Beatriz Sousa esteve à conversa com Aurora Katana sobre o novo disco, que chega na mesma altura em que a artista se encontra a escrever uma autobiografia.
Aurora Katana abre a pista para uma dança íntima ao som de melodias futuristas e biónicas. O convite é feito em “Katana”, álbum lançado a 6 de março, composto por 11 faixas que se desdobram pelo luto, espiritualidade e reivindicação do ‘eu’.
“Eu diria que (este projeto) é super íntimo, visceral, reivindicativo e empoderado”, conta-nos a artista. Cada malha foi orquestrada com o intuito de ser uma auto-representação e espelhar a sua situação atual, tendo como fonte de inspiração a experiência e as memórias que surgiram durante o processo de redação da sua autobiografia.
“Eu estava a escrever um livro autobiográfico, então eu estava a lidar com memórias e a música acabou por ser influenciada e ter essa base do livro”, recorda. “Comecei a desenhar e a compor cada track um pouco como se fosse uma memória minha, um momento meu. Dei o nome ‘Katana’ porque é um nome artístico, no fundo, então acho que o self-title fazia sentido para este disco. Fui orquestrando cada track, cada malha, com o intuito de ter esse pedaço meu, essa representação.”
Os três anos entre o lançamento de “Flesh Against Flesh”, que serviu como um período de cirurgia e de procura da sua corpa, foram marcados pela maturação e compreensão da sua posição no mundo. Ao contrário dos outros projetos, neste “Katana” abre-se para relatar o processo de luto e de perda da sua avó, navegando por estas emoções, compreendendo-as e materializando-as. Trazendo de si uma vertente espiritual, afirma um novo modo de estar, algo presente nas faixas Amélia e My Head Is Underwater, que retratam a profundidade emocional e a vulnerabilidade.
“Eu sinto que esses dois temas trazem a profundidade dessa corpa”, revela. “É como se eu fosse para as minhas entranhas, no fundo, esse berro sai mesmo das entranhas. É provavelmente a dor mais profunda, tanto que quando gravei a música em estúdio tive um ataque de choro.”
Aurora Katana não está sozinha neste caminho: “O facto de estar com a Filipe Sambado também me ajudou a reagir às situações. O facto de ela me ter abraçado enquanto eu estava a gravar a música e o facto de eu estar a chorar, no fim, enquanto estava a ter esse ataque… Não era suposto o final acabar assim, sinto que foi tão natural e tão bonito esse nosso momento.”
“Acho que essa vulnerabilidade, no fundo, realiza ali alguma coisa”, continua. “Esse é o desfecho de todo esse mantra com a minha ‘mama’ e tudo o que senti, dessa perda, dessa dor extrema que eu nunca tinha sentido. Foi a primeira vez que o senti na minha vida, então foi um choque. Foi das tracks mais difíceis de ouvir, sempre que chegava a essa faixa parecia-me insuportável, não me conseguia distanciar, ainda hoje não consigo. Já o resto do disco trazia-me para um lugar diferente e deixava-me confortável.”
Na malha I Am, encontra-se a manifestação de Katana, onde se ouve a afirmação do ser. Esta mostra a sua posição sobre a emancipação e reivindicação, desafiando os problemas da atualidade, nomeadamente o retrocesso de valores sociais e a ascensão de partidos de extrema-direita. A corpa surge como um grito de contestação e reflete como o ‘eu’ se posiciona enquanto artista e pessoa face a estas situações, algo que se interliga com as melodias apocalípticas, futuristas e biónicas no curso do álbum.
“Esse texto em específico, essa letra, no fundo é desse livro que eu estava a falar no início”, nota. “Eu sinto que neste momento da minha vida estou muito mais madura, mesmo a nível de som, acho que isso também acaba por se distinguir. Procuro compreender que lugar ocupo neste momento no mundo e como é que eu me posiciono de certa forma, face a todas as situações externas que estamos a viver. Acho que a ‘Katana’ vem de todo esse olhar sobre este momento que estamos a passar.”
Videogame foi o single que iniciou este capítulo e o primeiro com um videoclipe. Fazendo uma ponte com “Flesh Against Flesh”, esta faixa representa a sexualidade e o empoderamento. Aurora refere que o processo criativo para o vídeo se expandiu para o jogo entre as suas diversas facetas, repensando a posição da mulher na sociedade.
“Eu tinha esta ideia de brincar um pouco com opostos e [da forma] como eu represento o lado da popstar backstage e da popstar em cena”, recorda a artista sobre o videoclip. “Trazer essa parte visual, e as pessoas terem acesso a esse backstage também, é super importante. Como é que essa boneca, toda montada, vive e como é que ela desmonta? E trazer também esse lado bastante sexual e empoderado, emancipado. Videogame é uma música bastante emancipada para as mulheres, expõe esta sociedade machista e fala sobre o prazer da mulher.”
“Katana” construiu-se através de uma coletânea de memórias pessoais e musicais. A transformação e ritualização de emoções é diretamente influenciada pela música que a intérprete ouve. Este novo projeto refletiu esse processo, revelando as inspirações musicais que impactaram o seu processo de conceção e afirmação artística, como é caso de SOPHIE, que a artista “sente que é como se fosse a sua mother”, Britney Spears, Janet Jackson ou FKA Twigs.
Fãs da artista puderam contar com uma apresentação ao vivo do álbum, na mesma data da sua estreia, nas Damas, em Lisboa, onde Katana se mostrou “muito mais emocional e focada na voz e nas letras”, descobrindo uma nova apresentação de si mesma em palco. No entanto, mostra-se esfomeada para regressar às performances empoderadas, repletas de coreografias e energia, nas suas futuras apresentações.
Esta entrega de corpo e alma foi recebida com um match de energia por parte dos fãs, alguns “(…) também já choraram ao ouvir o disco” e revelam receber de braços abertos a emoção e transparência nele presentes. Embora tenha havido algum nervosismo no pré-lançamento, Aurora admite uma boa recepção do disco.
“Até eu lançar, estava mesmo em pânico e muito emocional. Depois de ele sair, comecei realmente a ver os frutos e o feedback”, conta. “Agora estou feliz. Está a ser uma boa viagem e uma nova fase para esta nova Aurora, que é mais íntima e mais pessoal com as pessoas, com o público… com as fãs da Katana.”
“Katana” marca uma nova fase, funcionando como um despertar emocional. Neste projeto encontramos um jogo entre os ritmos avassaladores e futurísticos, característicos de Aurora Katana, e da sua intimidade. A obra, composta por 11 tracks e publicada sob alçada da Maternidade, vai contar com uma versão deluxe, ainda sem data de lançamento marcada, que promete trazer novamente “essa dor, mas com uma pessoa diferente.”
Fotografia por Alípio Padilha

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