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Entrevista

Ka§par: há mais de 20 anos a fugir à norma

3 Fevereiro, 2021 - 11:55

Ainda no rescaldo de 2020, estivemos à conversa com Ka§par, DJ, produtor, uma das mentes por trás da editora lisboeta Percebes e muito mais.

A entrada num novo ano potencia frequentemente um momento de reflexão e expectativa para o futuro, muitas vezes assente em metas que definimos para nós próprios. Entre resoluções mantidas segredo e o balanço “nulo” do ano de 2020, Ka§par falou-nos em detalhe do confronto com os efeitos danosos da pandemia e das alterações no mercado da música.

Patrão do Suave, no Bairro Alto, João Pedro Pires roda o mundo da música desde os 15 anos, idade com que se começou a aventurar no DJing. Agora, com 38, manter-se “dentro da norma” é o seu pior pesadelo. Deixa clara a necessidade de uma vasta cultura musical para a consolidação da “propriedade” e autenticidade de um artista, ele que foi dos primeiros alunos portugueses da Red Bull Music Academy e apresenta o programa Desvio Padrão, na Rádio Oxigénio.

Entre os seus mais recentes lançamentos, encontramos “Ave de Rapina” e “Prata Da Casa”, com vários temas antigos e recuperados. A Cabine quis saber o que esteve por trás desta ida ao baú e que mecanismos entram na “depuração do techno” de “Alma-Máquina” a partir de estilos distintos. Além das saudades das pistas, espreitámos também os ofícios que dão cor ao dia-a-dia do artista, sem nunca perder a esperança para uns novos e, oxalá, vindouros “Loucos Anos 20”.

Como foi esse 2020? Tens alguma resolução para o ano novo?
Para o ano novo, fiz 12 resoluções como costuma ser hábito: cada vez que como uma passa, faço uma resolução. Ao longo dos anos, algumas delas foram realizadas. Outras, não tenho a certeza, porque com tantas resoluções, é normal que nem todas caiam no bullseye, não é? Na generalidade, acho que tenho conseguido realizar quase todas. Só que tenho ideia que, a partir do momento em que digo quais são, elas deixam de se realizar… Então, será melhor manter a coisa em segredo.

Quanto a 2020, acho que foi um ano no qual deu para fazer muita coisa em algumas atividades enquanto outras tiveram de ficar praticamente congeladas. Foi fixe por um lado e triste pelo outro: o balanço final é um bocado nulo – se avançaste por um lado, pelo outro não se fez nada. Mas acho que a cena principal foi o facto de eu também fazer música, ter uma editora e ter projetos que ultrapassam o trabalho recorrente de DJ. Creio que ajudou um pouco a que os meus projetos autorais ficassem mais visíveis. No fim desta confusão toda, espero que essa atenção também se vire para as pessoas que gravitam um pouco em torno dos projetos que temos vindo a fazer em conjunto, porque também merecem.

Qual é a sensação de gerir uma editora no meio disto tudo? Como está a Percebes a enfrentar a pandemia?
Em termos editoriais, o ano passado foi muito confuso. Eu posso dar a nossa experiência, não tenho a certeza se haverá muita gente que pode dizer exatamente o mesmo, mas vou ser super sincero e dizer o que me pareceu. Acho que, no início do confinamento, o consumo de música foi bastante otimista em relação àquilo que viria acontecer no futuro. Parece-me que as pessoas, a nível geral, acharam que esta situação se ia resolver antes do fim do verão. Em março ou abril, talvez achassem que em agosto ou setembro a coisa estava resolvida. E ainda foram gastando dinheiro em música durante os primeiros três, quatro meses do confinamento. Mas, no fim, perto do Natal, houve uma quebra súbita e isso sentimo-lo bastante. Até a distribuição teve um grande rompo por causa do Brexit. Nós trabalhamos com uma distribuidora londrina que agora tem as taxas alfandegárias elevadas e tem de voltar a redistribuir os nossos discos para a Europa, o que é uma chatice.

Acho que o mercado está todo a mudar bastante, a nível físico e até digital. No digital, uma boa parte dos artistas está a aperceber-se daquilo que é óbvio há muito tempo: o formato digital por si, se não tiver uma boa plataforma que permita a venda, é incomportável. Ninguém consegue fazer dinheiro a partir de lançamentos a menos que tenha uma página de Bandcamp, praticamente. E isso foi a grande novidade de 2020, o Bandcamp como uma plataforma de aquisição de música profissionalmente que se tornou prioritária para quem quer apoiar artistas. Acho que as vendas do Beatport, Traxsource e outros websites que, se calhar, eram mais standard antes da pandemia, tiveram quebras muito grandes, porque não se souberam adequar às necessidades dos artistas e compensar as pessoas que estavam a alimentar o seu conteúdo com margens e negócios apetecíveis para todas as partes. Portanto, com o mercado a reequilibrar-se, nós [na Percebes] estamos a analisá-lo e obviamente a adaptá-lo, mas continuamos sempre com muitos planos.

Começaste os lançamentos deste ano com “Ave de Rapina”, um projeto de recolha e recuperação de temas antigos que se espalharam entre várias editoras e compilações – música, como dizes, “altamente pessoal”. O que suscitou este momento de introspeção? Considera-lo uma parte importante do teu percurso?
Sem dúvida. ‘Pá’, quando uma pessoa está a tentar fazer música eletrónica, tem de ter noção que é possível que esta seja a área artística com mais criativos no mundo inteiro. Porque se estivermos a contar as pessoas que o fazem por gosto ou como hobby, com todos os profissionais e toda a gente que tem uma página onde oferece ou onde vende música diretamente, umas vezes com contactos de distribuição, outras mais independente… Isto tudo aglomerado resulta em algumas centenas de milhares, senão milhões, de pessoas a trabalhar nisto.

Quanto mais este mercado crescia, assustava-me um pouco a ideia de, enquanto autor, ter a minha música demasiado dentro da norma, demasiado previsível e próxima de uma curva normativa sem grandes picos. Por isso, sempre foi importante para mim garantir que, no momento de criar qualquer coisa, havia uma razão pessoal para o querer fazer e não apenas uma necessidade quase sistémica de dizer “pá, sou DJ, ’tou a passar música e também tenho de fazer uns tracks para ganhar algum dinheiro adicional”. Nunca foi essa a razão pela qual eu fiz música desde os 15 anos até agora. Foi porque sempre quis ser um produtor, um beatmaker, um gajo que sente que traz qualquer coisa ao mercado do qual também consome. Portanto, esse aspeto de vincar pessoalmente a produção é talvez o mais importante. Seja o que for que eu faça, esteticamente pode variar bastante: eu posso fazer coisas com bpms muito diferentes, com ambientes distintos e ter raízes variadas. Mas acho fundamental, depois de fazer toda esta viagem, conseguir dizer que, entre uma faixa e outra, o autor é o mesmo. Penso que todos os autores e músicos desta área de que eu gosto realmente – e de outras também – acabam por conquistar primeiro isso para terem algum grau de propriedade naquilo que fazem. Senão, são sucedâneos, são só clones uns dos outros e falta alguma chama de genuinidade, não é? É isso que eu procuro. Não sei se consigo ou não, isso é outra questão [risos]. Eu tento. Eu gosto do que faço mas tenho sempre a noção de que isto é a minha apreciação. E tenho alguma confiança que pode parecer um pouco arrogante em relação àquilo que eu faço. Mas é precisamente por pensar tanto no que faço e por todos os dias considerar o que posso melhorar, que a tenho. Não é uma cena frívola, de ego, é realmente um trajeto quase académico que eu quero percorrer a um nível que me deixe satisfeito.

O “Alma-Máquina” é um novo take na tua “depuração do conceito de techno”, através de estilos como funk, dub, jazz e hip-hop. Quão importante é, na criação artística, esta travessia livre entre vários estilos musicais? Como chegas à harmonia entre todos eles?
Isso é uma ótima pergunta e é um tópico que eu gosto muito, na verdade. Eu acho que só existe praticamente um tipo de música, que é aquela que tu gostas ou aquela que te diz qualquer coisa. Quando és produtor e DJ, tens obviamente uma certa área de especialidade, uma zona em que estás um bocadinho mais confortável, seja por questões técnicas ou por hábito, ou por um certo ambiente te ser mais familiar. Eu sempre toquei em clubs e sempre convivi bastante com house, techno e música de dança no sentido mais clássico. No entanto, sempre senti que fazer música de dança – ou qualquer tipo de música – e ter como ponto de partida esse próprio género é bastante incestuoso. E, geralmente, os autores que eu sinto que fazem isso têm tendência a ser muito insípidos, e falta-lhes algum grau de inspiração e de imprevisibilidade nas coisas.

Portanto, quanto maior cultura musical houver por parte de um autor, principalmente se for DJ e produtor, quanta mais música diferente conhecer, maior é o número de coordenadas improváveis e originais que ele consegue trazer para dentro de uma produção. Penso que é isso que transforma, por exemplo, um produtor como o Moodymann interessante: é o facto de trazer elementos de jazz não de uma forma frívola, tipo música de elevador, mas mais como um sucessor em primeira mão de uma tradição altamente iniciática que exige anos de pesquisa, e que isso fique manifesto na autoria de um track de forma súbtil e magistral.

Penso que ao fazer qualquer tipo de música, house e techno incluídos, é preciso procurar as raízes de tudo aquilo que originou a música eletrónica urbana contemporânea. E isso nasce na tradição afro-americana, na tradição do jazz, funk, soul, blues e por aí fora, onde se utilizaram os primeiros sintetizadores de forma recorrente. Nasce nos músicos que determinaram o que é o groove e o que é uma banda tocar em uníssono, em completa sincronia e tightness, digamos, de interpretação. Tudo isto estabeleceu um bocado a norma para, mais à frente, haver uma noção de como as coisas têm que soar: porque antes já havia Chic, MFSB, Roy Ayers, James Brown e por aí em diante. E quem diz isso, também diz outras coisas obviamente, tipo Fela Kuti ou cenas jamaicanas e cubanas. Podíamos ficar aqui a falar de música para sempre. Resumindo, penso que é importante ouvir estas raízes e identificar onde estão as qualidades de composição, produção e interpretação para depois as traduzir para o universo eletrónico. Sem essa noção, acho que a música é só um exercício estético relativamente vazio. Era exatamente aí que eu não queria parar.

O “Prata da Casa” inclui as inéditas Mandrágora e Este Amor, resgatadas do baú. Há alguma razão em especial para as lançares ao fim de tanto tempo?
Realmente, já as fiz há muitos anos, mas, na altura em que as fiz, senti que estavam um bocadinho “p’ra frente”, não sei. Elas estiveram para sair, na verdade. Primeiro, a Este Amor era para ter saído numa compilação da Eskimo, editora belga dos The Glimmer Twins que, na altura, em 2006 ou 2007, estava a fazer uma compilação e pediram-me um track. E eu tive de fazer isso assim em tipo três ou quatro dias e entreguei. Mas eles já tinham passado a fase de draft das faixas e eu já não cheguei a tempo de participar na compilação. Entretanto, houve alguns DJs a quem enviei o tema e que gostaram muito dele, só que eu queria muito tê-lo lançado na Groovement, quando trabalhava lá. E depois acabámos por recear que se calhar era um bocado cedo demais para estar a ir tão longe. Na altura, pareceu-me. Agora, já não penso assim e acho que é o momento certo para lançar essa faixa. Na verdade, mal o pus no Bandcamp, houve logo editoras interessadas em fazer um vinil com aquilo, portanto, revela-se uma decisão acertada.

Com a Mandrágora passou-se algo semelhante: eu tinha-a a produzido para um álbum para a Groovement que nunca chegou a sair. Há mais faixas desse trabalho que nunca chegaram a sair e também estão no baú. Sempre gostei muito deste track e tinha as pistas separadas, por isso pude voltar a fazer o mixdown outra vez e deu para puxar um bocadinho mais para o nível de produção do resto do álbum que foi feito mais recentemente, com outro tipo de equipamento e de experiência. Portanto, foi tentar aproximar essas músicas mais antigas da textura processual daquilo que atualmente é a música que eu estou a fazer – mais complicada, digamos. Porque realmente passaram-se muitos anos e eu não sou o mesmo autor, mas foi possível fazê-lo.

Era sobre isso que te ia perguntar agora. Várias músicas foram remisturadas e remasterizadas. Disseste que querias ajustá-las “ao standard de som moderno”. Como é que é revisitar estas produções com uma nova abordagem? Concretamente, qual é a sensação de passar do antigo para o moderno?
Muitas delas sofreram apenas ajustes no mixdown final. Eu achava que já tinham um equilíbrio simpático entre os vários elementos e era arriscado voltar a entrar nos projetos e mexer em coisas que eu já não me lembrava. Quando passam dez anos entre teres feito uma coisa e estares a pegar nela de novo, é um risco ires olhar para aquele projeto e esqueceres-te como é que tinhas feito o routing do sinal áudio, como é que aquilo estava a ser processado e tudo mais. Portanto, evitei o máximo que pude entrar nesse grau de especificidade para não cometer erros nos quais não pudesse voltar atrás.

Mas deu para perceber que a minha sensibilidade acústica era muito diferente na altura e que os anos em que eu trabalhei com a TINK! Music no Big Bit foram muito importantes para conquistar um pouco dessa experiência. Também os anos em que dei formação e isso tudo acaba por te tornar numa pessoa muito mais rápida e inequívoca a tomar decisões de cariz técnico. Se calhar, na altura em que eu fiz esta música toda, ou grande parte dela, eu tinha mais tendência a focar-me no lado artístico e o lado técnico ficava para último, se é que tivesse algum relevo particular. Atualmente, já não é tanto assim: acho que prefiro ter menos ideias e as ideias certas, e fazê-las soar muito bem, do que continuar a compôr eternamente e ter dificuldades a decidir o que fica, o que vai e como é que eu faço as coisas acontecer umas depois das outras.

Penso que, no fim, é aperceber-me – e isso foi a melhor parte – que eu não estou cansado da música que fiz, ou de uma boa parte dela. E acho que ela se mantém relativamente sólida e interessante ao fim deste tempo todo, porque sempre houve esse esforço para ela nunca ser… igual, estereotipada, por assim dizer.

Então, basicamente, todo este processo de recolha e pesquisa em produções antigas talvez tenha marcado um bocadinho o ano de 2020 pela introspeção. Retiraste alguma aprendizagem desta revisita a sonoridades e vivências passadas?
Sim, tirei várias! Houve algumas coisas que eu consegui solidificar dentro deste processo. Atenção que eu ainda produzi mais coisas durante esse período. Fiz esses dois álbuns no meu Bandcamp mas depois também estive envolvido em muita da produção dos discos da Percebes e na compilação, e também fiz um álbum de originais novos que vai sair agora em 2021. Portanto, esses dois álbuns foram talvez duas semanas de trabalho cada um, de re-atualização, escolha de repertório e tudo mais. Também fiz o artwork com o Trol2000 – ou, melhor, o Trol2000 fê-lo a meu pedido. Como estivemos tanto tempo confinados, deu para fazer mais do que isso.

Mas, ao revisitar todos esses episódios, apercebi-me de uma coisa. Grande parte dos discos que eu fiz, que saíram em vinil e que já não estão disponíveis a menos que se vá comprar a alguém em segunda mão, foram todos vendidos e eu nunca soube exatamente quanto é que isso custou, quantas cópias foram, se houve dinheiro a ganhar ou não, porque acho que nenhuma das editoras com quem eu trabalhei teve qualquer tipo de transparência a esse respeito. E talvez por isso é que eu tenha decidido reunir esse material todo e colocá-lo onde alguém que se calhar não tem um gira-discos ou não tem uma coleção de vinil possa conhecer essa parte da minha carreira e da minha criatividade. Mas, de alguma forma, deu para perceber que eu não posso continuar a trabalhar de forma tão “inocente” e se calhar oferecer os direitos das minhas músicas de forma tão irresponsável. Porque, depois, se quiser voltar a pegar nelas pode ser complicado. Também acho que, com a Percebes, dá para levar um bocadinho mais a sério a parte autoral e política ou esquemática das finanças musicais a que um gajo tem de ter atenção.

Ka§par em 2004 no clube Mercado, em Lisboa

De que forma achas que uma pandemia afeta o desenvolvimento musical de um artista? Que desafios passas a encontrar no teu dia-a-dia, por exemplo a nível de subsistência ou produção musical, e como se altera a maneira como os encaras?
Felizmente, há muito tempo que eu não dependo exclusivamente da minha atividade enquanto músico ou DJ. Eu já dava aulas há algum tempo na Store4DJ e também tenho um bar e uma empresa onde trabalho. Portanto, pude habilitar-me a algumas ajudas de sócio-gerente, e pude continuar a trabalhar em alguns projetos na Store4DJ. Agora em 2021, vão dar formações online com criação de conteúdos exclusivos a vários níveis. Portanto, consegui ir trabalhando noutras coisas que não o bar, passar música, ter festas da Percebes e coisas do género.

Mas foi importante, durante o tempo todo [do confinamento], saber que, mais cedo ou mais tarde, de uma maneira ou de outra, esta situação se vai resolver. Porque olhando para o século passado, vemos o que é que aconteceu no fim da Primeira Guerra Mundial, que eu acho ser um momento semelhante àquele em que estamos agora em termos económicos. E o que se passou a seguir foram os Roaring Twenties, não é? Foi uma década de alta loucura, exagero noturno e libertinagem à grande, que eu penso que será inevitável no momento em que esta pandemia estiver, pelo menos, controlada, e no qual os espaços noturnos possam voltar a abrir. Acho que haverá uma revitalização enorme nesse setor [noturno] e, por isso, é importante não desistir das coisas e não as deixar paradas… É importante não desanimar, não é? Aliás, eu acho que é nestas alturas que se separa os meninos dos homens. As pessoas que se calhar dependiam disto de forma mecânica e desapaixonada (porque estavam habituadas a pegar nos discos ou nas pens e passavam uma musiquita aqui e ali), quando isto acontece, desistem facilmente para fazer outra coisa qualquer. Se calhar, há muito tempo que o deviam ter feito, para dar lugar a quem vive isto de outra forma e tem a coragem de aguentar o tempo necessário para regressar àquilo que estava a fazer antes, em vez de desistir. Portanto, isso deu-me sempre muito alento. Eu tenho bastante confiança que aquilo que sempre me distingiu foi a disponibilidade para ir trabalhar na minha música e, a partir do momento em que nós não podemos estar a tocar nos clubs, em que não é o nosso amigo ou comparsa que nos está a marcar datas e não há nenhum tipo de conluio que nos possa por nos palcos, tudo aquilo que interessa é a nossa capacidade de produzir, criar e trazer algo à sociedade. Muita gente que tinha as agendas cheias parou completamente. E acho que se percebeu que, se calhar, tinha as agendas cheias de nada. Porque, quando a torneira fecha, desaparece também qualquer sentido de intervenção neste meio que não seja aquele que sempre tiveram e sempre fizeram.

E pronto, eu sempre tentei encontrar várias maneiras de estar presente nesta realidade. Também me ajudou muito fazer um programa de rádio na Oxigénio. O Desvio Padrão era sempre um objetivo semanal importante para eu continuar a procurar música e estar sempre fresquinho com música atual e com o set relativamente fresh para se por acaso me convidassem, o que ainda aconteceu meia dúzia de vezes no ano passado. Das poucas vezes em que ia havendo oportunidade, eu ainda conseguia por música em alguns sítios. E não ia para lá repetir coisas que eu tinha parado de fazer em março e continuei a fazer quando comecei a tocar em junho e depois em setembro. Não. Cada vez que fui, levei sempre uma coisa nova porque nunca parei de trabalhar e foi assim que eu fui aguentando as coisas, também a pensar em erguer a editora e a fazê-la valer pela qualidade da música. Sempre foi a coisa mais importante para mim.

Tens saudades das pistas? Qual é o balanço deste hiatus incontornável?
Tenho imensas saudades de uma pista de dança: tanto como DJ como clubber, que eu também gosto de sair à noite e ir ouvir outros DJs tocarem. Não me refiro só ir ouvir DJs internacionais a tocar em pistas grandes. Também gosto de sair à noite para ir ouvir os meus amigos e as pessoas de Lisboa, do Porto e do país todo, que eu sei que são pessoas que me inspiram. E sempre achei que vivíamos numa discrepância gigantesca – tipo, é normal que haja uma certa discrepância, mas acho que, aqui em Portugal, estava a ser exagerada – entre a disponibilidade para se contratar um DJ estrangeiro e um DJ local ou, pelo menos, nacional. Mas eu continuava a apoiar os DJs nacionais como frequentador noturno e como programador do meu próprio bar. E tudo isso me faz muita falta: a partilha do momento e da música.

Não obstante, esta pausa veio trazer alguma reformulação do conceito de DJing. Eu notei que, no ano passado, o tipo de material que se estava a vender em vinil mudou bastante e o comprador de vinil também. A Percebes disparou em termos de vendas online, no Bandcamp, tanto a nível de vinil como digital. E foi importante não ter parado nesse sentido porque acho que o público está um bocado mais recetivo a não estar sempre a ouvir a mesma coisa, como estava, se calhar, condicionado a fazer antes da pandemia. Neste momento, penso que há um bocado mais de abertura para experimentar coisas e para tocar música um bocado mais fora da caixa. Para, de vez em quando, dar umas guinadas no volante e isso não ser tão desconfortável ou tão estranho para a generalidade do público. Porque, das vezes em que toquei, eu senti que havia um apreço tão grande pelo facto de estar alguém a passar música com um sistema de som relativamente alto e isso se ter tornado uma coisa tão rara e valiosa nestes tempos, que já ninguém me estava a pedir nada. Não é que me tivessem pedido muito no passado, que eu não devo ter cara de gajo muito recetivo a isso, mas pronto, de vez em quando acontecia, não é? [risos]. E um gajo está a tocar e nota que fulano tal está um bocado desabituado ou que, se calhar, desligou o carro, estava a ouvir U2 e não está a perceber esta malha de, sei lá, Kaidi Tatham ou seja o que for.

No fundo, quando voltei a tocar, senti que aquilo que eu estava a fazer era visto com um tipo de respeito diferente. E espero que isso se traduza. Agora, compete um bocado aos DJs decidir como é que pegam nesse voto de confiança. Isto é, se, no fim disto, voltam a cair todos no mesmo de repetir o café com pão para sempre ou se conseguem algo mais interessante e aproveitar a dica para trazer alguma música mais improvável e mais interessante, que seja dançável e divertida mas que não esteja tão formatada e fácil de prever, por assim dizer.

Além da esperança para uns novos Loucos Anos 20, o que esperar de 2001? Aliás, 2021, desculpa [risos].
[risos] Olha, tem piada porque eu acho que 2021 é mais 2001 do que 2001 foi, sabes? Porque eu fiz 18 anos em 2001 e, pronto, com a maioridade e a mudança do milénio, foi assim aquele momento de um gajo começar a acordar para a vida, para a maturidade e tal. Mas eu não notei assim grandes mudanças culturais. Talvez com o 11 de setembro isso tenha acontecido. Mas eu só estou a sentir agora, pela primeira vez, que poderá haver um grande choque, uma mudança cultural séria. Não tenho a certeza absoluta do que é que isso poderá significar ou não – pretendo ser otimista -, mas acho que o que importa é concentrar-me na editora e na minha carreira.

E, para começar, 2021 tem três ou quatro edições muito importantes para por em prática. Tivemos de orçamentar com muita responsabilidade o que é seguro fazer este ano e, portanto, temos de garantir que há um equilíbrio financeiro nos nossos investimentos. Por outro lado, também queremos marcar uma posição forte no panorama musical nacional e isso faz-se com música interessante, não se faz com um designer “xpto” ou com os eventos que têm a data, ou seja o que for. Faz-se com música. E isso provou-se o ano passado, quando não houve eventos, nem hype, nem nada: os nossos discos saíram e foram muito bem recebidos e acarinhados. 2021 tem de continuar a fazer a mesma coisa, só que desta vez vamos ter de começar a legitimar os nossos artistas fundadores com LPs e com trabalhos mais sólidos na sua duração e naquilo que pretendem estabelecer no ponto de vista artístico – um trajeto um pouco mais garantido e inquestionável – para que alguém percorra o catálogo e possa reparar que está ali uma coisa que ainda não tinha sido feito daquela maneira. Já houve e há muitas editoras portuguesas, mas eu queria fazer aquela que eu achava que ainda não havia e é isso que eu vou continuar a fazer em 2021.

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