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20 álbuns nacionais de que gostámos em 2021

14 Janeiro, 2022 - 16:48

Fechamos a nossa revisão de 2021 com 20 álbuns nacionais de que gostámos muito e com outras quantas menções honrosas.

Chegamos ao fim das nossas listas anuais com uma seleção de álbuns nacionais para vosso (e nosso) deleite. Não foi uma tarefa fácil, mas escolhas tinham de ser feitas.

Esta lista abre com um fabuloso álbum de estreia, o de A lake by the moon, e é rematada por um outro primeiro longa-duração, de Vasco Completo. Pelo meio há também muitos projetos novos ou recentes, como é caso de Fura Olhos, com o seu disco homónimo, ou SCOLARI, com o assombroso “MATA MATA”.

É claro que por aqui há também nomes bem consolidados. Ghent é um desses exemplos, com o envolvente “Fumo”, e Miguel Torga é outro, ele que regressou aos álbuns com “Matutino”. Neste sentido, há também trabalhos de Ka§par, Rui Maia, Knok Knok, Rui Reininho e Pedro Goya, entre outros.

Por entre discos de Aurora Pinho, Odete, Conferência Inferno, IKOQWE, Maria da Rocha, João de Nóbrega Pupo, deixamos ainda, mais abaixo, algumas menções honrosas, que poderiam perfeitamente perfilar na seleção de 20 trabalhos. Espreitem:

A lake by the moon – Life in Warp

É difícil não olhar para “Life In Warp” como um dos trabalhos mais bonitos do ano. O álbum de estreia de A lake by the moon foi construído a partir de sons emitidos por animais em vias de extinção, o que só por si já é bem atraente. Mas é mesmo a música que é altamente atraente neste disco: notoriamente pensado em cada detalhe, o álbum passa por várias tendências eletrónicas, sempre com uma peculiaridade bem viciante. A não perder, este é para ouvir do início ao fim sem interrupções.

Aurora Pinho – Flesh Against Flesh

É o segundo álbum da artista multidisciplinar feirense Aurora Pinho. É um álbum elástico, fluido, intenso e, acima de tudo, um retrato fiel e assumidamente militante do que é lutar pela liberdade de se ser quem é. Apesar de representar uma ruptura de fronteiras e uma nova etapa, “Flesh Against Flesh” é também um retorno às sonoridades primordiais de Aurora Pinho – r&b, hip hop e eletrónica – fundidas num extenso manifesto musical à liberdade repleto de valiosas colaborações.

Conferência Inferno – Ata Saturna [Lovers & Lollypops]

O álbum de estreia dos Conferência Inferno é um disco algo inspirado na cidade do Porto, sim, mas é muito mais do que isso. Com inspirações que vão desde pós-punk britânico ao krautrock alemão, a passar pelo no wave nova-iorquino ou por discos como “Independança”, dos GNR, “Ata Saturna” é um trabalho riquíssimo – não só em música, mas também nas letras do vocalista Francisco Lima – que foi repetido por cá vezes sem conta. Como escrevemos este ano, é um disco “sério mas descomprometido, soturno mas jubiloso, reconfortante mas abrasivo”.

Fura Olhos – Fura Olhos [Revolve]

Fura Olhos é eletrónica cantada em português e isso atrai a nossa atenção de imediato, quanto mais quando se trata de “eletrónica sentida e intensa”. E motivos faltassem para essa atração, note-se que estamos a falar de uma dupla bracarense que junta dois músicos de gerações distintas: o experiente Miguel Pedro e a cada vez mais curiosa jovem Inês Malheiro.

Ao longo de oito temas e cerca de 40 minutos, o álbum homónimo de Fura Olhos conduz-nos por um labirinto quase místico – no qual conseguimos encontrar a saída, no entanto, bem como compreender o mistério envolto. Por aqui, a doce, honesta e por vezes modificada voz de Inês Malheiro, que escreveu também as letras, acompanha composições de Miguel Pedro, que foi ao “baú” resgatar gravações de campo, sintetizadores ou cordas, tudo isto para compor uma das histórias mais bonitas do ano na música portuguesa. Simplesmente imperdível.

ghent – Fumo [Variz]

Talvez o mais cuidado trabalho da dupla que une Fernando Fadigas e Nuno Moita, “Fumo” cruza drone e ambient com dub e industrial com a naturalidade que só dois veteranos do experimentalismo conseguem ter. O resultado foi um lançamento para escutar com calma e que, parafraseando Nuno Moita, pode muito bem ser o mais cuidado trabalho da dupla até à data, já que junta sonoridades muito trabalhadas e já conhecidas dos dois artistas a novas experiências com camadas e dissipação de som, fazendo jus ao nome do álbum.

IKOQWE – The Beginning, the Medium, the End and the Infinite [Crammed Discs]

Por aqui junta-se o rapper e ativista angolano Luaty Beirão, aliás Ikonoklasta, ao compatriota Pedro Coquenão, ou Batida. É preciso dizer mais? Então cá vai: é um álbum conceptual, uma história de dois nomes (Iko e Qwe) que chegam de outra dimensão para conhecer o mundo secular, comunicando o que observam em línguas de música de dança ou hip-hop através de drum machines, field recordings do etnomusicólogo Hugh Tracey ou instrumentos angolanos. É um disco bem conseguido que poderia perfilar nesta lista apenas pelos instrumentais de Qwe, mas as vozes e letras baseadas na atualidade de Iko são o remate perfeito.

João de Nóbrega Pupo – The Death of Truth [Colectivo Casa Amarela]

Fruto de um trabalho audiovisual para apresentar no MadeiraDig de 2020, que não chegou a acontecer, o último lançamento de João Nóbrega Pupo, “The Death of Truth”, é uma abordagem musical à desconstrução de conceitos filosóficos. Desta vez mais distante do processo criativo pelo qual é mais conhecido, a sonificação, este é um trabalho que aproveita a oportunidade para “racionalizar um tema e expulsá-lo com sentimento”, nunca abdicando de regras, como explicou em entrevista à Rimas e Batidas. Há voz, filosofia, experiências com a liquidez do som e muito mais para ouvir neste disco mas, acima de tudo, há um lembrete do artista para a humanidade: não esquecer a empatia.

Ka§par – Gestures of Release [Percebes]

Este lançamento poderia ter nascido a milhas de distância que seria igualmente merecedor de lugar nos nossos favoritos. Mas nem é o caso: “Gestures of Release” surge na embaixada de João Pedro, bem no centro de Lisboa, e não conhece fronteiras. Há groove por todo o lado, uma fluidez sincera entre o house, o jazz e o disco, e não só. Uma espécie de recolhimento obrigatório da sabedoria de Kaspar, a favor do nosso deleite. Resta-nos agradecer por este rasgo que entra em nossa casa tal como a alvorada entra no clube quando a manhã está para nascer.

Knok Knok – Gravidade

De regresso aos discos em 2021, os experientes Armando Teixeira (eletrónica) e Duarte Cabaça (acústica) mostraram-nos por que razão este é um projeto que merece toda a nossa atenção. Quatro anos depois do álbum homónimo, a dupla mostrou, ao longo de 12 temas, o “pós-apocalipse kraut” e o “futurismo ficcionado” que retratam a sua música, tudo envolvido “num labirinto psicadélico do qual não queremos fugir”.

Maria da Rocha – nolastingname [Holuzam]

Depois de discos como “Beetroot & Other Stories”, lançado pela Shhpuma em 2018, a violinista Maria da Rocha estreou-se pela Holuzam com este “nolastingname”, gravado no estúdio EMS, em Estocolmo. Centrada num violino e num Buchla, esta composição de 32 minutos é o escape perfeito para a secularidade desgastante que vivemos, envolvendo-nos num mundo bem próprio no qual se respira uma contemporaneidade marcada por drone, eletrónica e muito mais.

Menino da Mãe – 20 20 [Extended Records]

Mas que autêntica bomba marcada por componentes químicos de poesia, eletrónica e punk é esta? Não há como este disco que corrói e distorce a alma não ser um dos melhores do ano. É algo punk, sim, mas “20 20” também é noise, drone, techno e muito mais. “Eu só acordo à noite e de ressaca”, canta o músico e poeta (!) em Ressaca. Já nós nem sequer acordamos – ainda estamos possuídos por este peculiar e deslumbrante pesadelo-que-sabe-a-sonho chamado “20 20”.

Miguel Torga – Matutino [INFINITA]

Deixemos tretas de lado e sejamos sinceros: Hugo Vinagre é um dos grandes produtores portugueses. Seja como Early Jacker, nome com que passou por editoras como Tribal, ou como Turista, com o qual assinou um belíssimo disco pela Discos Extendes, Vinagre dificilmente edita material que não agarre o ouvinte.

Folguemos, então, com o regresso do pseudónimo Miguel Torga aos álbuns, sete anos depois do bastante aclamado “Hexágono Amoroso”. Falamos de “Matutino”, um disco que corre ao longo de mais 50 minutos por entre campos tão verdejantes quanto convidativos, por entre sonoridades house ou elementos dub, por entre vozes viciantes ou letras cantadas em português. Se dúvidas restassem de que Vinagre é um produtor único e maduro, este trabalho é uma das grandes provas desse facto.

Mind Safari – Sincronismo [Rave Tuga]

No seu novo álbum, disponível em cassete e digital, Mind Safari explora sintetizadores e caixas de ritmos para trazer “Sincronismo”. Via Rave Tuga, este é um trabalho que, embora desenhado para a atualidade, estuda movimentos clássicos antes de partir para uma investigação empírica que abre caminho para o académico João Melo chegar a uma fórmula certeira, coesa e abrangente, que passa por géneros como ambient, acid ou techno. Em poucas palavras, “Sincronismo” é delicioso.

Nørbak – Flesh To Ashes [Warm Up]

No seu primeiro longa-duração, Nørbak renasce das cinzas para lançar um álbum que marca o final de um ciclo. Dedicado à memória do seu pai, “Flesh to Ashes” é um trabalho de techno contemporâneo, enciclopédico e penetrante, com um quê de sci-fi ou até de exercícios experimentais ao longo do LP. É um disco que não pode ficar esquecido e que promete agarrar o ouvinte da primeira à última faixa, tal é a congruência que Artur Moreira tem vindo a aprimorar desde os seus primeiros EPs.

Odete – The Consequences of a Blood Language [Genome 6.66 Mbp]

Todo o trabalho que Odete tem feito ao longo dos últimos anos reflete-se na maturidade, seriedade e brilhantismo do seu novo álbum. Um disco que conta com a participação de nomes como Herlander ou Pedro Mafama, “The Consequences of a Blood Language” é, em duas palavras, arrepiante e viciante. Tão típica desta artista, a multitude de influências sónicas quase passa despercebida: afinal, é um trabalho de Odete e ninguém mais senão Odete. Único e congruente.

Pedro Goya – Sycamore

Pedro Goya já anda nisto há muito tempo. E, quando dizemos andar, podemos estar a ser demasiado redutores. Com uma discografia tão extensa como o catálogo de uma editora, o setubalense não tem nada a provar. Ainda assim, assinou um 12” que nos faz viajar em primeira classe até uma pista de dança. Com várias influências, se não souberes por onde começar – mas vê lá se ouves do início ao fim – vai por nós: a faixa Dun é esclarecedora.

Rui Maia – Botany Department [GROOVEMENT]

A Groovement Organic Series é uma denominação de origem controlada, é certo. E Rui Maia? Bem, Rui Maia é um verdadeiro artista, e o seu mais recente trabalho é prova disso mesmo. Em “Botany Department” trabalhou com sons extraídos de vasos de metal, pedras ou garrafas até edificar oito temas que parecem saídos de um laboratório – tal é a sua magnitude. Ouçam, e se puderem escutem. Às vezes é melhor ir ao fundo e não ao longe.

Rui Reininho – 20.000 Éguas Submarinas [Turbina]

Um dos grandes discos do ano, quem sabe um dos melhores álbuns portugueses dos últimos tempos. Chega a ser algo indescritível. Num regresso aos trabalhos a solo depois de “Companhia das Índias” (2008), o incontornável Rui Reininho regressa antes ao seu lado mais experimental. Por entre gongos, taças ou sintetizadores, o vocalista dos GNR conta com a produção de Paulo Borges e a ajuda de nomes como Alexandre Soares para nos levar por temas cujos títulos já passam parte da mensagem deste disco (Ressonância Magnífica, Namastea, Tan Tan No Tibet), mas é mesmo a relação semiótica entre som, voz e letra que se eleva como uma santíssima trindade que nos leva daqui para lá, a mais de 20 mil léguas. Ou éguas, aliás.

SCOLARI – MATA MATA [Favela Discos]

Entre noise sussurrante e ecos de garagem subterrânea, são quatro as faixas que este trio de gigantes do free jazz soltou dos confins das suas sessões de experimentação. Marcado por um arsenal de sintetizadores, um trompete e muito tempo e espaço para sonoridades come-caco à mistura, ouvir MATA MATA é um pouco como mergulhar lentamente numa tampa de esgoto à procura de tesouros sónicos inigualáveis. Um disco impecável e grunge q.b. que não vai parar de rodar por cá tão cedo.

Vasco Completo – Wormhole [Monster Jinx]

Falar sobre um conceito tão subjetivo quanto tempo é sempre enriquecedor, assim como é ouvir um disco que seja ideal para ouvir do início ao fim. Juntemos as duas coisas e temos “Wormhole”, o álbum de estreia de Vasco Completo, o segundo músico português a passar com um disco sobre tempo nestas listas. Editado em versão digital e em vinil, este trabalho é um reflexo das várias inspirações musicais de Completo, que por aqui muta vozes (Lullaby for the Inebriate), vinca linhas de baixo ou cordas de guitarra ou até, pelo meio do seu génio criativo, desenha um ambiente convidativo. Isto tudo para criar um refúgio de que não queremos fugir desde o primeiro segundo de Forever.

Menções (mais do que) honrosas:
Accatone – Potentially Different
Augen – Tripulante
Clothilde – Os Princípios do Novo Homem [Holuzam]
Dada Garbeck – The Ever Coming Part III – Cosmophonia
David From Scotland – Hooligan’s Heart
DJ Ride – ENRO [VISION]
Gabriel Ferrandini – Hair of the Dog [CANTO]
Gustavo Costa – Entropies and Mimetic Patterns [Lovers & Lollypops]
Império Pacífico – Flagship [Leitura Tropical]
Lake Haze – Sun Rising On Concrete Landscapes [Shall Not Fade]
Máquina Magnética – Máquina Magnética [Crónica / Sonoscopia]
Moreno Ácido – You Deserve Love. You Don’t Need To Question It Anymore [1980LYFERS]
NO!ON – 7 2 6 [North Shadows Records]
Sarnadas – The Humm [Favela Discos]
Sensible Soccers – Manoel
Sturqen – Pantera [Nervu]

Alguns dos textos aqui presentes foram resgatados das nossas escolhas mensais

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