AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Entrevista

Vasco Completo: “Wormhole é o culminar de tudo aquilo que eu quis até hoje”

15 Abril, 2021 - 17:37

Escreve sobre música, mas é enquanto músico que encontra o verdadeiro refúgio. Chama-se Vasco Completo e o seu álbum de estreia saiu esta quinta-feira.

Quando Vasco Completo se deu a conhecer ao mundo como Caco, com projetos como a editora Monkery Collective pelo meio, o seu nome ainda passava despercebido à maioria dos ouvintes, particularmente àqueles que não estavam inseridos no seu meio. Nada de anormal até aqui – afinal, estava a começar a traçar o seu percurso, a moldar o carácter da sua música, a embrenhar o seu ser num universo que tantas vezes é injusto.

Neste caso, fez-se justiça. Hoje, aos 24 anos, Vasco Completo assina em nome próprio e acaba de lançar um primeiro álbum que não passa despercebido aos mais atentos – e nem mesmo à imprensa. “Wormhole” chega com carimbo da Monster Jinx, coletivo ao qual se juntou no ano passado e que marca uma das mais recentes etapas do trajeto que o músico tem arquitetado de forma gradual e pensada.

Vasco Completo chegou a ter uma banda quando era ainda mais jovem, mas este trabalho é mais um dos lançamentos em que o músico revela como é possível criar (e imaginar) sozinho. Completo percebeu isso quando conheceu ferramentas como Ableton e este álbum é a derradeira prova disso: por aqui, o músico pega no baixo ou na guitarra, instrumento que o acompanha desde cedo, para imprimir uma certa corporalidade, recorrendo pelo caminho ao seu teclado MIDI ou ao seu lado mais eletrónico, seja a manipular samples de voz ou a usar efeitos como delay ou reverb. Tudo para compor um disco desenhado para ser ouvido do início ao fim.

Editado em vinil e em versão digital, “Wormhole” fala sobre tempo e sobre a visão desta subjetividade para o crítico e colaborador do Rimas e Batidas. Mas a conversa que é aqui feita entre músico e ouvinte vai mais além, como explica o próprio nesta entrevista: “como é um trabalho meu tem sempre uma amálgama estilística muito diversa, que vai buscar coisas de eletrónica mais pura, coisas de R&B, de rock alternativo, de ambient”.

Mas quem melhor do que o próprio para nos falar sobre este álbum e sobre todo o percurso até à data? Entremos juntos neste wormhole de espaço e tempo cujo criador é Vasco Completo.


No Bandcamp, o disco em vinil inclui uma faixa bónus. Outras plataformas para ouvir o álbum aqui.

És músico, obviamente, mas também és colaborador do Rimas e Batidas, o que significa que não só te envolves na música por gosto pessoal e por vontade própria de criar mas também pela vertente profissional. Por isso, tenho curiosidade em saber como é que lidas com estes confinamentos. Como foi a tua rotina dentro da música?
Inicialmente, na primeira quarentena, foi o lado mais jornalístico da coisa, de crítica, de colaborador do Rimas e Batidas que foi mais difícil. Eu via muita gente com o problema de não saber o que dizer, porque estávamos numa fase muito complexa emocional e psicologicamente. Acho que, inicialmente, no primeiro mês de março, e também em abril, não consegui escrever quase nada porque senti que não tinha nada a dizer ao mundo a um nível filosófico. Senti que não tinha nada para oferecer, que precisava de espaço para situar tudo o que se passava.

Com o meu lado criativo foi o oposto, com o lado mais inefável da música instrumental a acabar por ser uma canalização para aquilo que eu senti e que achava que era um sentimento muito coletivo de uma certa falta de esperança, por um lado, mas também de uma certa sensação de comunidade, que foi algo que também já acentuei várias vezes porque acho que foi muito sentida na comunidade artística, especialmente na primeira fase da quarentena, mas que ainda se sente muito hoje, com as Bandcamp Fridays e tudo mais. Sinto que houve um grande crescimento na entreajuda comunitária, e acho que essas foram as principais diferenças num primeiro período. A minha rotina não mudou muito na altura, porque eu não estava a trabalhar, e a única coisa que me aconteceu foi ter mais tempo para a música, já que estávamos todos em casa. E isso coincidiu precisamente com a altura em que eu estava finalmente a fazer um full circle com o álbum, a fechar conceptualmente e mesmo sonicamente as principais estruturas do álbum, e isso também coincidiu com a altura em que me juntei à Monster Jinx, o que foi um desafio e trouxe de certa maneira novas rotinas. Mas como não estava a trabalhar nessa altura, foi só estar em casa a produzir uma boa parte do tempo.

Já vamos falar sobre a Monster Jinx, mas vamos ao álbum. Se calhar é difícil fazê-lo, mas queria que me descrevesses o disco. Lanço-te o desafio: que disco é este, que sonoridades há, que sentimentos é que estão lá…?
Eu acho que posso dizer que o “Wormhole” é a minha procura sónica do que é o tempo. Acho eu. Como é um trabalho meu tem sempre uma amálgama estilística muito diversa, que vai buscar coisas de eletrónica mais pura, coisas de R&B, coisas de rock alternativo, de ambient, e acho que é a minha expressão de um pensamento que eu tenho desde cedo, e que eu acho que é comum do ser humano – pensar sobre o tempo e sobre a passagem do tempo, o efémero – e acho que isto é a minha expressão sónica daquilo que é esse sentimento, de como o tempo é tão maleável e tão pessoal ao mesmo tempo, algo tão exato e objetivo.

O título vai ao encontro disso.
Sim sim, sem dúvida. E todos os títulos, apesar de eu entender a crítica dos títulos de uma palavra, vão de encontro a esses conceitos. É a minha visão e o meu sentimento relativamente a uma fração do tempo, a uma questão que o tempo me põe a mim (ou eu ao tempo). E acho que em termos de sons isso se reflete, a minha tentativa de explorar alguns desses conceitos através do som, em técnicas com os delays ou com reverb. São algumas das minhas maneiras de expressar isso, de uma maneira mais… canalizável para as pessoas.

Mas encaras o tempo como uma coisa subjetiva, da qual tens a tua própria concepção?
Sim. Ao mesmo tempo que é uma coisa muito subjetiva, por exemplo, este sendo o meu álbum representa a minha visão. Ao mesmo tempo, estou a falar de conceitos que são muito universais, no sentido em que toda a gente pensa nisso, é muito comum na nossa sociedade e na nossa cultura. Há muitos filmes e muita música e muitas artes visuais a falar sobre isso. Portanto, ao mesmo tempo que é altamente universal também é altamente subjetivo. Eu, por exemplo, sou uma pessoa que é um pouco, por um lado, dada à ansiedade e, por outro, à nostalgia. Há muitas músicas que vão falar sobre o passado, como a ’35mm’ e a ‘Trauma’, e a ‘Wormhole’ e a ‘Forever’ se calhar vão pensar em algo mais abrangente, como o futuro ou a viagem no tempo. Lá está, ao mesmo tempo que são conceitos universais, também é sem dúvida a minha visão e o meu sentimento quanto a esses conceitos de tempo.

Há uma autora de comunicação que fala sobre uma coisa chamada objetos evocativos. Objetos que, talvez subconscientemente, nos tenham influenciado na vida, nas nossas decisões e naquilo que somos. A autora pega em vários exemplos e há um em que fala sobre o momento em que se dá um relógio a uma criança, sendo que isso marca o momento em que esse indivíduo passa a ver o tempo como algo supostamente concreto. Embora esteja a divagar um pouco, queria saber se há algum objeto que tenha sido marcante para o Vasco Completo enquanto músico. Será que te lembras de algum momento assim na tua vida?
Penso que posso dizer que tenho vários momentos assim. Eu vou apontar para um com uma backstory pequenina. Comecei a tocar guitarra aos 8 anos e isso foi, sem dúvida alguma, o ponto de partida para onde eu estou hoje artisticamente – e mesmo profissionalmente, na verdade, e até psicológica e emocionalmente, isso tudo. Mas, quando comecei a pegar na guitarra, até foi uma coisa muito leve. O meu padrinho tocava guitarra e eu disse ao meu pai e à minha mãe que queria aprender a tocar guitarra. Mas foi uma coisa subsconsciente – ele tocava quando eu era muito pequenino e pensei “quero aprender a tocar”. Só que naqueles dois primeiros anos aquilo não me interessou muito, até pensei em desistir porque aqui não me estava a dizer propriamente nada e nem sequer ouvia nada de jeito. Tinha oito, nove anos, se calhar ouvia D’ZRT ou assim, nem sequer havia nada que me entusiasmasse.

Mas uma vez estava a haver uma festa em minha casa, com a minha família, os meus tios e etc., e o meu pai tinha acabado de comprar, acho que em 2006, o DVD do making of do “The Dark Side Of The Moon”, e ao mesmo tempo comprou também o DVD do “Pulse”, também de Pink Floyd. Acho que ele pôs a dar um deles, acho que o “Pulse”, e estava a dar a ‘Wish You Were Here’ e pensei “isto soa bem”. Depois ele pôs a dar o making of e fiquei a ver muito passivamente. Na semana a seguir, levei a guitarra para a escola e estava a tentar aprender a cena do ‘Wish You Were Here’ na minha cabeça e eu acho que isso despoletou tudo.

Houve outras coisas muito marcantes, como quando me mostraram música eletrónica ou até XXYYXX, ou quando um amigo começou a produzir e me mostrou o Ableton. Mas acho que essa faísca com os Pink Floyd foi a grande referência para como eu conceptualizo a minha música, para como eu tenho uma afinidade particular para coisas mais lentas e isso é o que me leva depois a gostar de coisas mais downtempo do que uptempo. O carácter mais emocional da música, coisas muito espaçosas, muito reverb. Acho que o ripple effect de ter visto esse making of e de ter começado a ouvir Pink Floyd foi o que desencadeou tudo. Porque depois disso comecei a dedicar-me a sério à guitarra e depois, com 11, 12 anos, já sabia que queria lançar álbuns, que queria fazer música e que queria passar a vida a ouvir música e a fazê-la.

A certa altura percebes que podes criar por ti mesmo e, por assim dizer, não precisas da banda que chegaste a ter. Embora essa experiência seja importante e te alimente, percebes que é possível fazer música sozinho.
Sim, e foi totalmente esse o percurso que fiz. Eventualmente percebi que não precisava de ter uma banda e não precisava de estar a fazer rock. Posso experimentar coisas, fazer coisas diferentes, posso fazer o que eu quiser. Isso depois despoletou esse interesse. Eventualmente, um amigo dessa banda de metal [que eu tinha] começou também a produzir – começou antes de mim, na verdade – e aí foi mais uma lâmpada que se ligou e que me disse “ok, este caminho é possível”. Percebi que podia fazer por mim. Por essa altura, já estava a ouvir hip-hop e muita música eletrónica. Já gostava de Jon Hopkins, já tinha ouvido o “Madvillainy”, já estava a ouvir Kanye West, que foi também uma grande influência, ou Kendrick Lamar. Essas já eram grandes influências e interesses quando comprei o meu teclado MIDI e o meu interface – comprei os dois mais ou menos na mesma altura porque queria puxar para esse lado mais de eletrónica e de beats, e experimentar mais com teclados. Ao mesmo tempo, queria continuar a utilizar a minha guitarra porque é o meu instrumento base e é dele que me é mais fácil criar. Isso ainda se reflete hoje porque, mesmo que às vezes aquilo que eu esteja a imaginar ou fazer não envolva necessariamente uma guitarra, ela acaba por entrar. Afinal, acho que é um instrumento muito fixe porque consegues tirar muita expressão dele.

Dá para perceber e tu mesmo já referiste algumas influências que se podem ouvir no “Wormhole”, mas eu quero fazer uma pergunta um bocadinho fora do lado musical. O que é que te inspira no dia-a-dia?
É um bocadinho difícil responder, e por acaso tem graça pois é uma coisa que tenho pensado cada vez mais. Estou a tentar que a minha música tenha um papel. Não estou a obrigar-me a fazer isso, mas estou a tentar que a minha música faça parte da comunidade em que vivo, da comunidade em que estou e que não seja meramente uma expressão daquilo que me vai na cabeça. Isto foi uma reflexão que tenho tido mais recentemente, mas acho que aquilo que me inspira tem muito a ver com aquilo que vivo, que consumo e as coisas que me entusiasmam. Sei lá, os sentimentos entusiasmam-me muito, a música que eu oiço, as memórias que tenho e que vejo as pessoas a construir. Não sei, o mundo das artes, do cinema e da música, o ver por dentro da cabeça de alguém sempre foi uma coisa que me entusiasmou muito e acho que isso se reflete também no tipo de filmes que eu gosto e do tipo de coisas que eu consumo. Normalmente eu gosto de coisas que têm muito espaço e que dêem para absorver…

Espaço no sentido de permitir pensar, refletir e ver mais para além de ti enquanto indivíduo, olhando antes para todas as nuances, detalhes, complexidades? É mais ou menos isto?
Sim, é isso mesmo. É sempre uma perspetiva de “more than meets the eye”, sempre um bocadinho desse espectro. Acho que tem sempre muito a ver com a beleza que existe nos sentimentos humanos e até na natureza, no sentido em que as paisagens e que as minhas memórias sempre foram o principal nervo para criar. Não é uma grande resposta, mas… Lá está, eu penso sobre isto, só que nunca consegui chegar à verdade da minha razão para fazer isso. Claro que a base disto é eu gostar de fazer música e eu gostar de música e o som estar no centro daquilo em que eu penso.

E se calhar também nunca mais vais chegar a uma resposta…
Sim, se calhar eu estou à procura quando estou a criar, mas acho que o sentimento e a catarse visual, sentimental ou sonora sempre foram a minha principal motivação. Acho que posso dizer assim.

Pessoalmente, gosto muito do elemento da guitarra. Mas fala-me sobre o teu setup, o que é que usas, e sobre o teu processo de criação.
O meu setup é o mais simples que podia ser, para minha infelicidade de certa maneira. Acredito que menos pode ser mais, mas às vezes gostava de ter mais coisas. O meu setup é: guitarra – às vezes tenho alguns pedais ligados, outras vezes ligo só a guitarra; um teclado MIDI, com o qual eu faço a maioria das coisas (tudo que é sintetizadores, teclados, alguns baixos, samples, beats, é quase tudo lá); e no ano passado comprei um baixo, que tem sido das cenas que mais tenho utilizado.

E usas muito neste álbum, certo?
Muito, muito mesmo. Acho que metade do álbum tem o baixo. Mas, mesmo fora do álbum, desde que o comprei tem sido uma coisa que eu tenho utilizado em quase tudo, é um instrumento super útil e que tem mudado um bocado a minha maneira de produzir.

Acho que o processo nunca é muito linear. Um terço das ideias deve passar por eu estar a experimentar com samples ou sons que eu tenho no Ableton e começo a experimentar a partir disso – e isso leva a uma ideia nova. Outro terço das ideias são ideias que eu tenho de guitarra que depois extrapolam – ou extrapolam pouco e são só uma ideia de guitarra simples, ou extrapolam muito e tornam-se numa cena como é o caso da ‘Lullaby for the Inebriate’, na qual gravei aquele loop e depois fui construindo tudo à volta. E o outro terço é capaz de ser eu ter uma ideia de um groove ou de alguma coisa na minha cabeça, como um instrumental, e começo a tentar criar a partir disso. A maioria das vezes torna-se algo completamente diferente que nem tem nada a ver com o que tinha pensado inicialmente [risos]. Por acaso estou a dizer por terços, mas há outra coisa: a maioria das coisas até é por improvisação. Não é que seja outro quarto, mas tudo que vem dessas pequenas maneiras de criar é quase tudo por improvisação, por tentativa-erro.

Foi interessante dizeres que, na altura dos DVDs de Pink Floyd, pensaste “provavelmente quero fazer isto”. Por isso, quero perguntar-te: qual é a sensação de lançar um álbum?
Acho que é mesmo de missão cumprida. Não é missão cumprida porque há sempre aquela noção de que não vou parar por aqui; ao mesmo tempo, é uma sensação de que se parasse por aqui, estava tudo bem. Depois do dia 15 de abril, pronto, o objetivo estava cumprido. Mas lá está: é uma coisa que se vai sentindo… Pelo menos eu tenho muito essa sensação. Quando eu era miúdo, apesar de ter essa ambição toda, para mim era impensável que pessoas que eu não conheço de lado nenhum fossem ouvir aquilo que eu faço. E digo isto sem merdas nenhumas. Não é uma tentativa de ser humilde. Sempre tive essa ambição… Ainda hoje fico perplexo quando alguém me envia uma mensagem a dizer que ouviu uma música minha. Ainda hoje é uma sensação de gratidão mesmo grande.

Cada vez que se atinge um pequeno objetivo, há um bocadinho essa sensação. Senti isso quando lancei a minha primeira música em compilação na editora que eu na altura criei com três amigos meus – o Alexandre Ribeiro, o Stairstep e o Odaminani. Senti isso quando me juntei à Monster Jinx – pensei “se parasse aqui, já me sentia concretizado de alguma maneira”. Quando passei na Oxigénio ou na Antena 3 e vi pequenos sonhos que me pareciam impensáveis e que começam a acontecer com mais regularidade. E o álbum é o culminar de tudo aquilo que eu quis até hoje. Mesmo hoje em dia, em conversas com a malta da Jinx, eu digo: “não me importa assim tanto quanto é que as pessoas ouvir isto”. Saber que eu fiz isto já é, até certo ponto, suficiente. Primariamente, embora façamos para as pessoas ouvirem, fazemos as coisas para nós. Ter conseguido isto numa editora, em vinil, para mim está a ser uma sensação de objetivo cumprido.

Em que lugar imaginas a música na tua vida daqui a 20 anos?
É assim: eu acredito plenamente, e cada vez mais por causa deste último mês, que eu posso estar um ano sem fazer música mas também acredito que durante esse ano vou estar sempre a pensar: “ok, podia ligar o Ableton” ou “aquele álbum é muito fixe, inspirou-me a fazer não sei o quê”, percebes? Mesmo que eu parasse de escrever sobre música e parasse de fazer música, isso ia estar sempre aqui atrás da cabeça [em segundo plano] a dizer-me qualquer coisa. E isso surge, voltando um bocadinho àquilo que perguntavas da minha motivação para criar, sempre que eu estou a ver um filme sobre o espaço ou que me puxa por causa de um diálogo qualquer. Ou surge de eu ver um por-do-sol qualquer numa situação específica e isso remete-me para uma ideia musical. Acho que mesmo que eu parasse durante um período, isso ia sempre voltar a surgir na minha cabeça. Acho que é um bocadinho isso.

Como é que surgiu a ligação com a Monster Jinx? Impulsionou-te a lançar o álbum?
Eu já tinha conhecido o DarkSunn quando estava a estudar. Estudei Ciências Musicais e no trabalho final de uma cadeira decidi fazer sobre editoras independentes porque eu já tinha a minha e era um tema que me interessava bastante. Então, aproveitei isso para o entrevistar, entre mais algumas pessoas, como o Filho da Mãe, por exemplo. Conheci o Bruno [DarkSunn] e ele foi super porreiro comigo, mantivemos o contacto e eu já conhecia a Monster Jinx e já gostava. Na verdade, até já a tinha um bocadinho como um guideline sobre como fazer as coisas para uma editora independente. E comecei a ir também a muitas festas com amigos meus e ouvia a música da editora, então o contacto manteve-se sempre.

Uma vez, estava no ID a ver alguns concertos e o DarkSunn estava lá. E como acontecia sempre que nos encontrávamos, começámos a falar e eu perguntei-lhe: “então, como é que está o teu EP? Sempre estás a avançar com isso?”. E ele calou-me nesse momento e disse: “não, não! Como é que está o teu EP?” [risos]. E eu tipo: “opá, estou a fazer…” [risos]. Isto na altura já era o “Wormhole”, mas ainda era um EP. Eu ainda estava mesmo na base das bases do álbum e estava só a começar a fazer um primeiro alinhamento, que depois ficou totalmente diferente. E disse-lhe que estava a tratar disso, que andava a ver se lançava mais para o final do ano. Obviamente, não aconteceu [risos]. Isto em 2019. E ele disse: “então, quando tiveres isso, manda-me as demos”. E eu fiquei com aquilo na cabeça. “Pronto, vou fazer, vou fazer!” Depois disso só lancei a ‘Serotonina’. Finalmente, já em 2020, ele ainda estava à espera. Eu ainda tive uma reunião com eles, um jantar com a malta da editora e já se assumiu que eu ia lançar aquilo pela editora, se tudo corresse bem, se o trabalho fosse fixe. E já não sei se foi em fevereiro ou março de 2020, ele lá disse: “olha, envia-me lá uma faixa para compilação, para a “Cursed”, que é para pormos isso a masterizar”. E eu fui logo tratar disso. Na verdade, até era uma faixa que ia para o álbum, mas que felizmente fez mais sentido nessa situação. E pronto, foi um bocadinho assim que se deu a ligação. Eu já conhecia malta da editora, até já tinha entrevistado o Maria, já tinha começado a fazer uma música com ele, que depois se tornou na ‘IDK’ da Monster Jinx TypeBeat e tudo. O J-K também já tinha estado num tema do meu primeiro EP, “Narcisos”. Portanto, já havia assim uma relação. E pronto, finalmente, convidaram-me para lançar uma música a anunciar que faço parte da editora e saiu a ‘Pack Your Bags’. E o resto é história, como costumam dizer.

Para te responder à segunda pergunta, impulsionou totalmente [o lançamento]. E eu nem sei se já teria acabado o álbum se não fosse por ter entrado na Jinx, sinceramente. E, na verdade, se não tivesse entrado na editora, eu não tinha tido a motivação para tornar isto num álbum, que também foi uma ideia do DarkSunn. Mas o facto de saber que aquilo ia para um vinil fez-me querer tornar o álbum numa coisa mais consistente, em vez de ser um EP de três ou quatro músicas. O que provavelmente teria acontecido se eu tivesse lançado sozinho porque eu gosto muito do formato de EP e o formato de álbum parecia-me um bocado inconcebível a nível da minha motivação para encerrar as coisas e de saber quando fechar as músicas.

Mas sim, foi central ter entrado na editora para fechar o álbum como fechei e para ter tido a confiança para o lançar desta forma, mesmo a nível conceptual e de samples que usei, etc. Penso que era a confiança que precisava para fazer isto desta maneira.

Mesmo para terminar, a pergunta da praxe: planos para os próximos tempos? Como apresentar o trabalho ao vivo?
Tenho esses planos, sim. Se ou quando for possível, tenho já uma possível data marcada com a Jinx para isso. Será revelada na sua altura e quando soubermos alguma coisa; claro que para além dos concertos da Monster Jinx Type Beat que hão de acontecer por causa do ‘Coletivo’. Acho que não estou a planear lançar uma coisa muito longa nos próximos tempos.

Um período de reflexão, se calhar, por agora.
Sim, sem dúvida. Vou continuar a trabalhar nas compilações da Monster Jinx, claro, e em algumas colaborações que deixei na gaveta mas acho que, pronto, algo longo em 2021 já não deve aparecer. No máximo, só se for algo colaborativo, mas mesmo assim… É possível, não digo que não, mas não o vejo como uma probabilidade. Ao mesmo tempo, acho que gostava de voltar àquele objetivo que tenho já há algum tempo de trabalhar numa coisa audiovisual… Também estou a preparar uma cena ao vivo, mas vamos ver o que acontece.

Fotografias por Beatriz Passos

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