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10 nomes para manter debaixo de olho este ano – e nos próximos

24 Fevereiro, 2020 - 15:35

Daniel Duque e Rui Castro falam sobre alguns dos DJs, músicos e produtores portugueses que queremos acompanhar com especial atenção em 2020.

Luís Fernandes
Este é, possivelmente, o nome mais experiente a surgir nesta lista. Afinal, “foi ele que fez de Braga a capital da eletrónica”, referiu o Observador no final de 2018, através do trabalho enquanto diretor artístico do gnration e do festival Semibreve, do qual é também fundador. Com um vasto e rico currículo académico e profissional – leia-se também projetos como Braga Media Arts e respetivo index, entre outros – Luís Fernandes não fica por aí. Na música, esteve envolvido em bandas como os peixe:avião e, há cerca de dois anos, editou, ao lado de Joana Gama, “At The Still Point Of The Turning World”, pela Room040. Já em julho do ano passado, foi através dessa editora australiana que Fernandes lançou o primeiro álbum a solo, “Demora”, no qual revela aquilo que é capaz de fazer com um sintetizador modular e o imaginário. Sucede-se o igualmente brilhante “Seis Peças Sintetizadas”, pela portuguesa Holuzam, o que nos leva a querer mais e mais deste tão singular nome. E se não trouxer nova música este ano, pelo menos vai trazer uma brilhante 10ª edição de Semibreve.

Makhno
No início deste ano selecionámos as Dark Sessions como um dos agitadores culturais que mais influência teve na cena eletrónica nacional em 2019. O seu caráter exploratório e a ousadia em arriscar em nomes menos conhecidos do público português foram motivos suficientes para figurarem na nossa seleção, e a aposta em nomes como Makhno foi fulcral para esta escolha. O jovem bracarense, que começou por ajudar na logística das festas, deu os primeiros passos como DJ ao abrir a pista de dança destas sessões, num slot normalmente dedicado aos “open decks”. Rapidamente o seu ecletismo musical e seleção o distinguiu, o que o levou já a assumir lugares de destaque na última Dark Sessions de 2019, e na noite em nome próprio que estes tiveram no Gare. Mas o que nos fez realmente despertar o interesse neste talento foi a sua atuação para a Alínea A, em janeiro. A capacidade que demonstrou em esgueirar-se por entre breakbeat, electro, sonoridades rave de influência do UK bass e até juke/footwork tem levado a um buzz na comunidade eletrónica e deixou-nos boquiabertos – espreitem, vale mesmo a pena.

Misfit Trauma Queen
Admitimos que já estávamos a preparar esta lista quando Misfit Trauma Queen lançou “Violent Blue”, o primeiro álbum deste projeto, editado pela lisboeta Regulator Records. Imagine-se, portanto, o quanto nos tocou o longa-duração de estreia de David Taylor. Natural da Figueira da Foz, onde irá atuar no festival WoodRock, em julho, o baterista deu “os primeiros passos em produção” no final de 2017, mesma altura em que começa a dar vida a este alias. Inspirado por David Lynch, e tantas outras influências, Taylor, no referido álbum e no EP “External”, funde diferentes sonoridades, como é caso de electro, EBM ou techno, através das batidas (de bateria acústica, inclusivamente) e de inúmeros outros detalhes. Misfit Trauma Queen cria, assim, música altamente excêntrica no panorama atual português – e nós, deste lado, vamos certamente manter o figueirense debaixo de olho.

Molecular
Um dos nomes em maior destaque no panorama recente da produção de drum’n’bass nacional é o jovem de 22 anos Molecular. Apesar da sua tenra idade, este conta já com um reportório extenso e 2019 foi o culminar de uma evolução gradual e consistente, com a edição de três EPs em nome próprio, em editoras tão relevantes quanto a Skankandbass, Counterpoint e Fokuz Recordings. Fã confesso do som analógico e de um drum’n’bass maduro assente em influências da velha guarda, Rafael Pinto converge deep, techy e rollers numa multiplicidade rítmica reveladora de um produtor que não se influencia por tendências do género, traçando um caminho muito próprio e distinto. O futuro é risonho para esta ex-promessa transformada em certeza, por mérito próprio.

Odete
Em março, é lançado um novo trabalho de Odete, “Water Bender”, pela londrina New Scenery, mas já há muito tempo que a DJ e produtora tem chamado a atenção do panorama nacional e internacional. Um importante nome da cena LGBT – e não só, claro – Odete fez as nossas pupilas dilatar por completo no final de 2018, quando lançou o EP “Matrafona”, pela naivety, entretanto sucedido por “Amarração”, pela Rotten \ Fresh. Tanto na cabine como nas produções, a sua peculiaridade reconforta-nos enquanto ouvintes, ela que inclusivamente já remisturou nomes como Linn da Quebrada e Deaf Kids. Com um “percurso que começou nas artes performativas, depois de ter feito um curso de teatro”, Odete é, hoje, um daqueles nomes portugueses que iremos manter para sempre debaixo de olho, pelo menos enquanto continuar a sua atividade na música.

Qwëzall
João Monteiro não começou a tocar nem a produzir ontem, mas foi bem recentemente, em agosto do ano passado, que lançou o seu EP de estreia, “Obstinado”, que, por si só, faz prever um futuro interessante para o lisboeta. O DJ e produtor já passou pelo radar da promotora Disturb, que o tem convidado para muitos dos seus eventos, e nos últimos tempos tem chamado a atenção pelo trabalho que tem desenvolvido com o coletivo e editora KRAD, pela qual lançou duas faixas nas mais recentes compilações “Statement 1.0” e “Archives 1.0”. Em poucas palavras, é bem possível que Qwëzall persista em cimentar, a cada passo, o seu lugar no panorama techno português.

Rephate
Também da prolífica cena bracarense vem um dos jovens mais promissores do techno nacional. Associado a uma sonoridade mais pesada, obscura e industrial, o estatuto de Rephate tem subido a olhos vistos no passado recente. Embora o público nacional não esteja tão receptivo às vertentes que explora, o seu trabalho tem despoletado interesse além-fronteiras, tendo já atuado em clubes tão conceituados quanto o Griessmuhele, em Berlim, o Corsica Studios, em Londres, ou o Rote Sonne Club, em Munique. Com uma quantidade bastante substancial de lançamentos em 2019, muitos dos quais na sua editora Blacklapse Records, o DJ e produtor Luís Sepúlveda não revela sinais de abrandamento, o que nos faz antever um 2020 proveitoso.

Unnaturalism
2Jack4U e Roundhouse Kick são dois exemplos de projetos portugueses live, nos quais se explora, ao mais alto nível, eletrónica através de maquinaria analógica. Em 2019, uma nova dupla destacou-se, concretamente os Unnaturalism, duo composto por Peix (João Peixinho) e Töria (Karine Vitória), músicos residentes em Portimão. No final do ano passado, lançaram o primeiro EP, “Disintegration Of Ether Bodies”, pela Insane Industry, e participaram em duas compilações – “Romanticismo IV” e “Tears for Fears Vol. 2” – trabalhos que revelam o techno duro, cru, acelerado e industrial desta dupla. Peix e Töria já levaram o seu setup até eventos como uma Dark Sessions e um Viciouscast – e essa é uma viagem, com partida no Algarve, que queremos ver replicada nas restantes cidades do país.

Valody
Em 2019, Valody tomou a eletrónica nacional de assalto e, desde então, não tem mais parado. A ambição que demonstra em contribuir não só para a sua comunidade local de Viseu, como para a cena eletrónica nacional como um todo, valeu-lhe o reconhecimento da comunidade, à qual se vai revelando cada vez mais. A conotação ao techno é inevitável, mas deambula entre as extremidades sónicas do género, podendo ir da vertente mais crua e industrial à mais emotiva. Como produtora tem editado maioritariamente em compilações de vários artistas, mas conta já com um trabalho em nome próprio – “Defocus Right” – lançado pela Alienação em dezembro passado. Para além do trabalho como produtora e DJ – que já lhe valeu convites para a cabine do Lux Fragil, Ministerium e Industria Club – Vanessa Sousa é ainda uma das responsáveis pela série de eventos Grave – que é também um programa na Rádio Quântica – que tem por objetivo convidar artistas locais e/ou emergentes a exibirem o seu trabalho ao vivo. Este objetivo de exploração do talento nacional está ainda patente na sua editora ELBEREC, cujo primeiro trabalho, lançado a 9 de janeiro, conta com a participação exclusiva de artistas nacionais.

Vowel
Vowel não é propriamente um novato nestas andanças. O seu primeiro trabalho, um duplo single pela inglesa Lifestyle Music, foi lançado em 2017, mas 2019 marcou o seu ano mais prolífero no que a produção diz respeito. Participou no primeiro lançamento da editora portuense Surveillance Music – com a faixa Borderline, que estreou no prestigiado programa de rádio dos Noisia – editou novo duplo single em nome próprio também nesta editora, e ainda contou com remixes de Mean Teeth e colaborações com Mason, Volatile Cycle, Creatures e Objectiv. Esta evolução na quantidade e qualidade faz-nos antever um 2020 pleno na exploração do neurofunk minimal, funky e direcionado à pista, que caracteriza o lisboeta residente em Bristol. No entanto, a escolha de Vowel não se resume à sua entidade como DJ e produtor. Este é também uma das mentes por trás da Konnect, promotora cujo trabalho também disparou no ano transato, e que com pouco mais de um ano já foi responsável por trazer artistas como Signal, Alix Perez ou Skeptical e ainda por produzir um festival dedicado ao drum’n’bass, Konnections, em parceria com outras promotoras nacionais (Backyard, Kalimodjo e Surveillance).



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