AUTOR

Rui Castro

CATEGORIA
Podcast

N’A CABINE #033: Mix’Elle

2 Abril, 2021 - 15:55

Dois dedos de conversa e drum’n’bass no feminino. O 33 foi Mix’Elle que fez.

Começou em 2003 no techno, mas rapidamente o drum’n’bass se apoderou da bagagem que carregava os seus discos em vinil. Já lá vão quase duas décadas, mas parece que a notoriedade de Michelle S. Borja no meio tem vindo a subir exponencialmente nos últimos tempos.

Paixão e persistência têm-na mantido num movimento por vezes ingrato, e a sua presença como membro ativo da Counterpoint Recordings tem levado a editora/coletivo – e consequentemente a cena nacional – para voos mais altos. Sem fronteiras limitativas, Mix’Elle deambula entre subgéneros, num raio de ação tão amplo que abrange praticamente todo o espectro, de fio a pavio.

Depois de Unchained Asia, Bassdrive, Rewind It ou do convite para a consagrada série de mixes EQ50, chegou agora a nossa vez de sermos bafejados pelo ecletismo que a caracteriza. E fica a certeza: Mix’Elle “continua, e continuará, a lutar pela igualdade de géneros, sobretudo neste meio”.

Para quem não conhece a Mix’Elle, como é que a classificarias?
Antes de mais, muito obrigado pelo convite. Big Up!

Mix’Elle… o que dizer? Basicamente é uma DJ que gosta de criar conexão com o público, através do som, e receber energia positiva, de modo a evoluir e aprimorar as skills. As memórias de infância têm a ver, sobretudo, com a música. Com apenas 5 anos de idade, em casa da minha avó materna, a coleção de discos, composta pelas variadas vertentes musicais, já captava a minha atenção.

A minha mãe chegou a cantar numa banda, e o meu pai, além de cantar, também tocava as suas Mornas na guitarra acústica. Lembro-me de estar sempre ansiosa que os meus tios e primos me levassem às famosas “festas de garagem”, realizadas nos bairros, nos anos 80, onde normalmente havia um DJ que partilhava com a malta as novas sonoridades, em formato vinil. Recordo-me, também, de acompanhar a minha mãe, e seus amigos, à discoteca Kiss, em Albufeira, quando tinha apenas 6 anos. Nesse momento, flashei. Fiquei completamente maravilhada com o clubbing. Já se adivinhava o que ia dar!!! [risos].

No entanto, foi em Bragança (2003), durante o meu capítulo universitário, que dei os primeiros passos por estas andanças. Partilhei casa com dois amigos DJs (King Fu e Alemaozuk), e, incentivada por eles, aprendi a misturar. Com efeito, participei ativamente, durante vários anos, em free parties, clubes underground e bares, geralmente, nas vertentes house e techno. Mais tarde, rendi-me ao DNB. Sempre gostei destas sonoridades, e comecei a sentir-me mais feliz ao mixar beats e baixos. Entretanto, conheci o Tresh (MC), que me convidou para integrar o line up dos seus eventos. Desde então, nunca mais parei. Em boa verdade, a música sempre acompanhou a minha vida, apesar de ter sido, sempre, uma atividade part-time [risos]. Sinceramente, continuo fascinada, e motivada, com a arte do DJing, desde o processo de investigação até à conexão com o público. Enfim, é através da música que partilho, com o mundo, tudo o que vai cá dentro.

Tudo isto se reflete no tipo de DJ que sou… todas estas influências ecléticas com que cresci.

Atendendo a que navegas por entre cabines há quase 20 anos, talvez já possas ser considerada uma veterana. E, embora saibamos da tua polivalência sonora, o drum’n’bass tem sido o teu predileto. Como é que tens visto a progressão do género por cá, desde o teu início nos decks até aos dias de hoje?
Jheeeez… veterana! A avó sente-se velha! [risos]. Ora bem, da minha perspetiva, a golden age da cena DNB em Portugal ocorreu entre 2001 e 2010: Eventos incríveis, com line-ups ao mais alto nível e ambiente fantástico, que conseguiram atrair pessoas de diversos quadrantes musicais (tal como me aconteceu a mim), de várias faixas etárias e sociais. As crews estavam bem organizadas e, aparentemente, caminhavam no sentido certo: a música era o centro das atenções e motivações, contribuindo para a criação, e solidificação, da dnb scene tuga, sobretudo na Invicta, incontornável na agenda dos mais consagrados artistas internacionais. Lamentavelmente, na fase subsequente, o cenário descambou. Porquê? De facto, não sei. Talvez a ganância e os egos dos promotores, assim como a escassez de espaços recetivos à realização contínua dos eventos de música alternativa, os ambientes demasiado agressivos, a aposta na quantidade em detrimento da qualidade, a mutação da realidade socioeconómica… who knows.

Felizmente, desde 2015, as coisas parecem estar a encarreirar. O facto de algumas crews pioneiras terem conseguido perdurar, até aos dias de hoje, bem como a emergência de novas coletividades, determinadas a redirecionar o movimento para a sua essência, foram preponderantes. De assinalar, também, o maior número de excelentes DJs e produtores nacionais, que continuam a elevar a fasquia ao nível internacional, inclusive. Acho que caminhamos no bom caminho. Obrigado, Universo! No entanto, impera que a pandemia seja dissipada, de modo a podermos trabalhar ao vivo, novamente.

Sabemos que, nos dias de hoje, falar de um futuro, sobretudo na música eletrónica, é quase uma utopia. Mas como achas que vai ressurgir o drum’n’bass quando as pistas reabrirem?
Espero que bem. Realmente, parece uma utopia, mas continuo a ter fé que as pistas de dança reabram no fim do verão. Pelo menos, eu e a minha família musical, Counterpoint, continuamos a trabalhar, com todo o empenho e amor, para que, assim que regressarmos ao ativo, possamos proporcionar a melhor qualidade, como temos vindo a fazer, quer através de releases, quer no âmbito de eventos. Fingers crossed!!! Vamos ver como o bicho evolui.

Embora o assunto da igualdade de género já tivesse estado mais em voga no panorama internacional da eletrónica, a verdade é que este é um tema com opiniões divergentes. Também é um facto de que não há muitas mulheres a explorar esta vertente sónica do drum’n’bass cá em Portugal. A que achas que isso se deve?
Do meu conhecimento, há mais duas cá neste momento. Já houve mais dentro do género, mas, daquilo que ouvi, ou mudaram de país, ou renderam-se a outros géneros musicais, ou à maternidade… Por isso, como podes imaginar, sinto-me um bocadinho solitária.

Sinceramente não censuro, porque o caminho não é nada fácil. Sobretudo, sendo mulher, e, mais ainda, tendo outro tom de pele. Ponderei desistir algumas vezes. Chega a ser pesado. Uma delas, poucos meses antes do lockdown, fui sozinha, de carro, tocar a um gig, em cascos de rolha, debaixo de uma tempestade alerta vermelho. Ia morrendo! Pensei: “já não tenho idade para esta vida”! [risos]. Tenho várias histórias que me fizeram ponderar… umas mais engraçadas, outras menos; umas mais graves, outras nem por isso. Posso dizer que já senti medo de sair de um clube depois de um gig, devido ao ambiente agressivo, por exemplo; já sofri inúmeros tipos de assédio; a prevalência da imagem em detrimento do som, e a generalização (que teima em perdurar por cá), de que se tenho descendência africana, tenho que passar kuduro [risos]… Depois, também, há poucas promotoras de eventos a integrarem mulheres nos seus line-ups. Enfim! Milhentas razões que contribuíram para pensar em desistir. Consegui ser mais forte, amo o que faço e não consigo imaginar a minha vida de outra forma.

É por isto, e muito mais, que não censuro a falta de mulheres no panorama DNB português.

Felizmente, I am a blessed and lucky girl. As pessoas que me rodeiam estiveram presentes quando precisei. A Counterpoint teve um papel fundamental, integrando-me no projeto, assim como alguns artistas internacionais, que valorizam e difundem o meu trabalho. Tudo isto me tem dado força para continuar.

Continuo, e continuarei, a lutar pela igualdade de géneros, sobretudo, neste meio. Congratulo-me com os evidentes progressos neste domínio, no entanto, muito continua por fazer, nomeadamente, no âmbito da inclusão das mulheres no panorama nacional. Neste momento, estou a desenvolver um projeto de formação para mulheres, linkado à empresa que fundei juntamente com o Tresh (MC): Interesting Constellation (iC). Mas, sobre isso, mais novidades no futuro próximo.

Na tua opinião, qual a melhor forma de atrair o público feminino para as festas e o movimento da bass music?
Talvez investir na diversidade dos line ups, isto é, abrangendo mais subgéneros. Já fui abordada, no final dos sets, com expressões do tipo: “não conhecia este tipo de DNB”. Mas, afinal, até gostavam. Acho que a aposta em mais mulheres na cabine também poderá ser assertiva. Valorizar a qualidade do trabalho de artistas femininas, ao invés do enfoque na imagem, como sucede frequentemente. Leva-las a sério e de modo profissional. Dar-lhes crédito. Criar condições para que as mulheres se sintam seguras nos eventos, etc…

No meio de tanta amplitude musical, terás certamente influências de todos os tipos e feitios. Mas se tivesses de eleger um top 3 de “all time favourites”, qual seria?
Esquece…! É completamente impossível para mim apenas escolher três. Gosto de muita “coisa”, de quase todos os géneros e épocas [risos]. Não obstante, posso partilhar alguns álbuns de referência, e que, seguramente, integram a minha vasta lista de favoritos. Assim, de repente, por exemplo : St.Germain – Tourist; Kendrick Lamar – To Pimp a Butterfly; Calibre – Even If; qualquer coisa do Tom Jobim ou do Vinicius; Seu Jorge; Carlos do Carmo; António Variações; Dino d’Santiago, Sara Tavares ou Bana; Easy Star All Star; Erykah Badu; Nitin Sawhney; LTJ (Progressive Sessions, p.ex.); Roni Size; Shpongle; Radiohead… provavelmente, seria necessário mais do que um dia só para enunciar os meus favoritos! [risos]

O que podemos esperar da Mix’Elle no futuro?
Já há alguns anos que não tenho feito grandes planos para o futuro. É irónico que, precisamente no ano em que decidi focar-me, de corpo e alma, na música e nos eventos, o mundo se tenha virado ao contrário. Apesar de tudo, não me posso queixar. Claro que tenho os meus sonhos e desejos, mas tento viver um dia de cada vez…o melhor possível. Gostava muito de concretizar as datas no estrangeiro, que ficaram em standby por causa do Covid, e, se as coisas melhorarem, irei, com certeza, apostar numa tour internacional. Afinal, nunca tive essa oportunidade. Estou, também, a investir na produção musical… vamos ver como corre. Eheheh. De resto, continuarei a colaborar com a iC e com a Counterpoint, fazendo o melhor possível, como tento fazer em tudo na vida. Espero, em breve, regressar aos dancefloors e poder dançar com todos. Até já, keep safe 😊

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