AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Entrevista

XXIII: “Nunca nos vimos como detentores de um movimento, mas sim como potenciadores do mesmo”

6 Maio, 2022 - 15:07

Um ponto de partida para conhecer um número que toma conta de noites portuenses há vários anos.

Já passaram sete anos desde que a XXIII começou a organizar os primeiros eventos no Maus Hábitos, no Porto. Volvido todo este tempo, o projeto fundado por NOIA e Torres continua a dar que falar, especialmente na cidade invicta, mas está longe de se limitar a festas a norte do país.

Aliás, estamos a falar de uma equipa que já desde essa altura apostou num braço editorial que, ao longo dos tempos, trouxe várias compilações, que tão bem revelam o tipo de sonoridade da XXIII, ou que lançou até mais do que uma dezena de EPs, assinados por nomes como Cash From Hash, rkeat, Caucenus e Zazim Soundsystem.

Hoje com um programa na rádio online Yé Yé e com presença assídua no Pérola Negra, a XXIII mantém-se fiel ao seu motto, como explica nesta pequena entrevista: “criar mais momentos musicais num espectro sonoro de club muito global.”

Basta olhar para os eventos da equipa para comprovar isso mesmo. Na recente celebração do 7º aniversário, por exemplo, a XXIII trouxe BADSISTA e Jup do Bairro até ao Porto; na festa que antecedeu essa comemoração contou com DJ Marfox; e no passado já foi palco para nomes como La Diabla, Dj Florentino e muitos, muitos outros.

Curiosamente, há um outro pormenor particularmente relevante no trabalho que a XXIII desenvolve: o seu elenco. Para além dos já referidos NOIA e Torres, esta equipa conta com um talento composto por vários nomes, cada qual com uma abordagem própria: 3WA, Baltazar, Cash From Hash, Caucenus, El Nando, Juvenil Angústia, Silly, Xico e Ugho.

Caso nunca tenhas estado numa festa da XXIII, no próximo dia 14 há Violet, DJ Nervoso, 3WA e NOIA a servirem a música (bem variada, diga-se) no portuense Pérola Negra. E caso não conheças este projeto, esta entrevista feita via email é uma boa oportunidade para o conheceres:

Olhando para trás, o que é que vos motivou a criar a XXIII?
A XXIII surgiu em 2015 de uma necessidade urgente de partilha de música, por isso, a criação da editora passou principalmente por aí. Passávamos horas a fio a consumir o SoundCloud de lés a lés e a partilhar nas nossas páginas pessoais as nossas descobertas musicais. Começámos a ter algumas reações de amigos e decidimos criar uma página onde condensamos todo esse conteúdo. Os tempos passaram e a vontade da partilha de música começar a ser mais pessoal cresceu e começamos a fazer as nossas festas, inicialmente no Maus Hábitos. O motto foi sempre o mesmo nestes 7 anos: criar mais momentos musicais, num espectro sonoro de club muito global.

Aquilo que são hoje vai ao encontro dos planos iniciais? De que forma?
De todo! Inicialmente éramos apenas duas pessoas com muita vontade de ouvir música e sedentos de encontrar artistas novos. Nunca pensaríamos fazer curadorias ou sermos DJs. A motivação é a mesma, mas contamos com uma estrutura maior. Analisando todo o caminho nestes 7 anos, podemos afirmar que superou qualquer expectativa.

Como veem o papel na cidade do Porto – e, se quiserem, no país? Por que razão se afirmam como um “motor” a norte?
Quando a XXIII começou a dar os primeiros passos na curadoria das suas próprias festas, a oferta do tipo de sonoridade que partilhávamos era muito escassa. Era um movimento com algum tamanho nos EUA e até na Europa mas com uma repercussão em Portugal quase nula. Tínhamos muita vontade de fazer parte desse movimento, consumíamos diariamente e vivíamos emocionalmente o que estava a acontecer e queríamos ter um pedacinho disso cá. Vaidosamente, podemos chamar-nos o motor por termos arriscado tão cedo a trazer ao Porto/Portugal artistas que só agora são considerados grandes no meio mais underground e dos global sounds. Nunca nos vimos, no entanto, como detentores de um movimento, mas sim como potenciadores do mesmo.

Como é que descrevem o vosso elenco e as suas valências?
O nosso elenco é como uma família, todos bem diferentes, mas sempre com algo que nos une. É sem dúvida conduzido pela música criada nas periferias em que nos inspiramos e reinterpretamos sem qualquer tipo de apropriação. O denominador comum é sem dúvida a percussão em sonoridades club e depois cada um desdobra-se dentro do que gosta: do Dancehall ao Dub, passando pelo Hard Drums, UK Bass ou Amapiano até ao Funk Brasileiro de raíz. Parece certamente uma confusão, mas todos bebem da vontade da partilha de novos sons e conseguimos conviver todos na mesma cabine. Além do elenco musical, contamos também com a Rita Matos, nossa designer, que toma conta da comunicação visual, um lado muito relevante da XXIII.

E as vossas festas, como é que as descrevem?
As nossas festas são provavelmente o lugar mais egoísta do mundo. Fazemos a curadoria com base nos nossos gostos pessoais, partilhamos com o público e esperamos que gostem tanto quanto nós. São festas focadas única e simplesmente na música, não olhamos a cores, géneros e acreditamos principalmente no que a multiculturalidade tem para nos oferecer. É nela que nos baseamos quando nos perguntam que tipo de sonoridade tem uma festa XXIII. É na música feita pelo mundo e através dos artistas que vamos conhecendo e conseguimos trazer cá.

Que tipo de sonoridades pode alguém esperar da XXIII, tanto como editora quanto como promotora?
Podem esperar sonoridades de zonas periféricas onde a percussão tem um papel muito relevante. Misturas de UK Bass com Amapiano e Dancehall, ou de Hard Drums e vocals de Funk Brasileiro são algumas das possibilidades numa festa XXIII ou com curadoria XXIII. Na editora, gostamos de alimentar a cena club com compilações e EPs que se encaixem em vários cenários musicais possíveis.

Há planos para a editora (e não só) que possam desvendar?
Sim. Vamos lançar 2 EPs nos próximos meses. E acreditamos que mais para o fim do ano haja uma boa surpresa que não queremos desvendar já.

Fotografias por Pedro Mkk (cedidas pela XXIII)

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