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Entrevista

Meta: “A eletrónica estará mais presente nas minhas criações daqui em diante”

26 Fevereiro, 2021 - 16:16

Carina Fernandes esteve à conversa com a artista a propósito do seu novo single e mantra, Running Wild Again.

Foi no final de 2017 que Mariana Bragada renasceu como “costureira de melodias” em Meta. Em 2018, convidou o público a mergulhar num Mar Doce no Festival da Canção, e, pouco depois, coseu os pedacinhos dispersos pela Saudade, começando a alinhavar a matéria de um universo que viria a estrear em 2019, com o EP “Mónada”.

Mónada é um termo filosófico. De forma leiga, para Leibniz, trata-se de uma substância sem partes e indivisível – do grego, traduz-se para “único”, “simples”. Por outro lado, na teoria de Pitágoras, alude à união perfeita do espírito e da matéria, constitutiva de Deus. E é assim que se traça a introdução ao universo ancestral, uno e transparente de Meta, que realiza a sua passagem pela vida numa fusão etérea entre o fluxo da natureza e do amor.

Não se sabe ao certo onde começa Mariana e onde termina o seu gosto pela arte, seja qual for a vertente. Apaixonada pelo canto desde que se lembra, guarda também fascínio pela fotografia e o vídeo e, entre eles, encontra um elo de ligação muito precioso, havendo ingressado na licenciatura em Design de Comunicação, no Porto. Na mudança de Bragança para uma grande cidade, a diferença entre as duas não tardou em exaltar-se.

Entretanto, já correu sítios como o Porto, Coimbra e Madrid, em palcos do TedX e do Sofar Sounds, passando ainda pelo Bons Sons. Considerado o “Melhor Projeto Musical” pelo Festival Emergente, o alias de Mariana Bragada traz a primavera por onde passa. Enquanto junta os retalhos para o novo álbum, a gravar no Estúdio Camaleão como prémio do FE, ainda sem data de lançamento, a cantora-compositora traz um novo mantra em forma de single. Running Wild Again explora a individualidade dentro de um momento de partilha e canta o amor como um sentimento sem amarras ou fronteiras.

Ilustrado e animado por Margo (Margarida Ferreira), com videoclipe já disponível no Youtube, o tema tem coprodução de FOQUE, que lançou recentemente “Ato Isolado”, e marca uma mudança de paradigma no registo sónico de Meta. Num balanço do que alcançou até agora e na expectativa do que está por vir, Meta esteve à conversa com A Cabine e contou-nos tudo sobre esta nova fase.

Antes de mais, quero perguntar qual a sensação de ganhar o prémio de “melhor projeto musical” do Festival Emergente. Sentes o esforço recompensado? O que significa esta conquista para ti?
Decidi participar na open call do Festival Emergente sem quaisquer expetactivas e até sem saber se conseguiria estar presente caso fosse selecionada, pois, na altura, as datas do festival coincidiam com o curso de Produção de Música que estava e estou a fazer. Foi uma surpresa mesmo grande para mim, tanto ser escolhida na open call como depois receber esse prémio. Sem dúvida que fez o meu ano de 2020 bastante melhor e me deu mais esperança para 2021!

Estou muito grata por esta oportunidade e por ter este “empurrão” para me ajudar a sustentar a criação do álbum. É um novo passo que já queria dar há algum tempo, mas ter este apoio está mesmo a motivar-me ainda mais para o concretizar da melhor forma possível.

Que aprendizagens retiraste da participação no Festival da Canção em 2019?
Com a minha participação no Festival da Canção há dois anos aprendi, principalmente, bastante sobre mim e também sobre o meio da música na televisão, sendo que foi a primeira vez que gravei uma música no estúdio e que cantei ao vivo na televisão. Acho que uma das aprendizagens com mais impacto para mim foi que, quanto mais longe estamos do nosso sítio de conforto, mais temos de estar presentes nas nossas intenções. Mantermo-nos com os pés assentes na terra e no nosso propósito cada vez que damos um passo em sítios desconhecidos é importante para conseguirmos caminhar.

Para além disso, não conhecendo absolutamente nada sobre o meio televisivo, foi uma agradável surpresa para mim! Toda a equipa de produção é mesmo unida e fez sempre com que estivesse confortável durante todo o processo, algo que foi muito importante. Foi uma oportunidade bonita para poder crescer e ainda conhecer pessoas incríveis que admiro também.

Em nota enviada às redações, lê-se que Running Wild Again veio para “marcar uma nova era sónica”. Como a caracterizarias? Que resoluções tens para este regresso?
A vertente eletrónica estará muito mais presente daqui em diante nas minhas criações. É uma paixão de longa data e que está finalmente a manifestar-se. Já usava a loopstation nos meus concertos e músicas anteriores com voz e guitarra elétrica, mas estou agora a expandir para a união assumida dessa parte eletrónica com a voz e elementos naturais e ancestrais. Penso que é essa simbiose que irá caracterizar as novas sonoridades que vou partilhar no futuro.

Como surgiu a colaboração com Foque e Pedro Jerónimo neste novo single?
Eu e o Foque tocámos os dois no Festival Bons Sons em 2018 e a partir daí os nossos caminhos têm-se cruzado muito naturalmente entre a música e a vida. Tive a oportunidade também de ver o processo da criação do álbum dele, tendo também participado na música Sol e Sonho. Conhecendo-o, e conhecendo o seu trabalho, achei que ele era a pessoa mais indicada para me apoiar na concretização e produção da visão que tinha para esta música.

O Pedro Jerónimo é um amigo e trompetista incrível que conheci nas Jams da ESMAE que aconteciam todas as terças. É alguém cujos trabalho e dedicação à música também admiro muito e achei que esta música se encaixava perfeitamente para poder concretizar essa colaboração.

Este tema recebeu um videoclipe ilustrado e animado por Margo (Margarida Ferreira). Em que medida é que a dimensão visual se relaciona com a parte sonora? Achas que se completam de alguma forma?
O trabalho visual com a música é algo que para mim tem muita importância e que gosto de trabalhar em conjunto. Grande parte do meu background vem das Artes Visuais e Performativas, então acredito que a imagem tem a capacidade de expandir ainda mais os horizontes da música e contar novas histórias. O objetivo da criação desta dimensão visual vem disso mesmo, da complementaridade que é possível com a música e imagem e para mim é também uma extensão da expressão da música.

Colaborar com a Amargo num videoclipe sempre foi um sonho que tive desde os tempos da faculdade (onde nos conhecemos). Estou extremamente grata e honrada por ela disponibilizar a sua expressão e trabalho com a minha música, e juntas termos co-criado e produzido esta nova história, que acaba por unir também os nossos caminhos pessoais.

Running Wild Again é sobre “o amor e a liberdade interligados como um só”, um ponto de encontro “onde o mais importante é o presente e o para sempre” e cantas mesmo que este último nunca chegará. Fala-nos um bocadinho desta letra.
Eu posso apenas falar da minha experiência pessoal e para mim o que é realmente importante é que o amor seja livre e possa florescer nessa emancipação de apoio mútuo. Esta música fala sobre isso, sobre esse desdobrar de novos caminhos quando podemos existir na individualidade e na comunidade ao mesmo tempo.

Para o primeiro EP, recorreste apenas a voz, loopstation e beatbox. Achas que ter muitas ferramentas é fundamental para uma boa produção musical? Como vês esta relação?
Para mim, não tem a ver com o número de ferramentas mas sim com usar as ferramentas certas. A loopstation foi a minha primeira abordagem com a voz e a música eletrónica, que me possibilitou ter a oportunidade de criar um projeto a solo com um elemento eletrónico. Mas, no futuro, sem dúvida que quero continuar a explorar novas possibilidades que se adequem cada vez melhor à mensagem que quero transmitir e isso implica ir alterando o meu set-up e evoluindo com novas ferramentas.

O que consideras mais importante no teu processo criativo?
Para mim, é importante ir expressando e ir “arquivando” a inspiração que sinto e do meio que me rodeia, tanto a nível de conversas com amigos como trabalhos artísticos visuais. Para mim, o essencial é ir escrevendo e mantendo um diário visual e escrito que organiza todas estas memórias para mais tarde ser a matéria-prima que necessito para novas criações.

Que importância tem a criação artística no desenvolvimento pessoal de um ser humano? Como achas que a arte transforma uma pessoa?
A criação artística é a minha forma pessoal de expressão e até de terapia. Falando da minha perspetiva, é essencial a criação e a alquimia que a arte traz para nos podermos libertar do que já não serve, assim como é a expressão da essência e cultura de cada um. É nesta manta de retalhos com cada individualidade de expressão que a sociedade se unifica.

Já passaste por imensos palcos, em Portugal e até lá fora. Quantas saudades tens dos palcos? Agarras-te a alguma memória em particular desses tempos?
Tenho imensas saudades de pisar um palco e sentir a energia do público. Tive já a oportunidade este ano de gravar um concerto online a convite dos :PAPERCUTZ para o Sons à Sexta e foi uma sensação incrível poder estar em palco a cantar com tanta gente cujo trabalho eu admiro e partilharmos esses momentos. Estou a tentar focar-me em novas criações e colaborações e tentar não ficar tão presa nas memórias, mas sem dúvida que mantenho essas recordações perto do coração como lembrete do novo futuro.

Tens orgulho na tua terra natal? Aproveitaste a pandemia para regressar às origens?
Orgulho, para mim, não seria a palavra certa para descrever o que sinto por Bragança. Apesar de eu ter raízes mais fortes no local onde nasci, não me identifico apenas com esse local, mas reconheço sim o imenso valor e potencial que tem, assim como tantos outros sítios que já pude pisar. Durante a pandemia, estive bastante tempo lá e foi muito bom para poder reconectar-me comigo, com a minha família e com a minha visão para o futuro.

Que diferenças mais sentiste quando te mudaste de Bragança para o Porto?
Sem dúvida que o ritmo da cidade e a pouca presença da natureza foi o contraste maior que senti.  Esse impacto marcou até o primeiro projeto que fiz na faculdade, uma experiência sonora de loops de samples que gravei no meu percurso de casa até à faculdade, demonstrando esse ciclo mecânico e de apego à rotina em que me inseria. Mas, passado algum tempo, esse equilíbrio também se volta a restabelecer consoante os sítios em que habitamos.

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