AUTOR

Rui Castro

CATEGORIA
Entrevista

José Moura: “A Marte Instantânea representa um universo que me é mais pessoal”

16 Março, 2020 - 12:10

O mentor por trás da nova editora explica os motivos que levaram à génese desta plataforma, que pretende “pôr música cá fora que possa abrir um lugar qualquer de estranheza”.

Dia 6 de março marcou o nascimento de uma nova editora “informal que acontecerá quando acontecer” – a Marte Instantânea. Esta “editora irmã” da Holuzam será especializada em CD/digital, com especial e cuidada atenção na embalagem dos discos e na reutilização/reciclagem de materiais, e será da inteira responsabilidade de José Moura. Este prolífico membro do panorama nacional, conhecido por Novo Major nas cabines, é um dos responsáveis por editoras como a Holuzam e a Príncipe, e gere ainda a Flur Discos, loja lisboeta que, desde 2001, se mantém na vanguarda das novidades musicais em formato físico.

O primeiro lançamento da Marte Instantânea foi “Electronic Music 1995-2010”, de Vítor Rua (GNR, Telectu), uma compilação de temas selecionados pelo próprio José Moura, que até então estavam apenas disponíveis digitalmente. Esta ligação ao artista não é nova, até porque o primeiro trabalho que a Holuzam editou (ou melhor, reeditou) foi “Belzebu”, dos Telectu – projeto experimental que Vítor Rua manteve com Jorge Lima Barreto até à morte deste último, no ano de 2011, mas, entretanto, algo reativado.

Porque surgiu esta nova editora e qual o objetivo?
A ideia já estava na minha cabeça há vários anos. Isto no fundo é um projeto mais pessoal, pois a curadoria será minha, que acontece no contexto da Holuzam e que, se quiseres, pode chamar-se uma subeditora da Holuzam (embora eu não goste muito da palavra). É uma editora informal que acontecerá quando acontecer. Coisas na minha cabeça ao pensar em fazer a editora: em primeiro lugar, trazer cá para fora (para o mercado, que no fundo é o objetivo final), música dispersa e, de certa forma, ignorada no grande oceano que é a internet. Dar um outro contexto, e tornar independente música que está desagregada em várias plataformas. Dar-lhe, no fundo, outra nobreza que eu acho que ela merece. Neste caso, um álbum do Vítor Rua, que acaba por ser uma recolha, como o título indica, que, para mim, funciona enquanto obra. E portanto acaba por fazer sentido no mercado, para mim, enquanto uma nova obra.

E qual foi o critério para a seleção das músicas?
O critério é um arco narrativo que existe na minha cabeça, de afinidade entre aqueles sons, por aquela ordem. Ou seja, no fundo é a música que eu gosto, e a que eu acho que vale a pena, no meio de incontáveis temas do Vítor Rua que existem online.

E organizaste-os da forma que fazia sentido mais lógico para ti, certo?
Organizei-os com uma ideia de arco narrativo. Um flow que para mim fazia sentido enquanto tentativa de comunicar o disco para as pessoas que o vão ouvir. Não me apetecia pegar naquilo e fazer um alinhamento ao calhas, ou sequer respeitar a ordem em que os temas aparecem nos seus álbuns originais, que existem no Spotify, no iTunes e nessas plataformas. Eles pertencem a vários álbuns que existem virtualmente.

Como classificas a sonoridade do álbum?
Essa é aquela pergunta complicada. Não sei muito bem. Eu gosto do termo alienígena, até porque tem a ver com o nome da editora. Alienígena no sentido de criar a sensação de outra zona, de outra realidade… o que lhe quiseres chamar. Obviamente que é música eletrónica, alguma feita em computador, outra feita com equipamento. Mas não tenho um nome para ela. Não é propriamente ambiental, pode ser minimal mas às vezes não o é, portanto estar a dar apenas uma designação acho complicado. Por isso, o que me vem mais à cabeça é mesmo o termo alienígena.

No press release do álbum mencionam “escuta recomendada com auscultadores”, e talvez este seja o exemplo perfeito de que a música eletrónica não deve ser confundida com música de dança. Achas que ainda há muito desta confusão entre a música de dança e a música eletrónica?
Sim, sem dúvida. Até aqui na loja [Flur Discos] há muita confusão por parte de pessoas. Por vezes pedem-nos música eletrónica, e quando lhes mostramos a secção de música eletrónica – que para nós equivale mais a música experimental, exploratória, ambiental, eletroacústica, etc – ficam um pouco espantadas porque, no fundo, eletrónica convencionou-se que é música de dança, ou música mais pop até. Às vezes até na família pop-rock, quando se fala de eletrónica, imagina-se logo que tem uma batida para dançar. Acho que há cada vez mais essa noção que a eletrónica equivale a música de dança, portanto como é que se distingue a música de dança da música dita mais exploratória/experimental? Chamar eletrónica a ambas as famílias parece-me um bocado confuso.

Neste caso, então, vocês classificam mais o álbum como sendo música eletrónica do que propriamente música de dança?
Atenção que, ao dizermos “escuta recomendada com auscultadores”, é simplesmente uma maneira de tentar passar a mensagem de que vale a pena ouvir a música com atenção. Até porque, como foi respeitado o volume original da música, mesmo na masterização, há volumes que são mais baixos que outros. Por isso acho que, para captar essa noção alienígena associada a um certo sentimento de hipnose pela repetibilidade de algumas das músicas, o impacto é mais forte se quisermos dedicar atenção ou ouvir de uma forma mais íntima, digamos. Ou então em alto volume, como preferirem [risos].

Porquê a aposta constante no formato longa-duração, em vez de EPs, como é hábito da maioria das editoras nacionais e internacionais?
Tem a ver com a música que nos vai chegando. Ou seja, até agora a maioria da música que nós procuramos, e a partir de certa altura a música que vem ter connosco, é em formato de álbum. Nós consideramos, por exemplo, para o Pedro Magina, fazer um EP também. Obviamente num mundo perfeito isso aconteceria, mas os constrangimentos financeiros não nos permitem realizar todos os projetos que temos em mente. Até agora o motivo é precisamente esse, a música que nós quisemos reeditar – e há alguns discos que ainda temos para fazer, e que são reedições – são álbuns. E a música que nos enviaram – como por exemplo o Bruno (Ondness), o Molero que vai sair agora nas próximas edições – são álbuns também. Portanto, tem acontecido assim. O “Roçadas” e o Dwart são os únicos EPs. No caso do Dwart, foi uma seleção nossa, nós é que escolhemos que fosse um EP. Havia mais música, mas nós achamos que não ficava muito bem junta. No caso do “Roçadas”, saiu um EP porque nos foi apresentado como um EP. Tinha mais duas ou três faixas, mas nunca seria um álbum. No fundo essa decisão é informal.

E com tanta semelhança óbvia, em que é que se difere a Holuzam da Marte Instantânea?
No fundo, a diferença é que as decisões relativamente à Marte Instantânea são tomadas exclusivamente por mim, e a Holuzam resulta do trabalho de três pessoas, com decisões tomadas em conjunto, por unanimidade. A Marte Instantânea representa mais um tipo de universo que me é mais pessoal talvez. Isto é muito relativo e subjetivo, mas no fundo a diferença é essa.

Para finalizar, a pergunta da praxe: Quais são os próximos passos nesta nova aventura?
Relativamente à Marte instantânea, estou a preparar o segundo lançamento. Não vou ainda falar, porque apesar de ele já estar na minha cabeça, e de já haver um alinhamento em perspetiva, ainda não há nada em concreto para além disso. Mas pronto, depois anunciaremos no seu devido tempo.

Em relação à Holuzam, temos um disco a sair em breve, em CD, do Luís Fernandes e Joana Gama, com Drumming GP. O lançamento coincidiria com o concerto, que, entretanto, infelizmente teve de ser cancelado neste contexto do coronavírus. Teremos também nas próximas semanas, ou um par de meses dependendo também do trabalho das fábricas de vinil, um disco de um venezuelano que vive em Barcelona, chamado Alexander Molero. Esse sim, é um disco que posso chamar ambiental, exótico, e é baseado num livro ilustrado de viagens do século XIX, “Viagens na Venezuela”. Será uma espécie de tributo, não só ao livro mas ao seu país de origem, e arte do disco também é baseada nas ilustrações do livro. Teremos também outro que era suposto sair na primavera, mas toda esta situação da quarentena está a afetar muito trabalho nosso e também do nosso meio, que será um álbum do Simon Crab, dos Bourbonese Qualk – que, para quem não conhece, é uma banda industrial que teve mais ativa nos anos 80 – e de um músico canadiano que normalmente grava como Galerie Stratique, e trata-se de uma colaboração entre os dois, cujo nome do projeto é Sabaturin, sendo que o disco chama-se Kenemglev. Essas edições já estão finalizadas, e algumas já estão em produção. O disco da Joana Gama e de Luís Fernandes deve chegar ainda esta semana, e vamos lançá-lo para a semana. Portanto essas três são as que estão fechadas e em andamento. Temos mais, à vontade, meia dúzia, em preparações e, até ao final do ano, ainda vai acontecer muita coisa.

Tens algo mais a acrescentar, que aches relevante?
A única coisa que me ocorre dizer será eventualmente em relação à embalagem do CD do Vítor Rua. Chegar a uma conclusão em relação à embalagem foi uma das coisas que atrasou de alguma forma esta edição. Havia dúvida entre o plástico ou o cartão, mas normalmente não gosto muito das soluções em cartão, prefiro a caixa clássica em plástico. No entanto, também não queria estar a comprar caixas novas, e depois ocorreu-me que conhecia quem tinha umas boas centenas e comprei. São embalagens de arquivo, que eram usadas para guardar CDs. Ou seja, foram reutilizadas. Quando visualizei na minha cabeça essa embalagem, achei que reforçava aquela ideia de alienígena. É transparente, tem um ar técnico, dá para ver o mecanismo para tirar e colocar o CD – que é um gatilho – portanto achei que era perfeita. A embalagem, no fundo, acaba por rematar toda a ideia que eu tinha na cabeça: pôr música cá fora que possa abrir um lugar qualquer de estranheza. Não estranheza por agressividade, mas simplesmente estranheza pela hipnose ou repetibilidade de algumas das músicas.

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