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2019: Vinte agitadores culturais

7 Janeiro, 2020 - 16:35

Para rematar a série de artigos dedicados a 2019, escolhemos 20 nomes que, para nós, tiveram um papel importante na cultura durante esse ano.

De coletivos a editoras, a passar por promotoras ou espaços, foram várias as entidades que trabalharam durante todo o ano com o objetivo de agitar a nossa cultura eletrónica.

Assim como nos artigos de melhores lançamentos nacionais e internacionais, muitos outros, e com um papel igualmente importante, ficaram de fora. Estes 20 foram os nossos favoritos, no entanto, e Daniel Duque e Rui Castro explicam porquê.

A Alice
A Alice merece integrar esta lista pela forma como tem abordado a música techno nos seus eventos. Com o Ministerium Club como casa para as suas festas, a equipa foge aos mais típicos e sonantes artistas do género – ainda que, para os mais aficionados, nomes como Jeroen Search, Perc e Headless Horseman sejam mais do que sonantes. Mas outra razão por trás desta escolha é a curadoria de DJs nacionais, sendo que A Alice tem um preocupação exemplar neste sentido – olhe-se para Gabi von Dub e Valody a encerrarem os dois últimos eventos de 2019 ou para a estreia de Sétima Dimensão em Lisboa neste mês de janeiro. Desde a sua criação, a promotora contou com portugueses como Caroline Lethô, Kids On Acid, Vör & Gagat, Temudo b2b Cravo e marum, o que revela, além de bom gosto, a vontade de dar a conhecer nomes da eletrónica nacional ao seu público.

Alínea A
Esta foi uma escolha que não se baseou somente no ano de 2019, mas em todo o percurso e relevância que a Alínea A tem assumido desde a sua génese, há quase sete anos. Desde então que, através das suas emissões (rádio online e videosets), eventos e intervenções culturais, esta é vista como uma das maiores divulgadoras do djing nacional e, consequentemente, dos que contribuem para uma seleção musical de excelência nos nossos clubes e festivais. A diversidade de artistas, e de géneros, que já passaram pelo estúdio é gigantesca, e não será, de todo, ousado afirmar que uma boa parte dos DJs nacionais já lá passaram. Na sua biografia, a Alínea A afirma que pretende “ter um impacto cultural positivo” e o que nos aprece dizer é que continuem, pois estão a conseguir fazê-lo.

Alinea A
Carpet & Snares
Como já vem sendo habitual, a qualidade apresentada nos lançamentos da Carpet & Snares em 2019 foi irrepreensível. A editora da loja de discos lisboeta, dedicada aos lançamentos em vinil, mostrou uma vez mais que a sua flexibilidade criativa não tem limites. Houve música gourmet para todos os gostos, desde o deep house do francês Saudade, ao house solarengo do patrão Jorge Caiado, passando pelo UK house e garage de DJ Chupacabra, a música maquinal e analógica de Berllioz e o techno de VIL. Ah, e não esquecer o electro de The Wee DJs e o experimentalismo de Ryan James Ford pela sub-editora Dream Ticket – espreitem, vale mesmo a pena. Mas esperem: já referimos que a Carpet & Snares também é uma bela loja de discos?

Counterpoint
Com uma residência bimestral no Hard Club em 2019, o coletivo portuense parece ter assentado arreais na sua cidade natal e a aposta em nomes internacionais foi mais forte do que nunca. Com um balanço saudável entre nomes consagrados da cena, como Spectrasoul, Icicle ou Halogenix e novos talentos, como Lavance, Was a Be ou Phentix, a premissa de constituir uma alternativa relevante que contribua para um crescimento sustentado e saudável do drum’n’bass na cidade Invicta foi alcançada. Para além disso, a Counterpoint trouxe também de volta a cultura primordial de ter uma presença em palco que faça a simbiose entre público e DJ, com Innace MC, Mc Tresh, Mc Fava e Mc Smoke 1 a figurarem nas festas Trust The Bass. Outro fator que a distinguiu das demais promotoras do género foram as já habituais “Warm-Up”, onde público e artistas tiveram a possibilidade de trocar impressões, contribuindo assim para estabelecer relações que vão muito para além da música.

Dark Sessions
É sem medo de arriscar, e com um amor incondicional à música, que as Dark Sessions têm servido de casa para que os estudantes da Universidade do Minho – e não só – possam experimentar e experienciar algo diferente. Estas proporcionam uma oferta cultural académica distinta, cujo eco do techno maioritariamente cru, mental, portentoso e sombrio tem emanado no panorama eletrónico nacional, e que lhes valeu o convite pela equipa do Neopop para fazer a curadoria da sala 2 do Hard Club, aquando da showcase da Dystopian de Rodhad, e que até já tiveram uma noite em nome próprio no Gare. Aqui, a promoção de um ambiente de respeito interpessoal, a diversão e a boa música são elementos chave para uma fórmula de sucesso e um buzz que cresce de sessão para sessão. Saudamos quem luta em prol da música e dos artistas nacionais, sem olhar a fama ou a egos e, também por isso, a presença das Dark Sessions nesta nossa seleção era inevitável. 2019 foi bom, e só podemos antever um 2020 ainda melhor.

East Side Radio
As rádios online têm desempenhado um papel cada vez mais importante na divulgação de artistas mais underground que, de outra forma, não teriam uma plataforma onde pudessem exibir a sua arte, e a dos outros, ao mundo. O carácter maioritariamente comunitário, cujo foco no lucro é secundário, que caracteriza grande parte deste tipo de rádios, permite uma liberdade criativa e autonomia passível de esticar os limites do convencional. A ideia não é inovadora, e foi com base noutras rádios – como a Red Light Radio – que a East Side Radio nasceu, no final de 2018. Com uma programação diversa e uma enorme amplitude musical, esta iniciativa da Ill-Pitched, de Tiago Pinto e André Granada, conecta entusiastas veteranos e novatos nacionais, bem como forasteiros que se encontrem pela capital. Aqui não há restrição de géneros e a enorme variedade dos convidados são prova disso mesmo: de Rui Maia a Keso, de Moullinex a La Flama Blanca, o que importa mesmo é a partilha de discos.

eXperience
A promotora eXperience, que tem atuado a norte do país, não poderia entrar nesta lista se os seus eventos fossem realizados em localizações habituais. Pelo contrário, a organização tem convidado DJs nacionais e internacionais para fazer a festa em espaços surpreendentes, nomeadamente o Castelo de Santa Maria da Feira, o Novo Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões e a antiga fábrica da conserveira Ramirez. Ao longo das três festas organizadas até à data, a eXperience contou com nomes como Nic Fanciulli, Hot Since 82, Marco Faraone, Stacey Pullen e Charlotte de Witte, mas, independentemente destes, é sempre a localização que fica na memória.

Hayes
Este coletivo lisboeta é outro nome que obrigatoriamente temos de referir. Depois de editar três discos em 2018, a Hayes esteve responsável por vários trabalhos que não nos saíram da cabeça em 2019, incluindo duas compilações que nos fizeram chegar produções de artistas que pouco conhecíamos, como é caso de Fresko ou O Positivo (alias do torreense Zoy aka Luhk). O ano passado foi o mais ativo da equipa enquanto editora: além dos referidos VAs, a Hayes lançou sete EPs, de nomes como Uväll, Mystics, Cravo e Temudo – os dois últimos fazem parte do core do coletivo. Como se não bastasse, a Hayes também passou por locais como o Lux Frágil e o Ministerium para mostrar aquilo de que é feita, e tudo isto leva-nos a olhar para o projeto como um importante revolucionário da nova geração de techno em Portugal.

Kalimodjo
Com uma deambulação constante entre o contemporâneo e a velha guarda, e percorrendo praticamente todo o espectro do drum’n’bass, são já 18 os anos em que a Kalimodjo se mantém na vanguarda da cena bass nacional. Em 2019 trouxe, uma vez mais, nomes tão díspares como Katharsys, General Levy ou Mefjus, e é de saudar quem olha para um género como um todo, sabendo dividir bem os artistas pelos eventos, e a contribuir positivamente para a proliferação de uma cultura que persiste em reinventar-se.

mina
Não é difícil perceber por que razão a mina deve fazer parte desta seleção de “agitadores culturais”. Fundada por marum, Photonz, Viegas e Violet em 2017, a mina é um coletivo que tem trabalhado em prol do mui importante papel da comunidade queer na cena clubbing, atuando quase como pioneira em Portugal. Aliás, não precisamos de ser nós a dizê-lo: da plataforma de streaming Boiler Room aos festivais WHOLE e Berlin Atonal, já todos perceberam a sua importância. Não tem sido tarefa fácil arranjar locais para organizar eventos, mas quando os organiza, a mina conta com nomes como Cashu, Sentimental Rave e, claro, os seus DJs residentes. E afinal, quem mais senão projetos como a mina ou a suspension para lutar por um lugar da comunidade LGBTQ+ na cena portuguesa?

marum | Boiler Room Lisbon: mina
naive
Com uma linha sonora altamente influenciada pela sua fundadora, Violet, na naive podemos encontrar alguns dos produtores mais inovadores e disruptivos no que a breakbeat, electro, acid ou techno diz respeito – e além de todo a atividade enquanto editora, em 2019 a naive levou até o Lux Frágil nomes como Ciel, Special Request e Hodge b2b Peverelist. Aqui, os cânones convencionais da eletrónica são deixados de parte e a ousadia rítmica é bem-vinda. Llana Bryne, Overland, Almaty e Photonz seguiram estas premissas à letra e difícil é escolher o melhor trabalho do ano – isto sem esquecer os lançamentos editados pela sub-label naivety.

Oráculo
Um dos critérios para a seleção dos agitadores culturais é a capacidade que cada uma das entidades escolhidas tem para influenciar a comunidade local e proliferar boa música eletrónica. Ora, se tivermos em atenção a programação deste pequeno bar na Serra da Estrela, reparamos que, apesar de se localizar numa zona do país onde a eletrónica não está tão presente como nas grandes metrópoles, o seu ecleticismo não é descurado. Em 2019 passaram por lá artistas como Switchdance, Terzi, Rui Trintaeum, Telma, Rui Maia ou Zé Pedro Moura, e há uma frase no Facebook do Oráculo Bar que resume a filosofia da sua curadoria: “Aviso: os nossos artistas não tiram selfies, não dão pulos na cabine, não tem pistolas de fumo. Apenas música da boa”. Da próxima vez que forem à neve, aproveitem também para dançar.

Paraíso
E o que seria da nossa eletrónica sem o legado que outrora nos deixaram? Provavelmente nunca teremos uma resposta concreta, por isso mais vale saudar os que nos abriram caminho e resgatar o sentimento dos primórdios da rave tuga. É este um dos objetivos principais da Paraíso, e foi com olhos postos no futuro, sem esquecer os pioneiros do passado, que esta uniu gerações distintas numa compilação dividida em quatro partes, intitulada precisamente Rave Tuga. Esta constitui uma bela montra para quem quiser conhecer produtores nacionais que, ao longo de 48 faixas, adaptaram o seu estilo em prol de um trabalho comum e inédito em Portugal. Para além disso, a Paraíso, que é também um programa na Rádio Quântica, editou dois dos melhores EPs de 2019, com um EP de Violet e o primeiro trabalho a solo de EDND. Motivos, portanto, mais do que suficientes para merecer o nosso destaque.

Pérola Negra
O portuense Pérola Negra é “a casa que quer ‘promover o que é feito cá dentro’“. Em pouco mais de um ano de existência, o clube tem-se evidenciado em vários aspetos, e não falamos apenas da forma como se promove através das redes sociais, por exemplo. Falamos antes do sentido inclusivo que tem tomado e, claro, dos seus eventos. Afinal, a equipa junta-se muito a outras entidades para coproduzir festas – entre elas, a já famosa Kebraku, a Círculo ou a XXIII. Pelo caminho, o Pérola Negra trouxe nomes como Avalon Emerson, Ceephax Acid Crew, DJ Stingray, Ivan Smagghe, Marcellus Pittman e, entre outros, Objekt. E se pensarmos que, se não tivesse sido atingido por uma inundação, o clube teria organizado uma festa de aniversário ao longo de 48 horas consecutivas, então ficamos ainda mais surpreendidos pelo rumo que a cave portuense está a tomar.

Segmenta
Em quatro anos de existência, foram 34 as noites em que projeto de Joana Martins e Gonçalo Neto (tcp Terzi) desafiou tendências e apostou em nomes menos conhecidos no panorama eletrónico nacional – Hieroglyphic Being, DMX Krew, Bruce, Maurice Fulton, Bufiman, Interstellar Funk, Maghreban, Mor Elian ou Suzanne Kraft foram alguns dos nomes internacionais a figurar nas Segmenta. E o risco assumido nestes artistas foi a fórmula de sucesso para a criação de um legado memorável. À exceção de cinco edições na capital, foi no Passos Manuel onde a festa se sentiu em pleno, e a 31 de outubro de 2019, aquando da celebração do quarto aniversário, a organização referiu que esta iria ser a última, “pelo menos para já”. Veremos o que 2020 nos reserva.

Sonoscopia
Há uma premissa óbvia que passa ao lado de muitos: a música eletrónica não é feita apenas de batidas 4 por 4, nem sequer é virada apenas para o clubbing. A portuense Sonoscopia, associação que está no ativo há sete anos, é prova disso mesmo. Mas atenção: aqui não há apenas eletrónica. O lado mais experimental também é um dos focos, como acontece no festival anual No Noise, que este ano contou com, entre outros, Christian Galarreta e Desterronics. Contudo, há muita eletrónica: em 2019, passaram pelo espaço da Sonoscopia nomes como Chris Janka, Nicolas Collins e Peter Kutin. Durante os próximos anos, o mais provável é que a associação continue a fazer este trabalho e, por isso, faz todo o sentido deixar desde já a sua marca nesta lista.

Vértice
E não é só Vértice, aliás. É Vértice, é Aresta, é Dancing is the Answer. Desde 2016, Lile Silva e companhia têm organizado eventos pela cidade de Lisboa sob o nome Vértice, promotora responsável por, entre outros, a estreia de Anetha e de Setaoc Mass em Portugal. Mais tarde veio a Aresta – mais virada para o house, já trouxe Bella Sarris e Cristi Cons, por exemplo – e mais recentemente a Dancing is the Answer – que tem tomado conta da sala dois do Ministerium com DJs nacionais (e não só). Em 2019, entre outros eventos, a faceta Vértice celebrou o seu terceiro aniversário com Drumcell, trouxe Speedy J em abril e Maayan Nidam em outubro, sempre com uma atenção que, deste lado, parece revelar um notável cuidado no que à organização de festas diz respeito.

Waking Life
Este é o único festival presente nesta lista, e a decisão recai sob o facto de ser um evento irreverente que, mesmo com um certo padrão, foge aos habituais modelos. O Waking Life acontece desde 2017 numa localização idílica, no Crato, e tem primado, além de toda a decoração e atividades, pelos cartazes abrangentes. Repare-se, por exemplo, na edição do ano passado: desde a música etiópica de Hailu Mergia até o minimal de Rhadoo, a passar pelo drum’n’bass de dBridge, um set disco de Molly ou o techno de Aleksi Perälä, houve atuações para todos os gostos. Para 2020, a organização já prometeu algumas mudanças – como o facto de os passes gerais serem os únicos bilhetes à venda – o que nos leva a ficar ainda mais apaixonados pelo festival que garante dar a conhecer muita música a cada edição.

Zaratan
É pela zona de São Bento, em Lisboa, que a Zaratan tem o seu espaço, uma associação sem fins lucrativos que tem “o intuito de promover novas formas de interagir com artistas e não-artistas”, lê-se no site oficial. Por lá, através de convidados nacionais ou internacionais, há arte sob forma de concertos, exposições, performances e tantas outras atividades – este mês estão confirmados André Sier, Park Hyun Ji e a 94ª edição do ciclo “Ñ-DJs” – sempre com o objetivo de “estimular a criatividade e gerar processos culturais válidos”. A maioria dos eventos são gratuitos, o que revela ainda mais acerca da paixão com que a equipa por trás da Zaratan trabalha durante cada ano.

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