AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

Um Vale Perdido que nos voltou a mostrar o caminho para a felicidade

18 Dezembro, 2025 - 15:22

Jomi voltou ao Vale Perdido para nos contar o que se viveu no festival itinerante lisboeta.

Depois de duas edições que nos presentearam com alguns dos nossos momentos favoritos de música ao vivo nos últimos anos, iniciámos a nossa jornada até este Vale Perdido com expectativas contraditórias.

Por um lado, as memórias inapagáveis da visita ao Centro Ismaili, em 2024, ou do encerramento em 2023, com um dos melhores sets de clubbing que ouvimos no pós-covid, pelas mãos de Violet. Por outro, o quase unânime louvor ao concerto de abertura de Bonnie Prince Billy, o qual saltámos por motivos pessoais, mas que ajudou a reforçar a ideia de que este festival não tem por hábito errar. Ainda assim, este era também, opinião pessoal, o cartaz menos ambicioso e, por consequência, menos interessante das três edições.

Fazemos este prefácio porque acreditamos vivamente que não só o sonho, mas também as expectativas, comandam a vida. E se nos próximos parágrafos há um objectivo claro de trazer uma reportagem fiel do que fomos vendo e sentindo neste festival, este é um relato pessoal e conta com uma subjectividade intrínseca a essas expectativas. Adiante.

Estamos de volta à Igreja St. George para começar a nossa viagem por este Vale Perdido, lugar que já é de culto no tecido cultural da cidade, mas que curiosamente ainda não tínhamos visitado no contexto deste certame.

Numa das primeiras noites de Outono mais ríspido na cidade, foi com muito gosto que fomos recebidos por Arianna Casellas y Kauê, enquanto ambos atravessavam os corredores da igreja e começavam o seu concerto em formato acústico, íntimo e caloroso, ambiente perfeito para contrastar com o que se vivia lá fora e premonição para o resto do festival.

Entre músicas novas e outras já editadas, houve espaço para muitos dos “cantares inventados por nós”, como Arianna lhes chamou. A luz quente que iluminava a igreja foi o casamento perfeito com a música da banda e as muitas histórias contadas pela artista luso-venezuelana, que aqueceram os corações de todos os que se mantiveram na sala até ao fim. Uma atuação emocionante que, na nossa opinião, pecou apenas por ser demasiado longa.

Em contraste absoluto com o que acabávamos de ouvir, Heinali & Andriana-Yaroslava Saienko fechavam a noite com a apresentação de “Hildegard”, interpretação do duo ucraniano da música de Hildegard von Bingen e que resultou num disco aclamado pela crítica e que já marcou presença em festivais como Semibreve e, entretanto, em muitos tops de 2025 (Pitchfork ou Crack Magazine, por exemplo).

Fieis à edição em disco, a primeira peça começa com um tom angelical, com a voz leve e aguda de Andriana a ecoar pela igreja ao mesmo tempo que uma luz azul e muito fumo invadem o espaço. Com a progressão da música, os synths de Heinali ganham destaque, o fumo vai desvanecendo com o crescendo sonoro e o processo termina com vários minutos de um drone inescapável. Para conforto de uns e desconforto de outros, sentia-se o reverb em toda a igreja. Para nós, um dos momentos do ano e, se tivesse terminado ali, já estávamos satisfeitos.

Felizmente, havia mais. A segunda peça, novamente fiel ao disco, contrasta nas texturas, tanto da voz de Andriana com nos synths de Heinali, ainda que a estrutura se mantenha semelhante. Mais variedade sónica, somos agora transportados para um ambiente de música medieval ou até clerical. No final, terceira e última peça, bonus track do disco, dá-nos o maior momento de união entre voz e máquinas, para um desfecho apoteótico. Bonito, irreverente e a encaixar na perfeição neste palco singular.

Para quinta-feira, estavam reservados dois eventos e, para nós, as maiores atrações do festival. Mais uma vez, era proposta a travessia entre o B.leza e a Sala LISA, jornada curta mas ambiciosa com o tempo de chuva que se continuava a sentir na cidade. Felizmente, as propostas musicais eram de alto nível.

A abrir a noite numa das salas mais icónicas do Cais de Sodré, Inês Tartaruga Água (na fotografia de capa) apresentou uma performance a solo das mais interessantes que vimos da sua autoria. Apenas com dois tubos nas mãos, a artista manipulou através do movimento uma performance sonora que, no mínimo, nos despertou muita curiosidade. E isso, por si só, merece o nosso apreço.

Logo de seguida, Joanne Robertson subia ao palco do B.leza para um regresso muito aguardado aos palcos portugueses. Embora por vezes mais conhecida pelo seu trabalho ao lado do icónico Dean Blunt, a artista escocesa tem já uma discografia invejável e o seu novo “Blurrr” era mais um dos melhores discos do ano a marcar presença no Vale Perdido.

Entre um aparente nervosismo e alguns problemas técnicos com os seus pedais, fundamentais para o som hipnotizante da sua guitarra, Robertson foi saltando de canção em canção enquanto dialogava com o público com a leveza de quem estava entre amigues. E de facto, assim era, a julgar pela recepção calorosa às novas Ghost e Why Me ou a Blue Car, maior êxito da sua discografia. A abertura para discos pedidos, certamente, ajudou.

Para nós, esta actuação gerou sentimentos difíceis de digerir. Entre as longas pausas e canções que simplesmente não tiveram o mesmo impacto ao vivo que em disco, a artista esteve longe do nível que esperávamos. Ainda assim, a memória mais importante que levamos do concerto é a confirmação de que Joanne Robertson é mesmo uma artista singular, com uma voz e forma de cantar inconfundíveis.

Numa viragem completa de ambiente, chegámos à Sala LISA já com Ancient Indigenous Africans em palco. Projecto oriundo da Tanzânia, juntou a artista Mutamassik ao cantor Lenga Loita, membro da tribo Maasai e apresentado pela sua parceira musical como um guerreiro e símbolo de resistência e esperança no mundo.

Com um setup muito interessante composto por pratos, CDJ e o que nos pareceu ser uma pequena drum machine, Mutamassik recorreu ao dub, à percussão e aos graves como pano de fundo para a voz de Loita nos transportar num ritual sónico pelos sons do norte de áfrica.

A sintonia entre esta dupla era inegável e houve, também por isso, espaço para tudo. Desde as técnicas de turntablism de Mutamassik ao momento em que saltou para a pista com uma inusitada pandeireta, a versatilidade da performance não nos deu um momento de aborrecimento. Pelo meio, palavras importantes e uma reflexão sobre o que a levou a criar este projecto e trazer Lenga Loita até à Europa: “se há pessoas que têm mais força para ajudar, para encorajar e motivar, então é isso que têm de fazer. É essa a tradição dos guerreiros indígenas, é sobre isso que são as suas músicas (…) o mundo está louco, mas não podemos dizer que isto é o pior que já vivemos (…) cada um de nós é fundamental neste processo e até a mais ínfima demonstração de coragem é indispensável”.

No final, houve espaço para um momento deliberadamente clubbing, numa espécie de celebração desta viagem sonora da qual Ancient Indigenous Africans nos deram o privilégio de fazer parte. Não ficámos indiferentes.

A fechar a noite, Van Der levou as suas máquinas até à LISA para um live de techno que aguardávamos com alta expectativa. Melómano de excelência e peça indispensável da cena clubbing lisboeta como artista e programador, tinha já em abril sido responsável por um dos nossos lives favoritos do ano, no Festival Cometa, no Planeta Manas.

Numa sala agora já mais vazia, culpa certamente do tempo que se fazia sentir e de sexta-feira ser, para muitos, dia de trabalho, quem ficou para o fim não se terá arrependido. Apenas problemas técnicos o impediram de voar mais alto, mas, do início ao fim, não houve na pista quem parasse de dançar. Agora a editar os primeiros trabalhos como produtor, é obrigatório ficar de olho no nome de Van Der.

A terminar esta edição do festival, regresso ao Cosmos, espaço onde já tínhamos sido felizes no festival em 2024 (e tantas outras noites nos últimos anos). Num formato semelhante, com direito a jantar assinado pela Associação Africandé, depois do sucesso do Batxi Kó o ano passado, desta vez era o Badju di Tina, original da Guiné-Bissau, a prometer mais uma noite quente.

Antes disso, no entanto, foi a electrónica experimental de Benjamim Furtado a guiar-nos no concerto mais surpreendente deste festival. Com um setup simples, composto apenas pelo seu computador e uma harmónica, o músico lisboeta levou-nos numa jornada de música tranquila, a contrastar mais uma vez com a tempestade vivida lá fora.

Os samples de fundo serviram como pano a uma narrativa contada através das letras (histórias? versos?) lidas do telemóvel sobre uma casa em obras, um colega de casa viciado em podcasts e outras minuciosidades do quotidiano. Zeitgeist de uma esfera lisboeta, certamente. No caminho, espaço de destaque para a belíssima música, não só dos samples como da harmónica. Ficámos fãs.

Foi já com o ginásio do Cosmos quase lotado que começou a actuação do conjunto responsável por nos apresentar o Badju di Tina. Festa rija desde o primeiro minuto, com os sons tradicionais do Bambaram e Kimbum a exaltarem as vozes e danças do resto do grupo. Ritmos quentes, intencionais e a Tina, ou Tambor D’água, a comandar a festa. Pelo meio, houve tempo para partilha de histórias sobre a formação deste grupo na grande Lisboa e uma aparição de Lenga Loita na pista, o guerreiro de Ancient Indigenous Africans, momento que terá deixado um calor no coração de todos os que tinham estado na Sala LISA dois dias antes.

A terminar, Dj Caring volta ao seu papel de residente do festival. Numa sala que não é a maior amiga do clubbing e num horário de refeição que normalmente suscita outro tipo de música, a DJ sedeada em Lisboa teve a ousadia de pôr o Cosmos a dançar, com um set versátil, mas sempre com muita energia. Só temos pena de não o ter escutado numa pista à altura e, talvez, num horário diferente.

Terminado o festival, hora de reflexão. Ou horas, que entretanto já se passaram muitas. Voltamos então ao prefácio deste texto, sobre as expectativas. Tivéssemos ido para o Vale Perdido de 2025 com as expectativas de 2024 e, provavelmente, teríamos saído defraudados. Mesmo os pontos altos do festival, como a noite na sala LISA ou o concerto de Heinali & Andriana-Yaroslava Saienko, não atingiram no nosso coração o mesmo lugar de momentos como os que mencionámos no início da reportagem.

A ausência de uma venue totalmente fora do circuito habitual da cidade ou uma noite puramente de clubbing, algo que tanta falta faz no contexto actual, também eram handicaps para nós, à partida, difíceis de ultrapassar.

E, no entanto, aqui estamos. Mais um Vale Perdido onde fomos felizes, praticamente do início ao fim. De regressos muito aguardados a actuações inéditas, sem esquecer a música portuguesa, incluindo aquela que é feita às margens do centro da cidade, mas indispensável ao seu pulsar cultura, não faltou nada à proposta do festival. E o público geral, que esgotou três das cinco sessões, parece concordar.

Não sabemos o que o futuro reserva ao Vale Perdido, mas enquanto mantiver a sua identidade e ambição de trazer algo novo a esta Lisboa, será sempre bem-vindo à cidade.

Fotografias por Vera Marmelo

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