórias, não? A julgar pelos nomes das faixas.
Tenho. A Drea, que é para a minha mulher, já estamos juntos há nove anos, das pessoas que mais me apoiou e apoia de sempre; e a Magaz, para o Magazino.

Consegues partilhar se há alguma expressão em concreto que tentaste procurar nessas faixas?
A Drea tem uma voz ali, aquele get down, e fez-me lembrar um bocado a voz da Micas. Não é que ela tenha grande voz, mas lembrei-me dela e, pronto, foi uma dedicatória para ela.

A Magaz tem uma história engraçada. O synth dessa faixa já tem seis anos. Eu mandava música ao DVS1, ele tocava umas cenas, e por causa do Aslice, há uns dois anos, soube que ele estava a tocar uma faixa que seria algo como XK1A. Eu nem sabia o que era. Mandei-lhe mensagem, ele disse-me que era de um pack antigo, de 2018 ou 2019. Eu fui ouvir e… A única coisa original que tinha era o synth. Abri o projeto e tinha perdido tudo, só sobrava isso. A faixa nem estava muito bem produzida, ele usava como layering porque adora o synth. Peguei nisso, fiz uma cena mais ao meu gosto atual e acho que saiu uma cena engraçada. Como era assim a faixa mais peak time e como o Magazino foi um grande impulsionador para mim, como para começar a tocar para o Neopop e a conhecer a malta toda, foi basicamente uma dedicatória a essa peça fundamental.

Já que ele faria anos ontem, até te pergunto de que forma é que ele te inspirou.
Era mesmo boa gente, a sério. Eu gosto de dizer que é boa gente ainda. Acho que, para mim, ele ainda está aqui connosco. É uma pessoa do caraças. Tenho muita pena que não tenha podido tocar agora na Bloop no aniversário – era a minha primeira vez lá – mas não consegui adiar uma data em Corunha. Íamos lá celebrar, mas está-se bem, há de haver mais vezes.

Eu cheguei a viver com ele durante uns seis meses. Foi na altura em que comecei a namorar com a Micas. Eu estava a viver em Almada, ela estava no Algarve e queríamos vir para Lisboa. Queríamos alugar casa e ele disse para ficarmos em casa dele enquanto procurávamos. Ele detestava estar sozinho, não conseguia estar sozinho. E era fixe, ali às oito da manhã já se ouvia synth pop, pós-punk e cenas do género. Mostrou-me muita coisa. Ya, bons tempos. Já são quase 10 anos.

Neste caso estamos a falar de nomes de pessoas, mas também já deste nomes de sítios a faixas. Santa Apolónia, por exemplo, ou Anjos is the Birmingham.
E ainda há outra, Conde Redondo. Eu curto bué, são dedicatórias. Conde Redondo era o meu bairro antes, a primeira casa que aluguei em Lisboa. Fui muito feliz lá. Santa Apolónia é por causa do meu estúdio, que é lá. É o sítio onde o [Pedro] Cravo e o Vasco [Autrane] tinham o projeto menosdois. Era o hotspot do techno de Lisboa [risos] – estou a brincar. A Anjos is the Birmingham é brincadeira com Birmingham porque depois mudei-me para a Penha de França e a rua de baixo é já Anjos. Ah, e calma, ainda tenho outra com o Cravo, Caxias.

E olhando para a HAYES, como tens visto a evolução do projeto?
É uma máquina oleada. Felizmente, está a correr tudo muito bem. As coisas vão escoando sempre. Grande feedback, sinto-me orgulhoso. Acho que posso dizer que me sinto orgulhoso de qualquer um de nós e do nosso trabalho. Temos uma energia fixe. Algumas dores de cabeça, como é óbvio, porque somos cinco pessoas e nem conheço nenhuma editora que tenha cinco pessoas a escolher música. É muito complicado às vezes, mas não há nada que votos e decisões unânimes não resolvam. Estamos no bom caminho. Estamos lotados para um ano – diria nove meses a contar de agora, ou 10, 11 meses – portanto está mesmo tudo estudado e há altos trabalhos.

Acredito que estares envolvido nisso e com os teus pares também te inspira a ter mais força para o teu próprio trabalho.
Claro que sim. Tanto que, imagina, estou a começar a minha label com o Cravo e isto está tão oleado que vai ser mais fácil agora. Há muita malta que fica sempre de pé atrás para começar uma editora por causa das questões burocráticas. Nós já trabalhámos com a mesma empresa há seis anos, a Triple Vision, e tenho luz verde para fazer música – logo isso é meio caminho andado. Temos engenheiro de som, que é o João [Temudo], e label manager, que é uma pessoa que trabalha com a Steffi e nos vai ajudar. Está tudo feito já, até porque a HAYES me ensinou a como fazer as coisas.

Indo mais atrás ainda, até porque acho que não há muitos registos sobre isso: a tua aventura começa com a Warface?
Foi mesmo a Warface, foi o início do início. A cena de tocar e ter pratos em casa já vem de antes, mas fazer festas e coisas foi a Warface.

Como é que foi essa transição? Estar mais envolvido no lado de bass music e…
Foi natural, mas foi tão rápido. Na altura, comecei a ficar farto do dubstep, já tinha morrido completamente em Inglaterra e começou a haver aquelas labels novas do Boddika, como Swamp 81 ou Nonplus, todas elas a diminuir os bpms ali para os 130 e a pôr os beats 4×4. Ouvir ali uns temas do Boddika, que ainda hoje toco bué, tipo aquele electro, house, techno mais escuro, são cenas ouro mesmo. Boddika, Joy Orbison, Hessle Audio. Simplesmente segui as cenas da editora.

Depois houve alguns artistas que fui apanhando, como Truncate. Para mim, foi um dos artistas que agarrei na altura e que fazia bué sentido. Ainda hoje é dos meus preferidos, com aqueles baixos bem gordinhos, parece bass music aquilo. Foi contagiante. E foi daí. Começar a ver as ramificações, ouvir sets, e foi natural. Transição natural e rápida.

Não tocaste depois do Truncate no Festival Forte? Ou pouco depois?
Eu toquei nesse ano em 2016. Ele tocou no dia a seguir, eu toquei na sexta-feira. Foi a primeira vez que fizeram o dia de 24 horas, aquele calor absurdo.

Há algumas festas que te tenham marcado ou influenciado?
Sem dúvida a Kalimodjo. Marcou-me muito. Foi das cenas que mais me marcou. Trazerem Andy C, por exemplo. Até a Therapy Sessions me marcou, na altura era expoente máximo para nós.

Mas as cenas que mais marcaram foram fora. Ir ao fabric ao aniversário Digital Mystikz para ouvir Mala, Coki e Loefah, que ainda hoje são os gajos que mais gosto de dubstep. Em vez de ir a Lloret de Mar na viagem de finalistas, pedi o dinheiro aos meus pais e fui para Londres. Éramos um grupo de terroristas, esquece, uns seis ou sete num hostel em King’s Cross.

Quando é que a produção entra na tua vida?
Eu já na altura brincava. Isto do dubstep começou em 2008, ali até 2011. Eu ainda toquei bastante dubstep. Ainda produzi algum dubstep, mas não lancei nada, e só faço o primeiro lançamento em 2014 como Vil numa compilação da Golden Mist Records. Uma cena meio dubstep, techno, grime. Grande salganhada. Daí comecei a interessar-me por techno, quis lançar uma cena a sério e lancei o primeiro a solo em 2015 pela Extended.

Aprendeste sozinho ou tiveste malta a ajudar?
No início, tudo sozinho. Comecei a produzir com o Logic, que na altura era um programa muito menos intuitivo, um bocadinho mais complicado de perceber do que o Ableton, que é um programa mais intuitivo e mais fácil e hoje em dia o mais usado no meio. Basicamente, sim, tudo autodidata, não havia sequer um “como fazer techno”, foi mesmo go with the flow. Só comecei a perceber mais alguma coisa quando me comecei a dar com o Temudo, Cravo e Vasco [Autrane] porque eles usavam Ableton. Estive muito tempo no Logic e só depois é que fiz a transição. Eles vinham da ESAD, cursos de produção musical, e eu não, era um gajo que tinha saído do Continente e acabado de trabalhar na secção das frutas. Eu por acaso andei na António Arroio, mas tirei audiovisuais, não tinha nada que ver com produção musical, era direcionado para cinema.

Depois da Extended vem Faut Section, Soniculture… O que recordas desse tempo?
Soniculture, o Forte como é óbvio e noites do Lux… Olha, outra produtora mais para a frente que me marcou bem foram as noites da Soniculture à quinta-feira no Lux. Sei lá, Ben Klock para 500 pessoas, Function, Silent Servant, gajos assim. O Ilídio [Chaves] mostrou-me bué coisas, eu não comecei nesta onda assim toda animada e uplifting. British Murder Boys, a cena inglesa, e sobretudo Silent Servant. Sandwell District também ou Chain Reaction. Dub techno do melhor que há. Lembro-me também da Orpheu no Europa Sunrise. Noites incríveis. Das noites que mais me marcou lá, Eric Cloutier.

Tocámos em coisas tugas e depois vem Synewave, Planet Rhythm, Hardgroove… Esta pergunta é um bocado óbvia, mas certamente há de te ter enchido de orgulho.
Claro, foi esse passo a passo que me fez chegar às coisas de que eu mais gostava. Mas claro, isso é música a falar por si. Não há outra questão, as pessoas não me conheciam. É o trabalho de estúdio. Eu sempre fiz isso: queria lançar em algum lado e trabalhava para isso. Fui sempre um bocado assim, se meto alguma coisa na cabeça é para fazer e conseguir.

Tendo em conta isto das labels, como é que encaraste o teu caminho na música ao longo dos tempos? Alguma vez levaste de forma mais leve ou sempre tiveste na cabeça que querias fazer isto?
Desde o início que quis. Já para aí aos 16 anos dizia ao meu pai que queria ser DJ. Isto começou tudo porque, no 8º ou 9º ano, na festa de finalistas do colégio… Eu já tinha algum conhecimento porque o meu primo Tiago me mostrava muitas coisas. Ele é que foi a razão da música eletrónica. Martin Solveig, Danny Tenaglia, Deep Dish, cresci a ouvir isso. Na altura, eu chumbei no 7º, então os meus amigos chamaram-me para tocar no baile de finalistas. Começou por aí. Foi uma coisa amadora, mas acabar o 9º ano e saber que foste o DJ dois anos seguidos, é logo peito cheio [risos]. No 10º ano, começo a ouvir dubstep e a comprar discos.

E quando é que percebes que podes fazer mesmo disto vida?
Foi nas primeiras três festas da Warface. Faço a primeira festa da Warface, não dá prejuízo. Faço a segunda, dá um prejuízo, mas é pequeno. Faço a terceira, corre bem. Há a quarta festa, somos convidados para o Europa e ficámos lá dois anos como residentes. Estávamos a fazer, ali em 2009 ou 2010, uns 600€ por mês. Era muito dinheiro na altura. Pensei que se conseguisse fazer a festa e tocar mais duas ou três vezes conseguia fazer disto vida. Foi a partir daí. Falei com os meus pais e disse que qualquer part-time que viesse a ter seria só para suportar porque o que eu queria era fazer música. Foi complicado, mas hoje em dia respeitam-me muito. Tinham que respeitar-me: ou não nos dávamos ou tinham que respeitar-me.

Tu e outros têm representado bem aquilo que é o techno português. Gostaria de saber a tua opinião sobre o crescimento disto e desta cena toda.
A nível de produção musical e de produtores, estamos melhor que nunca. Temos música bué boa. Posso dizer que finalmente temos uma cena cá. Antes fazia-se, hoje temos uma cena. Acho que estamos agora numa altura um bocadinho menos fixe de clubbing, noto isso. Acho que estamos um bocadinho em crise de clubbing. As pessoas preferem ir a festivais do que a clubes. Já se falou disto. Os festivais estão, a certo ponto, a afetar um bocado os clubes mais pequenos, menos mainstreams. As pessoas preferem-se guardar para ir a festivais e a clubes não tanto. Mas pronto, o que eu digo é muitos produtores e poucas festas – é o que eu digo da cena cá.

E projetos para o futuro? Já falaste na editora.
Tenho um EP para o ano a sair na Self Reflektion, início de abril, um split com o Cravo. Duas faixas em colaboração, duas a solo. Já era para ter saído, mas houve uns atrasos e para não estar a lançar um EP e depois álbum… Para mim não faz sentido nenhum, a música tem de respirar.

Depois, a nova editora. Vai chamar-se Carícia Records. Está tudo encaminhado. Daqui a um mês, dois, devo anunciar alguma coisa.

Fotografias por Ruben Marrocos

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