AUTOR

Daniel Duque

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Reportagem

Semibreve: É sabido que esta fórmula é vencedora

6 Novembro, 2026 - 14:08

Mais um ano de Semibreve, mais um roteiro que enriquece qualquer fã de diferentes explorações na música eletrónica.

Há uma certa intelectualização que pode afastar a pessoa mais simples e pura. Radicaliza-se todo e qualquer detalhe, procura-se significado num ato tão singelo quanto sentir, aprofunda-se aquilo que poderia ficar à superfície. Sobranceria hostil que se pode encontrar numa qualquer galeria de arte ou à porta de um cinema independente. Não é o caso do Semibreve. O festival bracarense é, há 15 anos, um lugar para todas as pessoas.

Isso não significa que não exista lugar para essa intelectualização durante os dias que se passam em Braga no mês de outubro. Há, pois claro, seja através de conversas, instalações ou do mero ato de pensarmos no que vemos e ouvimos. Todas as pessoas falam sobre o que sentiram à saída de cada concerto. Mas há sempre uma simplicidade reveladora de que estamos lá para sentir, sem medo de não perceber além de óbvio. Estamos lá para escutar e deixar que esse sentido tome conta do ser, até porque, na maioria dos casos, o contexto das salas obriga a ficar imóvel e em silêncio. Talvez essa seja uma das razões por ser tão convidativo.

Este ano, na noite de quinta-feira, voltámos à Basílica dos Congregados, em plena Avenida Central, para viver o concerto de abertura sem expectativa. Desta vez, um momento surpresa antes da atuação anunciada. Sam Slater, que atuaria também no Theatro Circo no sábado, trouxe a peça “Silver Streetcar for the Orchestra” (1988), de Alvin Lucier, centrada em nada mais senão um triângulo e na sua ressonância. Como pode um instrumento tão simples mexer tanto connosco? Talvez prefiramos não intelectualizar muito e ficar só com a certeza de que qualquer meio ou objeto pode ser explorado ao ponto de deslumbrar quem ouve. 15 minutos que, olhando para trás, ainda ressoam em nós.

Enquanto “festival exploratório de música eletrónica e arte digital”, citando palavras oficiais, o Semibreve é um evento que, ao longo de quatro dias, vai mostrar-nos inúmeras formas de exploração – musicais, sim, mas não só. É que, repare-se: se começámos a jornada com um triângulo, depois seguir-se-ia o acordeão como ponto de partida.

A apresentar o álbum de estreia “Cassotto”, Suzan Peeters ocupou a Basílica dos Congregados sem esquecer a função de escuta atenta e devoção do espaço. A partir da subtileza de cada nota e cada movimento físico, mostrou até onde chega o instrumento com a ajuda de pedais e o que pareceu ser uma plataforma vibratória de fitness. Uma fórmula única e peculiar que nos podia remeter para mil e um universos sónicos, como o drone mais ou menos obscuro, com um fecho marcado por uma aparente cover de Non, je ne regrette rien, de Édith Piaf – curiosamente, há um tema no disco que se chama Edith. Mais uma vez, para quê intelectualizar? Foi tão bom sentir.

O Semibreve é um festival completo, com um itinerário que permite navegar pela cidade à medida que se vai absorvendo o novo e a descoberta por meio de, para dar alguns exemplos, instalações no gnration – assinadas pelos vencedores do Edigma Semibreve Scholar, que este ano foram nomes como Bruno Mesquita e Rita Castanheira –, uma sala de escuta octofónica no Museu Nogueira da Silva ou filmes como “Universo Circular” (2026), retrato sobre a figura brasileira Jocy de Oliveira.

Mesmo antes do arranque, um dos nomes que saltava mais à vista, senão mesmo o que saltava mais, era o de Nuno Canavarro, autor do seminal “Plux Quba” (1988) e figura incontornável da eletrónica portuguesa, para uma colaboração com Bruno Miguel Pinto (aka :PAPERCUTZ) chamada “Radiant Rift”, em estreia absoluta – o Semibreve é também um festival de muitas estreias. A surpresa foi que, já no Theatro Circo, Canavarro não surgiu em palco, um pouco à sua imagem de figura afastada.

Por entre a suavidade de João Santos no piano e teclado ou as paisagens de Bruno Miguel Pinto num Akai MPK61 ligado ao computador, duas mulheres pareciam protagonizar tudo: Frederica Campos, elogiada jovem portuense que explora a harpa e as suas possibilidades com a eletrónica; e principalmente Dullmea, por meio da sua prática de trabalho de voz mutada em tempo real por inúmeros pedais. Viagem emotiva de cerca de uma hora, esta, que nos ia remetendo para a música de Canavarro e de :PAPERCUTZ, embora a do primeiro de forma muito mais pontual. Talvez fruto da imaginação e do viés de termos os dois nomes escritos no programa. No fim, Bruno sai de cena e deixa que o trio nos embale uma última vez. Das imagens no ecrã nem nos lembramos. Para nós, a escuta continua a ser prioridade em Braga.

Vindos de um lado contemplativo e emotivo, entrámos noutro lugar de contemplação no concerto seguinte no Theatro Circo, apesar de um pouco mais lúgubre: “Flesh and Bones”, de Malcolm Pardon e Gustaf Broms. Entraram pela porta da sala adentro, cada um de um lado, a abanar chocalhos em direção ao palco. Lá chegados, Broms foi assinando uma performance repleta de objetos que remetiam para lixo, humano ou natureza; Pardon, com um setup curioso que passava por um Rhodes, o que pareceu ser um Teenage Engineering OP-1 Field, pedais e até uma CDJ, a música ambient e drone que sustentava a ideia de que parecíamos estar a falar de um qualquer fim do mundo próximo. Por entre os sons que preenchiam a sala, planos de florestas ou o corpo de Broms, a certeza de que é para momentos como este que vamos ao Semibreve – não necessariamente para este formato, mas para vermos e ouvirmos a novidade.

À sexta e ao sábado, as noites terminam no gnration, um lugar mais virado para o clubbing que, no primeiro desses casos, teve Peder Mannerfelt na sala multiusos – o sueco, que curiosamente é o par de Malcolm Pardon na dupla Roll The Dice, ia tocar em b2b com RONI, que não pôde comparecer – à mesma hora de Noémi Büchi na blackbox. Para nós, foi momento de convívio e não prestámos muita atenção. Na verdade, continuamos com a certeza de que DJ sets na sala multiusos não são convidativos.

Sobre sexta-feira no gnration, importa antes destacar System Sophie, a DJ, produtora e nome associado a live acts que rumou até Braga para mostrar de que forma “a sua música é o seu estado de espírito”. De Ableton diante si – e provavelmente um qualquer controlador – assinou uma espécie de amostra do que consegue fazer. Se o seu lado ambient parecia ser o fio condutor, a atuação começou por dar-nos um beat de hip-hop, passou por ritmos complexos que relembravam Carrier e terminou com synths que poderiam remeter para Karenn ou Blawan. Foi aproximadamente uma hora que só pecou por dois motivos: o som não fez jus à sala e o gnration acabou às 2h30. Peder Mannerfelt já tinha terminado o set e não há música pelo menos até às 3 da manhã? Como assim?

Apesar de tudo, foi a forma que acordar no sábado foi mais fácil – ou, aliás, menos penoso. Em dia de manifestações pela habitação no país, fomos espreitar um pouco a conversa de Manuel Bogalheiro e Júlia Durand, mas acabámos por ter de ir para o Conservatório de Música Calouste Gulbenkian para a segunda apresentação de “A1-0 N3”, de João Carlos Pinto, que fez questão de afirmar que, apesar da sua assinatura no programa, era um esforço coletivo do recém-criado blegh studio, o primeiro estúdio dedicado a media arts em Braga.

“A1-0 N3” é especial. O guião não nos preencheu muito, mas, ao mesmo tempo, é curioso notar que pode servir como uma história para todas as idades. Fora isso, tudo foi enriquecedor. Desde o cenário às luzes, passando pela música, a história falava-nos sobre este mundo distópico da robótica e da inteligência artificial. Spoilers à parte, é uma peça que merece atenção por todos os motivos e mais alguns, inclusive, voltando atrás, o facto de ser um esforço coletivo feito por artistas ligados a Braga, como INÊVES ou Diogo Mendes.

Daí seguimos para a Capela Imaculada da Nossa Senhora da Conceição, um dos mais belos palcos do Semibreve. Afinal, o festival também é isto: enquanto se ouve música, podemos encontrar e associar signos e sinais que nos rodeiam e completam a experiência. Nesse local, a partir de osciladores e tape recorders, Marta Salogni trouxe “a,drift”, peça drone em Lá que, desde que escutássemos, podia ser o que nós quiséssemos. Escuta, lá está ela. Tão bom.

Após pausa para descansar e jantar – viva o restaurante O Norte da China – o início da noite reservava, como habitual, dois atos no Theatro Circo. Primeiro, a música de PYUR acompanhada pelos visuais de Tarik Barri. Em “Mass Oneiria”, começámos por entrar num lado mais ambient-drone antes de chegar a uma vertente mais de deconstructed club, maximalista, até mesmo pop. A voz de PYUR ia surgindo pontualmente, talvez remetendo para um lado devocional – o disco é fruto de “recolhimento na igreja berlinense de St. Matthäus”, segundo a organização –, que era acompanhada por visuais fortes de Barri, marcados por cores várias e o que parecia ser a cara da artista aqui e ali. Infelizmente, foi um ato que não nos disse muito.

Muito mais nos disse Sam Slater, vencedor de GRAMMYs que já esteve por trás da música de filmes como “Joker”. Cheio de vigor em palco, fosse a tocar, a comandar ou a cantar, o inglês veio apresentar “Lunng”, o seu terceiro disco. Para isso, convidou, além de Lukas Fiegelfeld para os visuais e Cavid Dhen para o saxofone, dois nomes da cena nacional: a turco-portuense Ece Canlı, para trazer a sua reconhecível abordagem à voz, e Ricardo Jacinto, para pegar no violoncelo. Uma peça completa, capaz de nos levar do drone a uma intensidade e sensação metal, acompanhada por imagens de um carro envolto em fumo, luzes vermelhas ou uma estrada a arder no ecrã. Um dos grandes momentos do festival.

De regresso ao gnration para a despedida das noites no Semibreve, Dawn Dani estava a comandar a tropa bem ao seu estilo, num set que abre com uma unreleased do seu conterrâneo Du-das, fecha com Djrum (Shaking Changes) e passa por nomes como Agonis, Skeptical & dBridge, Forest on Stasys ou Sub Basics. Nunca vimos a sala multiusos tão cheia e ocupada por uma pista e, talvez, esta seja a solução. Se este palco não convida assim tanto o lado clubbing – as luzes, incluindo a do bar, parecem ser um dos principais motivos para tal – por que não pôr um artista local que chama mais claque do que um qualquer internacional? E se tiverem uma assinatura tão própria quanto Dawn Dani, melhor ainda.

À mesma hora, um grande booking na blackbox do gnration: Azu Tiwaline em formato live. Só ouvimos 10 minutos, mas que pista linda de sonoridades dub techno. Quem nos dera ter ouvido tudo, ainda para mais o som parecia estar bem, algo que não aconteceu em TYGAPAW, que tocaria ao mesmo tempo do que Flora Yin-Wong. O lado acelerado de TYGAPAW já não é muito a nossa cena, mas teríamos todo o gosto em juntar-nos à pista com fulgor se o som acompanhasse. Não sabemos bem por que razão, mas os últimos sets na blackbox do gnration deixaram a desejar nessa matéria, que é essencial para curtir numa pista. O clubbing este ano foi desilusão, verdade seja dita. E como se não bastasse, nem a mudança de hora fez com que o gnration ficasse aberto até mais tarde no sábado. Para nós, a pressa em fechar portas não faz sentido. Valha o Ramen Break, o Juno ou o Lustre para quem prioriza a vida notívaga.

Se o fim da noite desiludiu e o cansaço acumulado é cada vez maior, poder-se-ia prever a vontade de ir embora. Mas, no domingo, basta pisar o Salão Medieval da Reitoria da Universidade do Minho para termos certeza de que é ali que queremos estar. Já com toda a gente sentada e envolvida naquela arquitetura, Ricardo Jacinto chegou para nos mostrar, desta vez a solo após a atuação com Sam Slater, uma outra prática eletrónica com um instrumento neste Semibreve: o violoncelo. O diretor artístico da OSSO ocupou a sala com cada pequeno gesto, apoiado pelas eletrónicas, transformando o espaço em mais um momento drone de contemplação e de suspensão do espaço-tempo. Novamente, alguém a mostrar-nos até onde se pode chegar com um instrumento e com a escuta enquanto experiência. Nós agradecemos.

Seguir-se-ia outro dos grandes momentos do Semibreve: Qasim Naqvi e Steven Wendt a apresentarem “Howlround”. O primeiro, baterista dos Dawn of Midi, estava munido de um grande sintetizador modular – grande, mesmo – para levar uma composição calma, atempada, minimal e com apontamentos bem minuciosos, qual espaço sideral longínquo. O segundo, a deixar todes de boca aberta com um jogo feito com duas câmaras de filmar e diferentes luzes, como uma mera lanterna ou um laser verde, com as quais ia desenhando formas no ecrã através de loops loucos. Ainda hoje não entendemos bem. Sabemos, no entanto, que entramos ali num universo que não é este. É outro. E que confortável foi finalmente ter esperança no futuro.

O Semibreve sabe bem como fechar com chave de ouro. Este ano, fê-lo com Fennesz e o maestro Oscar Jockel, acompanhados pela Sinfonietta de Braga, em “Saffron on Grey”. Quando damos por nós, cordas e sopros vão chegando pelos lados da sala. Fennesz está no fundo do palco, quase invisível, com a sua guitarra e eletrónicas. Há tanto do seu detalhe aqui – vamos lembrando discos como “Cendre” (2007) enquanto ouvimos – mas cria-se algo novo com esta convergência com a música acústica, algo cinematográfico, algo profundamente humano. Teimamos em repetir: de nada adianta intelectualizar quando cada momento de silêncio nos diz tanto e nos move.

No fim, a certeza de que o Semibreve é fórmula que não engana. Gostaríamos, no entanto, de ver um pouco de mais risco e primor – no primeiro caso, não ter medo de assumir o clubbing de forma mais séria, por exemplo; no segundo, olhar para pormenores de produção que podem ficar esquecidos, coisas mínimas como ter água disponível em certos espaços do roteiro.

Mas é fórmula que não engana, aberta a todas as pessoas, a todas as formas de sentir e de pensar. Entra-se no festival devagar, ainda a tentar coordenar a excitação do lado social que se encontra fora das salas com o silêncio e quase imobilidade que se exige dentro delas, e sai-se a querer mais e mais. Que todos os festivais nos ajudassem a conhecer tantos mundos e pares quanto o Semibreve.

Fotografias por Adriano Ferreira Borges / SEMIBREVE

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