AUTOR

Daniel Duque

CATEGORIA
Reportagem

Semibreve: festival de encontro e descoberta onde queremos voltar sempre

5 Novembro, 2024 - 17:08

14ª edição do festival que todos os anos leva música eletrónica e arte digital até Braga.

Saímos enriquecidos de cada edição de Semibreve. Que o diga o vasto público português e estrangeiro que passa por lá. E mesmo que haja momentos que possam ficar aquém das expectativas, como muitos comentaram ao longo do festival, ou pormenores que talvez gostássemos de ver ou ouvir de outra forma, no final resta sempre a certeza. É um lugar de partilha que queremos sempre revisitar e que nos eleva enquanto ouvintes, artistas, pessoas.

Este ano, como habitual, o concerto de abertura aconteceu na Basílica do Bom Jesus do Monte. Desde logo, a experiência de começar a jornada do festival neste local é já de si enriquecedora. Com a música, ainda melhor. Circundada por luzes de tons roxos e pelo deslumbrante santuário, Kalia Vandever. Nome forte do jazz norte-americano, a vencedora de Grammy baseada em Brooklyn apresentou o primeiro álbum a solo, “We Feel In Turn”. Composições assentes no trombone, com drones e loops, e alguma voz que exploravam memórias, nostalgia e sentimentos, nas palavras da própria durante o concerto, destacando pelo caminho a importância da herança havaiana e criando uma atmosfera meditativa e introspetiva que preenchia o espaço de forma especial. Belo momento.

O Semibreve dedica-se também à arte digital e expande-se para além da música. Um dos oito espaços onde diferentes atividades tiveram lugar, como instalações e workshops, a Casa Rolão acolheu duas peças sonoras em permanência: “The Stone Tape”, de Jim O’Rourke, e “Malört”, de Keith Fullerton Whitman, ambas encomendadas pelo festival para a edição atípica de 2020.

Na sexta-feira, a restante programação do festival arrancou às 17h30 com a conversa “Migrant Music”, protagonizada por Mohammad Mehrabani-Yeganeh, metade dos Saint Abdullah, e Saya, com moderação por Claire Biddles. Aconteceu no Museu Nogueira da Silva, por onde passaria um workshop de Christina Vantzou e uma palestra de Margarida Mendes no sábado. Nesse penúltimo dia, Kalia Vandever conduziria ainda um workshop no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga.

Para nós, sexta só começou no Theatro Circo, com “Białowieża”, encomenda do movimento TIMES assinada por Chris Watson e Izabela Dłużyk. Watson, lenda inglesa e membro-fundador dos Cabaret Voltaire, é muito reconhecido pelo trabalho em field recordings, incluindo para documentários de David Attenborough. Já Dłużyk, polaca e cega de nascença, dedica-se à gravação da natureza desde os 12 anos e é perita em sons de aves.

Assim, sem sair do lugar no teatro centenário, viajamos até a floresta Białowieża, localizada na fronteira entre Polónia e Bielorrússia. Esta é histórica por diversos motivos, mas, no âmbito do TIMES, particularmente pela criação “The Crossing”, tinha como premissa ser um “centro de tragédia humanitária” ao servir de “passagem de refugiados do Médio Oriente e de África que tentam chegar a uma das possíveis portas de entrada na União Europeia”, lia-se na descrição escrita pela organização. Oportunidade única de vivenciar um espetáculo às escuras e em octofonia que dividiu opiniões – “deveria ter sido numa sala em permanência para quem quisesse entrar e sair” e “foi bom para meditar” foram dois dos pontos de vista que ouvimos no exterior do Theatro Circo. Além da tosse que se ia ouvindo na sala, ouviram-se muitas aves (que adoraríamos identificar), outros elementos da natureza, bisontes (esta floresta é casa para mais de 800 animais desta espécie) e zero intervenção humana. Até que abruptamente se escutam disparos. Desconcertante. Em retrospetiva, só temos pena de não ter ficado ao centro para ter a experiência completa.

No âmbito do Re-Imagine Europe, seguiu-se Christina Vantzou, de volta ao Semibreve, acompanhada pelas flautas de John Also Bennett, também ele de regresso, e pela voz de Irene Kurka. A norte-americana de descendência grega apresentou “The reintegration of the ear”, trabalho baseado nas captações de natureza que fez durante a passagem por Braga na edição de 2021 e noutras gravações ao longo do Mediterrâneo. A união de todos os elementos evocava uma espécie de dualidade. Se por um lado encontrávamos serenidade, por outro éramos remetidos para a fragilidade provocada pelo humano. Concerto etéreo, calmo, a plantar esperança no meio do caos e ruína que atravessamos. Resiliência. Pulsar da vida. Uma pausa coletiva e contemplativa, à imagem do momento que antecedera este trio.

No Theatro Circo, como de costume, estava exposta a instalação vencedora do prémio Edigma, que em 2024 foi “Chasing Waterfalls – Hidden Edges”, de Myriam Bleau e Lucas Paris. Depois, as noites terminam sempre pelas 3h no gnration, espaço bracarense impressionante que alberga ainda várias instalações do Edigma Semibreve Scholar, desta feita com trabalhos de Eva Barbosa, Jéssica Pereira Gaspar, Tobias Gaede e Susana Brochado & Ana Medeiros. Nota positiva para o facto de haver duas pistas nesta edição, contornando e eliminando filas chatas que impediram maior à vontade no ano passado.

Ainda assim, na sala multiusos, o som não convenceu. Sendo uma pista para dançar, a iluminação também não. Foi pena pois acabamos por não dar a merecida atenção a Nídia, que, do que ouvimos, passou por faixas de DJ Danifox, DJ Lycox, RS Produções ou Baile de Favela, de MC João. Na blackbox tocava PYUR, ato muito elogiado que perdemos. A alemã foi até um dos destaques deste ano da publicação The Quietus.

Para fechar a noite, Rrose, um dos nomes mais notáveis deste Semibreve – e até em todo o techno que ouvimos este ano. Melhor ainda, ao contrário do que estava previsto, em formato live. Não conseguimos identificar exatamente o setup, mas seria um controlador acompanhado por mixer e Ableton Live. Duas horas de narrativa certeira para a mente. Inicialmente mais lentas e complexas, com texturas típicas de discos como “Hymn to Moisture” ou “Please Touch”, tornaram-se em techno de consumo mais fácil, digamos assim, incluindo – temos quase certeza – rasgos de Ellipses, do trabalho que lançou recentemente ao lado de Polygonia. A progressão foi notória, chegando aos 135 bpm, e foi tão bem trabalhada que, pelo meio, houve até um momento de ritmos mais quebrados, relembrando fundadores como Cybotron. Nunca deixou de nos remeter para a minuciosidade própria de Rrose ou até, para dar uma ideia, a densidade atmosférica de nomes como Psyk, tudo isto antes de abrandar e rematar com drones. Difícil esquecer.

Se havíamos ouvido música com base em trombone ou até em flautas e field recordings, no sábado à tarde começamos pelos caminhos que o autodidata Giovanni Di Domenico desbrava com piano e teclado Rhodes na estreia mundial de “Nachleben”. Música minimalista, profundamente reflexiva e emotiva, técnica e espaço envolvidos no hipnotismo suportado por efeitos vindos de pedais como Hera, da Medris, Aqueduct, da EarthQuaker Devices, ou Microcosm, da Hologram Electronics. Magia que se torna ainda mais rica ao acontecer na Capela Imaculada do Seminário Menor, na qual sobressai a arquitetura excecional, como é caso da abóbada em betão ou da pedra que a circunda, e a Senhora da Humildade sentada na primeira fila, obra do escultor norueguês Asbjörn Andersen feita aquando da reabilitação desta capela. Música e local em comunhão para nossa contemplação. Provavelmente um dos mais aplaudidos do festival.

De volta ao Theatro Circo já de noite, ouvimos Shida Shahabi a apresentar “Living Circle” ao lado de Linnea Olsson, no violoncelo, e Hampus Norén, nas eletrónicas, embora o repertório não se tenha ficado por esse disco – tocou, pelo menos, a emocionante Futō, do EP “Shifts”. Experiência cinematográfica e imersiva, refletindo a força de Shahabi como compositora de bandas-sonoras. Ao tocar piano vertical e Roland Juno-60, engradeceu aquela sala, ainda para mais com as camadas texturais do novo disco, ali pelas mãos de Olsson e Norén, ao passar por temas como Kinsei e Aestus.

Não é novidade o peso emocional que percorreu boa parte das atuações. Mas Kevin Richard Martin, aliás The Bug noutros mundos, trouxe um impacto ainda maior nesse sentido. Na estreia ao vivo de “Black”, tributo a Amy Winehouse e ao seu “Back to Black”, criou um ambiente drone, dub, shoegaze até, que nos agarrou por completo. E se este já é um projeto imbuído de melancolia e memória fúnebre, essa carga intensificou-se com a dedicatória a Dave Watts, que morrera naquele mesmo dia. Ao fechar com Rest in Peace, as cordas de guitarra – aparentemente mais nítidas e carregadas de sentimento do que no disco – acompanhadas por aquele baixo e aquela atmosfera soturna, a viverem dentro de misticismo dub, fizeram-nos ascender para um outro plano. Lento. Intenso. Destaque.

Hora de dançar no gnration. Perdemos o elogiado ato de Iceboy Violet & Nueen pois não queríamos perder Van Der. Na sala multiusos, o luso-são-tomense surpreendeu ao desviar-se das expectativas: em vez de explorações baseadas apenas em modulares, trouxe consigo Roland TR-8 para percussões e um sampler para pequenos loops. Essa escolha, segundo nos disse mais tarde, partiu do facto de se que querer alinhar com o carácter festivo e clubbing da noite. Festa techno, portanto. À volta dos 135 bpm, 4/4 para o corpo e modulações hipnóticas e intrigantes para a mente. Escolha acertada para nos revitalizar.

Na mesma sala, Saya passaria grandes faixas, mas acabamos por dar mais atenção a Ziúr na blackbox. Irreverência máxima da alemã que tem lançamentos em selos como Planet Mu, PAN e Hakuna Kulala. Sem fones e a beber vinho do início ao fim, fez da pista e dos decks o que quis. Passou de tudo. Downtempo, jungle, uma música de uma banda africana que não identificamos. Perto do início, por exemplo, estava a trashar uma espécie de metal antes de pôr o soul de Here I Am – Take Me, das The Sweet Inspirations. Cá fora, chamar-lhe-iam homóloga de DJ Marcelle nas CDJs. Usou várias vezes o microfone e no fim, antes de terminar com uma colaboração que tem com um amigo libanês (Tarek Atoui, talvez?), ainda parou tudo para uma mensagem sobre o privilégio que tínhamos em estar ali. A pista também pode e deve ser política. Mesmo quando está tomada por excessos.

Domingo arrancou com outra estreia mundial. “Music From The Living Monument”, de Carmen Villain, que parte da banda-sonora que esta compôs para “The Living Monument”, da coreógrafa húngara Eszter Salamon. Atmosfera sublime, repleta de vozes, drones e pads celestiais que criavam um ambiente por vezes assombroso, mas sempre confortável e acolhedor. Início perfeito para nos acomodarmos para o que se seguiria.

Saint Abdullah, Eomac & Rebecca Salvadori trouxeram “A Forbidden Distance”, momento que integra “The Crossing”, de que faz também parte “Białowieża”, de Chris Watson e Izabela Dłużyk. Explosão sensorial de que sentimos falta até então no Theatro Circo. No ecrã, aliás, leu-se em inglês: “um milhão de estímulos colocados sobre os teus olhos, impossíveis de compreender de uma só vez.” O espetáculo partiu de gravações feitas pela mãe de Mohammad Mehrabani-Yeganeh, único dos irmãos Saint Abdullah presente, entrelaçando filmagens do processo deste trabalho. Com base no tema da emigração – refletindo a mudança da dupla do Irão para o Canadá – houve música do disco que Eomac e Saint Abdullah partilham – pelo menos Bitch, I am Islam -, drill, temas mais rave e outros mais calmos. Houve manipulação de vídeo ao vivo pelas mãos de Salvadori, como quando abriu três diferentes players e foi jogando com o som (ora pessoas a falar, ora uma flauta a ser tocada num dos vídeos) e as imagens. Houve astúcia na abordagem do tema. Obra brilhante que adoraríamos ouvir e ver de novo. Durante tudo isto, a italo-australiana e o iraniano-canadense escreveram notas sobre o que lhes passava na cabeça durante os cerca de 50 minutos, explicou a cineasta a uma amiga desta redação. Nos momentos finais, Mohammad já só olhava para as imagens no ecrã, transparecendo a ligação pessoal e a intensidade daquilo tudo. Arrepios.

Para o encerramento, o incontornável pioneiro do dub techno Moritz von Oswald trouxe o incrível disco de 2023 “Silencio”, um dos nossos favoritos desse ano, composto com alguns sintetizadores clássicos que não viajaram até Braga. Como se isso não fosse já motivo suficiente para nosso deleite, o alemão estreou a Basílica dos Congregados, novo local do roteiro em plena Avenida Central, e esteve acompanhado por 16 vozes (como acontece no álbum) do Coro de Câmara da Universidade do Minho, comandadas pelo maestro André Carvalho. O início fez-se com o tema homónimo durante cerca de 10 minutos, com aquela melodia a flutuar pela sala e a juntar-se eventualmente aos graves pulsantes. Calma. Repetição. Só depois é que entrou o coro a reverberar de forma impressionante aquele local sacro, onde cada pormenor se tornava ainda mais profundo. Sobrenatural até. Parece um disco feito para aquele lugar. Apesar do corpo debilitado – pareceu usar apenas um dos braços durante toda a atuação – von Oswald queria estar ali, como se notava nos sorrisos pontuais que dirigia ao público, ao coro ou ao maestro. Laivos dub emergiam e a densidade de Luminoso começava a antever o final. Aura cada vez mais intensa e emotiva. Transcendência. Nos fortes aplausos, pelo menos duas pessoas a chorar nas filas da frente – e possivelmente noutros lugares daquela basílica repleta de gente atenta aos dois maestros. Que honra. Que prazer.

No Semibreve, é comum que muitos dos presentes não conheçam boa parte dos nomes. É um festival onde podemos conhecer novos artistas ou diferentes explorações de eletrónica. Certo é que sentimos falta de alguns atos mais abrasivos ou até atuações acompanhadas por imagem, particularmente no Theatro Circo, como aconteceu em anos anteriores. Olhe-se para 2022, edição que contou com Alva Noto e KMRU a fazerem de nós reféns nesse espaço, ou para 2023, por exemplo, com Maya Shenfeld e Pedro Maia a serem sucedidos pelo filme “GIFT”, de Ryûsuke Hamaguchi, com banda-sonora ao vivo por Eiko Ishibashi. Apesar disso, surpresas não faltam e a aventura é sempre Braga enriquecedora.

A edição de 2025 já está marcada: 23 a 26 de outubro. Impossível falhar. Reiterando o que afirmamos no início, não temos dúvida de que este é um festival imperdível. Não é apenas pela música, pela arte ou pela descoberta em espaços sacros e únicos. É também pela afinidade que une quem sente e vive estes mundos da mesma forma. Uma celebração de gostos, valores e da experiência que é viver isso tudo em conjunto. Um encontro que carregamos connosco para além dos dias de Semibreve.

Fotografias por Adriano Ferreira Borges / SEMIBREVE 2024

relacionados

Deixa um comentário







t

o

p