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Reportagem

“Textures & Lines”: o concerto que cruzou fronteiras e emoções no Theatro Circo

27 Abril, 2021 - 20:42

O trio de percussão Drumming GP e a dupla de piano e eletrónica de Joana Gama e Luís Fernandes voltaram ao palco, desta vez no Theatro Circo, para apresentar “Textures & Lines”.

Antes de retratar o que se passou a 21 de abril no Theatro Circo, quando o quinteto experimental tomou conta de um compreensivo arsenal de percussão, eletrónica e das teclas, cordas e martelos de um portentoso piano de cauda, há detalhes prévios importantes a mencionar.

O primeiro é que, apesar de só ter sido lançado pela Holuzam a 20 de março, o trabalho que começou com um convite do trio percussivo experimental Drumming GP ao duo que une o piano de Joana Gama à eletrónica de Luís Fernandes para trabalho colaborativo já tinha feito aparições em 2019, em palcos no Porto e em Viseu.

Importa também referir que esta performance surge, temporalmente, num importante ponto de viragem para o cenário da cultura, da música e dos espetáculos em Portugal, dias depois de ser permitida a reabertura de muitos espaços de divulgação cultural, como o próprio Theatro Circo.

Finalmente, e para não maçar demasiado quem estiver a ler, deixo-vos com uma pequena metáfora culinária para melhor entenderem as palavras que se seguem – assistir a “Textures & Lines”, enquanto performance, depois de meses sem acesso a um espetáculo soube a um daqueles pratos especiais que só um familiar distante sabe fazer, e que por isso só comemos de longe a longe. Mas “Textures & Lines” não é de comer. É de ouvir, mergulhar e (literalmente, no meu caso, que ouvi um piano acústico ao vivo pela primeira vez em pouco mais de um ano) chorar por mais.

Tudo começa com um ligeiro chocalhar, que lembra uma correia de bicicleta, enquanto surgem no fundo do palco os primeiros visuais de Pedro Maia, que muitos já conhecem pelas inúmeras vezes que já demonstrou, a solo ou acompanhado, o seu conceito de “live cinema“. Minutos depois, as percussões desdobram-se, pontuadas pela eletrónica dos sintetizadores de Luís Fernandes e por vestígios de cordas de um piano que não passam despercebidos. As texturas entrelaçam-se até se dissolverem num contínuo de ambient que vai recordando aos poucos uma meditação com taças tibetanas. O coro de vozes eletroacústicas multiplica-se, e as notas soltas de piano caem como gotas de orvalho num solo percutivo eletroacústico. Perto do fim, a eletrónica de Luís Fernandes ressoa em pequenas linhas vibratórias.

É hora. As linhas vibratórias viram pontos telegrâmicos rápidos, o marfim das notas soltas do piano dá lugar a dedilhares bem-temperados, e o trio de percussão começa a dar uso ao enorme xilofone que ocupa o centro do palco. Reina a polirritmia e uma multitude de espasmos sónicos extremamente bem-orquestrados. Mas é um reinado curto, de apenas alguns minutos, que não tarda a dar lugar a ecos tenebrosos e a chocalhos e arranhões graves e dissonantes, belos e arrepiantes. É um vento que sopra, mas não é o vento que se sabe. Também a tempestade acaba de repente, numa sequência de notas de piano que se vão afirmando progressivamente através da repetição.

É um momento particularmente bonito para quem está familiarizado com um dos grandes momentos do percurso performativo de Joana Gama, porque apesar da repetição durar apenas uns minutos, lembra aquela vez onde Joana Gama tocou as “Vexations”, de Erik Satie, durante 14h seguidas (cerca de metade da peça completa) na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. A sequência vai-se prolongando, acompanhada de auras eletrónicas e de percussões que a pontuam, até se dissolver mais uma vez na percussão onde tudo começou e numa nuvem etérea de eletrónica.

Flutuemos. Chega o momento onde as entranhas do majestoso piano que se encosta discretamente à esquerda do palco, até agora tocado a solo, são exploradas no seu pleno potencial. Ouvem-se ziguezagues de eletrónica, arrastos de arcos para cordas em superfícies pouco convencionais, e o piano logo volta ao seu estado goticular natural. Surgem prantos de vozes que não são vozes, o piano agiganta-se lentamente e a neblina eletrónica vai ficando mais espessa. Aparece, pelo meio da algazarra eletroacústica, outra sequência que se afirma através da repetição, e que se torna mais pesada até bater na oitava mais grave.

Adensa-se o nevoeiro. Por volta desta altura, embora não me recorde exatamente quando, também este se torna literal: o palco é invadido por uma nuvem colossal de vapor cerrado com um cheiro agradável, ofuscando o quintento da plateia. Parece que chove, e que o vento-que-não-é-vento (e que só sopra aqui) passa por entre as gotas do piano, percussões e texturas eletrónicas, agora mais brandas, como uma flauta. Arrasta-se um zunido final, ouvem-se gongos toralescos, e um tac-tac-tac cada vez mais leve.

O aplauso foi interminável. “Sensacional, pá!”, ouvi atrás de mim. Descobri também (da pior maneira, sozinho em pé na plateia durante uns bons 20 segundos antes de olhar à minha volta e perceber que, para além do quinteto, era o único, e me voltar a sentar) que as ovações em pé devem ter caído em desuso enquanto estive fora das salas de espetáculo. Chorei, esperei ordeiramente pela minha vez de sair, visto que as saídas são graduais, e a espera pareceu-me durar mais tempo que o próprio concerto.

Encontrei amigos lá fora, mas rápido me despedi deles – ainda em estado de choque, não conseguia dizer-lhes grande coisa além de um sorriso parvo e lágrimas nos olhos. Olhei para a mota, e logo decidi que ainda não estava em condições de conduzir. Fui caminhar pelas ruas de Braga para digerir aquele longo hino à liberdade musical.

No dia 21 de abril, o Theatro Circo fez 106 anos. E, mesmo de máscara e com distanciamento, vale a pena celebrá-los assim.

Direitos de imagem reservados (fotografia retirada da página de Facebook do Theatro Circo)

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