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A Cabine

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Crónica

DJs residentes: a espécie em vias de extinção que sustenta todo um movimento

8 Fevereiro, 2022 - 12:34

A primeira crónica de Inês Duarte n’A Cabine.

Para os mais novos ou menos batidos nestas coisas de festas e eventos, pode parecer estranho que ao olhar flyers e acontecimentos antigos cada discoteca ou clube não tivesse convidados. Não. Eles tinham os seus DJs residentes e os residentes eram a identidade da casa. Os discos eram muitas vezes comprados pelos DJs para o sítio onde trabalhavam e nem se imaginava um convite para ir a outro lado. A lealdade era tanta que, se um DJ tinha de mudar de cidade, recomendava um colega para o seu agora vazio lugar.

Lendas como Larry Levan (embora o Paradise Garage recebesse ocasionalmente convidados na cabine), Frankie Knuckles, Nicky Siano, Ron Hardy, David Mancuso (com as suas festas privadas Loft) e, mais tarde, ícones como Junior Vasquez e Danny Tenaglia – embora já tocassem noutros sítios, era nas suas casas-mãe que serviam maratonas de 12 horas.

Há algo de muito especial em estar todas as semanas a tocar mais de 10 horas no mesmo sítio. É impossível não desenvolver um estilo muito próprio e o público virá ou não, conforme lhe agrade. Mas aos que agradam, é preciso ao mesmo tempo inovar, cativar, tirar coelhos da cartola, provocar êxtase inesperado. Seguir um DJ residente é garantia que a noite pode até ser um pouco mais desinspirada – afinal, todos somos humanos – mas má é muito difícil de ser. Aquele DJ, semana após semana, pode muito bem ser o catalisador de uma bem merecida catarse, qual xamã que pacientemente aguarda por nós para o ritual. E, ele próprio, tem de conhecer a pista como a palma da mão, cada detalhe do som, cada pormenor da luz.

E a música. Oh, a música. São milhares de temas à volta na cabeça. Tudo para que mais um sábado não seja mais um sábado. Tem de ser O sábado. Ou a sexta – não discrimino. Tem de ter aqueles momentos mágicos, de levar as mãos à cabeça e, já cá fora com o sol a brilhar, termos a convicção que temos de voltar. Selecionando discos absolutamente excepcionais, o DJ nada mais faz que tocá-los no momento exacto. E o DJ residente tem o acréscimo de estar na sua cabine horas a fio, a tocar para a sua pista mais uma vez, e conseguir os golpes de rins para fazer cair queixos.

Só que estamos em 2022. Em Portugal, contam-se pelos dedos os clubes que apostam em noites só com residentes – ao que sei, com sucesso, felizmente. O panorama agora é outro: o do convidado internacional. Porque o público já não quer saber do tal xamã, porque o público quer pagar para ouvir o gajo que ficou no top da revista não-sei-quê, a actuar duas horinhas certas.

Não me levem a mal, estou a exagerar. Magníficos DJs vêm ao nosso país actuar 4, 5, 6h a fazer-nos levitar os pés e encher o coração. Mas com esta mudança de paradigma, formam-se cada vez menos DJs residentes como verdadeiramente deveriam ser. Talvez tenham a oportunidade de abrir para um convidado. Talvez nem isso, e vejam outro convidado abrir para um convidado (o que pode gerar situações nada apropriadas para um warmup, como um DJ partir a loiça toda para uma pista vazia e comentar “não nasci para fazer warmups”…) Talvez possam fechar. Ou não. Quem sabe.

O calejado e dedicado DJ residente está em vias de extinção. E é preciso celebrá-lo, dar-lhe algumas hipóteses, perceber que muitas vezes nada deixa a desejar ao internacional da modinha. Vão ouvir os vossos heróis locais. Portugal tem excelentes DJs, que continuam a levar todo um movimento para a frente, e tem excelentes DJs em formação. Se não tiverem oportunidades, como vão evoluir? Será que esta pandemia vai ver as discotecas portuguesas a apostar mais na prata da casa? Eu gostaria que sim. Valorizados, como é óbvio.

Photo by Romina veliz on Unsplash

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9

  • Nuno Cacho

    Reply
    9 Fevereiro, 2022 - 16:19

    Excelente crónica de abertura, Inês. Bravo!

  • 9 Fevereiro, 2022 - 17:01

    Loveley comment

  • Gil Sanches

    Reply
    9 Fevereiro, 2022 - 18:07

    Fui DJ residente entre 1998-2016 e revejo-me no artigo.
    Obrigado pela consideração.

  • Pedro Ivo Gama

    Reply
    9 Fevereiro, 2022 - 19:16

    Inês Parabens por esta excelente crónica.

  • 9 Fevereiro, 2022 - 23:52

    Por comentários destes é que a eletrónica em Portugal nunca vai deixar de ser o parente pobre da música, estiloque pouco se fala nos OCS. Porque os supostos opinion makers da eletrónica vão em contra-mãos às massas…. e aproveitam qualquer oportunidade pra criticar o top da dj mag, entre outro preconceitos tão feitos…. “Porque a eletrónica pra ser fixe tem de ser o mais underground possível e cruzes credo alguém assumir em voz alta que até gosta do Guetta,..”
    Deviam mudar o nome para a revista de música eletrönica desconhecida para hipsters que só dizem que ouvem coisas esquisistas pra parecer bem….

  • Oscar Baua

    Reply
    10 Fevereiro, 2022 - 8:41

    Como residente de casas como o Benzina, Trumps, Indústria, Garage, O2Lx e Kremlin, agradeço esta tua primeira rubrica. São tempos que dificilmente voltarão. Obrigado Inês.

  • Oscar Baía

    Reply
    10 Fevereiro, 2022 - 8:42

    Meu nome, Oscar Baía

  • Oscar Baía

    Reply
    10 Fevereiro, 2022 - 8:45

    Como ex-residente de casas tão carismáticas do nosso país, o Benzina, Garage, Trumps, Indústria, O2Lx e Kremlin, aqui vão os meus parabéns pelo excelente artigo.
    DJ Oscar Baia

  • Miguel Mateus

    Reply
    21 Fevereiro, 2022 - 15:28

    Gostei muito da crónica, parabéns. Gostava de fazer um pequeno reparo, os discos muitas das vezes eram mesmo das casas e não do Dj (que poderia levar ou não os seus discos).
    Neste momento é preciso ter Alma para ser um Dj residente, tal como num passado recente estão a dar cartas Dj’s que formei e que dei o mesmo tipo de trabalhos no inicio (as mesmas casas) e vi logo quem queria voar e quem gostava de ser residente e desenvolver esse tipo de trabalho.

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