AUTOR

Ana Quintas

CATEGORIA
Reportagem

Abrupt: uma viagem pelo inconformismo de criar

7 Junho, 2021 - 19:12

Ana Quintas esteve pelo Passos Manuel para acompanhar a segunda data da performance Abrupt, de Dust Devices e do coletivo berru, mas teve dificuldades em regressar à realidade.

Devido ao grande sucesso da estreia no passado dia 22 de maio, Abrupt, a performance audiovisual co-criada pelo coletivo berru e o artista sonoro Dust Devices (Claúdio Oliveira) regressou para os que, tal como eu, não tiveram oportunidade de assistir devido à grande afluência e esgotamento de bilhetes.

Assim, num dia em que a cidade do Porto emanava futebol e que as ruas se lotavam de tantas pessoas como não se vira desde inícios de 2020, era no palco do auditório do Passos Manuel que se esbarravam motivações para se existir no final de tarde de dia 29 de maio, novamente promovido pela Mera.

Num escoar de uma inusitada mas deleitosa ansiedade, foi pelas 18h30 de sábado que invadi o auditório da importante sala de espetáculos portuense. A cada escada que descia, experienciava o embarque numa viagem espacial. Sentei-me, pus o cinto e esperei que tudo corresse pelo melhor.

Sentada e ambientada, as luzes esvaíram-se e um silêncio estrondoso foi instaurado na sala. Cláudio Oliveira, dissimulado entre luzes ininterruptas e um fumo que se ia espalhando, entra em cena e em formato live act inicia a descolagem desta viagem. Num som ambiente desconstrutivo, que se igualava a vibrações eletromagnéticas, o artista tinha o poder de fazer transportar, instantaneamente, qualquer um para outro lugar.

Abruptamente ressurgi ao espaço físico, onde três membros do coletivo berru, também eles disfarçados entre fumo e luzes, assomavam e abandonavam várias vezes o palco deixando instalados blocos de betão. Os objetos, que estavam em constante mutação em virtude da mudança de disposição, geravam a mudança do local de incidência da luz e por consequência faziam com que a paisagem se fosse transformando. Em estado de observação, tinha curiosidade em saber o resultado final.

Dust Devices, por entre tons de EBM pintados por sons sintetizados com vocais levemente distorcidos, tornava o ambiente cada vez mais profundo. Em sintonia com a paisagem visual era visível e audível o inconformismo do Homem perante o ambiente à sua volta. Ora espalhados pelo palco, ora paralelos uns aos outros, os blocos e a referida paisagem sonora harmonizavam-se no que era o conflito entre Homem e máquina.

Até que após tanto inconformismo e tanta mudança algo haveria de se erguer. Assim, tanto o artista sonoro a pilotar entre sons intensos e instáveis, como os artistas visuais a movimentarem aquilo que eram pequenos objetos, acabaram por materializar um grande objeto final.

Estaticamente, a obra proveniente do homem permaneceu lá. Já os artistas abandonaram o palco deixando-nos a todos em reflexão. Na verdade, a vida é isso: a máquina permanece, nós não.

Suspirei, pensei no quão aqueles 50 minutos pareceram cinco, bati palmas e saí sem dizer uma única palavra de tão anestesiada que estava perante tudo o que se passou naquele local.

A máquina permaneceu, nós não.

Fotografia por Miguel Miguel

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