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A Cabine

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Reaprender a dançar no Braga Livre

8 Outubro, 2021 - 12:52

Andávamos a ressacar por um bom pé de dança, é verdade. Mas as nossas preces foram ouvidas e trouxeram-nos uma enchente de eletrónica para abrir outubro e a nova temporada de vida noturna – uma nova vida por inteiro, leia-se.

Três dias, 21 atuações. Entre centenas de espectadores, concertos e live acts, no fim-de-semana passado houve espaço para vários e muito esperados reencontros. Música e dança, pratos e instrumentos, novos e antigos nomes – todos unidos para reacender a chama da cena mais rave num momento histórico para a cidade de Braga.

Ainda que, nos últimos tempos (e com notáveis, mas pouco lícitas excepções), a música de dança tenha vivido mais dentro dos auriculares dos ouvintes do que nas pistas, o seu habitat natural, estes três dias de saudosa euforia terão seguramente servido a muitos de nós tanto de cápsula como de máquina do tempo – lembranças do que há muito não se dançava e ouvia, e vislumbres do que está ainda por sentir e viver.

Para surpresa de alguns, as portas deste dançável mundo novo abriram-se na presença de poucos. Isto, claro, comparando com o rio de gente que foi desaguando no recinto. Primeiro, as caras conhecidas – artistas, fotógrafos e técnicos de som, toda a equipa da organização unida na mesma missão: pôr as pessoas a dançar e a casa a tremer.

Antes dos tremores, contudo, um calor abrasador emoldurava a abertura do festival, como que para dizer: ainda vamos a tempo de um festival de verão. Pelas 15h, o lado mais ambiental de Maria Callapez construiu a primeira ponte entre o longo silêncio que vivemos e as batidas arrepiantes que tanto aguardávamos. As sensações fervilhavam, nunca abrandando, e sobrepunham-se com a mesma intensidade com que mais e mais almas sedentas se juntaram lentamente naquele recinto, deixando o corpo levitar com as primeiras doses de música do dia. No fim do set de Maria Callapez, houve espaço para uma “transição humana” – momento de passagem de testemunho para Valody, marcado por sorrisos e um sentimento solidário de quem já tinha saudades disto.

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Depois de uma hora da cada vez mais séria Valody, que conduziu os fiéis ao apogeu da eletrónica de dança, foram as synthlines de Europe Endless, de Kraftwerk, que abriram um caminho repleto de aplausos para a chegada de Vivax, um dos mais experientes DJs do alinhamento. Do set repleto de sonoridades germânicas, eslávicas e, acima de tudo, multifacetadas, destacam-se temas como Control, de Anatoly Zorin, ou We Gonna Jak, de Todd Osborn.

Seguiu-se Caroline Lethô, encarregue de pôr um dancefloor cada vez mais cheio a apreciar sonoridades menos convencionais e, sem demoras, Cravo. Prolífero e emergente, chegou Braga para aumentar o expoente de BPMs através de techno rápido e hipnótico. Com a sua peculiaridade, preparou o público para um dos mais frequentemente escutados terramotos do techno português – Temudo, que, tal como o seu parceiro da HAYES, mostrou por que razão é um dos nomes fortes do estilo.

Os pés mexiam, os ouvidos sorriam e a ânsia por mais um dia de festa marcava um merecido intervalo para muitos e uma continuidade festiva para tantos outros. Freshkitos, incontornável dupla do cenário portuense, fechou a noite da melhor forma possível – a fazer dançar até à exaustão.

Os bracarenses com quem falámos no festival mostraram-se felizes por terem um evento deste género na cidade. A maioria queixou-se da falta de um circuito de música eletrónica noturno e regular em Braga, mas não apontou falhas apenas a quem organiza. Ricardo, por exemplo, explicou que a chama que se viveu há duas décadas na cidade está apagada, alertando que o público também não tem fé na cidade.

Mesmo com o dia 1 de outubro a marcar o regresso aos clubes e bares sem restrições, este espectador viu “amigos a ir para o Porto para festejar” nessa noite. “Eu disse-lhes que tínhamos um bom evento em Braga, mas mesmo assim decidiram ir para o Porto”, explicou. Tanto Ricardo como os outros bracarenses presentes, no entanto, fizeram parte de um núcleo de habitantes locais que ajudou a dar vida ao recinto e todos reiteraram o quão importante é haver uma festa de três dias como esta em Braga.

Para Vivax, o mais preocupante aspecto da organização do festival é “terem de vir produtoras de fora [de Braga] para fazer algo assim acontecer”, disse em declarações à A Cabine. O DJ veterano sublinhou ainda que o problema não está só “nos poderes vigentes”, mas também na falta de organização e cooperação entre os vários e difusos núcleos de consumidores, produtores e promotores da cultura eletrónica bracarense, e não está sozinho a afirmá-lo.

Na perspetiva de Terzi, lisboeta radicado em Braga que além de girar pratos também os confecciona, a principal falha deu-se na parte da comunicação. Lamentando os erros crassos por parte dos promotores do Altice Forum, como as playlists de artistas repletas de temas que nada tinham, para além de nomes em comum, a ver com a música que se esperava do festival, o artista não deixou de frisar a importância destes acontecimentos para fomentar novas e mais frequentes iniciativas que dêem palco e visibilidade à música eletrónica na cidade.

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À volta do recinto, escolhas para todos os gostos, dietas e paladares. O palco e a plateia estavam cobertos, claro. Já se sabem as astronómicas possibilidades de começar a chover de repente em Braga. E, depois da tórrida bonança de um primeiro dia de calor, a cidade fez questão de honrar a sua bizarra tradição meteorológica com uma mudança drástica. Catarina Silva já se fazia ouvir antes das 15h. “Era só o soundcheck”, atentou. Quando o relógio deu o sinal, assumiu “pronto, agora oficialmente”.

Os técnicos de som agradeceram a qualidade do teste e, pela mão da tirsense, ouvimos temas como Feel My Love Vibes, de Yukihiro Fukutomi, S. E. X., de L’Renee & Omar S, e, a antecipar as 20h, também Still, de Yen Sung e Photonz.

Com uma chuva molha-tolos de fundo, King Fu tomou conta da mesa de mistura, entrando com elegantes vaivéns melódicos e passagens astutas. Para dar continuidade ao charme que marcaram o passo da atuação anterior, Funkamente fizeram do palco do Braga Livre a primeira paragem de uma rota tropical e instrumental que acabou no Barhaus, em Braga, nessa mesma noite.

Depois de Tiago Carvalho, o sucessor desta “perfeita tempestade”, foi Terzi. Fazendo bom uso do sistema à sua disposição, ao qual não poupou elogios, o DJ aproveitou a sua hora para espalhar puro amor aos pratos. Não faltaram baladas, sorrisos e gargalhadas num set que não foi menos do que delicioso e deu lugar a temas como Love Technique, de Levon Vincent.

21h. Parecia um sismo. Era o bass de Yen Sung. A traçar um cataclismo contínuo, pontuado por intensidades várias de BPMs e dança incansável, a veterana e co-fundadora da Alphabet Street foi calorosamente acolhida pelo público. Os dançantes, que em frente ao palco encontraram um refúgio às primeiras chuvas do outono e um reencontro da vida de antes, matavam saudades dos amigos e retornavam à linguagem corporal, na qual não é preciso qualquer tipo de palavras para sabermos quando alguém deixou de estar no recinto para levitar pela música.

Chegaram Rui Vargas & Trikk a dar som à despedida da nostalgia, com o palco enevoado e melodias feitas tumulto. De forma gradual e furtiva, tornaram-se o ritmo de uma lei imperativa e, por fim, um hino. A plateia, devidamente nos seus espaços pessoais e ainda um pouco nas suas bolhas, aproximava-se da linha da frente como num ritual. A batida era contagiante a qualquer parte do corpo e as músicas tão intermitentes como os nossos passos.

A hipnose faz-se de várias formas: há quem balance um amuleto em frente aos nossos olhos, quem nos peça para os fecharmos e converse connosco rumo a um até então desconhecido patamar do subconsciente. Aqui, hipnose faz-se através de discos que giram, mais cabos do que os que conseguimos contar, numa inexplicável ode à bola de espelhos que, ao ar livre, se dispersa para reencarnar nos contornos de cada rosto, nos olhos dos festivaleiros eufóricos, irrequietos e, ainda assim, tranquilos.

E depois, todos eram um. Toda a gente era música, feitos de uma mesma matéria, de uma mesma vibração, constante, ascendente e enérgica, num serão que se estendeu noite dentro com remate de Diana Oliveira – que, diga-se, sabe adaptar-se ao contexto de forma exemplar.

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No dia seguinte, as estradas ainda húmidas e luzidias pelo sol que se entranhava através das nuvens abriam caminho para o último dia de festival. Miguel Nery foi o primeiro a pisar o palco, suscitando as sonoridades house de “thru confinement”, um EP “nascido em Barcelona e finalizado em Portugal” que retrata “as variações de humor durante o confinamento”, segundo as notas de lançamento.

Da Chick trouxe o funk à casa pelas 16h. Versado nome da nova música portuguesa, começou a produzir em 2009. Iniciou o diálogo com “conversations with the beat” e, munida de guitarra elétrica, não se alongava nas pausas entre faixas. “Vamos continuar sem demoras, é tão bom estar aqui a celebrar a música ao vivo”, exclamou. “É tão bom voltar a ver-vos de pé”.

Ao ecleticismo de Da Chick, pautado por influências funk, disco, hip-hop e soul, seguiram-se Whosputo, eles que também cruzam inspirações e rotas musicais distintas. Com guitarra, samples, teclas e baixo, mostram-se capazes de fundir dimensões como o rock, eletrónica e jazz. Tocaram temas como Floating e até nos pediram uma fotografia, depois de se misturarem com a multidão.

O bom da música eletrónica é que toda a gente se conhece. Mais do que uma relação público-artista, são família, parentes próximos ligados pela música que parte das mãos de uns para o corpo dos restantes. E cada pessoa ao rubro, cada festivaleiro que se deixa render ao som sem pensar duas vezes (porque não é preciso fazê-lo) é uma prova disso.

O jogo de luzes neon acentuou-se ao anoitecer, com banda-sonora de Soundprofile, elevando-se o contraste com uma cidade que se prepara para repousar. Mas não nós. Não aqui. Klin Klop e a sua banda entraram em palco. Não sabendo se foi só impressão nossa, o tempo pareceu voar nesta atuação – e a plateia também. Víamos todos os integrantes da banda numa química inigualável, constantemente sorrindo perante uma multidão totalmente hipnotizada. Os sons dos tambores, de guitarras, teclados e até de um violino perfuraram as audiências até chegar a hora de Moullinex, penúltima atuação de todo o festival.

Logo soou “Requiem For Empathy”, o mais recente álbum do músico lisboeta. “Já nem há palavras”, confessou, entre temas como Running In The Dark e Inner Child e a colaboração com Sara Tavares, Minina Di Céu. Tentava falar com o público, mas o público falava por si, eufórico e em êxtase. “Se pudesse ia para aí dançar com vocês, mas não posso, tenho de continuar a tocar”, respondeu. Não faltaram pedidos de mais temas e agradecimentos. “Obrigado, Braga, foi tão bom, eu não me canso de dizer isto”, disse ainda.

Apesar de tantas horas de dança, suor e agitação, ficou claro que havia ainda espaço para muito mais. Fechados com chave de ouro por Miguel Rendeiro, foram três dias do que esperamos ser apenas o começo. Venham os DJs, as festas, os concertos, as espirais que transcendem para nos levar ao espaço sideral sem nunca sairmos da Terra. Venha a música.

Artigo por Carina Fernandes e David Rodrigues; fotografias por Carina Fernandes

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