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A Cabine

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Crónica

Na verdade, o que fazemos numa discoteca?

28 Abril, 2022 - 12:20

“Amizades para a vida” e muito mais, escreve Inês Duarte na sua nova crónica.

Na minha mais recente noite de residência estava em baixo de forma, com uma lesão e muito sono. Felizmente tive um convidado extraordinário que soube pegar a pista e sinceramente fez com que eu praticamente nem fosse precisa.

Isto permitiu-me sentar-me ou cirandar pela pista, embora a mancar. E numa pista com gente tão heterogénea pus-me a pensar… ah, as discotecas. Esse sítio que serve para tanta coisa!

Há os que vão pelo DJ. Já conhecem o som dele (ou vão descobrir), é aquilo que querem: dançar horas a fio, com ou sem drogas ou álcool, querem perder-se em cada batida, querem transcender o espaço e o tempo, de preferência sem que os incomodem muito. Salvo saídas para o bar ou casa de banho, delimitam o seu espaço na pista e lá estão eles a queimar calorias e a suar. Estes seriam os clubbers ideais, especialmente se tiverem educação e boas práticas de pista: não empurrar, respeito pelo outro, enfim, a básica sapiência. Sabem que durante umas horas nada do mundo lá fora os perturbará, sabem que continuam uma tradição que vem desde a idade da pedra e os seus tambores e sabem que, por umas horas, o DJ será o seu xamã. Com todo o poder de os levar ao céu e inferno, a ter compreensões muito pessoais (sabem aqueles momentos em que parece mesmo que o DJ está a tocar só para nós?), de rir loucamente e chorar sem vergonha. Este é o poder da música, e eles sabem render-se a ela.

Há os que vão pelo convívio com os amigos. Estes, a primeira coisa que fazem talvez depois duma visita ao bengaleiro (e é aí que pertencem os casacos, malta!) é correr para o bar e assegurarem-se de que todos têm o copo na mão. O grupo está em festa e está tudo bem com isso. Passeiam-se pelo espaço, vão visitar vários locais, conversam. O problema é quando invadem a pista em amena cavaqueira, sem respeito por quem dança e por isso precisa de algum espaço. Copos a abanar e verter, ocupando uma área onde já estava gente, sem o mínimo de noção. A pista é para dançar, ponto. Se não vão dançar, afastem-se. Por certo, existem outros sítios onde podem conviver. Ah, e já agora, circulem pelos limites da mesma e não mesmo pela frente onde as pessoas… dançam. E ponham o telemóvel no bolso, tirem fotos noutros sítios por favor. Ninguém aprecia estar a dançar e ser fotografado ou filmado por uma pessoa que não conhece. Com flash então, devia dar multa.

Temos depois os que vão tentar a sorte com engate. Já Variações o cantava. Nada de errado. Desde que existem clubes de dança – e mesmo antes disso, a minha mãe fala-me dos bailes da aldeia onde ia com a sua mãe – que procurar um par para passar a noite é normal. O que não é normal é não respeitar os limites do outro. Não é não, meus amigos. Não é “el@ está a fazer-se difícil, ‘bora lá insistir”. Isso tem um nome e é crime: assédio sexual. Consentimento é tudo. Ah – e intoxicado não se pode dar consentimento. Por isso se levarem para casa alguém que claramente não está nas suas plenas faculdades… isso pode ser violação. Tenham respeito por vocês e pelo o outro. As discotecas devem ser lugares seguros para todos. E se virem alguém a ser desrespeitado intervenham, ou chamem um segurança. Ponto.

Há quem vá por simplesmente ir. Sem grande inclusão em nenhuma das categorias acima, acaba por passear por todas elas. Nada de errado com isso. Quem sabe não pensava ir apenas beber um copo às 2 da manhã e sai às oito completamente deslumbrado com um DJ que não conhecia ou de braço dado com um companheiro que naquela altura parece perfeito.

Fazem-se nas pistas de dança amizades para a vida. Eu que o diga. Aprende-se nas pistas de dança a ser DJ também. Idealmente, se as discotecas fossem lugares seguros e livres de preconceitos – infelizmente a maioria não o é – seriam o sítio onde podemos deixar de lado as máscaras sociais que criamos e ser verdadeiramente nós mesmos. As raízes da música de dança actual vêm de minorias… não podemos esquecer isso. Pelo contrário, devemos celebrá-lo.

Cabe-nos a nós, que vamos sair para os clubes, contribuirmos para um ambiente apetecível, de comunhão, livre de sexismo, racismo e homofobia, onde estamos todos unidos pela liberdade da música e da noite. Seja lá o que lá formos fazer, façamo-lo bem e com respeito.

Diria até, com amor.

Nightlife photo created by freepik – www.freepik.com

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