AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Entrevista

Fura Olhos sobre disco de estreia: “Foi algo natural. Havia só a vontade de registar estas composições”

4 Novembro, 2021 - 14:00

Estivemos à conversa com Fura Olhos, dupla de Inês Malheiro e Miguel Pedro que se juntou para presentear o mundo com eletrónica sentida, intensa e cantada em português.

É difícil não olhar para Fura Olhos como uma das colaborações mais interessantes do ano. Afinal, estamos perante um terno disco que chega com assinatura de uma dupla que junta músicos bracarenses de gerações distintas: por um lado, Miguel Pedro é um nome repleto de experiência que integra bandas como Mão Morta; por outro, Inês Malheiro, jovem que tem chamado a particular atenção pela forma como utiliza a voz (e não só) em trabalhos como “Canal-Conduto”.

Curiosamente, no entanto, estamos a falar de um primeiro e homónimo disco que começou a ser trabalhado “durante o confinamento” sem que os dois músicos “se encontrassem”. “Não nos conhecíamos pessoalmente” e “[fomos] trocando ficheiros e falando por chamada”, explicam à A Cabine via email.

“Durante a primeira quarentena, o Miguel queria uma voz para completar umas composições que tinha de lado e o Luís Fernandes, nosso amigo em comum, deu a ideia de trabalharmos juntos”, referem. Aliás, “a primeira vez que se encontraram pessoalmente” foi no STOP, no Porto, “à porta do estúdio de Ruca Lacerda”, local onde gravaram as vozes. Só aí é que “começaram a trabalhar mais de perto e compuseram” as três músicas que acabariam por completar um trabalho que contava já com cinco músicas feitas à distância.

O processo “foi algo natural e sem uma estratégia ou um planeamento prévio. Havia só a vontade de registar estas composições”, menciona a dupla, que acrescenta: “Não foi uma decisão muito pensada. Foi algo que foi acontecendo e a ideia foi crescendo à medida que os temas e os arranjos iam avançando.”

Segundo as notas de lançamento, “Fura Olhos” é um disco que acaba por ser “fruto do baú de composições” de Miguel Pedro e das “vozes e bitaites” de Inês Malheiro. Questionado sobre a profundidade desse baú, o bracarense dos mil ofícios admite que este é “algo fundo”: estão lá “canções, pequenos loops, field recordings, gravações de ritmos ou de experiências com sintetizadores que foram acontecendo há mais de 20 anos”.

“Por vezes recorro ao baú para temas de Mão Morta ou de Mundo Cão; outras vezes, para trabalhar bandas-sonoras”, conta o músico, que nota: “Enfim, dá jeito, por vezes, amealharmos, qual cigarra musical, estas ideias ao longo do ‘verão’, para podermos recorrer ao baú em tempos de menor criatividade.” E este álbum é prova de que isso dá realmente jeito.

Descrito pelos próprios como um disco de “músicas simples e abertas, com espaço para melodias maleáveis”, “Fura Olhos” conta com a voz de Inês Malheiro, sim, mas também com letras da própria: são letras que “foram feitas há quase dois anos, a par do convite que o Miguel fez para completar as composições dele”. E a autora de “the endless chaos has an end” admite: “não costumo escrever em português e decidi experimentar para este projeto. Confesso que foi um desafio gigante.”

Ainda assim, esse “desafio gigante” não é audível, tal é a força da poesia que se escuta no trabalho. Aliás, note-se, por exemplo, os títulos dos temas, que formam uma só frase – 115 mitos sobre um grito que corre como vento quando dança – ou até versos como o que se ouve em Como Vento: Ideia sobre ideia e a ilusão de que estou cheia / De boca em boca a verdade fica oca.

Sobre o resultado desta colaboração, que chegou ao público através da Revolve, o duo conta que “está bem satisfeito”, o que os deixa “contentes e certos de que esta colaboração funcionou muito bem”. “Mas” também acredita que, “agora que se vai conhecendo melhor, tem mais espaço para perceber o que quer de cada um e isso indica que futuras abordagens serão mais interessantes”.

Nada disso quer dizer que este álbum não seja já bem interessante – mas venham outros, estaremos aqui para os ouvir. Ao longo dos oito temas, escutam-se inúmeras minuciosidades eletrónicas, guitarras, letras comoventes, temas emocionantes (como Quando) e até, entre tantos outros pormenores, faixas que encaixariam sem problemas num DJ set mais clubbing (Que Corre e Dança).

Toda esta deliciosa aventura culmina na primeira apresentação ao vivo do projeto, que acontece este fim-de-semana no Mucho Flow, onde os espetadores “podem esperar o disco tocado de uma forma mais contínua e flexível e um ou outro momento improvisado”. “Estamos ansiosos por tocar num festival que admiramos e por fazer parte deste cartaz incrível”, remata a dupla. E nós estamos igualmente ansiosos por ouvir essa atuação em Guimarães.

Fotografias por Adriana João

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