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Entrevista

EVAYA: em busca duma intenção

12 Dezembro, 2020 - 12:19

Estivemos à conversa com EVAYA, cantora, produtora e compositora que, no seu EP de estreia, nos leva de mão dada por um canto de sereia que funde pop e eletrónica experimental numa abordagem intimista.

EVAYA cria música feita de tudo o que já ouviu na vida. Apesar de não ter dúvidas acerca da sua mensagem ou da sua vontade de cantar, vê no seu percurso musical um processo de constante descoberta e evolução. A criação, para a jovem artista, é o descortinar de uma intenção que se torna mais clara com o passar do tempo. É precisamente daí que vem o nome do seu primeiro EP, e é também por isso que acha a pressa inimiga da perfeição. Assume-se, de resto, como alguém que precisa “de estar muito tempo sem fazer nada” para não forçar o processo criativo. Do canto nas festas da freguesia às aulas de piano, passando pela quase conclusão duma licenciatura de Belas-Artes em escultura, foi um caminho disperso que levou Beatriz a estudar produção, mas foi talvez esta dispersão que faz da sua obra aquilo que ela é: uma fusão pensada, demorada e sem medo dos desafios do percurso experimental.

Para saber mais acerca da história de EVAYA e, claro, da pessoa por detrás do projeto, falámos com Beatriz Bronze no âmbito do seu EP de estreia, “INTENÇÃO”, um dos nossos lançamentos favoritos de outubro.

Como foram os primeiros passos no teu percurso musical?
Comecei a cantar aos seis anos porque sabia que gostava. Cantava em festas da freguesia, em Palmela. Aos 16 fui estudar piano durante três anos, também em Palmela, mas acho que já era demasiado crescida para aquilo, então desisti quando entrei para a faculdade (já vivia em Lisboa) porque não gostava de estudar piano. Eu já sabia que a música tinha um lugar importante na minha vida mas não conseguia continuar as coisas. Também tive aulas de guitarra, quando era mais nova, e também desisti… lá está, sabia que havia um lugar para a música mas não sabia ou de que forma encontrá-lo.

Então, ainda aos 18 anos, desisti do conservatório, desisti de tudo, parei de cantar… enfim, tudo. Estava a estudar design, entretanto entrei nas Belas Artes em escultura, e não sei, mas aos 22 anos, a minha vida não fazia sentido nenhum. Não é que faça agora, mas não estava a gostar de nada do que estava a fazer. Estava como que num buraco, não via propósito nas coisas. E pensei “epá, eu gosto mesmo de cantar”. Achava que não tinha voz para cantar, mas também foi naquela altura em que comecei a sair mais à noite, a ouvir algumas coisas e a perceber o papel do produtor musical, e foi assim que percebi que se calhar havia lugar para a minha voz, e que se calhar eu podia criar esse lugar. E foi assim que decidi estudar produção musical, sendo que comecei o curso ainda nas Belas Artes. Faltava pouco para acabar a licenciatura, mas passados uns três meses a estudar produção musical decidi sair das Belas Artes, porque sabia que podia não “saber” nada daquilo mas sabia que gostava mesmo de produzir.

É muito recente, isto da produção. Devo ter começado há cerca de dois anos, em 2018, que foi quando produzi a minha primeira canção. Não sei porque é que nunca tinha pensado em compor antes, sinceramente.

Já tinhas experimentado produzir antes de começares esses estudos?
Não, nunca. Acho que o que aconteceu foi mesmo um olhar para dentro de mim e perceber “ok, eu vou produzir, vou fazer música”. Foi uma reflexão que trouxe vários assuntos ao de cima, e eu não estava a olhar para eles antes porque andava a viver um bocado desligada de mim mesma. E foram esses assuntos, essa pesquisa sobre mim e sobra dinâmica das minhas emoções foi o que me deu conteúdo para escrever. Esse processo, que se iniciou aí, fechou agora uma primeira parte com este EP. Eu produzi estas canções agora mesmo há pouco tempo, durante a quarentena, mas eu sinto que essa pesquisa, esses assuntos e essa dinâmica emocional acabou por culminar neste EP, e é por isso que se chama “INTENÇÃO”, porque sou eu a desvendar realmente a minha intenção por detrás de cada palavra, de cada ação, o que estou a fazer com a minha vida… enfim, a desmistificar a minha vida.

É uma pesquisa de identidade?
Sim, é uma pesquisa de identidade, exatamente, é isso.

Notam-se algumas influências taoistas ao longo do EP. É propositado?
É assim, eu não vou falar muito por achar que não tenho conhecimento para falar, mas todo o processo coincidiu com uma altura em que comecei a meditar, daí achar que é normal.

A meditação consegue ser um processo muito pessoal. Mas, pelo que percebi, já não estás sozinha na tua jornada. Fala-nos um pouco de como encontraste as pessoas com quem tocas agora.
Foi no final do verão, eu já tinha o EP praticamente fechado, e conheci o João, que também tem um projeto, o “Polivalente“. Ele é muito amigo do Gadutra, que eu também já conhecia por já me ter feito uma tatuagem, mas só o fiquei a conhecer melhor através do João. Houve um dia onde estávamos a sair à noite, e eu reparei que o Gadutra tinha ficado muito entusiasmado com a “doce linguagem“, e como já estava assim mais desinibida perguntei-lhe se ele queria produzir a intro do EP. Ele disse logo “Sim!” e passados uns dias convidei-os para tocarem comigo. Eu sempre quis ter gente comigo em palco a tocar, prefiro estar só a cantar. Porque sinto que não sei tocar nenhum instrumento! Eu quando estou em casa a produzir, sinto sempre que o que faço é assim muito à base de colagens, vou fazendo umas linhas no sintetizador e depois gravo outras coisas, é assim muito aleatório. Quando estava a mudar de casa, estavam a acontecer muitas coisas, havia homens em casa com berbequins e assim… e eu gravava essas coisas, e elas estão como texturas no EP. Apesar de a melodia normalmente já estar na minha cabeça [antes do processo de produção], eu vou à procura das notas e vou construindo por camadas, com o sintetizador. É tudo feito em casa, com o Korg e com gravações de sons. Também pedi ao João para meter uma guitarra na “Dreams” e… é isso, eles apareceram bem no final, começámos a ensaiar agora há pouco tempo. Tivemos a nossa primeira experiência “a sério” agora, aqui em Braga.

Correu bem?
Correu bem! Foi engraçado, mesmo com poucas horas de sono. Ontem tentámos ensaiar no quarto, porque trouxemos um monitor, e estava tudo a soar mesmo mal. Nós não ensaiámos desde terça, e como estamos a fazer isto há pouco tempo, há sempre aqueles nervos. O João não, ele dizia sempre “nós sabemos isto, acho que é ridículo querermos ensaiar”, mas eu sou super paranóica e quero sempre ensaiar, e então trouxemos os monitores. O Gadutra tinha tatuagens marcadas no Porto, e então não pôde ficar connosco até ao final da semana em Lisboa. De maneira que tentamos ensaiar ontem, e eu não sei o que é que se passava naquele quarto (estava embruxado, de certeza), porque os instrumentos estavam todos distorcidos! Nós já pensávamos que tínhamos deixado cair os sintetizadores, ou que se estava a passar alguma coisa de errado… tudo mal, tudo mal! O pedal de guitarra que eu uso para a minha voz estragou-se ali, não sei porquê. E nós, que pensávamos que era uma coisa temporária, ficámos muito surpreendidos quando hoje vimos que continuava sem funcionar! [risos] Portanto, trouxemos imensa coisa para nada, mas o ensaio final correu bem!

Tens intenções de tocar ao vivo?
Sim. Há coisas planeadas, como o concerto em Castelo Branco para o Festival Termómetro, por exemplo [O Festival Termómetro foi cancelado devido à situação pandémica do país]. O meu medo é apanhar COVID, ou algum deles apanhar, porque aí já não podemos fazer as atuações! Mas por exemplo, eu em março do ano passado tinha coisas marcadas e até fiquei aliviada quando elas foram adiadas. E, por um lado, ainda bem que me foi dado este tempo: surgiu o EP e, com ele, um certo amadurecimento. Também foi por essa altura que dei os primeiros passos com um sintetizador, e isso ajudou a ultrapassar um sentimento que tinha ao usar só um MIDI de que as sonoridades eram todas super quadradas.

Tens pontos de referência a nível de sonoridade, artistas com quem te identifiques, por exemplo?
Eu estou sempre a mudar de opinião, portanto tento não citar ninguém em particular para não ficar demasiado colada a um determinado estilo. Mas, no fundo, as minhas referências são as pessoas que vou conhecendo. Estive no SEMIBREVE em 2019, por exemplo, e conheci pessoas que me mostraram sons que acho que me deram algumas luzes para aquilo que construí. E acho que ainda vou explorar mais isso, para fundir ao máximo a melodia pop com uma base experimental eletrónica.

É uma mistura, no mínimo, aventurosa. Como é que descobriste que era aí que estava a tua identidade artística?
Acho que foi porque a componente experimental eletrónica me levava para um estado muito meditativo, mas como continuo a gostar de cantar pop, juntei as duas coisas. Tudo é possível! [risos]

Sabes de onde vêm esses estados mentais tão presentes neste último EP?
Eu acho que ponho um campo energético na mensagem que se reflete no instrumental. Mas a origem está sempre na mensagem, na letra, e na melodia que ela carrega. Por acaso há uma música só instrumental, a última, porque eu realmente comecei a gostar muito de ficar naquele registo. Sou capaz de fazer umas quantas desse género, porque assim posso ficar só ali com o sintetizador, quase a pairar…

A nível de música, o que é que ouvias no início do teu percurso musical? E o que é que ouves ainda hoje?
Gosto de ouvir coisas mais numa onda pop, como Grimes ou FKA Twigs. Até porque eu comecei a produzir para cantar, mas o que eu ouvia na altura era mais nesse registo. Depois é que comecei a conhecer pessoas que me mostraram realmente outras coisas, como Caterina Barbieri, por exemplo.

Sentes que o estado atual das coisas afetou a tua produção artística neste último EP?
O tempo extra foi um fator relevante, claro, mas a pandemia em si nem por isso. Porque eu sinto que, para criar, preciso de estar muito tempo sem fazer nada. Quero que o processo criativo venha a mim, sem ter de o forçar. Quando vou fazer uma música, acontece! E, normalmente, quando tenho esse impulso é porque estive muito tempo sem fazer nada. De resto, foi engraçado o processo de estar a mudar de casa em Lisboa, depois de ter estado a estagiar em Berlim em Fevereiro num estúdio. Depois com a pandemia, eu voltei para casa porque não estava a gostar muito do estágio. Mas Berlim era fixe, o estágio é que não! Portanto, voltei para Portugal, para casa da minha mãe, e ainda estive algum tempo com a minha mãe e com o meu irmão no campo, no meio do nada, até porque estávamos à espera do meu pai, que trabalha em Angola e teve dificuldades em regressar, com a pandemia e tudo mais. Foi nessa altura que comecei a gravar sons como o dos pássaros, alguns cães e afins, e começou aí! E apesar de não gostar muito de algumas das coisas que tinha feito antes, achei que estava finalmente a encontrar a minha voz. Depois, de volta a Lisboa, produzi algumas faixas e falei com pessoas porque não tinha dinheiro nenhum para pagar masters nem misturas, e um amigo meu que estava a estudar comigo fez a mistura e um professor meu fez a masterização. Agora arranjei um trabalho em part-time, precisamente para ter dinheiro para estas coisas, mas detesto aquilo. Detesto trabalhar.

Sentes que este teu EP se enquadra nalgum tipo de seguimento lógico ou temático?
Sim, eu queria fazer! De resto, tenho já algumas coisas gravadas, algumas letras, coisas assim mais soltas, e queria lançar outro EP que servisse de continuação a este, precisamente por sentir que o que comecei aqui não está terminado. Agora que toco com outras pessoas também sinto que tenho outras ferramentas, como a GrooveBox. Isso, o conhecimento musical mais formal do João, e a dinâmica toda que o grupo traz permite-me fazer coisas que se calhar já teria optado por fazer se a tivesse encontrado mais cedo. Então, não querendo criar expectativas, a minha intenção é abrir os caminhos pelos quais já estou a enveredar, com mais instrumentos, por exemplo, mas mantendo sempre a faceta mais calma e meditativa.

Achas que o experimentalismo te dá mais liberdade? Sentes dificuldade em gerir a indefinição que muitas vezes vem com ele?
No início senti que fosse ser uma dificuldade, mas agora encontrei um gosto especial nessa liberdade que ganho ao não saber certas coisas. Aprendi a gostar das dissonâncias que muitas vezes surgem quando não estamos a seguir uma fórmula, por exemplo. E isso, muitas vezes, permitia-me explorar essas dissonâncias a nível sonoro e ter resultados interessantes. E, como último recurso, tenho sempre o João, que tem alguma formação musical e que está sempre lá se eu tiver dúvidas. Mas, no fundo, eu quero sempre continuar assim, a escrever as minhas músicas, criar as bases, porque acho importante encontrar um lugar que seja mesmo meu na música, onde eu possa não seguir regras. De resto, no cantar, sinto que só agora é que estou a perder o medo de experimentar coisas novas, e começo a perceber que se calhar antes cantava mais a partir de vozes que ouvia. E sinto que ainda quero desprender-me ainda mais de influências externas, por muito difícil que seja. Porque cantar é uma coisa tão frágil…

Como foi a gradualidade do teu processo criativo? Tiveste altos e baixos muito acentuados, ou foi um crescimento mais ritmado, mais constante?
Nestes últimos meses fico feliz por poder dizer que senti algum amadurecimento. Porque antigamente, eu num dia achava que tinha feito uma música. Agora, sei dar tempo às coisas. Não consigo assinalar nenhum “pico” propriamente dito, mas acho que isso é porque o meu percurso tem tão pouco tempo que eu não consigo sequer ver padrões ainda! Mas sei que estes meses têm sido bastante reveladores, e quero continuar a perder o medo de experimentar, que é uma coisa que pode ou não acontecer. Acho o respeito pelo tempo uma componente importante do meu trabalho também, ou seja, se eu precisar de não fazer música durante algum tempo para perceber qual vai ser o rumo, eu aceito, não tenho pressa. É muito por isso que o EP ganha fluidez, não forço nenhuma interpretação definida, o meu propósito é mesmo só a partilha. Eu fui crescendo com ele, e descobri, entre várias outras coisas, que quero mesmo escrever mais em português. Claro que existe um conceito e, para mim, é um momento meditativo que tem ordem, que tem temas. E a última música está sem voz precisamente porque eu a vejo como uma reflexão daquilo que foi dito anteriormente, e deixa espaço para cada um processar os seus próprios sentimentos. É um eco das palavras que ficam, no fundo…

Fotografia por David Rodrigues

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