AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

Uma rave a céu aberto chamada Neopop

18 Agosto, 2022 - 12:17

A 15ª edição de Neopop já vai lá atrás, mas ainda queremos recordar a festa que tomou conta de Viana do Castelo. Daniel Duque fala sobre o que viu e ouviu por lá.

Já se chamou Anti-Pop. Já teve só um palco. Já foi muito menos procurado do que é hoje. Mas foram esses e outros passos que levaram o Neopop até à festa que é: música até às tantas, milhares de óculos de sol postos e muita dança a unir todos aqueles que ajudam a enriquecer Viana do Castelo durante as quatro noites de festa.

2022 marcou a 15ª edição do festival e o regresso deste ao Forte de Santiago da Barra, cerca de três anos após a última rave que acontece durante as populares Festas d’Agonia. E rapidamente fomos absorvidos por aquilo que se vive por lá.

Tudo começou na quarta-feira, naquela que é a noite mais curta do festival. Com início às 17 e encerramento às 4h, o dia de abertura serviu de aperitivo e contou logo com nomes como Serginho b2b Zé Salvador, Mogwaa (live), Francisca Urbano, Diana Oliveira ou Pixel82 a apresentar, em formato live, o álbum “Infinity”.

A vida laboral só permitiu que chegássemos ao Forte de Santiago da Barra pelas 22h30, já Salbany tinha começado a tocar. Para quem conheceu agora ou para quem repetiu esta dose de techno vigoroso a correr à volta dos 140 BPMs, pôde perceber que estamos diante uma das maiores jovens promessas do país. Depois deste live act talvez se tenha tornado ainda mais certeza – nós só ouvimos 30 minutos – mas a energia que este jovem imprime, seja nos ritmos ou em qualquer pormenor, é simplesmente imperdível. E ainda mais num palco como o Anti Stage.

Daí, fizemos o esforço para sair daquela pista que emanava efusividade para rumar ao concerto de Cobblestone Jazz. Já com meia hora perdida, chegámos ao Neo Stage e deparamo-nos com um palco grande (como habitual) e com ecrãs e visuais dignos daquele espaço e da Dub Lab, que está também por trás dos efeitos no Anti Stage.

Nessa primeira noite, nesse palco, o som parecia um bocadinho alto, mas nada que o trio de Mathew Jonson, Danuel Tate e Tyger Dhula não fizesse esquecer com a típica música eletrónica que bebe de fontes como jazz e muitas outras. Munida de teclas, módulos ou drum machines e por entre momentos mais de breaks, mais ácidos ou até mais techno, a banda assinou um dos grandes momentos do festival e até ofereceu uma lindíssima cover de The Bells, de Jeff Mills. Será que podemos ouvir novamente, por favor?

Antes de voltar a casa para descansar para mais um dia de semana, ainda fomos ouvir Paul Ritch a assombrar o Anti Stage com um trabalho brutal de modulação e de criação techno, bem como alguns minutos de Peggy Gou no palco principal. Quando chegámos ao Neo Stage, a sul-coreana estava a tocar I Go, tema muito querido pelos presentes, que não hesitaram em levantar braços e telemóveis para exclamar bem alto o quanto queriam ouvir esta DJ. Para nós, o cansaço estava a apertar e demos a noite por terminada.

Trabalhar durante um festival nunca é fácil, muito menos quando isso significa que vamos perder atos como Tiago Marques, Tendency b2b DJ Lynce e Violet b2b Photonz. Apesar de ficarmos tristes por isso, uma troca de horários significou que chegámos ao recinto para ouvir Honey Dijon, isto pelas 22h. Como habitual nesta DJ, houve espaço para clássicos (My House, por exemplo) e para temas mais recentes, tudo numa receita que foi agarrando os presentes. Destaque para Break My Soul, de Beyoncé, possivelmente o remix da própria Dijon, que uniu ainda mais a dança que se vivia ali.

Ainda no Neo Stage, houve espaço para ouvirmos Rui Vargas, português que merece um PA destes para nos presentear com os discos e faixas intemporais – e minuciosamente selecionados – que põem qualquer um em êxtase. Autêntico mestre.

Na quinta-feira terminamos a noite com a rapidez e dureza de Amelie Lens, fenómeno que fez encher o Neo Stage como não se havia visto até então. Perdemos atos como Nina Kraviz, Zadig ou Peter van Hoesen, sim, mas ouvimos os grandes momentos de Leon Vynehall e Hessle Audio no Anti Stage. O primeiro misturou faixas como Milkshake, de Kelis, ou a sua própria Endless (I), enquanto o trio andou por temas como Bby, de Overmono, ou Fuzzy Logic, de Pangaea. Puro fogo britânico e dois claros destaques daquilo que pudemos ouvir.

Chegados a sexta-feira, para nós a noite começou no Neo Stage com alguns minutos de Solomun, que estava a agarrar ouvintes com vocais de Looking at Your Pager, de KH, em diferentes faixas, e depois com Anfisa Letyago, mais contundente e techno. Mas o que se viria a passar no Anti Stage foi inesquecível.

Sim, perdemos atos como Paula Temple, Richie Hawtin ou 999999999, mas apanhámos uma sequência cuidada e possivelmente a mais excitante do festival. Depois de Vil, sobre quem falamos abaixo, Adiel e Héctor Oaks foram irrepreensíveis – a primeira estava a girar vinis hipnóticos e espaçosos que não deixavam ninguém arredar pé, o segundo a rebentar o Anti Stage com faixas como Take a Shot, de Richard Bartz & DJ Hell. Uma lição de techno em vinil que não permitia que sequer fôssemos espreitar o outro palco.

Dax J terminaria a noite com uma outra lição, esta de técnica e de baile techno fervoroso e rápido, mas é importante notar o brilhante momento de Vil pela 1h. O português levou um momento especial até Viana do Castelo: autêntico “groove dealer”, este DJ tomou todos de assalto com faixas gordas (Papabinghi, de Cravo, ou a original 50 Shades Of Grain) às quais foi adicionando pedaços de temas conhecidos (Show Me Love ou Rose Rouge) para nos levar ainda mais ao delírio.

Também ele bem ágil, é difícil não olhar para Vil como responsável por um dos grandes sets deste Neopop. Mas um dos pormenores que mais chamou a atenção nessa noite de sexta-feira foi o facto de mais de 10 mil pessoas se terem juntado à festa. Os presentes eram tantos que se quebrou o recorde de público do festival.

Essa penúltima noite foi tão dura e intensa que terá sido uma das razões para a adesão no sábado não ter sido tão grande. Mas nem por isso foi um dia inferior.

Para nós também foi difícil ganhar forças para ir até ao Forte de Santiago da Barra, mas saber que 2Jack4U estavam a estrear-se no Neo Stage foi motivo suficiente para ter aquele boost extra. O casal de Cascais levou-nos por uma lindíssima viagem acid, composta a partir de máquinas como uma TR-909 ou uma Space Echo, e muito estimulada pelo som e pelos visuais daquele palco. A energia não se sentia apenas no público, aliás: para André e Rubina, o momento foi tão excitante quanto para nós, e isso notava-se no vigor com que se mexiam naquela nave espacial.

Por entre nomes como The Blessed Madonna e Anastasia Kristensen, o Neopop Soundsystem ficou encarregue do horário de Jeff Mills, que não pôde viajar a tempo da atuação no Neo Stage. Esse soundsystem, formado por nomes como Diana Oliveira, Frank Maurel, Gusta-vo ou Rui Vargas, passou faixas durante 2h30 e ainda fez uma homenagem a Magazino. O falecido DJ português foi presença assídua em todas as edições do festival e até nesta se fez a sentir a sua presença. Conseguimos apenas imaginar as emoções naquela cabine.

Pelo meio, em formato live, a dupla alemã FJAAK voltou ao Anti Stage para assinar uma hora com vários temas originais (Don’t Leave Me, Keep the Funk) que fez encher o público até à régie. A euforia era muita, mas foi difícil ficar lá pelo meio durante muito tempo, especialmente devido à poeira que se sente naquele palco.

Seguiram-se nomes como Josh Wink, que começou por usar a voz de Are You There? para envolver os ouvintes e que passou por temas como I Feel Love e Blackwater para êxtase total, e Dr. Rubinstein, cujo acid provido por vinis foi estonteante.

Também houve Loco Dice, mas o regresso de Lewis Fautzi aos palcos foi particularmente especial. O rei de Barcelos tocou no habitual Anti Stage, onde muitas camisolas (do Óquei Clube de Barcelos, por exemplo) tinham o nome do português inscrito. A vontade de o público ver este nome era clara e Fautzi não decepcionou: a passar por faixas como um dos novos remixes de Rip The Cut, de Planetary Assault Systems, sempre a segurar o público com alta densidade, a festa e os berros foram de arromba e fica o claro desejo de uma rápida recuperação. Este monstro merece tantos palcos quanto possível.

Em estreia no Anti Stage, devido à troca de horários, Jeff Mills foi assombroso. O feiticeiro de Detroit, com a TR-909 dos 2Jack4U a auxiliar o set, foi bem mental, embalando tudo e todos de forma densa e tensa, criando sempre tempo e espaço para momentos mais exultantes. Num dos melhores momentos do festival, Mills não esqueceu a The Bells, na qual a alegria de todos foi evidente e na qual, mais uma vez, este mago mostrou como domina a 909. Inesquecível.

Novamente responsável por um encerramento no Neopop, desta vez no último dia, Ricardo Villalobos entrou em palco com uma longa faixa minimal antes de ir guiando o público numa viagem ideal para o sol abrasador. Não havia muita gente, o que não é normal para um Grand Finale, e eventualmente acabamos por ir até Daria Kolosova no Anti Stage. A ucraniana encheu e levou esse palco ao delírio com faixas como The Reese, dos portugueses Vil e Cravo, ou In My Mind, de Antiloop, tudo envolvido numa destruição sónica que pareceu mais procurada do que Villalobos.

Há espaço para melhorar: poeira no Anti Stage é um problema, a única música fora do recinto foi no Neocamping e a maioria dos portugueses tocou no início dos dias. Mas a verdade é que estas queixas são viradas para o perfeccionismo e o festival serve o seu propósito com muita fluidez.

Esta 15ª edição voltou a mostrar-nos (e a Viana do Castelo) que esta rave a céu aberto tem tudo para servir aqueles que procuram este tipo de festividade. A música é a matéria-prima do festival, mas as gentes que vibram e dançam naquele recinto também. E se assim continuar a ser, havemos de ir a Viana todos os anos.

Fotografias cedidas pela organização, que contou com os olhares de Framekillah, Neia, Marta Santos e Filipa Aurélia

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