AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

Basilar: techno sério imergido em sorrisos de amor e união

16 Setembro, 2022 - 15:48

De mente posta na primeira edição de Basilar, em Montalegre.

Cara cerrada, olhos fechados, pés a bater forte no chão. Muitas vezes é este o cenário em festivais ou clubes de música techno e, em parte, foi isso que se viu e sentiu em Montalegre, na primeira edição do festival Basilar. Mas o que houve mesmo foi sorrisos, dança livre e música boa.

Chegar ao recinto deste novo festival, na Barragem dos Pisões, é chegar a uma pista rodeada por natureza. O castanho do solo, o verde das árvores ou o azul da água servem de refúgio para nos escondermos da vida lá fora. Ali, vivemos aquilo que se espera de um festival: união sem igual, sentida apenas pelos presentes que tantas dificuldades têm em descrever aquele mundo utópico.

Bem composto por portugueses e estrangeiros que procuram techno sério, daquele que foge às modas, o Basilar ficou também marcado pelo sol, pelas sombras, pelos espaços para sentar, pela dança. Mas tudo isso foi apenas acompanhamento para o ponto-forte deste festival: a música cuidada e selecionada a dedo.

Tudo começou numa quinta-feira, numa noite exclusiva para portadores de passes. Infelizmente não conseguimos estar presentes nesse dia, dadas as obrigações profissionais, mas ouvimos rasgados elogios sobre as atuações de Amulador, Morsil, VHS (em formato live), Vil b2b Cravo e The Lady Machine.

Para nós, tudo começou bem tarde, pelas 1h30 da noite de sexta-feira, isto após o arranque feito por Tauer em b2b com Esoteric, dois dos mentores do festival. Tivemos oportunidade de ouvir alguns minutos do live act do espanhol Leiras, que estava a marcar o passo de dança com beats duros e envolventes, e as 2h30m de Dasha Rush. A russa marca-nos sempre e, neste caso, não foi diferente: densidade garantida, numa progressão minuciosa que nos ia deixando de coração nas mãos.

Seguiu-se SYNC., dupla de Atom™ e Peter Van Hoesen que incendeia pistas com atuações ao vivo repletas de improviso. Em Montalegre não foi exceção. Imagine-se só estes dois monstros a manusearem maquinaria durante três horas, quais funcionários industriais, para criarem uma história que passou por momentos mentais, espaciais ou até acid a certa altura. O tempo permitiu explorar, o público agradeceu e abraçou o som daquele sistema VOID. Se magia existe, ouviu-se ali.

Fadi Mohem é o novo residente do Berghain e em Montalegre veio mostrar o porquê ao ficar encarregue da última atuação da noite, às 7h30. Admito que me deixei levar pelos galopes techno do alemão e não tirei notas. Lembro-me que o sol já tinha tomado conta da pista, que respirava uma harmonia sem igual, e que o DJ estava a servir o pequeno-almoço da melhor forma. Se não me engano, pelo fim ainda houve tempo para uma ou outra faixa mais virada para disco, uma autêntica cereja no topo do bolo para uma das grandes noites techno que este verão viu no circuito de festivais.

O que viria no sábado não era para todos: uma maratona de 24 horas. Com a noite anterior nas costas, precisávamos de recuperar energias e só regressamos ao recinto às 4h para ouvir Psyk, já Unkle Fon e Nørbak b2b Temudo tinham tocado. Pena nossa, mas ainda havia muito pela frente.

O patrão da Non Series é um autêntico senhor na cabine, tanto que assinou um dos momentos que ainda não nos saiu da cabeça. Mestre do hipnotismo, Psyk ofereceu 2h30m do melhor que o techno mental pode oferecer. E não falamos apenas da seleção: essa é importante, sim, mas o cuidado detalhado deste DJ no serviço de mistura tornou a viagem ainda mais especial. Fechávamos os olhos e estávamos num qualquer outro mundo. Um set bem especial e ao qual gostaríamos de regressar, diga-se.

Às 6h30, hora de Montero. Já tínhamos ouvido falar muito bem do DJ espanhol, mas só agora tivemos oportunidade de o ouvir ao vivo. E é verdade tudo que dizem: o curador do Basilar é uma máquina absoluta na cabine, com dedos bem cuidadosos e atentos. Muitas vezes de olhos postos no público, como se controlasse todo e qualquer passo diante si, Montero virou cabeças do avesso ao entrelaçá-las em techno conspícuo e viciante, como é caso do famoso remix de Steve Rachmad a Work, de James Ruskin. A clássica I’m Lonely, de Hollis P Monroe, foi uma das últimas faixas do espanhol e fez vibrar ainda mais aquela pista. Fogo até mais não.

O cansaço estava a apertar e infelizmente não conseguimos ouvir Shinedoe com muita atenção. O recinto era servido de sombras e de um espaço vasto para relaxar e foi precisamente isso que fizemos. Ainda reparámos na holandesa a agarrar em breaks ou em techno contundente para pôr a pista em êxtase, mas precisávamos de recuperar energias.

Bendita a hora em que o fizemos, aliás. Foi o suficiente para termos pernas para Enkō, o português que foi fortemente elogiado pela densidade e pelo groove que imprimiu no seu set, que aconteceu entre as 12 e as 14h. É difícil não olhar para este momento como um dos grandes destaques do festival: com música, ritmos e fluidez adequados à hora e ao calor, Enkō foi irrepreensível e ainda fechou a atuação com uma das faixas mais bonitas que se ouviu em Montalegre: Summer Dreams, de ogtrues, cujos os acordes ainda estão bem presentes nos recantos dos nossos cérebros.

Em b2b, Don Williams e Rifts foram os próximos nomes a subirem ao palco – bem bonito, diga-se – e continuaram a manter a estética adequada à luz do dia. Fuzzy Logic, de Pangaea, foi um dos temas que foi abrindo caminho para Deniro, a máquina holandesa que toca de forma exemplar (como comprovou em Montalegre) e que não deixou ninguém sair do recinto até à hora do set de encerramento.

Freddy K é um senhor a fechar pistas. Sem muitos adornos, o italiano só precisa de duas turntables para levar todos ao êxtase, mesmo que os presentes já levassem horas e horas nas pernas. No Basilar, foi arrepiante. Fosse através de faixas como 1984, de Sev Dah, ou You Should Go Out Of My Space, de Not a Headliner, Freddy K, já com a noite posta, não cessou em passar discos rápidos até à hora marcada.

Muitas palmas, muitos gritos, parecia que tudo tinha chegado ao fim. A organização ainda puxou pelo italiano, no entanto, e este pôs a agulha num disco ainda mais rápido do que se havia ouvido até então: receita ideal para o deslumbramento das pernas e ouvidos dos presentes, que iam também sendo acompanhados pelas luzes de Ivo Vieira.

A música voltou a parar e, aí sim, todos achavam que não iria haver mais festa. A questão é que Montero se juntou às turntables de Freddy K e os dois ainda fizeram um curto b2b antes de tudo terminar. Sorte a nossa, que pudemos ser possuídos por esse encanto único.

Há aspetos menos bons a notar, é verdade, apesar de termos ficado completamente apaixonados pelo Basilar. Alguns acessos para e no recinto não eram muito aconselháveis (especialmente para pessoas de mobilidade reduzida), por exemplo, e esperava-se pelo menos mais um posto de água. Ainda assim, foi a primeira edição e a organização estará a par do que tem de melhorar.

Em boa verdade, o Basilar foi um dos melhores festivais que poderíamos ter pedido este verão. Não estivemos na aula de yoga nem na conversa promovida pela SEEDJ, mas vivemos tudo o resto. A música foi cuidadosamente selecionada, as pessoas viveram uma verdadeira rave de libertação, na pista o som estava no ponto, o espaço era confortável e tinha muitos sítios para sentar ou para fugir do sol, entre tantos outros pormenores que nos fizeram apaixonar por este evento.

Os mais próximos têm dito que a organização teve um desafio hercúleo para pôr esta edição de pé. Só podemos imaginar, então, como será em 2023, caso o Basilar confirme um regresso com mais força a Montalegre. Até lá, vamos continuar a sonhar com aquele mundo utópico que vive de ravers e música. E do qual já temos saudades.

Fotografias captadas por Oriol Reverter (@yuri__yf) e cedidas pela organização

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